Nova Friburgo: O Processo de Urbanização da 'Suíça Brasileira' — 1890-1930
Conteudo do documento
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NOVA FRIBURGO: O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO DA
'SUÍÇA BRASILEIRA' - 1890-1930
por
JO Ã O RAIMUNDO DE ARA UJO
Dissertação apresentada ao curso de
pós-graduação em História da Universidade
Federal Fluminense visando a obtenção
do título de mestre em História Social
Orientadora Dr! Ismênia de Lima Martins
Instituto de Ciências Humanas e Filosofia
Centro de Estudos Gerais
Universidade Federal Fluminense
Niterói, 1992
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besumq
0 presente trabalho busca analisar historicamente, o processo de urbanização da
cidade de Nova Friburgo, no período de 1890 a 1930. Ao longo deste processo verificou-
se a configuração de um espaço urbano com características típicas de uma cidade
capitalista.
No decorrer do período estudado foi possível perceber a construção de um
modelo de cidade industrial e turística; contribuindo para tal construção, a implantação da
ferrovia inidalmente; e a partir de 1911, as empresas industriais de ^ alemães
associadas a setores das elites locais, forja-se nesse momento, um discurso assumido, por
políticos da cidade, em defesa da modernidade, entendida como resultado do processo
industrial, e em defesa de um tipo de cidade hospitaleira, fornecedora de serviços
variados. É o instante de invenção de “NOVA FRIBURGO: A SUICA BRASILEIRA* .
Por se trabrfla criação de um espaço urbano capitalista, pode-se ainda verificar a
existência de uma divisão da população em dasses sociais diferenciadas, ocupando
determinados espaços urbanos, de acordo com aquela segmentação sodal.
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RESUMÉ
Le travail juivant cherche à analyser historiquement te processus d'urbarásation
de la vüle de Nova Friburgo dam le période de 1890 a 1930. Tout au long de ce
processus, on avérifié la corifiguration d'un espace urbam ayant des caractéristiques
typiques d‘ une vílle capitabste.
Au cours de cette période étudiée, il a été possible de percevoir la construction
d'un modèle de vílle iudustnelle et tounstique: contribuant à cette construction,
1'implantation du chemin du fer au début et à partir de 1911, les entreprises industnelles
de allemands associéas aux secter des elites locales. A ce moment-la, on forge
un discours repns par des politiaens de la vílle au nom de la modemité, vue comme
résultat du processus industriei et au nom d'une vílle dite "hospitalière" qui fornit des
Services vanés. C'est le moment de 1'invention de NOVA FRIBURGO: LA SUISSE
BRÉSILIENNE.
S'agissant de la création d'un espace urbain capitaliste, on peut vérifiear encore
Veastence d'une division de la populatiori en classe sociales differenciées occupant des
espaces urbains determines selori cette sedmentation sociale.
III
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Ín d ic e
LISTA DE TABELAS -pg.VI
LISTA DE MAPAS e PLANTAS - pg VII
AGRADECIMENTOS -pgV III
INTRODUÇÃO -pg. 1
NOTAS -p g 1 5
CAPÍTULO I - Nova Friburgo. olhar a região, enxergando a cidade - pg 1 7
1- Olhar a região -pg. 1 7
2- ... enxergando a cidade -pg. 30
Notas -pg. 51
CAPÍTULO II-A Nova Friburgo nos primórdios da Velha República -pg. 55
1- Um breve histórico da formação friburguense - pg 55
1.1- O município de N.Friburgo a partir de 1850 - pg. 59
1.2- A W a de N.Friburgo após 1850 - pg 63
2. - N.Friburgo: uma cidade da Velha República -pg. 72
3 - 0 que era N.Friburgo-(1890-1910) -pg. 78
3.1 - N.Friburgo: O Espaço Econômico -pg. 89
3.2 - N.Friburgo: O espaço populacional -pg. 97
3.3 - N.Friburgo: O poder municipal e o código de posturas - 1893 -pg 110
4 - A E.Ferro Leopoldina: Um trem em Nova Friburgo - pg. 118
Notas -pg 132
CAPÍTULO III - Nova Friburgo: A construção do modelo
índustrial/turístico (1910-1930) -pg. H O
1 - O regime Republicano: convivência entre o novo e o velho - pg. H0
1.1 - Rio de Janeiro: As dificuldade do “ Velho Feitor" -pg. H4
1.2 - A Nova Friburgo na Velha República -pg 1 5 1
2 - N.Friburgo: A industrialização após 1910 - pg 176
2.1 - Repensando uma tese recente -p g 176
2.2 - N.Friburgo: A Indústria como questão política - pg. 180
3- Nova Friburgo: Um modelo de cidade turística -pg. 2H
3.1- turismo e hotelaria - pg 223
IV
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3.2 - Colégio anchieta Um exemplo de serviço e educação - pg. 233
Notas -pg. 258
CAPÍTULO IV- NovaFríburgo e apopulaçao:ricosepobres -p g 266
1 - N.Friburgo: O espaço e o homem - pg 268
2 - As elites de NovaFriburgo -p g 278
2.1- A elite agrária: Umaherança Imperial -p g 278
2.2- As elites urbanas: O comércio e aindústria -p g 283
3- N.Friburgo: O Espaço da pobreza -pg. 292
3.1 - N.Friburgo: O trabalhador reage -pg. 301
Notas -p g .316
Considerações Finais - pg. 321
Bibliografia e Fontes -pg. 326
V
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LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - População do Município de N.M mrgo -1851 - p g 58
Tabela 2 - População do Municio de N.Friburgo -1672 - pg 61
Tabela3-Lista dos Presidentes daCMNF -p g 74
Tabela 4 - Espaços públicos em N.Friburgo - pg 88
Tabela 5 - Industriais e Lojas em N.Friburgo - 1898 - pg. 89
Tabela 6 -Tipos de oficinas em N.Friburgo- 1898 - pg. 92
Tabela 7 - lista de Serviços em N.Friburgo - 1898 - pg 94
Tabela 8 - Principais Colégios em N.Friburgo - (setor privado) - 1898 - pg 95
Tabela 9 - Censo Populacional de N.Friburgo - 1890 -pg. 98
Tabela 1 0 - Censo populacional dos municípios do centro-norte fluminense - - pg 99
1900
Tabela 11- Lista de Sócios daS.B H.O. - 1895 -pg 104
Tabela 1 2 - Profissionais Urbanos em N.Friburgo -p g 106
Tabela 13 - Funcionalismo da Câmara Municipal - pg 107
Tabela 14 - Funcionalismo do foro - pg 108
Tabela 15 -Presidentes da CM NF-1913-1916 -pg. 160
Tabela 1 6 - Receita Municipal-1916 -pg. 162
Tabela 17 - Maiores C ontentes - Imposto Territorial -1914 - p g 164
Tabela 18- Interventores Municipais-1916 a 1923 -p g 167
Tabela 19-Prefeitos de NovaFriburgo- 1923-1930 -p g 172
Tabela 2 0 -Diretores da M.Sinjene C ia -1911-1930 -pg 198
Tabela21-N ! de empregados de M.Falck e Cia -p g 199
Tabela 22 - Acionistas da Fabrica Filó S/A- 1925 - pg. 200
Tabela 23 - Hotel Erigert- Hóspedes - 1890-1920 - pg 226
Tabela24 - Profissões dos Hóspedes do Hostel Engert -p g 228
Tabela 25 -Origens dos Hóspedes do Hotel Engert - 1890-1920 - pg. 230
Tabela 26- Procedência dos Alunos do Col Anchieta- 1886-1915 -p g 241
Tabela 2? - Universidades Estrangeiras em Convênio com o Colégio - pg. 243
Anchieta
Tabela 28 - Programa para os alunos matriculados em 1916 no colégio - pg 244
Anchieta
Tabela 29-Censo Religioso da População de N.Friburgo-1918 - pg. 272
Tabela 30 - População do Município de N.Friburgo - 1920 - p g 274
Tabela 31 - Estabelecimentos Comerciais em N.Friburgo -1916 -p g 284
Tabela32- Principais estabelecimentos comerciais-1916 -pg. 28?
V I
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LISTA DE MAPAS e PLANTAS
Figura 1 - Estado do Rio de Janeiro e o município de N.Friburgo - pg. 78
Figura 2 - O município de N.Friburgo - 1890 - pg 62
Figura 3 - Planta da cidade de N.Friburgo - 1820 -p g 83
Figura 4 - Ruas e Praças de N.Friburgo - 1900 -p g 84
Figura 5 - Indústrias Alemãs em N.Friburgo -193? - pg 206
Figura 6 - Bairros de Operários em N.Friburgo -pg. 210
Figura 7 - O município de N.Friburgo e seus distritos - 1930 -p g 269
Figura 8 - Planta da cidade de N.Friburgo - 1920 -pg. 271
Vi l
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AGRADECIMENTOS
Produzir urna dissertação de mestrado significa misturar momentos de angústia, de
grande tensão, de solidão, com momentos de enorme alegria e prazer. Se durante toda a
construção do projeto, durante a longa pesquisa e no momento de elaboração da
dissertação vivemos tempos de solidão e angústia podemos em contrapartida, viver
instantes de alegria e prazer, ao verificarmos a invenção de um trabalho, fruto de grande
esforço braçal e intelectual. Alegria e tristeza pois, se misturaram durante todo decorrer
da montagem e elaboração desta dissertação. Inegavelmente, ao verificarmos a
conclusão de todo trabalho podemos entender que predominaram os momentos
prazerosos em contraposição aos outros.
Inicialmente, conduimos com enorme alegria o fato de estarmos produzindo um
estudo visando lançar pistas que podem levar a melhor compreensão do processo
histórico brasileiro.
Num segundo momento, percebemos que durante o período de criação pudemos
nos envolver com um número significativo de pessoas que com carinho e dedicação
tornaram-se fundamentais e determinantes par a . que chegássemos ao fim do caminho. A
essas pessoas dedicamos todo o nosso apreço, por considerarmos terem sido de enorme
importância para confecção deste tr abalho. Desse modo, o prazer e a alegria superaram
os instantes de angústia e tr isteza
A Soninha, companheira, amiga, sempre um ‘ porto-seguro' onde pude ancorar
minhas dificuldades alias, constantes durante toda elaboração desta dissertação
Agradecimento com amor.
Estarei cometendo um ato de justiça ao ressaltar o papel de orientação
desempenhado pela professora Ismêma de Lima Martins, que desde o início, soube
indicar-me o caminho das pedras. Com indicações precisas, sugestões corretas foi-me
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possível perceber ter sido um privilégio ao tornar-me seu orientando Inegavelmente,
Ismênia coloca em prática tudo aquilo que um aluno pode esperar de um orientador.
Aos professores Luiz Carlos Soares e Angela de Castro Gomes, que participaram
de minha banca de projeto e cujas sugestões foram de grande importância na elaboração
deste trabalho, só tenho que patentear meus agradecimentos.
No decorrer do curso de Mestrado tive contato com vários professores que
exerceram enorme importância e tornaram-se influências decisivas para minhas
condusões. Agr adeço a Qro Flamarion Cardoso, a Eulátra Lobo, a Hamilton Monteiro e
em especial, a Rachel Soíhet que, embora não tenha sido seu aluno, pude privar de sua
amrzade, por si só, estimulante para as condusões aqui contidas.
Jamais podería esquecer dos professores Nilo Bernardes e Mana Bárbara Levy,
cujas mortes pr ematuras deixaram menos alegres as vidas de todos aqueles que foram
seus alunos; posso assegurar. Inegavelmente, o magistério de Hrstóna tornou-se mais
pobre com suas partidas. Resta-me o respeito e o profundo agradecimento.
Não posso jamais esquecer as amizades construídas no decorrer do curso de
mestrado. Marcelo Badaró e Muza Clara tomaram-se figuras tão espedars a ponto de
constituir em meus compadres. Talvez não saibam mas, quantos papos batemos, enrolados
em cobertores, curtindo a temperatura deste "íno burgo' e ao mesmo tempo iam-se
consolidando as rdeías constantes neste trabalho. A informalidade de nossas discussões
correspondeu a formalização deste tr abalho. Agradeço por existirem.
Soma Miranda e Regina Mardatambém, amizades erradas e solidificadas ao longo
do curso, não poderiam estar exduidas desses agradecimentos
Marieta de M Ferreira, historiadora e friburguense, amiga de longa data,
importante nos toques e sugestões que me permitiram aprofundar e resolver questões
fundamentais.
Edson Benigno e Sandririha, preocupados também com a problemática urbana, e
quase sempre em papos informais ajudaram-me a avançar em minhas conclusões.
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Durante a fase em que estive pesquisando nos arquivos do Pró-memória da
Prefeitura Municipal de Nova Friburgo, travei contato com um grupo de pesquisadores,
voltado ao estudo da temática regionalista. Muitas foram nossas conversas, realizamos
alguns seminários, sempre com o objetivo de aprofundar nossos conhecimentos sobre a
História de Nova Friburgo e seu entorno. Agradeço portanto, a contribuição de Jorge
Miguel Mayer, Edson Lisboa, José Carlos Pedro, Luis Henrique da Silva, Manuel Spitz,
Amanda, Luiz Carlos Parola, Eloá, Délia, Leilmha Nesta mesma instituição devo lembrar
a ajuda e o apoio de Tereza Albuquerque, Beatriz, Eridam, Zuleika, Regina e Eienéia.
Para a pesquisa desenvolvida na Biblioteca dos Padres do Colégio Anchieta
contei com o apoio do Reitor, Padre Luiz Pecei, dos Professores Hamilton Werneck e
Adilson Batista e do secretário Nilson Santos.
Na Faculdade de Filosofia S. Dorotéia de Nova Friburgo, onde sou professor e
Chefe do Departamento de História, foram constantesos estímulos que recebi das Irmãs,
professores-amigos, fundamentais nos momentos de desânimo.
Entretanto, não posso deixar de ressaltar, a importante contribuição prestada
pelos meus alunos do Curso de História que debateram minhas idéias, sugeriram
caminhos, solucionaram impasses, através de papos e discussões informais Gr aças a eles
pude muitas vezes, sair dos labirintos que a pesquisa nos coloca.
Aos amigos, professores do Centro Educacional União, pela compreensão
solidária, agradeço.
Aos amigos do Sindicato dos Professores de Nova Friburgo, especialmente, aos
professores Francisco Levy, Pedro Roberto, Annibal Botto e Luciirha Mineiro, agradeço
o apoio e as manifestações de solidariedade - fundamentais paia que esse trabalho fosse
conduido.
Agradeço aos funcionários da Pós-graduação do Departamento de História da
UFF, pela atenção que me dedicaram, em especial a Pedro Paulo, Olívia e Rita
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Ao Ricardo, que perdeu parte de sua juventude, digitando e elaborando
tecnicamente esta dissertação.
A CAPES, que com a bolsa a mim concedida, permitiu-me viajar e fi eguentar as
aulas do curso em Niterói. Agradeço.
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miBQDLi& Q
‘As quatro estações do ano
É o enredo sensacional
que a Saudade apresenta para este
carnaval
A primavera, a estação das flores
dos casais de namorados
dos eternos sonhadores
E quando chega o verão
nesta cidade hospitaleira
Nova Friburgo se orgulha de ser
chamada de 'Suiça brasileira'
Ô!Ô!Ô!Ô!
A vez do outono chegou
É só plantar e colher
Neste solo que Deus abençoou
O inverno
Portados admirado
Vem gente de todo o lado
Pois o inverno em Friburgo
É uma das maiores estações.*
(Zezinho Bizoto - As quatro estações do ano)
1974. Na noite quente de fevereiro, quando os passistas da Escola de Samba
Unidos da Saudade entraram na avenida, cantando e sambando, não imaginavam o
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enorme sucesso que fariam naquele desfile. A população que lotava as arquibancadas,
situadas ao longo da avenida Alberto Braune, de pé, cantava os versos de Zezinho
Bizoto, * As quatro estações do ano'. Desfilantes e platéia misturavam-se em um só ritmo,
em uma só voz. A alegria era geral. Emocionados pelo coro de "já ganhou", a torcida da
Saudade sabia que o carnaval de 1974 já tinha um vencedor, sem contestação.
Anos de eufona!
O carnaval e o samba-exahação reforçavam as idéias de grandeza, de
desenvolvimento acelerado, de segurança, tranquilidade inventados pelos militares, há
dez anos dominando o poder no Brasil Nova Friburgo não ficaria atrás. Os tempos de
euforia atingiam o imaginário da população. Afinal, a cidade caminhava com o progresso,
sepultando parte do seu passado juntamente com os trilhos e as locomotivas da Estrada de
Feno Leopoldina Alguns casarões como o teatro D. Eugênia ou do cinema Eldorado iam
sendo demolidos, edificando-se em seus lugares, prédios envidraçados e modemos.
Simbolizando sua entrada na nova era, Nova Friburgo já possuía um viaduto, por onde
trafegavam automóveis de modelos variados. Para não fugir à regra, Nova Friburgo
possuía até mesmo um desaparecido político. Em 1971, o jovem friburguense Mario Prata,
militante do MR-8, fora morto no Rio de Janeiro pelas forças do regime militar. Mas, isto
era coisa que deveria ser apagada da memória de seu povo.
Nova Friburgo não podia estar alheia às imposições do "milagre brasileiro".
Desse modo a população cantava com a Unidos da Saudade, exaltando os elementos que
fizeram dela a "Suiça brasileira", numa única possível relação com o passado. A "cidade
hospitaleira", dos "casais de namorados", procurada e amada pelos visitantes, era cantada
a plenos pulmões, tomando o carnaval daquele ano, inesquecível para os foliões. A
agricultura municipal também, fazia parte da fantasia carnavalesca; "é só plantar e colher"
num "solo que Deus abençoou". Na festa profana, a religião ganhava seu espaço em más
um verso exaltivo do compositor friburguense.
2
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Na verdade, Nov a Friburgo constitui-5e hoje como um espAço social pleno de
contradições. Ao estudarmos sua História podemos perceber como ocorreram os fatos
responsáveis pela criação dessA cidade de porte médio, industrial e turística, brasileira e
suiça, plena de ordem e desordem, bem diferente dos elementos que respondem pela
sua representação.
Nossas observações preliminares sobre o município partiram de alguns dados que
obtivemos através de nossa vivência como habitante, assim como, professor e chefe do
Departamento de História da Faculdade de Filosofia S t* Dorotéia Irririalmente,
percebíamos uma população orgulhosa de um passado calcado em suas origens suiço-
alemãs mas, que por outro lado, aceitava com tranquilidade, a destruição dos vestígios
desse passado verificado com a destruição dos prédios e monumentos — elementos de
ligação com aquele passado. O processo de urbanização acelerado assim como, a ânsia
no sentido de trãSformar a cidade em um espaço modernizado levounos a perceber a
grande contradição entre o discurso e a prática. Ao mesmo tempo, observávamos
empiricamente, que Nova Friburgo constitue-se como cidade onde a indústria têxtil
exerce um papel importantíssimo em termos econômicos ao mesmo tempo que, as funções
turísticas também, exercem papel fundamental na caracterização do município. A
denominada "Suiça brasileira" é assim constituída de um lado, uma indústria de tecidos e
aviamentos — ressaltando as grandes empresas como ARP, Füó (Triumph), ARP e
ainda, uma infinidade de micro em presas ----de outro lado, o turismo, estabelecido
através do culto às belezas naturais mas também, com a presença de uma infraestrutura
de restaurantes, hotéis, lojas e comércio variado, voltado ao atendimento de uma
população flutuante.
Partindo dessas observações é que buscamos o curso de mestrado em História
Urbana e Industrial da Universidade Federal Fluminense. Sabíamos que encontraríamos
nesta Instituição as condições para a sistematização de um estudo mais aprofundado
sobre criação, formação enfim, da gênese de Nova Friburgo. As discussões teórico-
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metodológicas, os estudos comparativos desenvolvidos em vários cursos fornos de
enorme importância permitmdonos conjugar nossa vivência do presente friburguense
com o conhecimento «profundado de sua história. Desse modo, foi-nos possível
perceber com maior dareza, que o trabalho do historiador nasce de uma interrogação
sobre o passado, efetuada a partir de questões formuladas no presente. Isto é, o
historiador é antes de mais nada, um ser de sua época, um elemento com suas raizes
plantadas no presente de onde extraí dúvidas, indagações que o remete ao passado, em
busca de respostas que as expliquem. Como nos informa Jean Chesneaux:
‘ Al situar k rekdón coletiva con elpasado como bise deI conodmiento
histórica, se invierte radicahnente k rekdón presente-pisido. Já no es el
pasado el que está en elpuesto de mondo, el que dá lecdones, el que
juzga desde lo oito de su tribunal. Es el presente el que plantea las
cuestones yhace las conminadones. W
É portanto, nossa preocupação, ao escrever nossa dissertação, partindo de
indagações formuladas no presente, buscar fundamentos, explicações que nos permitam
uma melhor compreensão do processo urbano em Nova Friburgo, entendendo o urbano
como um fenômeno social e histórico. Temos consciência que tal fenômeno não é um fato
isolado na história do Brasil. Nova Friburgo deve ser entendida como parte de um
processo mais amplo de inserção do Brasil nos quadros do modo de produção capitalista.
Afastamos aqui, qualquer perspectiva de abordagem isoladonista, que busca explicar a
história local apenas, através de suas espeáfiddades. Pelo contrário, temos consciência
de que há uma profunda relação entre o processo capitalista brasileiro e a urbanização
de Nova Friburgo. É a parte, que para ser entendida, deve estar relacionada com o
todo.(2)
Por outro lado, lembramos que o tema da urbanização no Brasil, tem, a parth
principalmente, da década de 70, suscitado grande atenção dos cientistas sociais
4
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brasfleiros. É que verificamos o impado da industrialização dependente ocorrendo
paralelamente a uma crise agrária, trazendo como resultado, um acelerado crescimento
urbano. Os problemas da organização do espaço urbano, bem como, as questões sociais
daí decorrentes suscitaram as atenções dos detentores do poder político, assim como, de
alguns estudiosos. No que tange aos estudos acadêmicos, o que percebemos é que tais
estudos se vincularam a vários ramos das ciências humanas, incluindo urbanistas e
planejadores. Entretanto, foi somente a partir dos fins da década de 70 que os
historiadores passaram a estudar o tema cidade e processo urbano no Brasil.
Inicialmente, verificamos o aparecimento de debates visando aprofundar o estudo
do processo de formação de cidades no Brasil, desde o período colonial, ou mesmo, o
surgimento de cidades em fases mais recentes. No meio acadêmico, indentificamos
algumas abordagens relacionadas à formulação de tipologias de cidades brasüeiras e
latino-americanas. A proposição do estudioso americano Richard M Morse(^), que vê a
cidade latino-americana como fruto da solidificação de um poder político, promotor e
irradiador de todo processo urbano, não nos parece a mais adequada para se entender a
urbanização de Nova Friburgo. Se por um lado, a vila fora criada através de um decreto
de D. João VI, o que evidenciaria suas características patrimonialistas, por outro lado, o
seu desenvolvimento e crescimento obedeceu a razões econômicas e sociais que a
afastam de um enquadramento esse tipo de modelo. No século XIX, é o seu comércio de
produtos agrícolas com o Rio de Janeiro e com a região cafeeira de Cantagalo, que
promoveu o dinamismo de seu crescimento. No início do séc XX, a implantação da
indústria é que acreditamos ter sido responsável poT uma nova fase de seu crescimento.
Sendo assim, estamos mais próximos das proposições de Eulália LoboW que discordando
das origens patrimonialista, entende as cidades brasileiras como decorrentes da
dinamização do comércio e do capital financeiro, existentes desde o imrio, no interior
das mesmas. É daro que a cidade contém em si, funções de direção políticas mas, é
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inegável também que seu crescimento deve muito menos a essas funções e bem mais, h
funções financeiras, comerciais e industriais.
Afastando das abordagens visando definições tipológicas das cidades brasileiras
percebemos nos últimos tempos, alguns estudos publicados que tomavam o urbano como
cento das atenções de vários historiadores. O Rio de Janeiro, como ddade que ainda
mantem um importante papel na vida econômica, cultural e política brasileira tem sido
objeto de variados estudos historiográficos de grande importância. CStamos inicialmente,
o trabalho de Maurício Abreu(^) que estuda o processo de expansão urbana da cidade
do Rio de Janeiro, a partir dos fins do secXIX.
No campo da história pTopíamente dita, ressaltamos o estudo de Euláha Lobo(^)
sobre a história do Rio de Janeiro, que tem servido de base para um grande número de
dissertações e teses tomando-se assim, obra nescessária a consulta daqueles que
trabalham a expansão econômica da antiga capital. A obra de Euláha Lobo permitiu a
abertura de uma gama de questões temáticas, relacionada ao passado histórico da ex-
capital da república, que tem sido aproveitada por um conjunto significativo de
historiadores. O resultado obtido é a edição de várias obras, enfocando aspectos
variados da história do Rio de Janeiro!?).
Quando iniciamos nossas leituras com vistas a elaboração de nossa dissertação,
constatamos a existência de alguns trabalhos publicados sobre a história de Nova
Friburgo. Inicialmente, identificamos no historiador suiço Martin Nicoutinl®) a
preocupação em estabelecer as origens sociais e econômicas dos primeiros
colonizadores que partiram de vários pontos da Europa e iniciaram a colônia suiça em
Nova Friburgo. Trata-se de uma obra interessante, ainda que pese não ter sido traduzida
e publicada no Brasil*Um segundo trabalho digno de registro, trata-se da dissertação de
mestrado elaborada por Heloisa B. Serzedelo CorreaM, importante estudo sobre o
processo de industrialização de Nova Friburgo, a partir do advento dos capitais alemães,
na segunda década do sécXX. Recentemente, verificamos uma publicação do hwo de
)( T f,l\D U 2[D A t Pl)£L i ÓA jOA EM6
--- [PDF página 21] ---
Gioconda Lozadaí^®) tratando-se de uma obra, tendo como objetivo o estudo da
participação do elemento negro em Nova Friburgo, desde os primórdios da colonização
até os nossos dias.
Ao lado dessas obras citadas identificamos ainda, uma quantidade significativa de
publicações, produzidas gerahnente, em momentos de comemorações cívicas e até
mesmo de efemérides. São publicações de circulação restrita, opúsculos, denotando
pouca preocupação com o rigor acadêmico. O livro de Pedro Cúrio(M) tem como
intenção principal, o relato de um pequeno histórico associado a episódios variados,
relacionados com o início da colonização suiça na região. O trabalho de C. R. Fischer(^),
produzido em comemoração 75! aniversário da Fábrica de rendas ARP, faz uma divisão
da história friburguense em t momentos considerados significativos: *Os Sertões de
Macacu*, abordando a pré-história do município. ‘COLÔNIAS AGRÍCOLAS', relatando
a presença suiço-alemã na região, a partir de 1820; ‘ARISTOCRACIA RURAL",
relacionando o crescimento do município com o assentamento dos Barões de Café em
seu interior; ‘Desenvolvimento Industrial", a partir da 2! década do nosso século. O
pequeno hvro de Girlam Miranda(^), traça um quadro resumido do processo histórico
friburguense até os primórdios do século X X
Registramos também, as publicações dos denominados cadernos de Cultura,
editados pelo Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal, com os seguintes títulos:
‘História, contos e lendas da velha Nova Friburgo* : ‘Notas Biográficas para
Monografia’; ‘Documentos e Cartas da Colônia 1828-1824* : ‘Notas para estudo da
presença alemã em Nova Friburgo': ‘Nova Friburgo: Notas e informações*: ‘Notas para
o estudo da presença do Negro em Nova Friburgo": ‘Nova Friburgo: impressões-
lembranças*
As várias obras, assim como os cadernos de cultura possuem um traço comum, no
sentido de representarem uma preocupação grande com as origens suiças e alemãs de
Nova Friburgo. Inegavelmente, são trabalhos derivados de forte conteúdo ideológico.
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identificado com a necessidade de demonstrai as 'origens atípicas' da população
friburguense. Identificamos aí, a intenção dos autores em comprovar, através de tinturas
históricas, a construção da 'Suíça brasileira'. Ganha-se em ideologia e peTde-se em
conteúdo histórico. Entretanto, a leitura desses trabalhos, permite-nos aquilatar o grau de
envolvimento de seus autores com ideal de cidade construida pelas elites municipais ao
elaborarem sua própria história É no silenciamento percebido quanto aos setores
populares e quanto os conflitos sociais ocorridos no processo de construção do
município, que podemos concluir sobre o forte conteúdo de "ideologias de classes
dominantes" contido nas obras acima referidas.
Desenvolvendo nossos estudos sobre o processo de urbanização de Nova
Friburgo consideramos que tal processo teve seus limites temporais compreendidos no
período de 1890 a 1930. Neste momento verificamos que Nova Friburgo conseguiu
romper com as determinações impostas por seu passado rural. É pois, o momento que
constitui-se a formação de um espaço nitidamente urbano, que lentamente vai exercendo
dominação sobre a periferia de carcteristicas rurais. Todavida, temos consciência que o
espaço friburguense não se fez de forma isolada mas sim, fazendo parte de um amplo
conjunto de mudanças ocorrido em todo o país e principalmente, na região sudeste, a
partir da V metade do sécXDC A inserção do Brasil nos quadros do sistema capitalista,
trouxe consigo o crescimento de atividades industriais assim como, o crescimento de
núdeos urbanos. A historiadora Emíha Viotti da Costat H) expõe uma série de elementos
que compõem o conjunto de mudanças vivido pelo Brasil naquele período:
‘Na segunda metade do sécXIX ocorrem alguns fenômenos importantes
que virão introduzir algumas modificações na estrutura econômica e social
do país, contribuindo para o desenvolvimento relativo do mercado interno
estimulando o processo de urbanização. Primeiro a transição do trabalho
escravo para o trabalho livre: a cessação do trãfico em IS S O , a abolição em
1888 e a entrada de numerosos imigrantes no sul do país. Em segundo
lugar, a instalação de rede ferroviária, iniciada em 1852 e que no final do
--- [PDF página 23] ---
século àtingiriá mais de 9M0km construídos e 15MC em construção.
F inalm ente as tentativas bem sucedidas, d e industrialização e o
desenvolvimento do sistema de a édito."
É inegável que o processo de transformações vivido por Nova Friburgo teve
início com a instalação da estrada de Ferro, que passa a permitir um contato mais rápido
com a cidade do Rio de Janeiro. Além de facilitar o transporte de café e
hortifrutigranjeiros para os mercados da baixada litorânea, a ferrovia criou facilidades a
maior circulação de populações provenientes da corte em Nova Friburgo. Estimulava-se
assim, o crescimento do setor de serviços na cidade, com o cr escimento do número de
hotéis, restaurantes, escolas etc. Em 1890, Nova Friburgo torna-se município autônomo
embora, a nível de poder local perceba-se um controle ainda exercido por
setores agrários.
Um recorte temporal importante em nossos estudos ocorre em 1911, por ocasião
da implantação da companhia de Eletricidade e da industria têxtil, a partir de
investimentos de empresários de origem alemã. Com essas alterações a cidade tende a
perder suas feições rurais, assumindo contornos tipicamente urbanos. Paralelamente,
verificamos o processo de consolidação do papel de cidade turística, no momento em que
se constrói o ideal de "Suíça brasileira*. Costurando esse modelo de cidade industrial e
turística, verificamos no plano local, a ascensão de um grupo político, identificado com um
discurso em prol da industrialização e da modernização do município.
As alterações constatadas no interior do espaço urbano são na verdade, o reflexo
de todas estas mudanças vividas por Nova Friburgo nesta fase de sua história A
ordenação desse espaço obedecendo as normas implantadas pela lógica capitalista,
evidenciam a existência de uma divisão social perfeitamente mdentiticável. Ricos e
pobres ocupam locais diferenciados do espaço municipal
No momento em que iniciámos nossas reflexões com vistas a elaboração de nossa
dissertação e, partindo de algumas leituras já efetuadas sobre o tema, elaboramos algumas
9
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hipóteses a serem comprovadas Nova Friburgo será um polo receptor de população,
com crescimento significativo no período estudado, pela criação do ramal ferroviário que
a ligava a capital do país e pela crise cafeeira do Paraíba Oriental Processo esse que tem
em 1690 um marco destacável. Para comprovação desta hipótese utilizamos a princípio, a
coleção de mapas e plantas do município que se encontram nos arquivos do Pró-Memóna
da Prefeitura Municipal de Nova Friburgo. Usamos ainda, as Atas e Resoluções da
Câmara Municipal, o Código de Posturas Municipal aprovado em 1893 e o Indicador
Fluminense. Quanto as fontes impressas, recorremos aos exemplares do jornal *Q
Friburguense* do período de 1893 a 1896, o jornal “O Sentinela" do período de 1900 a
1902, o jornal "A Paz* do período de 1906 a 1910 e a revista “ A Lanterna* , puplicada em
1907.
A construção de um modelo industrial e turístico em Nova Friburgo, a partir de
1911 é responsável pela expansão da malha urbana e fruto da articulação entre o
empresariado alemão e nacional com uma nova elite política local.
Com relação as fontes trabalhadas por nós utilizamos a princípio, os discursos de
dirigentes políticc?que ao travarem suas polêmicas oferece-nos excelente indicador par a
o entendimento de suas linhas de atuação. A imprensa local reproduzia tais discursos,
tornando-se o meio pnndpal de comunicação da época Desse modo, estudamos toda a
coleção de periódicos como: "A Paz' nos períodos de 1911 a 1916 e de 1923 a 1930, “ A
cidade de N.Friburgo* no período de 1916 a 1922 e o “Phaiol" correspondente ao ano de
1918. Utilizámos ainda as Atas da Câmara Municipal, as Resoluções da Câmara Municipal
e da Prefeitura como também, as Mensagens dos Prefeitos ao legislativo Municipal, que
10
--- [PDF página 25] ---
nos possibilitou conhecer os problemas do município, as medidas tomadas para solucioná-
los e como se relacionavam o público e o privado em Nova Friburgo. Analizamos ainda,
os mapas e plantas da região, do município e da cidade, o Código de Posturas aprovado
em 1916 e os Recenseamentos produzido pelo IBGE e pela própria Prefeitura Foi-nos
bastante útil, as obras publicadas no período de nossos estudos como, o livro de Arthur
Guimarães, ‘Um Inquérito Social de Nova Friburgo. Ensaio de Sociologia Prática* . 1916
e o livro de Galdmo do Valle Filho, ‘Lendas e Legendas de Friburgo* . 1918 ^
O contrato firmado entre a Câmara Municipal de Nova Friburgo e Julius ARP e
Ga, possibilitando a este o fornecimento de energia elétrica ao município tornou-se uma
fonte de grande importância no que tange a elaboração de partes de nossas conclusões,
neste capítulo.
No que se refere a questão da cidade turística e fornecedora de serviços
estudamos os discursos de políticos, autoridades locais, e crônicas publicadas nos jornais
da cidade. A leitura do livro de Registros de Hóspedes do Hotel Engert, forneceu-nos
pistas para que pudéssemos avaliai quantitativa e qualitativamente o movimento de
populações adventídas pelo espaço munidpal. A maior parte de toda essa documentação
fazem parte do acervo do Pró-Memória da Prefeitura de Nova Friburgo O resultado dos
Censos financeiros e populadonais e os relatórios dos governos munidpais foram
obtidos no Arquivo Público Estadual em Niterói.
Tivemos acesso também, e trabalhamos o acervo referente a fase inicial da
existência do Colégio An chi et a, na chamada ‘Biblioteca dos padres”. Ati conseguimos
estudai' a coleção da revista “ Aurora Colegial*, elaborada pelos alunos e padres do
educandário, no período de 1906 a 1922. Estudamos ainda, a publicação denominada "£)
Direito de Colégio Anchieta* . Sobre o período de 1918 e 1919, o poeta Carlos Drumond
de Andrade deixou-nos a coletânea de poemas denominada ‘Fria Friburgo’, de grande
importância para nossos estudos, no que concerne a compreensão do cotidiano vivido
pelos habitantes do colégio
x m sii
--- [PDF página 26] ---
Estabelecemos ainda, como hipótese que Nova Friburgo tomou-se uma ddade
tipicamente capitalista, perceptível através da organização diferenciada de seus espaços
de acordo com sua divisão de dasses sociais. Utilizamos como fontes principais o
noticiário jornalístico, os mapas do município, matérias de revistas como ‘A Lanterna' e o
' Álbum de Nova Friburgo*. A leitura dos jornais nos permitiu o acesso e a compreensão
do movimento sodal, traduzido por conflitos e greves. Tivemos acesso também, a uma
parte dos arquivos da sodedade Humanitária dos Operários, onde obtivemos algumas
informações sobre a história desta instituição. Em virtude da inexistênda de um
movimento sindical no período que estudamos, nossas referendas quanto ^alguns
movimentos grevistas ficaram restritos ao notidário jornalístico.
Quanto ao desenrolar de nossa dissertação, optamos por uma divisão em 4
capítulos, necessários à comprovação das hipóteses por nós formuladas.
No I! capítulo, denominado ' Nova Friburgo: Olhar a região, enxergando a
ddade'. pretendemos discutir as principais correntes teóricas que nos informam sobre a
problemática regional assim como, das questões urbanas. Trata-se pois, de um momento
onde pretendemos deixar exptídto, parte da discussão teórico-metodológica que
envolve atualmente os dentistas sodais, a respeito das questões regionais e urbanas.
Procuramos comprovar que pensar o regional e urbano, nos quadros do mundo
contenporâneo, é antes de mais nada, definir recortes engendrados pelos mecanismos de
determinação do sistema capitalista Acompanhando os debates que envolvem tais
questões, procuramos caracterizar o regional não como algo definido a p riori, por
definições físicas e administrativas. Desenvolvemos sim, uma abordagem espaço-
temporal, entendendo a relação meio físico/ação humana, como fundamental na definição
de um espaço regional. Prolongamos tal perspectiva na análise que fazemnos sobre o
espaço urbano friburguense. Trata-se de uma ddade cujos contornos se definem a partir
da ação humana porém, envolvida pelos parâmetros sodais, políticos, econômicos e
ideologicás do modo capitalista de produção. A questão da hegemonia, envolvendo força
12
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e discurso, produzida pelos setores sociais dominantes é também, nossa preocupação ao
definirmos os postulados para compreensão do regional e do urbano.
No II! capítulo, intitulado * A Nova Friburgo nos primórdios da Velha República*
apresentamos iniriahnente, um quadro histórico da formação friburguense para em
seguida, definirmos o que era o município e dentro dele a ddade, no período de 1890 a
1910. Trabalhamos os papéis desempenhados pela Estrada de Feno Leopoldina nos
aspectos de direcionamento da ocupação espacial como também, suas interferências no
modo de vida da população em todo o município. Verificamos a atuação do poder púbhco
municipal referente a aplicação de normas, tendo como base os componentes sociais de
sua constituição. Trata-se inegavelmente, de um momento da transição capitalista vivida
pelo município, onde é possível perceber uma distorção reconhecida, de um lado pela
presença da fenovia e de um livre mercado de mão de obra e por outro lado, pela
presença de setores oligárquicos oriundos da agricultura escravista que continuavam
dominando o poder municipal.
No III» capítulo, intitulado ' Nova Friburgo: a Construção do modelo
industrial/turistico: 191H930* trabalhamos inicialmente, a inserção de um novo grupo
político no controle do poder no município e seus vínculos com a política estadual. Esse
novo grupo constrói sua hegemonia na região, assumindo um discurso favorável às idéias
de modernização do espaço municipal, entendida como decorrente da implantação da
indústria. Associam-se, o novo discurso da nova elite com os inteTeses industrialistas
representados pelos impresários alemã?; na ddade, a partir de 1911. A ascensão desta
elite e a construção do modelo industrial ocorre após intensos debates, não faltando
inclusive, conflitos de rua.
Paralelamente, forja-se o perfil de uma ddade turística e prestadora de serviços.
A mesma elite, responsável pelo discurso industialista, assume a defesa e a construção de
um ideal de ddade de tradição européia, inventando uma Nova Friburgo intitulada a
"Suiça brasileira*.
13
--- [PDF página 28] ---
A organização espadai da cidade, a formação de bairros, a segregação sorial, tem
como base a configuração de Nova Friburgo como espaço urbano industrial, turístico,
que presta serviços variados. Ressaltamos o papel desempenhado pelas elites políticas no
controle dos poderes municipais e na implementação de políticas, tendo em vista a
definição daquele perffl.
No IV* capítulo, intitulado ‘Nova Friburgo e a população: Ricos e Pobres'
apresentamos a distribuição espadai da população friburguense, obedecendo às
diferentes cr aderis ticas de sua divisão dassista Identificamos bairros ocupados pelos
componentes das elites econômicas e políticas, através das condições de urbanização ou
mesmo, pela própria arquitetura de suas residêndas. Percebemos a ocupação espadai
de acordo com os diferentes setores das elites econômicas dominantes: proprietários
rurais, industriais e comerdante. O mesmo acontece no que concerne à ocupação dos
espaços Teservados aos setores populares. Operários, desempregados e pobres
ocupavam locais perfeitamente identificáveis no conjunto do município. Tudo isto, leva-
nos a concluir sobre a existênda de uma divisão espadai compatível com uma realidade
soda! plenamente segregadonista. Apresentamos ainda, neste capítulo, algumas formas
de reação popular, no sentido de contraposição às formas de dominação capitalista,
acentuadas em Nova Friburgo, no período estudado.
Em conclusão, quizemos evidendar o fato de Nova Friburgo ter se tomado, no
período de 1890 a 1930, uma ddade capitalista, com perfil industrial e turístico. Tal
configuração é um fato historicamente determinado a partir de análise referente à
modelagem efetuadapelos agentes sodais, atuando em seus espaços geográficos.
14
--- [PDF página 29] ---
NOTAS: DA INTRODUÇÃO
^ - CHESNEAUX, Jeari - La história como reladón activa cori el pasado in: Hacemos
tabla rasa dei pasado?. México, sigloXXI, 1981, cap.l, p.27.
W - Reflexões importantes sobre esta questão encontram-se no texto de CARVALHO,
Maria Alice Rezende de. Rio de Janeiro. Juntando os (A propósito de uma tendência
recente na produção intelectual sobre esta cidade), in: Revista do Rio de Janeiro n ! 2,
RJ, abril/8É,pp.91/100.
(Ã') - MORSE, Richard M Formação Histórica de S.Paulo. SP, Difel, 1970.
- LOBO, Eulátia Lahmeyer. El papel comercial y financeiro de las dndades en la
América de los siglos XVIII e XIX, in: Hardoy, Jorge et a i. Ensaios Históricos Sociales
sobre la urbanizadon en América Latma. Buenos Ayres, FLAC-SO, 1978.
C S ) - ABREU, Maurído de A Evolução Urbana do Rio de Janeiro RJ, IPLAN-Rio e Jorge
Zahar Editor, 1987.
(£ > ) - LOBO, Eulália Lahmeyer. Históna do Rio de Janeiro. Do capital comercial ao capital
industrial e financeiro. RJ, IBMEC, 1978.
( ? ) - Citamos alguns trabalhos de grande importância, publicados recentemente, que
abordam temas e momentos importantes da História do Rio de Janeiro:
BENCHIMOE, Jaime L Perena Passos: Um Haussmann Tropical. RJ, SMCTE,
DGDDIC, 1998,
SOIHET, Radiei. Condição feminina e formas de violência: mulheres pobies e ordem
urbana 1890 - 1920, Ró, Forense Universitária, 1989.
CHALHOUB, Sidney. Tabalho. lai e botequim. Q cotidiano dos trabalhadores no Rio de
Janeiro da Belle - Epoque. SP, Editora Brasihense, 1987
ROCHA, Oswaldo Porto. A era das demolições, cidade do Rio de Janeiro: 1870 - 1920 /
CARVALHO, Lia de Arquivos. Contribuição ao estudo das habitações populares Rio de
Janeiro- 1886 - 1906. RJ, Secretária Municipal de Cultura e Dep. Geral de
Documentaçãoe Mf Cultural, 1986.
( 2) - NICOLIN, Martin. La Genèse de Nova Friburgo: emigration et colonisatiori suisse au
Brésil 1817 - 1827.4 ème ed. Suisse, Editions Universitaires Fribourg 1981, 364 p..
15
--- [PDF página 30] ---
(?) - CORRÊA, Heloísa B. Serzedelo. Mova Friburgo: O nascimento da Indústria.
Niterói, UFF, Dissertação de Mestrado em História, Instituto de Qêndas Humanas e
Filosofia, mim., 1985.
(1°) - LOZADA, Gioconda. Presença Negra. Uma nova abordagem da História de Nova
Friburgo. Niterói, EDUFF, 1991.
(11) - CURIO, Pedro. Como surgiu Nova Friburgo: esboço histórico e episódico. 1818 -
1840 RJ, 1974.
(12) - FISCHER, Carlos R. Uma Hitória em Quatro Tempos. Nova Friburgo, Fab. Rendas
ARP, 1986.
(13) - MIRANDA, Girlam. A Caminhada de uma cidade livre: Nova Friburgo. Nova
Friburgo, SESC, 1981.
(14) - COSTA, Erniha Víoth dei Urbanização do Brasil no sécXIX. in: *Da Monarquia à
República - momentos decisivos* . SP, Ed. Brasüiense, 3! ed., 1985, pp. 197/227.
16
--- [PDF página 31] ---
capitulo I
NOVA FRIBURGO' olhar
região, enxergando a
cidade
--- [PDF página 32] ---
CAEfrUmi
NQVA FR1BURGQ: QLHAR A REGIÃO. ENXERGANDO A CIDADE
1-QLHARAREGIÃQ,,,
Durante longo tempo a historiografia brasileira esteve preocupada com a
realização de estudos que contemplassem o conhecimento de grandes temas assim como,
a produção de obras voltadas à compreensão ampla e generalizante sobre nossa história.
Inegavelmente, esse^estudos cumpriram durante certa época, funções importantes no
que concerne a criação de novas formas de pensar a História do Brasil. Não resta
dúvida, que as obras produzidas a partir dos anos 30, significaram novas formas de
análise, induzindo os historiadores nacionais a utilização de novas e profundas reflexões
sobre nossa realidade. Até a década de 70 podemos perceber, a utilização de estudos,
voltados ao entendimento da História do Brasil de uma forma ampla, cabendo aos
interessados formular conclusões tendo em vista a compreensão geral e abrangente do
processo histórico brasileiro.
A partir de fins da década de 70 com a proliferação de cursos de pós-graduação,
verificamos um novo posicionamento acadêmico no Brasil com o surgimento de estudos
voltados ao conhecimento histórico de diversas regiões. Partiu-se portanto, para
trabalhos enfatizando os estudos regionais, em que pese ser necessário jamais perder de
vista os aspectos mais globaizantes de nossa história. A denominada História Regional
veio então, dar um enorme impulso à pesquisa histórica, propiciando uma nova dinâmica
aos trabalhos dos respectivos estudiosos. Desenvolve-se outrossim, uma nova perpectiva
historio gr áfica partindo-se do particular para conclusões gerais. Não queremos afirmar
que a história nacional passou a ser o somatório das histórias regionais. Mas, estas tem
17
--- [PDF página 33] ---
Ayindicado as variáveis são relevantes para a compreensão do sistema mais global de
relações, que é o estado nacional.
Quando optamos por estudar um determinado momento da história de Nova
Friburgo imediatamente, tomamos consciência da necessidade de buscarmos elementos
que nos propiciassem efetuar um recorte espacial e temporal da região. Inicialmente,
deparamos com a exiguidade da produção teórica no campo da História Regional,
restando alguns trabalhos em Geografia que buscam uma fundamentação básica para esta
questão. Entretanto, o professor C5ro Flamarion S. Cardoso, em seu livro Agricultura
Escravidão e Capitalismo oferece-nos pistas importantes para o trabalho em História
Regional;
"Dissemos também que o que importa é definir operacionalmente a região
e saber integraria num conjunto significativo. Afinal o enfoque regional
não é um método, e sim um a opção quanto à delimitação do universo de
análise. Receitas a respeito não há ou melhor ■ não funcionaram, como
demditra o fracasso das tenffvas de aplicar no contmento americano -
onde as estruturas de espaáahdade, as densidades hum anas, a espessura
histórica, o sentido social das distâncias, etc, critérios que haviam dado
resultado relativamente bons nos velhos países europeus. 11 )
As indicações fornecidas pelo texto constituiram-se em nosso ponto de partida
nesse momento primeiro de nossas preocupações. Seguindo as sugestões acima
aproximamos o nosso propósito de estudar o processo de urbanização de Nova Friburgo
a partir de sua inserção inicial na região do polo cafeicutor de Cantagalo. Posteriormente,
percebemos seu deslocamento gradativo ou melhor, sua transformação de região
periférica, agregada, em região polo de atração de capitais e de população. No momento
dessa transformação é possfvel verificar os vínculos comerciais e políticos que Nova
Friburgo passa a ter com Rio de Janeiro ----centro político, econômico e financeiro —
- principalmente, após a criação do ramal ferroviário Leopoldina RaiUway.
18
--- [PDF página 34] ---
Podemos constatar então que ao recortarmos a região que pretendemos estudar
surgiu-nos imediatamente, a necessidade de definirmos com maior dareza as
características da referida região. Inevitavelmente prerisamos entender as condições do
espaço que pretendemos estudar e sendo assim, encontramos na Geografia, alguns
trabalhos teórico-metodológicos, fundamentais para o aprofundamento dessas questões.
Pudemos constatar pois, que a Geografia a partir do sécXIX encarava a natureza como
receptora dos atos humanos, tomando o estudo dos fatores naturais, fundamentas para o
entendimento dos atos humanos. O quadro natural era portanto, o elemento que
determinava o tipo de ação implementada pelos seres humanos em determinada região.
Desse modo, a concepção de ragião ou mesmo, o estudo espaço-regional continha uma
enorme tendência a descrição minuciosa de todos os fatores naturais que compunham a
paisagem de uma região. Neste caso, não cabia ao geógrafo procurar entender sua
relação com os seres humanos que a d i atuam, transformando a geografia num mero estudo
do meio-físico. Isto explica alguns trabalhos e certas tendências ainda bastantes influentes
no que concerne aos estudos de Geografia Regional; climatologia, hidrografia e divisões
regionais de acoTdo com as diferenças físicas. Tal fato explica também, uma didática de
Geografia muitas vezes, evidenciando o determinismo geográfico, quando nos apresenta
a divisão entre Geografia Humana e Geografia Física. Vejamos como o geógrafo Ruy
Moreira apresenta tal situação:
"D os romanos a idade da dênda (sécsXVIII e XDQ a geografia terá sua
imagem cunhada como um inventário sistemático de terras e povos. U m
tratado discritivo e cartográfico com caráter auxiliar da administração de
estado e pedagógico. Mas produzida e reproduzida sempre como saber
descomprometido. Sua jurisdição está longínqua das lutas dos povos e das
classes oprimidas. A luta de díses não existe. A geografia fala do hom em ,
geral heterogêneo no plano da natureza Da história da geografia não
fai áparte a crítica política pe seu uso político pelo estado tf)
19
--- [PDF página 35] ---
Assim apresentada, a geografia inventada na Alemanha do sécXIX era um
importante instrumento nas mãos das potências imperialistas européias que a partir dela,
adquiria conhecimentos da natureza sobre o qualimprimiria dominação.(3)
Mantendo o empirismo da geografia alemã e acrescentando elementos do
positivismo, a geografia francesa nos primórdios de sècXX, apóia-se na obra de Vidal de
La Blache. Tratava-se pois, de uma ligação perfeita entre o funcionalismo e o positivismo.
Neste caso, toma-se mais dara a divisão em duas geografias: A geografia física e mais
preàsamente a geologia, e a geografia humana mais precisamente tratando-se de
elementos da demografia. Inegavelmente, com Vidal de La Blache verificamos o
aparedmento de uma geografia não apenas voltada ao estudo dos fatos naturais. O ser
humano toma-se em sua visão, em elemento condicionado pelos fatores físicos mas, que
tem possibilidades de alterar e melhorar esse meio físico. Origina-se assim, o denominado
possibilismo. O papel desempenhado pela Geografia Francesa e em particular o
humanismo aventado por La Blache para os conhecimentos da geografia influenciaram
bastante os estudiosos de todo o mundo. Seja na separação Geografia Física e Geografia
Humana ou, na denominada Geografia regional e até mesmo, na Geografia Cultural o
que podemos inferir é a influência abrangente do pensamento de La Blache na
produção do novo pensamento geográfico mundial.
Seja com a Escola Alemã, seja com a Escola Francesa lablacheana, o que podemos
perceber foi a predominância de uma visão de espaço, extremamente descritiva dos
aspectos físicos ou dos aspectos humanos. Verificamos ainda, que após a vitória francesa
na primeira grande guerra e a consequente denota alemã, a visão dos vencedores toma-
se dominante no pensamento geográfico ocidental.
No campo da História a percepção geográfica vista através dos ângulos acima
descritos, trouxe consequências interessantes. Em primeiro lugar, o espaço concebido
daquelas formas toma-se completamente atemporal ou melhor dizendo, a questão da
20
--- [PDF página 36] ---
temporalidade, da ação humana atuando e transformando aquele espaço pouco significou
para os estudiosos daquelas tendências.
Em segundo lugar, a não percepção da relação espaço-temporal cria limites no
campo da autonomização regional, provocando uma visão de espaço completamente
desligado de um sistema econômico, social e político. Ho campo da ciência da História
percebemos tendência semelhante ao verificarmos a existência de uma produção de
Histórias Regionais, Provinciais, Municipais totalmente desligadas de um contexto mais
amplo.
O fim da V gueira mundial e a consequente estruturação de uma nova ordem
colocando em confronto capitalismo e socialismo propiciará alterações importantes no
pensamento geográfico. Ainda mais, o damor dos povos coloniais trouxe à baila, as
discussões acerca das questões do desenvolvimento e seu oposto, o
subdesenvolvimento. No interior desse quadro complexo a dênda do espaço, ou seja a
geografia assume posição de grande importânda sem entretanto, alterar suas bases de
sustentação. Criam-se mapas estatísticos, utiliza-se os fundamentos da matemática, usam-se
os computadores, sem entretanto abandonar de vez os fundamentos do positivismo.
A "Nova Geografia* passa a exercer papel importante no pensamento
geográfico. As diferenças regionais passam a ser anundadas amplamente através de
números variados, sem que se desse conta do processo real: Na verdade não se buscava
entender os fatores responsáveis pelas desigualdades.
No bojo dessas inovações vemos surgir a T eo ria dos Polos de
Desenvolvimento’ que induzia soluções aos problemas do subdesenvolvimento através
de medidas técnicas que não se preocupavam com a realidade histórica também
responsável pela construção daquele espaço. A obra de Yves Lacoste, Os Países
Subdesenvolvidos tomou-se um manual amplamente utilizado, com vistas a superar
barreiras ah colocadas como características do mundo subdesenvolvido. Baixa renda per
capita, aho índice de mortalidade infantil e analfabetismo, baixo consumo energético etc.
21
--- [PDF página 37] ---
eram problenas reconhecidos e que deveríam ser ultrapassados. O problema e que não
se buscava na história desses povos as razões explicativas da situação e desse modo
propunha-se soluções técnicas, despotitizadas a partir dos modelos construídos nas
regiões ditas desenvolvidas.
No Brasil, as novas concepções passam a atuar com grande intensidade
principalmente, na década de 60, com as análises referentes ao 'dualismo' existente em
nossa realidade. O atraso verificado nas regiões do Nordeste e do Norte, seria alterado a
partir dos padrões de desenvolvimento ali aplicados pelas empresas provenientes do
'Sul Maravilha' (leia-se região desenvolvida).
A visão do espaço desumanizado, desprovido de temporalidade predominou no
interior do pensamento geográfico até os fins da década de 60, e no Brasil, condicionou a
criação de análises sobre a Tealidade nacional induzindo concepções onde não se
enxergava a presença da ação humana A geografia auxiliava o estado nos
planejamentos traçados arbitrariamente, estabelecendo divisões regionais a partir do
determinismo geográfico e excluídas as ações humanas. As teses duaüstas correntes da
década de 60 são exemplos do que queremos afirmar, quando percebemos o não
entendimento de uma visão espaço-temporal gerando por exemplo a visão dos '2 Brasis'.
Na década de 70 do nosso século, precisamos mudanças importantes no
pensamento geográfico «pós a criação de uma nova concepção da geografia. A partir
principalmente da obra de Yves Lacoste, A geografia serve antes de mais nada para
fazer a guerraM a geografia passa a ser entendida como um estudo cujo elemento
principal estaria na relação dialética entre o homem e o meio. Através dos postulados do
materialismo histórico uma região determinada deve ser entendida através da relação
espaço-temporal Mais uma vez, Ruy Moreira assim nos informa sobre a nova geografia;
" A soaedaàe é o tema verdadeiro da geografia. E ela esuda-Ia-á a partir
daquilo que é a expressão material visível da soàedade: o e paço. A
sociedade porém, não é um a soàedade de homens iguais, é um a
22
--- [PDF página 38] ---
sodeàade de dasses soam Portanto, a essênda da aparência, estará
ditada pelo caráter histórico que o trabalho adquire em cada
sociedade.
Em outra passagem o mesmo autor afirma:
'Se considarada no seu plano mais geral a geografia é o que Karl
MaizjlSlS - 1863) disse sobre o processo de trabalho, historizaçáo da
natureza e naturização da história M
De uma posição baseada na concepção de um espaço estático predominante na
fundamentação Kantiana ou mesmo Lablacheana, a geografia passa a entender o espaço
como algo dinâmico, sugerindo uma visão baseada na relação homem/natureza. Desse
modo, percebe-se uma aproximação indissociável entre natureza e história, e n te espaço
e temporalidade.
‘O homem é ele próprio natureza e história natureza hominizada A
hominização do homem pelo trabalho de transformação da natureza é
decorrência de ser ele o sujeito objeto da própria história O homem
naturahza-se historizando a natureza e historidsa-se natumrizando a
história Por isto, dialéticamente, quanto mais com o desenvolvimento
dentifíco e técnico o homem cresce em poder sobre a natureza, ele m ais
dela se liberta e mais com ela se funde, porque m ais dela e nela se
incorpora M
Estamos vendo como os conceitos do materiahsmo histónco penetram na análise
espacial, processando mudança qualitativa completa na ciência geográfica em termos de
fundamentação teórica e de procedimento metodológico. O elemento humano passa a ser
enfocado como preponderante sobre o elemento físico na construção do espaço.
Estabele-se a relação entre Modo de Produção e construção do espaço, identificando-se
23
--- [PDF página 39] ---
assim, a sua historiddade. O estudo do espaço toma-se portanto, o estudo de processos
sociais.
Avançando nessa nova concepção da geografia e consequentemente,
absorvendo os fundamentos da teoria marxista, Müton Santost**) sugere a adoção da
categorize Formação Econômica e Social como método de análise dos espaços
regionais. Esta categoria tem a função de expressar a unidade e a totalidade de várias e
diversas esferas ----econômica, social, política e cultural -----da vida de uma sociedade,
daí a unidade da continuidade e da descontinuidade de seu desenvolvimento histórico. O
conceito de Formação Econômica e Social refere-se a uma sodeadade concreta,
estruturadanaturalmente sobre um espaço determinado historicamente.
" O interesse dos estudos sobre ís formações economias e soáiis está na
possibilidade que eles oferecem de permitir o conhecimento de umi
sodedàde na sua totalidade e ms suís fações, m ás sempre em
conhecimentos específicos, apreendido num dado momento de sua
evotuçSo. W
Especificamente, esse conceito deve ser entendido de forma diferenciada do
cconceito do Modate de Produção:
‘ Aqui, a distinção entre modo de produçSo e formaçSo soddl aparece
como necessidade metodolfya O modo de produçSo seria o 'gênero'
aças formações soaais seriam as 'espédes', o modo de produçSo seria
apenas um a possibilidade de realizaçSo, e somente a formaçSo economia
e sodal seria a possibilidade realizada 1^)
Desse modo, é preciso conceber o conceito de Formação Econômica e Sodal
como algo articulado com o conceito de Modo de Produção, garantindo assim, a
historiddade desse conceito. Esse conceito não pode ser entendido como uma mera
expressão econômica dahistórita, abarcando atotalidade daunidade da vida sodal.
U
--- [PDF página 40] ---
Novamente buscamos em Milton Santos a fundamentação teórica que nos permite
avançar na questão, no que concerne à explicitação do conceito proposto:
"Quando se fala de modo de produção, não se truta simplesmente de
relações sociais que tomam um a forma material mas também de seus
aspectos materiais, como àflado político ou ideológico. Todos eles tem
um a influência determinante nas localizações e tomam-se assim um fator
de produção, um a força produtiva, com os mesmos direitos que outro
fator 111)
A relação entre a Formação Econômica e o espaço fica evidente no trecho a
seguir:
m O dado global que é o conjunto de relações que caracterizam um a
sociedade tem um significado particular para cada lugar, mas este
significado nSo pode ser apreendido senão ao nível da totalidade. De fato,
a redistribuição dos papéis realizados a cada novo momento do modo de
produção e da formaçSo social depende da distribuiçSo quantitativa e
qualitativa das infra-estruturas e de outros atributos do espaço. O espaço
construído e a distribuição da população, por exemplo, não tem um papel
neutro na vida e na evolução dos formações econômicas e sociais. 112)
Bastante próximo à posição assumida por Milton Santos, o economista francês
Alain Lipietz(13) introduz um novo elemento para a análise dos espaços, enfatizando a
dimensão política em sua construção. As relações e n te espaço e poder, são na
concepção de Lipietz fundamentais para que se perceba a verdadeira dimensão da
espacialidade.
'M as, em realidade, o papel do Estado no desenvolvimento espacial
remonta aos primeiros estádios do capitalismo e, mesmo, aos modos de
produção anteriores. Com efeito, as razões que fazem com que o espaço
apareça 'em tomo'da sociedade civil como seu ‘ continente 'são as mesmas
que fazem com que o Estado apareça 'acim a' dessa mesma sodede.de: a
25
--- [PDF página 41] ---
divisão do trabalho e a propiedade privada Essa é aliás ; a base da
identificação frequente da instituição e do território: 0 ESTADO. 1H)
lipietz entende o espaço como um locus da ação por excelência, das forças
políticas, sendo o Estado o elemento de unificação dessas ÍO Tças:
‘Não se trata somente da relação entre a instituição política e a
espaàalidade do político,: ainda que esta, em muitos aspectos, desempenhe
o papel principal do espaço soda1 concreto trata-se de compreender que,
se o espaço sodal é a dimensão espadai da sodedade considerada como
totalidade, como comunidade material como produto da atividade coletiva,
independente das atividades particulares, e impondo-se a cada um a delas
como um a força estranha, então ele mantem um a relação específica com as
instituições que apresentam o interesse 'coletivo' e aparecem como
'comunidade ilusória': como o Estado, t^ )
A existência de uma sociedade dividida em dasses possibilita o aparecimento do
Estado como elemento de Tepresentação da ou das dasses dominantes, exercendo
funções de produção ou reprodução desta sodedade. O Estado toma-se um instrumento
das dasses dominantes para dividir, controlar e domar as dasses dominadas. O espaço
que o Estado domina e organiza é o espaço onde se estabelece o poder das dasses
dominantes. Utilizando-se da obra do geógrafo também francês Yves Lacoste, o autor
afirma;
’ É importante dar-se conta de que o espaço não é nem neutro nem
inocente, mas que é um dos campos de ação por excelênda das forças
políticas: O Estado é também um a entidade geográfica e o aparelho de
Estado organiza o espaço geográfico de modo a exercer seu poder sobre
os homens (...) Seria sem importância falar do poder, do aparelho do
Estado, do imperialismo eludindo os problemas da organização do espaço
ou evocandcr-os por meio de noções geográficas, que evitamos com
cuidado, examinar atentamente? . A multiplicação das referendas e alusões
geográficas no universo político faz com que o exame e a cútica do
l í
--- [PDF página 42] ---
discurso dos geógrafos se tomem um a tarefa pohtica cada vez m ais
necessária M
0 Estado assume para Lipietz um papel fundamental na organização do espaço-
nação assim como, na organização dos espaços regionais. Explicitando tal situação,
verificamos sua aproximação com a teoria elaborada pelo marxista italiano Antônio
Gremsci. Através da conjugação entre a noção de hegemonia e de bloco histórico, o
estudioso francês afirma que é possível verificar uma base de alianças entre as dasses
dominantes formando um campo de dominação ideológica sobre as dasses dominadas.
Vejamos a afirmação seguinte:
'Pode-se, pois, de bloco hegemônico regional aceitando essa expressão
no sentido de Gramsd, isto é:
— sistema de exploração e de articulação dos modos de produção;
— forma e base das alianças entre as dasses dominantes;
— forma e suporte da dominação ideológica sobre as dasses
dominadas. W )
Inegavelmente embora percebamos grande apToximação entre o pensamento
teórico de Milton Santos e de A. Lipietz, podemos conferir que o pensamento do
segundo significa um avanço sobre o primeiro, a partir do momento em que aponta para a
questão política, a organização do poder no estabelerimento do espaço regional. Temos
assim, a articulação de três elementos fundamentais e necessários na definição de região,
espaço-tempo-estado. Por outro lado, a elaboração da idéia em tomo da existênda de um
bloco hegemônico regional possibilita-nos perceber como atuam as dasses dominantes
regionais ou locais sobre um determinada realidade espaço-temporal ----queremos
dizer, historicamente determinada Desse modo, podemos retomar às sugestões feitas
por Milton Santos quanto à necessidade de nos ampararmos no conceito de onnação
Econômica e Sodal, como base de nossos estudos regrais. A articulação desse conceito
27
--- [PDF página 43] ---
com o pensamento gramsciano no que concerne às noções de hegemonia permite-nos
alargar nossas possibilidades de compreensão do processo histórico da região que
estudamos.
Não poderiamos deixar de afirmar também, o papel desempenhado pelo capital
na construção e ordenação de um espaço regional, quando falamos naturahnente, de um
momento em que está consolidado o modo de produção capitalista. O recorte regional é
parte da estratégia de dominação do capital Po t outro lado, o Estado-Nação coordena as
espariahdades de acordo com os interesses explícitos do capital, enquanto a região
coordena a viabilização de alguma forma de reprodução do valor articulado pelo e para
o sentido geral do Modo de Produção capitalista
Ao longo de nosso trabalho tivemos algumas dificuldade no sentido de
encontrarmos os fundamentos teóricos necessários para o embasamento de nossa
dissertação. Conseguimos perceber que como se trata de temática recente, a História
Regional carece ainda, de uma discussão mais aprofundada e consequentemente
faltando-lhe uma produção teórica sedimentada Sendo assim, a nossa base de discussão
teórico-metodológica encontrou auxílio importante na ciência geográfica, há mais tempo
voltada para o debate sobre o Regional.
A proliferação de cursos de pós-graduação no Brasil a partir de meados da
década de 70 indicou para os historiadores o caminho da História Regional e
paralelamente demostrou nossa precariedade em termos teóricos-metodológicos. Muito
recentemente, entretanto, deparamos com a produção de alguns artigos, mesas-redondas,
simpósios que colocam a questão de História Regional como ponto de pauta, daí saindo
uma pequena produção teórica voltada para aquela problemática. A problemática História
e Região continua sendo um desafio mas, que já começa a ser transposto quando
verificamos a edição da obra coodemada por Marcos A da Silva, denominada República
em Migalhas - História Regional e L ocali18)
26
--- [PDF página 44] ---
Destacamos aqui o artigo da historiadora Rosa Maria Godoy S ilv e ira !q u e em
certo momento afirma:
" A reconceituação de região se torm necessária para compreendermos e
explicarmos a realidade o m ais aproximademente possível do que eh é e,
assim , nos instrumentalizarmos par d ações políticas visando a sua mudança
Pensando no reexame do processo histórico brasileiro sob esta ótica, a
materialização do uso do conceito sena um novo mapa do Brasil que
apreendesse melhor não só as fronteiras legais m as as varias, superpostas
e conexas espaaahdades Seria configurar um outro Nordeste que não
esse somatório oficial dos Estados, m as cujo espaço não sena contíguo m as
induiria também o território paulista por exemplo. Seria repensar o
significado das unidades pohtrco-administr ativa estaduais não como
regiões, m as atr avessado por regiões, o que exphcana sua diferenciação
intema a articulação de algumas de suas dasses sociais com os interesses
de dasses sociais de outr as unidades Seria exphcai porque o separ atism o
não se concr etiza em nosso processo histórico, apesar das tendências par a
tal. *
% A autora recente da falta de uma teoria histórica voltada para os estudos regionais
e sugere uma criação que privilegiasse os estudos no sentido de perceber a articulação
de dasses sociais que extrapolam as divisões regionais oficiais. Esse coi\Juio no interior
das dasses dominantes brasileiras seria provavelmente, o elemento responsável pela
manuntenção de nossa precária unidade política-territorial
Em outro artigo constante no livro atado, e coordenado por Marcos  da Silva, a
historiadora da UFMG professora Vera Ahce Cardoso Silvai^) sugere elementos para
um enfoque metodológico no campo da históna regional Ressaltando a importância da
História regional, a autora afirma:
‘O exemplo serve par a sugem que a Hrsttóna regional talvez seja o único
método eficaz de testar o âmbito de validade de grandes teonas (ou de
generalizações teóricas baseadas no que poder iamos cham ar de indução
29
--- [PDF página 45] ---
incompleta', a saber, na consideração de um ou poucos casos tomados
como paradigmas)"
Tendemos a concordar com a autoTa, quando percebemos que a História
Regional colocamos em contato com realidades regionais e locais, o que significa um
campo de teste importante no que concerne a validade de certas conclusões históricas
mais abrangentes. A História Regional direciona o historiador à pesquisa e ao pensar
sobre micro-realidades pois, é ali que os homens vivem, e no dia a dia vão construindo
sua própria história, tomando-se o campo de ação ideal para a atuação do cientista social.
2 - ...ENXERGANDO A CIDADE
A questão de cidades e a consequente urbanização no Brasil tèm,
principalmente a partir da década de 70, suscitado grande preocupação entre os cientistas
sociais brasileiros. O impacto da industrialização ^epeníe e o arrastar de uma crise
agrária decorrente da manutenção de estruturas arcaicas, tem trazido como resultado um
amplo processo de migração interna e, consequentemente, o rápido crescimento de
algumas cidades brasileiras Não precifsamos recorrer a dados estatísticos para afirmar
quanto ao crescimento de um conjunto de cidades brasileiras a p .. > anos iniciais do
nosso século, e, a aceleração desse crescimento a partir dos últimos decênios.
Esta situação tem trazido o surgimento de uma série de problemas, comumente
definidos como problemas urbanos. Tem sido comum a presença de setores
representativos da vida pública brasileira proferirem discursos onde a tônica central
estaria na implementação de medidas com vistas a busca de soluções para esses
problemas.
30
--- [PDF página 46] ---
Acreditamos que, frente a esse quadro de problemas sociais tendo como centro a
organização do espaço urbano e a busca de soluções para esta infinidade de questões,
que o meio acadêmico foi estimulado a pensar, consequentemente estudar e propor
soluções. Desse modo, é possível percebermos que nos fins da década de 70 no Brasil,
começam a surgir obras cuja preocupação básica estaria voltada para o estudo do espaço
urbano. Urbanistas, geógrafos, cientistas sociais em geral são responsáveis por uma
produção bastante vasta, de trabalhos, estudos voltados para o melhor conhecimento das
cidades e especificadamente da problemática urbana
É dentro desse quadro amplo de preocupações que podemos entender a
iniciativa do progarraa de pós-graduação da Universidade Federal Fluminense, no
sentido de criar, como área de concentração. Histórica, Urbana e Industrial do Brasil.
Trata-se inegavelmente, de uma Tealização voltada para um tipo de estudo centrado em
uma preocupação das mais pertinentes, sobre nossa realidade. Uma problemática
bastante atual — a cidade, o urbano — que necessita de uma reflexão com base nos
postulados da ciência da História A iniciativa promovida pelo Departamento de História
da Universidade Federal Fluminense possibilita-nos estudar e refletir sobre os temas
urbanos, que na nossa concepção, é hoje dos mais importantes para o cientista social.
A princípio, acreditamos ser necessário distinguirmos com mais exatidão o que
consideramos como o estudo do papel das cidades e especificamente o que constitui a
problemática urbana Essa distinção naturalmente, liga-se a nossa preocupação de
tentarmos elaborar um arcabouço teórico-metodológico com vistas a nos informamos
quanto ao caminho que devemos percorrer em nossa dissertação. Quando iniciarmos
nossas reflexões sobre as origens históricas das cidades, no processo de evolução da
humanidade, dirigimo-nos aos trabalhos de Karl Marx que entende a formação delas e,
suas características como decorrente das diferenças entre os vários modos de produção.
Entretanto, seria no mundo moderno que podemos perceber a consolidação de certo tipo
31
--- [PDF página 47] ---
de cidade subordinando o setor rural. Em seu trabalho. Formações Econômicas Pré-
Capitalistas. Marx resume brilhantemente a situação das cidades no decorrer da História
‘ A comunidade germânica nâo se concentrava na cidade; um a
concentração — a ddade é o centro da vida rural, domicilio dos
trabalhadores da terra , tam bém , núdeo das atividades guerreiras —
que desse a comunidade, como tal um a existênda exterior diferendada
da de seus membros individuais. A história antiga dássica é a história das
ddaàes, porém de ddades baseadas na propriedade da terra e na
agricultura, a história asiática é um a espéde de unidade indiferendada de
ddade e campo (a grande ddade, propriamente dita, deve ser
considerada como um acampamento dos príncipes, superpostos à
verdadeira estrutura econômica); a Idade Média (período germânico)
começa com o campo como o cenário da história, cujo o ulterior
desenvolvimento ocorre, então, através da oposição entre ddade e
campo; a (história) moderna consiste na urbanização do campo e não,
como entre os antigos na rurahzação da ddade. $ 1 )
Como vemos, é a partir do mundo modemo que a cidade assume posição
independente do campo, subordinando-o, trasformando o rural submisso is imposições
das forças sociais e políticas estabelecidas no espaço na cidade. Desse modo, a cidade
moderna toma-se um local onde novas forças se concentram criando medidas de
controle sobre um universo mais amplo que indui ela própria (a cidade) e o setor rural. A
separação entre campo e cidade, segundo Marx e Engels, estaria ligada a separação
entre trabalho material e trabalho intelectual e também ao advento da propriedade
p riv ad a ----a cidade seria o centro de concentração e poder dos detentores da
propriedade. Em brilhante texto, os criadores do materialismo histórico explicam a
história e o papel desempenhado pelas cidades no decorrer da história da humanidade:
“ A maior divisão entre o trabalho material e o intelectual é traduzida pela
separação da ddade e do cam po. A oposição entre a ddade e o campo
surge com a passagem da barbárie à dvüização, da organização tribal ao
32
--- [PDF página 48] ---
Estado , ’ do provéiáalismo à nação epersiste através de toda a História da
ávihzaçâó até os nossos dias. A existência da ádade implica
mediatamente a necessidade da administração, da polida, dos impostos
etc numa palavra, a necessidade da organização comunitíria, partindo da
polida em geral, fâ)
Evidencia-se ai o papel da cidade, como fruto da divisSo de trabalho e
consequentemente como local onde se estabelecem as formas de poder implementadas a
partir da necessidade daqueles que detém em suas mãos a propriedade. A seguir os
autores relacionam propriedades — poder — cidade, à existência da divisão da
sociedade em dasses soriais. A ridade materializa e de certo modo legftrina esta divisão:
'É aí que aparece em primeiro lugar a divisão da população em duas
grandes dasses, divisão essa que repousa diretamente na divisão do
trabalho e nos instrumentos de produção, do capital dos prazeres e das
necessidades, ao passo que o campo põe em evidênaa o fato oposto, o
isolamento e a dispersão. 1^3)
Essa contradição entre ridade e campo para Marx era um fator fundamental no
desenvolvimento histórico, onde o fundamento de toda a divisão do trabalho,
desenvolvida e processada através da troca de mercadorias, materializava-se na
separação entre ridade e campo:
“ O fundamento de toda divisão do trabalho desenvolvida e processada
através da toca de mercadorias é a separação ente a cidade e o cam po.
Pode-se dizer que toda história econômica da sociedade se resume na
dinâmica dessa antítese...
No momento da transição do feudalismo ao capitalismo na Europa Ocidental na
Idade Moderna percebemos um novo padrão de exploração, não mais através de dasses
soriais. Tal situação requer indivíduos livres para vender e comprar mercadorias, sendo
33
--- [PDF página 49] ---
que a própria força do trabalho passa a constituir objeto de compra e venda. Podemos
verificar de um lado, uma força de trabalho, não mais sujeita aos laços de servidão feudal
mas, desprovida dos meios de produção, tomando-se livre para vender sua capacidade
de trabalho. De outro lado, uma burguesia, livre das amarras impostas pelos senhores
feudais, possuidora de capitais, disposta a comprar e usar essa força de trabalho. A cidade
é o espaço onde concentram-se as novas forças históricas, responsáveis pela gênese e
consolidação do modo de produção capitalista. É pois, nas cidades que esse novos
agentes sociais surgem e interagem, onde mais tarde, as fábricas substituirão as
manufaturas e onde o trabalho livre se estabelece como força produtiva ou mesmo como
exército industrial de reserva. À cidade assume pois, papel decisivo para acumulação de
capitais em mãos da burguesia.
O advento da cidade e a concentração das forças produtivas em seu interior,
assim como, as concentrações de mdústnasfavoreceu ao estabelecimento de uma nova
realidade, de um novo modo de vida, condicionada pelos valores capitalistas. Vejamos a
afirmação do professor Ruben George Obven(^) comentando a contradição campo-
cidade no mundo capitalista:
" A s precondições da superação da contradição campo-ddade foram na
verdade, criadas pela própria burguesia industrial. Ao causar a
concentração da população em grandes cidades ela ajudou a diminuir a
dispersão em que vivia o camponês e o isolamento em que trabalhava o
artesão..."
Caminhamos então para um segundo momento de nossas análises quando nos é
possível afirmar a estreita ligação entre o advento da indústria capitalista e a formação e
crescimento das cidades. Não é possível referir a formação das fábricas e da própria
Revolução Industrial sem que se perceba a formação em tomo dessas indústrias todo um
aglomerado de pessoas, constituindo um espaço citadino. Esse falo na Revolução
--- [PDF página 50] ---
Industrial assume um caráter completamente diferente, plenamente novo, como afirma
Paul Singer:
'Se a revolução manufatureira se orientou pelo menos em seu princípio,
contrà i a]fade, conquistando-a de fora para dentro, a revolução
industrial teve por palco, a área urbana. A Revolução Industrial tem por
base uma alteração no modo de produção, que toma o investimento no
instrumento de produção, e não m ais apenas na matéria prima e no
produto acabado, aJtam ente lua ativo. ^5)
Essa grande transformação ocorrida a partir da revolução industrial, quando o
trabalhador direto é separado dos seus instrumentos de produção, direciona o
trabalhador a uma situação de plena subordinação ao capital É nesse momento que o
empresariado percebe ser mais importante em termos de acumulação capitalista, investir
nas inovações técnicas, já que processa-se enorme economia de investimentos no capital
vivo (força de trabalho). A cidade aparece ai como o corolário da indústria capitalista É
ela que concentra a força de trabalho e é ela também, que concentra as técnicas de
produção assim como, grande parte da matéria-prima adquirida no campo. Desse modo a
produção industrial subordina o campo, não mais por direitos e concessões impostas pelo
Estado mas, sim pela superioridade da sua produção. A divisão campo-cidade se estrutura
a partir dal como resultado da função qualitativa assumida pela cidade, que extende essa
nova relação a níveis internacionais, correspondendo a ampliação a níveis globais da
divisão e subordinação do campo pela cidade:
'Durante todo esse período (fins do sécXVIII e meados do sécXDQ, a
economia urbana inglesa permaneceu como centro dinâmico de um
sistema intemadonal de divisão do trabalho que tinha o campo da maior
parte dos outros países como grande área periférica A partii de 1675 m ais
ou menos esse quadro se modifica, mas apenas no sentido da substituição
do monopólio industrial inglês pelo monopólio análogo de um punhado de
nações — Estados Unidos, Alemanha, Japão, França, além da própria
35
--- [PDF página 51] ---
Inglaterra etc. ----cuja economia urbana se industrializa passando a
absorver, do campo de seus próprios países e dos demais, matériasprimas
e alimentos, fornecendo em toca bens industrializados. 12?)
Verificamos então, um movimento no sentido inverso a aquele verificado em
outros modos de produção. Ao invés de uma ruralização da cidade, o que percebemos é
uma urbanização do campo. Tal urbanização entendida como não só um processo de
subordinação do campo pela cidade a níveis econômicos mas também, a imposição de
produtos, valores, modos de vida.
Especificamente, ao estudarmos a formação social friburguense verificamos a
princípio, sua caracterização como uma extensão do mundo rural. Com o passar dos anos
e com a solidificação da ferrovia, assim como a implantação das indústrias no município,
podemos perceber a constituição de uma situação inversa Isto é, a cidade de Nova
Friburgo irá se afirmando como espaço separado e subordinador do mundo rural. Muitos
dos produtos necessários á economia rural passam a ser produzidos na cidade alterando
profundamente a situação do campo:
‘Com o advento da indústria, a superioridade do produto urbano, tanto em
preço quanto em qualidade, pouco a pouco, eliminou a produção de
subsistência do campo, tanformando o camponês num agricultor
especializado. A partir de um certo momento, a indústria urbana
revolucionou também a tecnologia agrícola, passando a fornecer ao
campo seus principais instrumentos de produção: arados de feno,
fertilizantes, tratores, colhedenas, energia elétrica, vacinas etc 128)
Quando falamos em cidades, principalmente aquelas decorrentes do processo de
industrialização ou quando falamos em mundialização das indústrias é preciso lembrar
que o espaço da cidade é um local onde vivem e convivem dasses sodais. Se tentarmos
através da história ----e a história preocupa-se com a gênese dos feitos humanos —
perceber a dinâmica dos fatos ocorridos no espaço denominado urbano, temos
36
--- [PDF página 52] ---
necessariamente que tentar entender a constituição e organização das dasses sociais que
se estabelecem nesse espaço.
*Portanto > quando se pensi em urbanização num » sociedade em que se
industrializa, é preciso procurar pelo papel que as dasses sociais
desempenham nela, pois em caso contrário ela tende a ser tom ada como
um processo autônom o, fruto de m udanças de atitudes e valores da
população rural perdendo-se de vista seu significado essencial para o
conjunto da sodedade. $9)
Ao concordarmos com o texto arima isto é, ao confirmarmos em nossos estudos a
presença de dasses sociais em confronto promovendo a dinâmica sorial de uma ddade
achamos necessário, a prindpio, retomar a ídeia de Formação Econômica e Sorial
assumida por nós, para analisarmos a questão regional. É através desse conceito que
acreditamos na possibilidade de analisarmos uma realidade concreta. Articulando esse
conceito com a situação concreta das dasses sociais é assim, que pensamos estudar a
questão da cidade de Nova Friburgo e a partir daí, entendermos o dinamismo de seu
processo. Para tal situação, apoiamo-nos no trabalho de CSro Flamarion S. Cardoso e
Hector Pérez EtrignotiPO) concernente âs bases para análise de dasses sociais.
Acreditamos que a noção de fração de dasses seria fundamenta] em nosso trabalho.
‘Sila posidón de 'grandes grupos de personas ' com respedo a los médios
de producdón nos permite determinar las dases en el seno de una
formadón económicosodal dada en estúdio partícula de la constitudón
y la lucha da las dichas dases, en el que todas as determmadones
históricas da cada caso concreto deben examinase, tendrá que induir
conceptos que permitan analiza las diferendadones posibles, tanto en el
interior de las dases dominantes como de las dases subordinadas. £*1)
Sem dúvida ao pensarmos a cidade capitalista, resultado do processo de
industrialização considerado a nível mundial ficariã^dubiíavelmente incompletas nossas
37
--- [PDF página 53] ---
conclusões, caso não «tentássemos p«r« o elemento classes sociais em lutas cotidianas
nesse espaço determinado. Sendo assim, num «parente caos encontrado intemamente
nas cidades é possível compreender um movimento constante, natural que existe a partir
da existência dos indivíduos que habitam e circulam por esse espaço. Tais indivíduos
entretanto, não formam uma unidade social. Ao contrário dividem-se em dasses e estas
por sua vez, dividem-se em frações de dasses. De acordo com o tipo de adade que
pretendemos estudar encontramos grandes empresários, pequenos industriais, grandes e
pequenos comerdantes, finanristas, funaonários públicos, profissionais liberais,
operários etc. Naturalmente, como consequênda das diferenças, os interesses das dasses
ou mesmo das frações, resultam em conflitos responsáveis muitas vezes, pela dinâmica
sodal, cultural, esportiva da própria adade.
Atingimos o momento em que toma-se necessário definirmos com melhor dareza
o significado da questão urbana Até então acreditamos ter estabeleddo indicações no
sentido de entendermos historicamente o papel das ddades no mundo contemporâneo.
SuTgidas a partir da industrialização européia nos séculos XVIII e XIX, estas ddades
constituem inegavelmente, um espetáculo novo para a humanidade. A partir desse
momento estabelecem-se novas relações sodais, novas formas de poder, novas formas
de produção enfim, tra^consigo os padrões das novidades consequentemente institui «s
idéias de modernidade. Em Tudo que é sólido desmancha no ar Marshall Berman(32)
estuda prindpalmente as ddades de Paris e São Petesburgo à luz das trasformações
vividas nos últimos séculos, que ele mesmo denomina de aventura da modernidade. No
prefádo de sua obra o autor adverte:
'Ser moderno é viver um â vidi de paradoxo e contradição. É sentir-se
fortalecidos pelas imensas organizações burocráticas que detêm o poder
de controlar e frequentemente destruir com unidades, valores, vidas; e
ainda sentir-se compelido a enfrentar essas forças, e lutar para m udar o
seu mundo transformando-o em nosso m undo. É ser ao mesmo tempo
revolucionário e conservador, aberto a novas possibilidades de
38
--- [PDF página 54] ---
esperiênda e aventura, aterrorizado pelo abismo nihihsta ao qual tantas
das aventuras modernas conduzem, na expectativa de criar e conservar
algo real dnda quando tudo em volta se desfaz. ^3)
São profundas as transformações surgidas com o advento das cidades, indusive o
espetáculo da modernidade só é possível ser compreendido a partir delas.
No espaço interno das cidades desenvolve-se um novo tipo de sociedade
denominada urbana. Ser urbano não só identifica o habitante da cidade como também,
identifica o indivíduo afável, cortez, educado, civilizado. Na eterna dicotomia campo-
ddade, cabe ao primeiro a representação das idéias de velho, de atraso, enquanto que
ao segundo cabe a representação iríersa da modernidade.
É uma nova sociedade que emerge com características próprias, com problemas e
soluções também próprias. Anotemos a definição proposta por Henri Lefebvre:
'Para nosotros ; el término 'soàedad urbana' Io aplicam os a Ia sodedad
caracterizada por um proceso de dom inación y asimilaáón de I a
produdón agraria Dicha sodedad urbana no puede concebiise sino
como culminadón de un proceso en el que, a través de transformadones
discontínuas, Ias antiguas formas urbanas estallan ... 1^4)
E mais adiante, o mesmo autor afirma;
" P ara definir la sodedad posindustnal es dedr, aquella que nace en Ia
mdustnahzadón y sucede a esta, proponemos el concepto de sodedad
urbana, que hace referenda, m ás que a una realidad palpable, a una
tendendo, una orientadón, una virtualidad < 35)
Estudar pois, a sociedade urbana ou mesmo, o confronto amplo de elementos que
compõe a chamada problemática urbana é para nós fundamental. Inidahnente,
entendendo a relação capitalismo-indústria e ddade e posteriormente, como centre maior
39
--- [PDF página 55] ---
de nossas alenções, a constituição do espaço urbano. Trata-se de estudar a ddade em sua
dinâmica interna, como interagem os elementos vivos que compõem a chamada
sociedade urbana. É estudar a cidade não mais de fora para dentro mas sim, inversamente
de dentro para fora, caracterizando esse estudo de uma formação econômica e social
com base nos elementos concretos no dia a dia daquela realidade. Ao fazermos o recorte
do elemento urbano não podemos perder de vista os vfnculos constantemente mantidos
com a estrutura maior na qual a cidade está inserida Em suma, seria estudar uma
sociedade urbana de uma formação social específica mas, menter a atenção voltada para
os mecanismos do mundo capitalista que geraram esta sociedade.
Quanto às questões teóricas da urbanização, cremos ser importante a referenda
às obras de Manuel Castells(^), pois bata-se de um autor que rompendo com as visões
funaonalistas dos sociólogos de Chicago, baz para a análise da questão urbana a idéia de
que as conbadições intemas das ddades devem ser analizadas a partir de sua
conjugação com as conbadições do próprio modo de produção capitalista Trata-se de um
autor que tem influenciado bastante aprodução de estudiosos brasileiros sobre a questão
urbana Sua contribuição é inegável, prinripalmente por ter buscado nos pressupostos do
materialismo histórico os elementos para a anáhse dessa questão. É também
inquesbonável que seus babalhos muito contribuiram para uma compreensão dos
vínculos enbe processo urbano contemporâneo e a consolidação capitalista Interessante
também, é quando analisa a problemática da urbanização das regiões capitalistas
dependentes.
Enbetanto, é necessário discutir a obTa de Castells e por extensão, grande parte
da obra de autores brasileiros sobre esse assunto. Não se bata de negar mas, sim tentar
fazer algumas qualificações sobre sua obra. É que o AutoT pensa a questão do Modo de
Produção Capitalista essencialmente no que tange aos problemas do capital como
norteador do espaço e de toda malha urbano. Desse modo, fica evidente, uma
preocupação rirculacionista do capital. Falta a Castells, e a seus principais seguidores.
--- [PDF página 56] ---
pensar a urbanização a partir da ótica da constituição das dasses sociais e mais ainda, a
dinâmica da luta de dasses, que são em nossa concepção, elementos fundamentais para
se compreender em profundidade a essênda do modo de produção capitalista.
Uma outra séria questão concernente aos estudos relacionados à ridades ou
espaços urbanos tem surgido dos trabalhos produzidos pelos estudiosos de planejamento
urbano e do urbanismo, no plano mais geral. É bem verdade, que por razões óbvias não
temos condições de avaliar um número razoável dos trabalhos produzidos no Brasil.
Outrossim, podemos afirmar, analisando parte da obra de Carlos Nelson Ferreira dos
Santos(37) que além de certa aversão à teoria que nos permite pensar o urbano, promove
estudos sobre cidades sem se importar com os fatores históricos em sua formação.
Vejamos a postura do Autor quanto à questão teórica:
‘ Se as cidides não existirem d nível do pensamento, como um recorte
concreto que possibilite passagens rápidas do tipo teoria/prática
aperfeiçoada/prática m ais precisa e assim por diante não adianta nada lhes
dar atenção. V istas de longe e de um a perspectiva que homojfíiiza tudo a
partir das causas determinantes, elas são mesmo um a expressão e das m ais
complexas das formas avançadas do capitalism o ou pelo menos da cultura
industriahsta Vê-las assim (Castells, 1975, eLojkme, 1977) é submetê-las e
a nós, ao im obilism o na pequena escala, em que, de fato, podemos agir, em
favor de pretensos dinam ism os em esferas que somente percebemos no
meio de brum as oníricas das altas teorias.
Verificamos nesse trecho do artigo de Carlos Nelson algumas afirmações quanto
ao papel da teoria que possivelmente, demostra um entendimento errôneo quanto a ela
Na verdade, a teoria ao invés do imobilismo que pode provocar, é capaz de ajudar ao
cientista social pensar, refletir com maior profundidade sobre a questão urbana ou sobre
outra temática qualquer. Ao invés de homogeinizar os estudos, o pensamento teórico
estimula os cientistas a buscar elementos que possam permitir maior profundidade em
suas conclusões.
41
--- [PDF página 57] ---
Em outra muito bem cuidada obra, a cidade como um jogo de cartas. Carlos
Nélson demostra um grande brilhantismo associado à criatividade também grande ----
pensar a cidade como cartas de tarot ou como um jogo de baralho. Trata-se de um livro
de enorme beleza plástica e resultado de uma pesquisa profunda Entretanto, os
fundamentos teóricos que embasam a obra são de profundidade inversa, tomando o
arrolar dos dados obtidos na pesquisa extremamente dfccritivos. O trabalho de analise
desses dadojnão condiz, em termos de profundidade, com a proposta efetuada A
pobreza teórica impede que o cientista faça os questionamentos necessários para
obtenção de resultados conclusivos de maior profundidade.
Vejamos um outro trecho do mesmo Autor.
'Prefiro Acreditar que só rale refletir sobre o espaço urbano, se a
atividade incluir a transformação e a ação efetiva sobre o que é pensado.
Em outros termos: pensamento sobre cidades que não se considera capaz
de transformarias, que não as aceita como um locus de contradições
especificas e não percebe a sua potencialidade de propiciar mudanças,
não me interessa ^9)
Vemos assim, o Autor assumindo um compromisso com a mudança e a
transformação da cidade. Ora, no momento em que abandona uma teoria mais
aprofundada, nos apresenta a questão de transformar para que e para onde? Qual a
pespectiva de mudança apresentada pelo Autor? Não estaria ele, ao recusar um
aprofundamento teórico, coirendo o risco de mudanças que tomem um reforço aos
detentores do poder? A falta de uma perspectiva que o possibilite entender o urbano
como um espaço onde dasses e frações de dasses agem e interagem pode sugerir
alternativas de mudanças nem sempre atendendo aos anseios daqueles setores sodais,
geradores das prindpais demandas.
--- [PDF página 58] ---
Passemos então, ao entendimento dos mecanismos de funcionamento de um
espaço urbano. Economicamente, a primeira observação que podemos fazer é o fato de
nenhuma cidade ser auto-suficiente Devido a extrema concentração de suas atividades e
a ocupação de um território exíguo, as ireas urbanas dependem de regiões fora de seu
espaço, que lhes forneçam alimentos e matérias-primas. Estabelece-se então um sistema
de trocas, onde a rede urbana obtém matérias-primas e gêneros provenientes do setor
primário e em contrapartida fornece a essas áreas os industrializados e serviços. Essa
troca e distribuição não se processa diretamente. Os produtos perconem canais variados
até chegar ao consumidor final. As várias intermediações ocorridas nesse processo irão
formar a chamada rede urbana, composta por trasportadores, comerciantes, mercadores,
atravessadores etc. As funções da rede urbana são bastante variadas — além do
excedente agrícola obtido no campo e vendido na própria ou em outras cidade, ela pode
fornecer também, serviços. Nova Friburgo, no período compreendido entre 1890 e 1930,
criará uma rede urbana fornecedora de hortifrutigrangeiros, produtos da indústria têxtil
e serviços de um modo geral ---- turísticos, educacionais ---- principalmente,
direcionado ao meTcado do Rio de Janeiro.
No que tange à estrutura interna da economia urbana, podemos perceber que se
divide em atividades que se destinam ao mercado externo (outras localidades) e
atividades voltadas para o consumo intemo(^). As atividades econômicas de um certo
núdeo urbano definem as características desse espaço, conforme Paul Singer:
'Se exam inarm os, agora, a economia de um a àdade por dento,
verificamos que ela se divide em duas partes: atividades que se destinam
ao exterior e atividades que atendem o consum o interno. São as primevas
que definem a função econômica da cidade. M
Explicitando o que considera as funções e objetivos dessas atividades, Paul
Singer nos fornece as explicações seguintes:
--- [PDF página 59] ---
'Se um a adade possue um amplo parque industrial é obvio que parte da
produção serí consumida pela própria população da cidade M as o fato de
que um a parte importante da produção industrial é exportada (para outras
partes do país ou para o exterior) é que confere carãter industrial à
cidade. Mesmo um a cidade não industrial quase sempre tem algum a
indústria de consumo local: padarias, construção ávil olarias etc 0 mesmo
é verdade quanto aos serviços: qualquer cidade possui p*ra o
atendimento de sua própria população, comércio verejista, serviços de
recreação, serviços religiosos etc. Porém são os serviços que ela exporta
que lhe definem a função econômica
É importante perceber na organização econômica que se processa intemamente
na cidade a existência de atividades produtivas voltadas para os mercados intemos e
externos. As atividades ligadas ao mercado externo definem o perfü econômico da
cidade. Essas atividades é que possibilitam a acumulação de recursos que por sua vez,
podem ser aplicadas nos equipamentos intemos da cidade:
'A relação entre as atividades de exportação e as de consumo interno no
seio da economia urbana são bastante complexas. Como a cidade não é
auto-suficiente, o seu tam anho é, em últim a análise, determinado pela sua
capacidade de importai, que resulta primordialmente do valor de sua
exortação. Se este for elevado, o nível de renda é alto, o que geralmente
atai imigrantes, acarretando o aumento da sua população e,
consequentemente, o desenvolvimento das atividades do consumo
interno. Como no entanto, a distinção entre os dois tipos oe atividade é
bastante abstrata (a não ser em casos extremos) pois a cidade exporta
excedentes de sua produção para o consumo interno, o seu crescimento
pode alimentar sua exportação constituindo-se deste modo em processo
cumulativo de crescimento. Assim, se um a cidade aplica recursos para
aprimorar seu equipamento escolar ou de assistência à saúde tendo em
vista atender sua população, a consequência (inesperada) pode ser que
surja um a clientela de fora disposta a usar esses recursos, t^ )
--- [PDF página 60] ---
Essa exportação pode se constituir, não apenas no sentido da produção material
mas também, na produção e exportação de serviços turísticos, burocráticos, escolares,
lazer etc. Não é possível compreender a economia de uma cidade sem situárla no
contexto da rede urbana da qual ela faz parte, e sem determinar suas especializações. A
magnitude dessas funções é que determina o tamanho desta cidade, as possibilidades
futuras de sua economia e o direcionamento do seu crescimento.
Caminhando em direção as formas de pensar o espaço urbano, o que nos indica
os elementos teóricos-metodológicos da nossa ação de historiador podemos também
entender, que os elementos econômicos que atuam na cidade não são por si só, os únicos
capazes de definir o perfil dela Toma-se necessário perceber como se articulam esses
elementos componentes da cidade capitalista que constituem o fazer-se da própria
cidade. A organização, a articulação desses vários elementos fazem parte de uma
construção montada pelos chamados ‘poderes públicos' estabelecidos no próprio espaço
urbano. É a partir do entendimento do jogo das forças políticas e a estruturação do poder
do estado ----municipal, estadual e nacional — que nos possibilita um entendimento
do direcionamento não só econômico mas também, espacial ocorrido na cidade estudada.
Carlos Waher Porto Gonçalves no artigo ‘Um passeio pela ordem do caos urbano'!^)
faz a seguinte afirmação:
‘O processo de organização do espaço urbano não e assim tão caótico.
Ele tem suas leis, que são as da sociedade na qual está inserida a àdade
Tampouco podemos falar de falta de planejamento por parte do Estado, já
que foi feita um a opção pelos investimentos necessários ao
desenvolvimento industrial Planejar é fazer opções e ai se coloca um
sério problema: o ato de planejar não está desvinculado daqueles que
controlam os orgãos governamentais de planejamento... De certa form a,
somos forçados a concordar com o economista norte-americano P . Baran
quando este diz que “ não é o planejamento que planeja o capitalism o, m as
sim o capitalismo que planeja o planejamento
--- [PDF página 61] ---
Inegavelmente o trabalho de organização e planejamento isto é, o
direcionamento implementado à cidade é resultado de forças políticas que assumem o
poder municipal ou até mesmo nacional. O cientista social Francisco de Oliveira, ao
prefaciar o livro Á Produção Capitalista da casa (e da moradia) no Brasil Industrial(^)
nos fala sobre o papel de unidade representado pelo estado na implementação das
políticas públicas:
* U m a unidade não explicitada costura a série de estudos ora oferecidos
ao público leitor. Sua não explicitação é um a riqueza do método e não
um a falha Essa unidade não explicitada é o Estado. Fácil seria partir do
Estado\ de sua intervenção: do caráter autoritário do regime, e obter-se
resposta dedutivista, onde tudo esta provado desde o principio ... A partir
das expressões concretas do modo como se faz a cidade, do modo com o
se produz o espaço, do modo como as dasses sociais subalternas
'resolvem' seu problema de m oradia, do modo como tanto o espaço
sodalmente produzido quanto a auto-construção são postas a serviço do
processo de reprodução do capital é que surge o Estado ... o Estado
emerge como um a relação social, e não como 'aparelhos' da concepção
poulantziana
Na verdade o Estado, deve ser entendido como um elemento que articula o
conjunto da produção capitalista. Desse modo, o Estado deve ser visto como um elemento
possuidor de certa autonomia de atuação, o que inviabiliza entendê-lo como 'aparelho',
parte de um certo modo de pensar marxista Assim, o Estado cumpre o seu papel, cuja a
função principal é a de promover a unidade das frações sociais dominantes. Cabe-nos
portanto, no estudo que fazemos sobre determinado espaço urbano, considerar o poder
público muniapal como um local onde se centram os interesses resultantes das demandas
impostas pelos grupos dominantes que atuam naquele espaço. É desse modo, que
devemos nos apoiar mais uma vez, no conceito de hegemonia definido por Antonio
46
--- [PDF página 62] ---
Gramsci A prindpio, sentimos 4 necessidade de buscar neste Autor, 4 articulação feit4
entre bloco histórico e hegemonia:
"Vemos àssirti mais umi vez, a sodedáde que se apresenta como
totalidade que deve ser àbordàdi em todos os seus níveis. É, m«is umi
vez, 0 concerto de bloco histórico. A hegemonia tende a construir um
bloco histórico, ou seja, a reAlizAr um a unidade de forçAs sooaís e políticAs
diferentes, e tende a conservó-tAS juntAS A t avós dá concepção de mundo
que elA Paçou e difundiu 'A estruturA e as superestruturai ■ - diz ele -
formam um bloco histórico'. A lutApelA hegemoniA deve envolver todos
os níveis dA sodedáde. a báse econômica, a superestruturA política e a
superestrutura ideológica
Em outro trecho de seu trabalho, Luciano Gruppi explica a questão da hegemonia
criada por Gramsci:
‘Mas 6 com Gramsd que 0 processo que tem lugar no nível dAs
superestruturas ideológicds é darificado em todA sua complexidade,
grAÇds a atenção que ele dedicA ao momento cultural. O conceito de
hegemoniA permite precisAmente que se o p te a complexidade dos planos
superestruturais, Assim como complesddàde de todo 0 desenvolvimento dA
formAçÃo econômico socía I. 1^)
Desse modo é possível explicar 0 conceito de hegemonia a partir de certas
condições estabelecidas:
"UmA determinAdA dâsse, dominante no plano econômico e, por isso,
também político, difunde uma determinada concepção do mundo:
hegemoniza assim toda a sodedáde, amalgama um bloco histórico de
forças sodais e de superestruturA políticas por meio da ideologia Essa
hegemonia en ta em crise quando desaparece sua capacidade de justificar
um determinado ordenamento econômico epolítico da sodedáde. f5 0 )
47
--- [PDF página 63] ---
Assim, na construção do poder municipal devemos buscar nos grupos que
conseguem impor seu projeto hegemônico de governo, os elementos principais na
montagem e ordenamento do espaço urbano. Desse modo, aproximamo-nos das
conclusões que adotamos quando falamos das possibilidades teórico-metodológico para
nosso estudo de história regional. Buscar uma percepção da construção da hegemonia
pelas dasses dirigentes, seja no âmbito do espaço regional, seja no âmbito do espaço
urbano é tarefa necessária e fundamenta] para historiador preocupado com estudo
dessas questões.
Em momento anterior desse nosso trabalho indicamos a necessidade de uma
abordagem teórica que centrasse suas atenções, a pnndpio no conceito de Modo de
Produção para o estudo dos espaços urbanos. Outrossim, apresentamos evidências
também, da necessidade de articularmos essa postura conceituai com o conceito de
Formação Econômico-Sodal, o qual nos permite manipular as condições concretas em
uma região, entendida em suas dimensões espaço-temporais. Desse modo, acreditamos
ser fundamental que articulemos a teoria do modo de produção com o conceito de
Formação Econômico-Sodal, ao forjarmos alicerces de nosso trabalho. Ficaria incompleta
nossa discussão caso não atentássemos para a problemática da análise de conjuntura
histórica, que percebemos aproximar bastante ao conceito de Formação Econômico-
Sodal Como historiador, embora não abandonando a noção de estrutura bastante
próxima do conceito de Modo de Produção, afirmamos que a busca dos fatos da
conjuntura é que permite a hgação direta com o conceito de Formação Econômico-Sodal
Piene Vüar(^) assim define sua visão de conjuntura.
‘ No sentido m ais geral * conjuntura é o conjunto das condições
articuladas entre si que caracterizam um dado momento no movimento
global da m atéria histórica Nesse sentido,\ trata-se de todas as condições;
tanto das condições psicológicas; políticas e sociais, como das econômicas
ou das meteorológicas.
48
--- [PDF página 64] ---
No ámatgo de o que temos denominado a 'estrutura'de um a sociedade,
cujas relações fundam entais e cujo princípio de funcionamento são
relatrvamentet estáveis, processam-se em contrapartida incessantes
movimentos resultantes deste mesmo funcionam ento, os quais m odificam a
todo o momento o caráter destas relações, a intensidade dos conflitos, as
relações da força'
Ao desenvolvermos um estudo sobre um momento da formação econômica-soaal
friburguense, no período compreendido entre 1890 e 1930, não pretendemos
inegavelmente, perder de vista os fatores estruturais que compõem o tempo de longa
duração. Outrossim, o nosso propósito ----e não abandonando os elementos estruturais
----centrar nossas atenções no movimento dos fatos históricos que fazem parte da
conjuntura de Nova Friburgo, no período por nós estudado.
Em conclusão, pretendemos estudar Nova Friburgo e seu processo de
urbanização no momento de sua inserção no modo de produção capitalista, a partir de
fins do século XIX e durante os 30 primeiros anos do século XX Ao mesmo tempo,
centrar nossas atenções no jogo político que se processou em tomo do poder municipal,
cujo controle tomava-se fundamental para o estabelecimento das dasses dirigentes, no
sentido de possibilitar-lhes a implementação de políticas, necessárias a acumulação
capitalista. O controle, o ordenamento, a ordenação do espaço urbano friburguense vão
se constituindo com formas tipicamente capitalistas. A ocupação dos espaços urbanos
obedecem necessariamente à lógica capitalista, podendo-se perceber, através da malha
urbana implantada, a diversificação e a segmentação da sociedade friburguense. Por
outro lado, a construção de um discurso enfatizando as origens suiças de sua população,
constitui-se num arcabouço ideológico adequado as necessidades dos capitalistas alemãs
associados aos dirigentes locais, na criação do perfil específico da cidade de Nova
Friburgo.
Olhar nossa região, enxergando a cidade é nossa proposta de ao pensarmos a
formação Social friburguense, não isolá-la do contexto regional — seja no contexto do
49
--- [PDF página 65] ---
centro-norte fluminense ou no contexto do Estado do Rio de Janeiro ----mas,
centrando as atenções na construção histórica do espaço interno da cidade.
50
” n’'9 «• Do u m e
«Moric, . pr o M k i
--- [PDF página 66] ---
NOTAS: DQ 1} CAPÍTULO
(1) - CARDOSO, Ciro F.S Agricultura. Escravidão e Capitalismo. Petrópobs, Ed.Vozes,
1982, p.76.
(2) - MOREIRA, Ruy. A que é Geografia. SP, Editora Brasíliense, Coleção Primeiros
Passos n ! 48,1961, p. 19.
(3) - LACOSTE, Yves. A Geografia serve antes de mais nada para fazer a guerra.
Lisboa, Iniciativas Editorais, 1976.
(4) - idem, ibidem.
(5) - MOREIRA, Ruy - op dt6,p 6 8 .
(*>)-idem,p.74.
(7) -idem,p.80.
(8) - SANTOS, Milton. Sociedade e espaço; a formação social como teoria e como
método. Boletim Paulista de Geografia. SP, AGB, n! 542, 1977, pp.81/99.
(9) — idem, p.84.
(10) -idem,p.85.
(11) — idem, p.91 .
(12) - idem, ibidem
(13) - LIPIETZ, Alain. O capital e seu espaço SP, Nobel, 1988.
(14) - idem, p. 148.
(15) - idem, p. 149.
51
--- [PDF página 67] ---
(16) - idem p.150. A afirmação de lipietz apóia-se em Yves Lacoste. La Philosophie des
saences Sociales. Paris.
(17) - idem, p. 159.
(18) - SILVA ,Marcos A da (coord.j. República em Migalhas - História regional e local.
SP, Ed. Marco Zero e CNPQ, 1990.
(18) - SILVEIRA, Rosa M . Godoy. Região e História; Questão de Método in SILVA
Macos A (coord.), op.rit, pp. 17/42.
(20) - SILVA Vera Alice C. Regionalismo; o enfoque metodológico e a concepção
histórica in SILVA Marcos A (coord ), op.rit, pp.43/49.
(21) - MARX, Karl. Formações Econômicas Pré-Capitaíistas RJ, Ed. Paz e Terra, 1975,
pp.74/75.
(22) - MARX, K. e Engels, F A ideologia alemã. Portugal, Editorial presença, Brasil,
Livraria Martins Fontes, p.62.
(23) _ idem, ibidem.
(24) - MARX, K . O capital (crítica da economia política). RJ, Ed. civilização Brasileira,
V.l,p.404.
(25) - OLTVEN, Ruben George. Marx e as cidades em Konder, Leandro et alh. Por Que
Mar*? RJ Ed. Graal, 1983, p.340.
(26) - SINGER, Paul. Economia Política da urbanização. SP, Ed. Brasiliense, 1 0 * ed.,
1985, p.27.
(2?)— idem, p.26.
(28) - idem, ibidem.
(29) — idem, p.28.
52
--- [PDF página 68] ---
(30) - CARDOSO, CSro F.S. e Brignob, Hector P. El Concepto de Qases Sodales - Bases
para una discusion Madrid, Ed. Ayuso, 1977.
(31) -idem ,p. 89.
(32) - BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da
modernidade S.P., Companhia das Letras, 1986.
(33) — idem, p.15.
(39) - LEFEBRE, Henry. La Revolucion Urbana. Madrid, Alianza Editorial, 4! ed, 1983,
p.8.
(35)-idem , ibidem.
(38) - CASTELLS, Manuel. Probomas de Investigadón en Sociologia Urbana Buenos
Aires, sigloXXI, 1972.
(37) - Para nossos comentários estudamos as seguintes obras:
- SANTOS, Carlos Nelson F. Habitação - o que é mesmo que pode fazer quem
sabe in. VALADARES, Lida do P. Repensando a Habitação no Brasil. RJ, Zahar
Editores, 1982, pp.79/108.
—. A ddade cnmo um jogo de cartas. Niterói, UFF. EDUFF, 1988.
(38) -o p .d t, 1982, p.82.
(39) - idem, ibidem.
(90) - SINGER, Paul. A ddade na estrutura economica in Economia política da
Urbanização, op d t, pp.137/144.
(91) - idem, p.143.
(92) - idem, ibidem.
(93) - idem, ibidem.
53
--- [PDF página 69] ---
(44) - GONÇALVES, Círios Wílter P. Um pdsseio pela ordem do caos urbano in Paixão
da Terra - Ensaios críticos de Ecologia e Geografia. Rocco/Sodi, 1984, pp.63/79.
(45) -idem,p.76.
(46) - MARICATO, Ermínia (org). A produção capitalista da casa (e da moradia) no
Brasil Industrial. SP, Ed. AKa-Omega, 1982.
(47) -OLIVEIRA, Francisco, idem,p. 1 8 .
(48) - GRUPPI, Ludano. Conceito de hegemonia em Gramsd. RJ, Edições Graal, 1978,
p.78.
(49) — idem, p.90.
(50) - idem, ibidem.
(51) - VILAR, Pierre. Inidação do Vocabulário da análise histórica. Iisboa, Edições João
Sá da Costa, 1985, pp.77.
54
--- [PDF página 70] ---
capitulo II
A NOVA FRIBÜRGO nos
primórdios da velha
república
--- [PDF página 71] ---
CAPÍTULO II
A NOVA FRIBURGO NOS PRIMÓRDIQS DA VELHA REPÚBUCA
1 - UM BREVE HISTÓRICO DA FORMAÇÃO FRIBURGUENSE
Muito se tem debatido hoje em dia sobre a questão da urbanização do Brasil e
consequentemente sobre a formação e consolidação do modo capitalista de produção em
nosso país. Entretanto, de forma bastante natural, os olhos de historiadores, economistas
voltam-se quase sempre para a análise dos processos mais evidentes como São Paulo e
Rio de Janeiro. Sendo assim, grande parte das discussões são travadas em torno dos
grandes temas da urbanização obscurecendo muitas vezes, experiências de menor
impacto a nível nadonal.
Desse modo, o estudo do processo histórico de formação de Nova Friburgo passa
ater um sentido especial.
Nova Friburgo fora no século XDC, uma área de colonização agrícola projetada
por D. João VI, cuja ocupação se deveu inicialmente, à vinda de famílias suiças que se
estabeleceram na antiga fazenda do Morro Queimado, no alto da Serra do Mar, nas
proximidades das regiões de Macacu e Cantagalo. Tal medida visava prinripòhnente, a
criação de uma área de colonização, baseada em pequenas propiedades pobcuhoras,
com vistas a atender ao mercado da cidade do Rio de Janeiro.
Recrutados na Europa em 1818, embarcaram em direção ao Brasil, um total de
2.006 (dois mil e seis) emigrantes. Ao longo da viagem em direção ao Brasil, morreram 385
(trezentos e oitenta e cinco), chegando à colônia do Mono Queimado, em inícios de
1820, um total de 1.60? (hum m il, seiscentos e sete) suiços(l). Tal situação leva-nos a
pensar sobre as condições de saúde da população embarcada na Europa bem como, as
condições de viagem. Na verdade, podemos conduir sobre a precariedade das
55
--- [PDF página 72] ---
condições dos colonos que se apresentaram para a colonização oficial de Nova Friburgo.
As difíceis condições de chegada dos colonos, somadas às dificuldades de contato com a
cidade do Rio de Janeiro (4 dias de viagem) e acrescida da pequena ajuda
gorvenamental explicam de certo modo, aquilo que se chamou o "fr acasso da
colonização oficial"^). Percebe-se a partir daí, um êxodo de imigrantes suíços, em busca
de melhores condições de sobrevivência, em direção às regiões de Lumiar, Amparo, Rio
Grande e até mesmo Cantagalo.W
Ao chegarmos em 1823, a colônia do Mono Queimado apresentava um quadro de
decadência, significando portanto, grande decepção, já que todo processo fora
financiado pelo Estado e não apresentava resultados sequer razoáveis.
Em 1824, na tentativa de reestimular a ocupação da Vila de Nova Friburgo, nova
leva de colonos chega à região. Ao todo são 324 (trezentos e vinte e quatro) colonos de
origem alemã que embora considerados com maior experiência no trabalho agrícola,
vivenciarão os mesmos problemas de seus antecessores.
Podemos então perceber que do período de 1820, data da criação da Vila de
Nova Friburgo até 1850, pouco evoluiu a nova colônia, predominando uma produção
agrícola em pequenas propriedades, voltada par a a sustentação das próprias famílias ou
para um pequeno comercio regional É o que nos relata J. J. Tshudr, em visita à região
por volta de 1861:
'Os colonos que permaneceram na colônia dedicaram-se à cultura do
m ilho, batatas e feijão por ser o dima desfavorável à produção do café.
Estes produtos encontraram bom mercado em Nova Friburgo e eram
também procurados pelos tropeiros que vinham dos distritos cafeeiros,
bem como de Cantagalo e da C apital.
Além destas culturas, os colonos, dedicavam-se tam bém a criação
de anim ais domésticos. Oleite era vendido em Nova Fiburgo ou utilizado
no fabrico de manteiga e queijo. O gado obtinha bom preço nos
m atadouros. Como havia abundáhda de m ilho, engordavam porcos, cujo
--- [PDF página 73] ---
toucinho era vendido no merendo do Rio de Janeiro. A criação de aves e
o cultivo de hortaliças era outr a fonte de renda
Quanto a constituição territorial do Município de Nova Friburgo, podemos afirmar
sobre a existência de um pequeno centro urbano localizado às margens do Rio Bengala,
que se denominava Vila de Nova Friburgo circundada por uma extensa área rural
constituída pelas regiões de Rio Grande, Lumiar, Terras Frias, e pelas freguezías de
Aparecida, N.S. da Conceição do Paquequer, S. José do Ribeirão e o distrito de
Sebastiana. Ao longo do século XIX parte desses territórios serão desmembrados de
Nova Friburgo, anexando-se a outros municípios ou formando municípios autônomos.^)
Sobre a população do município, podemos utilizar os dados fornecidos pela
pesquisa desenvolvida pelo jurista e posteriormente, ministro do Império Cansanção de
Sinimbu em 1851. Por outro lado, é preciso deixar daro que tais dados, merecem um
olhar crítico de nossa parte^m virtude de não ter sido possível avaliar com segurança as
condições técnico-metodológicas utilizadas na realização da pesquisa. No entanto,
acreditamos que os dados obtidos podem nos servir como uma amostra relativa da
composição populadonal do Munidpio de Nova Friburgo.
5?
--- [PDF página 74] ---
T A B E L A 1: P 0 P U 1 A Ç Ã 0 D O M U N I C Í P I O D E N O V A F R I B U R G O -1 8 5 1
POPULAÇÃO TOTAL DO MUNICtPIO DE N. FRIBURGO: 4.810
HOMENS MULHERES TOTAIS
População livre 1.596 1.432 3.028
População Escrava 1.108 674 1.782
TOTAIS 2.704 2.106 4.810
POPULAÇÃO TOTAL DA VILA DE N. FRIBURGO: 684
POPULAÇÃO LIVRE ..........................................«9
POPULAÇÃO ESCRAVA .......................................... 195
(FONTE: Tschudi-JJ. Viagem a Provirada do Rio de Janeiro e
São Paulo B.H., Ed. Itatiaia, 1980 p. 111)
Analisando os dados globais do município, acima representados, podemos inferir
algumas conclusões Em primeiro higar, no que tange à divisão, por sexo percebemos um
equilíbrio maior junto à população hvre e um desequilíbrio bastante grande, no tocante à
população escrava. Acreditamos que tal situação se explica, pelo fato dos
escravos/homens serem pTeferidos para o trabalho produtivo efetivado na agricultura,
cabendo à mulher escreva, prefeTencialmente as funções domesticas. Desse modo,
podemos explicar a utilização em maior escala do elemento escravo/mascutino.
Por outro lado, no computo geral da população de todo município, a presença do
elemento escravo era já bastante significativa. Em termos percentuais, a população
escrava representava 43% (quarenta e três por cento) da população de todo município.
Quanto à população habitante da Vila de Nova Friburgo, no computo geral c ’o
Município percebemos uma representatividade bastante reduzida Por este Censo i >
58
--- [PDF página 75] ---
1851, a população da Vila representava apenas, H% (quatorze por cento) do total do
Município. Trata-se portanto, de uma economia predominantemente rural subordinando
as atividades urbanas.
Outro elemento de análise importante é quanto ao maior desequilíbrio
concernente ao percentual de população livre e população esa ava na Vila Á população
escrava na Vila representava apenas 28% (vinte e oito por cento) do total da população.
Acreditamos ser este aspecto explicável pelo fato de predominai a utilização do trablho
esa avo no espaço da Vila essenaalmente, em atividades domésticas.
I I. - O MUNICÍPIO DE NOVA FRIBURGO A PARTIR DE 1850
O período após 1850 é visto pela historiografia brasileira como um momento de
transformações importantes. Fim do tráfico negreiro, lei de terras, colônias de parceria,
tudo isto aliado a expansão da monoaittura cafeeira nas regiões fluminenses são
elementos que configuram um quadro novo na. situação brasileira e mais especificamente
na Província fluminense Desde as primeiras décadas do século XIX, a produção de café
torna-se a responsável pela ocupação de terras fluminenses espedficamente, as regiões
de serra aama Ao longo do planalto, acompanhando as terras onduladas do Vale do Rio
Paraíba os cafezais se estendiam, permitindo a efetivação de grandes fazendas. limar
Rolhoff de Mattos(á) identifica 3 áreas de dispersão dos cafezais na Província fluminense
no século XIX, de Rezende uma vertente dos cafezais, partia em direção a Barra do
Piraí, juntando com os cafezais localizados no Vale do Rio Sanf Ana, ocupando as terras
de Vassouras e Paraíba do Sul De Paraíba do Sul os cafezais se estendiam pelo Vale do
Rio Paraíbuna em direção a Juiz de Fora em Minas Gerais. Pelo lado orienta! do Vaie do
Paraíba percebia-se a formação de cafezais, tendo como centro irradiador o núcleo de
Cantagalo e daí até Aldeia da Pedra (Itaocara) e São Fidéhs. A partir portanto.
59
--- [PDF página 76] ---
de 1850, a regiSo do Pdraíbd Oriental, tendo como centro irradiador de produção de
café, o Município de Cantagalo, cresce enormemente tendo como bases estruturais de
produção d grande propriedade e o trabalho escravo. A partir desse momento
multiplicaram-se as fazendas de café e junto delas multiplicaram-se também os 'Barões de
Café", tendo como expoentes as famílias Clemente Pinto, Moraes, Rimes, Aquino,
Ferreira Pinto etc.
O Município de Nova Friburgo não ficaria alijado dessas transformações. Nas
regiões correspondentes a Vila e seus futuros distritos, em virtude do dima frio,
verificamos a impossibilidade da expansão cafeeúa Entretanto, nas áreas
correspondentes às freguesias de N. S. da Conceição do Paquequer (atual Sumidouro) e
de S. José do Ribeirão (atual Bom Jardim) a lavoura cafeeúa se expandira, aproveitando-
se de um dima mais favorável a seu desenvolvimento!?). Na V - metade do século XIX a
Vila de Nova Friburgo por outro lado assumiría função importante como centro - último
ponto alto da serTa - irradiador de caminhos em direção à baixada e consequentemente
ao porto do Rio de Janeiro. As tropas de animais, transportando café proveniente da área
cantagalense encontravam em Nova Friburgo uma passagem necessária para atingir o
Rio de Janeiro.
Até a década de 80 do século passado, a Vila de Nova Friburgo constituia-se
portanto, como um centro de drculação crescente de tropeiros, encarregados da
distribuição de produtos provenientes do Município de Cantagalo, bem como de S . José
do Ribeirão e Conceição do Paquequer, em direção ao Rio de Janeiro - o café em
primeiro plano e ainda produtos alimentícios para os mercados urbanos da baixada É
possível também afirmar que o Município de Nova Friburgo assumia no período em
questão afunção de fornecedor de alimentos para as áreas de monocultura cafeeira
A função de centro comercial e dispersor da produção de café e de alimentos
para o Rio de Janeiro cresce a partir da criação e funcionamento da linha férrea, após da
década de 70. Apartir de 1858 por iniciativa de Visconde de Mauá verifica, .os o início da
60
--- [PDF página 77] ---
construção da Estrada de Ferro do Rio de Janeiro Northern Raihvay Company (mais
tarde Leopoldina) ligando Sào Francisco Xavier até a Penha Em seguida criou-se um
tronco desta fenovia ligando S. gonçalo até Vila Nova, passando pelo Porto das Caxias.
Em 1872, o Conde de Nova Friburgo, Bernardo Clemente Pinto, conseguia autorização
para a extensão deste tronco, de Vila Nova (margens do Rio Macacu) até o alto da serra,
atingindo Nova Friburgoí®). O funcionamento da Estrada de ferro facilitou a
intensificação dos contatos com a «pitai do império, uma vez que utilizando-se tropas de
animais levava-se em tomo de 4 dias para se chegar a Niterói - com a ferrovia, a viagem
passava a durar em tomo de 4 horas(9).
Quanto à população do município de Nova Friburgo e estudando o Censo
demográfico de 1872 podemos perceber o seu crescimento acelerado, quanto
comparamos com os dados de 1850. Vejamos o quadro abaixo:
POPULAÇÃO DQ MUNICÍPIO DE N. FRIBURGO -1872
PARÓQUIAS LIVRES ESCRAVOS TOTAL
VILA DE S. J. B. N. 5.406 89? 6.303
FRIBURGO
JOSÉ DO RIBEIRÃO 4.890 3.072 7.962
S. CONCEIÇÃO 1.848 2.167 4.015
PAQUEQUER
SEBAST1ANA 1.828 584 2.376
TOTAL 13.972 6.684 20.656
FONTE: Censo de 1872- IBGE
Em um plano global, ao analisarmos os dados demográficos do Município de Nova
Friburgo verificamos maior concentração populacional nas paróquias que na Vila Nada
menos que 70% (setenta poT cento) da população situava-se fera da Vila. Tal situação se
61
--- [PDF página 78] ---
explica a partir do momento em que verificamos o predomínio de uma economia agrícola
na região e esperificamente, a expansão da monocultura cafeeira nas proximidades do
Paraíba Oriental. As paróquias de S. José do Ribeirão e de N. S. Conceição do
Paquequer são regiões que se destacavam, por possuírem temperaturas mais elevadas e
consequentemente terem condições que facilitavam a produção cafeeira Portanto, nestas
duas Paróquias, percebemos a existência da monocultura cafeeira e a presença marcante
do trabalho escravo. Em S. José do Ribeii ão, a população escrava representa 39% (trinta
e nove por cento) do total da Paróquia, enquanto que, em N. S. Conceição do
Paquequer, a população escrava significava 54 (cinquenta e quatro por cento) da
população total da Paróquia
Na Paróquia de Sebastiana a densidade populacional é reduzida se compararmos
com as duas acima Diferentemente daquelas, a Paróquia de Sebastiana situava-se em
uma região de baixas temperaturas impróprias para a produção cafeeira Instalaram-se aí
pequenas e médias propriedades, com produção familiar, voltada a subsistência ou para o
mercado local. Neste caso a população livre superava bastante a população escrava da
Paróquia Em Sebastiana a população escrava representava apenas 24% (vinte e quatro
por cento) do total da população da Paróquia
Na localidade correspondente a Vila a população total correspondia apenas 30%
(trinta por cento) da população de todo Município de Nova Friburgo. Por outro lado, a
presença de trabalhadores escravos no espaço da Vila representava apenas 16%
(dezesseis por cento) da população. No espaço representativo da Vila a população livre
superava em grau bastante avançado o número de escravos existentes aí. Essa presença
maior de homens livres se explica em parte, pela não existência da monocultura cafeeira
nesta região. Na Vila de Nova Friburgo via-se despontar um pequeno nudeo urbano
encravado no centro desse mundo rural monocuFor, destacando-se as atividades de
pequena agricultura familiar, artesanato com trabalho em couro, madeira e metais,
62
--- [PDF página 79] ---
voltados paia o mercado locaL Registra-se ainda, o despontar de atividades de serviço
tais como tranportes, hotelaria, profissões liberais! ^).
• 2 . A VILA DE NOVA FRIBURGO APÓS 1850
No período que vai de 1850 a 1890 o aspecto no interior da Vila de Nova
Friburgo sofreu alterações significativas, comparadas com a fase anterior. O crescimento
da podução cafeeira na região de Cantagalo estimou na periferia da Vila uma produção
de hortigranjeiros com vistas a atender aquele mercado. É nesse período também que
em Nova Friburgo processa-se aprodução de hortaliças e flores, com vistas a atender ao
mercado do Rio de Janeiro.
" n o entanto, na forma como se organiza o aproveitamento agrícola da
terra de Nova Friburgo que se toma m ais patente a influência da grande
área urbana centralizada pelo Rio de Janeiro, com sua num erosíssim a
população consumidora As necessidades de abastecimento dos habitantes
dtadmos em legumes, verduras e frutas e ainda flores, fizeram
desenvolver-se nas zonas serranas fluminenses em geral, e
particulamente, na de N . Friburgo um a de suas áreas fornecedoras m ais
próximas. M
As condições climáticas favoráveis e as possibilidades de fácil circulação desses
gêneros perecíveis (hortaliças e flores) explicam o assentamento dessas atividades nas
regiões que circundavam o sítio urbano de Nova Friburgo Em Lumiar, Conselheiro
Paulino, Rio Grande, Terras Frias verificava-se a produção de hortifrutigranjeiros e
flores, que por sua vez, eram levados até a Vila onde parte era consumida e outra
parcela enviada para o mercado do Rio de Janeiro. Se por um lado, a prindpio a
presença da Sena dificultava o contato comercial com a capital do Império, após a
construção da Estrada de Feno Cantagalo (posteriormente Leopoldina Raitway) facilitou
í'i
--- [PDF página 80] ---
e intensificou 4 comunicação com aquele mercado. As comunicações com o Rio de
Janeiro, se faziam desde os primórdios do século XIX pelos vales do Rio Grande, do
Rio Bengala e pelo Rio Santo Antônio, alcaçando-se assim o aho da Serra e pelo Rio
Macacu descia-se a Sena e atingia-se a baixada. Com a construção da ferrovia o
percurso era feito até o Rio Bengala e posteriormente, os produtos eram embarcados nos
vagões da ferrovia e daí transportados até o Rio de Janeiro.
Do que foi exposto até então, podemos depreender que a Vila de Nova
Friburgo, nesta segunda metade do século XIX teve acentuada sua posição de centro
dispersor, comercial de produtos agrícolas provenientes de suas paróquias - São José
do Ribeirão e N. S. da Conceição do Paquequer, produtores de café, bem como, de
hortifrutigranjeiros e flores provenientes de uma periferia mais próxima - Terras Frias,
Rio Grande, Conselheiro Paulino, Lumiar.
Encravada no fundo de um vale, entre morros de encostas Íngremes e
estendendo-se pelas proximidades do Rio Bengala, a Vila de São João Batista de Nova
Friburgo, no período em questão, atingia um crescimento considerável em virtude de ter
intensificado os contatos com a capital do Império.
Por outro lado, fadlitato pela construção da ferrovia percebia-se uma maior
circulação da população pela Vila, significando não só pessoas à procura da região
cafeeira, como também, significando à procura do dima ameno, longe do calor e da
ameaça da febre amarela que em grau crescente, assolava a população da cidade do Rio
de Janeiro. Desse modo, crescia o número de hotéis, pensões, moradias de veraneio
possibihtanto a sim um aumento das construções civis Há que se ressaltar a construção e
criação de colégios que serão responsáveis pela educação dos filhos da aristocracre. rural
regional bem como, de filhos de famílias habitantes da capital. Os escritores que
debruçáram-se sobre o assunto acentuam a importância assumida pela Vila de Nova
Friburgo no que tange o seu papel educacional e cultural. Eis um exemplo:
6 -1
--- [PDF página 81] ---
’ U m dos aspectos m ais interessantes da sua ascensão, em contaste vivo
com o dos demais núcleos iniciais da Sena, é o seu desenvolvimento
intelectual imediato. Nova Fiiburgo, não obstante a sua distância da Coite
logo se distigue pelo carinho da população em dota-la de bons colégios
Neste ponto, unânimes são os elogios de todos os viajantes que ah
estiveram,
A importância exercida pelos Colégios ali criados ao longo do século XIX, e
ressaltada com também, a excelência de seus métodos, capazes de atrair alunos, que mais
tarde se tomaram grandes expiessões da vida intelectual e política, nacional e
estrangeira
"Quando na primeira metade do século XIX a instrução da burguesia
casioca fazia-se ainda por métodos antiquados, IDA PFEIFER vai ali
anotai um colégio de meninos M F R E E SE , onde além do ensino rigoroso
a ginástica era obrigatória Como institutos femininos ainda ali viiiam a
existir os colégios Eulei Biaune, e, é Nova Fiibuigo, antes de Vassouras
que ouviria em seu educandário o célebre professor TA UTPHQEUS, " o
mais nobre dos modelos humanos no dizer de um dos seus discípulos que
bem conhecia os homens: Joaquim Nabuco
Estas e ainda outras casas de instivçao na V ila sotitána m ostram
que, bem alto deveria ser o nível intelectual do povo friburguense, além
de que o seu china e a fam a dos seus colégios atr aiam educandos não só
da Baixada bem com da própria Corte
No Fieese e que recebe a única instrução um dos maiores poetas
do Biasil CASIMIRO DE ABREU, correndo rumores que também ah
esteve SOLANO LOPES, o futuro ditador do Paraguai, t ^ í
Além dos colégios acima citados, nos fins do século X IX podemos ainda citai o
Colégio Feminino Friburguense, o LYCEO e o Colégio Arichieta, fundado poi padres
jesuítas em 1886Í^).
Acentuando o perfil urbano da Vila no período atado, além do aesam ento
comercial, destaca-se também um considerável aumento das atividades de construção
íi
--- [PDF página 82] ---
civil A grande lavoura da região possibilitou a formação de uma elite rural local que
integrou o chamado grupo dos Bar ões de Café, de influência destacável nas decisões
políticas do 2! Reinado(^) A Vila de Nova Friburgo pelo seu dima ameno e pela sua
posição estratégica, entre as zonas produtoras e o porto iria abrigar como moradores,
vários membros daquela elite, destacando-se os Barões de Nova Friburgo. Tal fato, terá
enorme importância paia a criação e incentivos a benfeitorias na Vila.
Antonio Clemente Pinto, o 1! Batão de Nova Friburgo, urn dos maiores
propietários de café do Paraíba Oriental, em 1857 obteve do Imperador Pedro II, a
concessão para a construção da Estrada de Feno de Cantagalo S.A Em 1859 foi iniciada a
construção do trcho ligando Porto das Caxias a Cachoeira de Macacu, conduido um ano
depois. Somente, em 1870 após a morte do 1 ! Bai ão de Nova Friburgo, foi iniciado o
trecho ferroviário ligando Cachoeira de Macacu a Nova Friburgo, conduido e
inaugurado em 1873(18)
Em 1867, as fazendas da. família Clemente Pinto na região de Cantagalo eram
interligadas pelo um feno-carril, movido por manicula. Desse modo, se fazia a ligação
entre as fazendas do Gavião, Boa Sorte, Laranjeiras! 1?)
A Vila de Nova. Friburgo fora fortemente influenciada no período em questão
pela presença do filho do 1 ! Bai ão de Nova Friburgo. Bernardo Clemente Pinto, um do:
filhos de Antonio Clemente Pinto, por ocasião da morte do pai em 1860, torna-se hei demo
66
--- [PDF página 83] ---
das propriedades cafeicultoras do Gavião Velho, Gavião Novo, Água Quente, Mata
Porcos, Cafés, Laranjeuras e SerraU8). Ao se tomar o V Barão de Nova Friburgo,
Bernardo Clemente Pinto estabeleceu residência na Vila e passou a ter influência
marcante na vida política do Município bem como, na ordenação do espaço urbano.
Parece-nos ser um caso típico de grande parte de núdeos urbanos brasileiros da
segunda metade do século XIX que sofreram influência dos patriarcas rurais Percebe-
se nesse período, uma estreita dependência dos grupo urbanos em relação às
oligarquias rurais que controlavam as legislaturas, a administração e a justiça No dizer de
Emíha Viotti da CostaU8):
" A estrutura patriarcal, o sistema de dientela, os mores dos fazendeiros
que construiram casas nas cidades, repetindo a estrutura dos casardes de
fazenda, não se alteraram de imediato, permanecendo praticamente nos
núdeos urbanos, onde imperava, como na zona rural, o domínio das
grandes fam ílias de fazendeiros. ‘
Ao fixar residência na Vila de Nova Friburgo a marca da presença oligárquica na
localidade tomou-se patente. A princípio, na própria paisagem urbana percebia-se sua
presença com a fixação na Praça Princesa Isabel de um grande casarão, que passa a ser
denominada de Solar do Barão, posteriormente, do Conde de Nova Friburgo^8). Em
uma região próxima ao Rio Cônego, conhecido por Parque São Clemente, foi construido
um casarão denominado Chalet, onde a família do aristocrata Clemente Pinto descansava
do burbirinho do centro da cidade. Ainda no período, importando material de caça da
Alemanha, Bernardo Qemente Pinto construiu um prédio para servir como pavilhão de
caça, e denominado Barracão. As marcas visíveis da presença do baronato do café na
W a de Nova Friburgo, além Estrada de Ferro ficaram evidentes a partir dessas
construções.
67
--- [PDF página 84] ---
Por outro lado, tal presença se expressava de forma mais marcante por ocasião
em que a Câmara Municipal da Vfla, em maio de 1880, solicitou ao 2! Barão para que
assumisse a direção dos trabalhos de implantação dos jardins da Praça Princesa Isabel.
Para tal empreendimento o Barão, contratou um paisagista francês A. M . François
Marie Glaziou e se encarregou pessoalmente das despesas da obra(21).
Fica evidente neste caso, os limites pouco definidos entre a coisa pública e
privada É a historiadora Emitia Viotti da Costa que afirma
'os melhoramentos públicos frequentemente resultavam di doação de
proprietários... O político não representava o povo Apareda como o seu
benfeitor, $2)
Embora não assumindo nenhum cargo público em Nova Friburgo a presença de
Bernardo Clemente Pinto esteve ligada fortemente a toda Vila, se apresentando sempre
como o benfeitor, capaz de e x e c u to de obras impossíveis de seTem realizadas sem a
sua colaboração. Acreditamos que dessa forma, o otigarca conseguia, quando necessário,
do poder púvtico a aprovação de normas e medidas de seu interesse.
Outra grande marca que podemos anotar é aquela representada pela presença
de uma mentalidade aristocrática, percebida não só pelas suntuosas construções. É que
Bernardo Clemente Pinto era visto como indivídüamante do fausto a do luxo, não se
importando com gastos, desde que o objetivo fosse a obtenção de pertences que
pudessem representar seu amor pela beleza e a riqueza Sua presença foi ressaltadi por
ser um colecionador de objetos de luxo:
" m a s é bem de ver que não só na capital do país levantou o titular
fluminense moradas prindpescas. Tam bém em suas fazendas alternavam
vivendas faustosas, onde o Conde, coledonador fanático habituado a
deixar ouro esguichar das suas burras para vencer competidores menos
providos de moeda reuniu gradosas coleções de m edalhas ; m iniaturas em
68
--- [PDF página 85] ---
m arfim , rendas de Veneza, casulas rom anas, livros com feno no dorso e
douraduras no rebordo das (olhas, porcalana chinesa e japonesa, taças de
onix, um a< de âm bar, dlíces de cristal da Boêmia anéis, colares, pedr as
gravadas, esmaltes de hmoges, cam afeus de Florença e mosaicos
Bizantinos. Nos claros das ricas pinturas m urais destacavam-se panóplia
aptas a ilustrar um censo completo no tocante a arte de liquidar o pr óxim o
com arm a branca ou arm a de fogo. $3)
0 conde de Nova Friburgo também era considerado um apreciador e
incentivador das artes o que acentuava sua presença como grande benfeitor.
‘ Mecenas de vários pintores nossos, tinha Bernar do Clemente Pinto u m
particular entusiasmo pelos paisagistas, quando sabiam por na tela as
águas, as árvores e as colinas que tanto o encantavam vistas
drretamente. $4)
A representação de uma mentalidade aristocrática ficaria incompleta caso não
lembrássemos das festas promovidas pelo Conde de Nova Friburgo. Assim lembrava o
cronista;
‘Quase nos esquecíamos de fazer referenda a sua coleção de
instrumentos de m úsica e a centena de leques e máscara que costum ava
adquirir em Paris para mimosear a fidalga e a ricaças que iam aos bales
de fantasia do sola de Nova Friburgo, os m ais pomposantes estonteantes
do Rio e com detalhes m uito bem reproduzidos dos carnavais de W atteau
e Gerami graça aos cuidados de um a perisiense espedalmente
contratadapaa esse fim na Velha Lutéda 1^5)
Em conclusão, podemos portanto afirmar, que vencido o estado de letargia
verificado logo após a criação da colônia com o assentamento de colonos suiços e alem ãs,
o Município de Nova Friburgo, vivenciou um processo de crescimento é inegavelmente
a expansão da monocultura cafeeira ocorrida na região do Paraíba Oriental e tendo
69
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como polo dinâmico o Município de Cantagalo. Se por um lado, as paróquias de S José do
Ribeirão e N S. da Conceição do Paquequer, assentadas em regiões de terras quentes,
desenvolveram suas economias baseadas no modelo cafeicultor escravista, por outro, nas
regiões da Vila encontramos em expansão, uma produção policultora de
hotifrutigranjeiros e flores voltada para o mercado cantagalense e da capital do Império.
Especificamente no local referente a Vila de S. João Batista de Nova Friburgo
verificamos o acentuar de suas funções de intermediação no escoamento da produção de
café em direções ao porto do Rio de Janeiro, Essa função toma-se mais evidentes e
eficaz após a criação do ramal ferroviário, que possibilita a ligação entre o alto da serra
com abaixada e, consequentemente o litoral.
Em virtude da amenidade de seu dima, bem como, de seus encantos naturais,
percebemos que Nova Friburgo acentua também o seu papel de centro receptor de
população que em certos períodos do ano abandonava o Rio de Janeiro, fugindo do
calor e de ameaça dafebre-amarela No período de 1850 - 1890, a vila de Nova Friburgo
começava a ter cunhado, a sua função de cidade hospitaleira, que pode propiciar
descanso e tranquilidade às pessoas que a procuravam Uma cidade também voltada para
o fornecimento de serviços, tais como hotéis, restaurantes, escolas etc.
Não podemos deixar de lembrar que a Vila de Nova Friburgo era ainda um
pequeno núcleo que despontava no interior de um mundo rural,ainda bastante
dependente do progresso cafeeiro de Cantagalo Desse modo, a Vila funcionava como
espécie de espelho que refletia o esplendor, a suntuosidade, a riqueza dos poderosos
do café. As marcas impostas pelo baronato do café ficavam evidentes na paisagem da Vila
através das mansões ali plantadas - Solar do Barão, Chalet e Barracão - bem como, pela
presença da enorme Praça Princeza Isabel, assentada no centro dela.
A circulação das locomotivas e os apitos estridentes dos trens que pela Vila
passavam, colocavam em evidência a chegada de um traço de modernidade mas também.
70
--- [PDF página 88] ---
? - N O V A F R I B U R G O : U M A C I D A D E D A V E L H A R E P Ú B L I C A
Pelo decreto n! 34 de 38-01-1890, do governador do Estado do Rio de Janeiro,
Francisco Portela, aVrla de S. Joáo Batista de N. Friburgo foi transformada em cidade e
definitivamente desmembrada do município de Cantagalo. Ao que tudo indica, tratava-se
de uma medida que expressava um dos lances importantes para o jogo do poder estadual.
A proclamação da República em fins de 1889 veio estimular enorme disputa entre os
chefes políticos fluminenses em tomo do controle do podeT estadual bem como, o
controle de bases de poder locais (municipais). Renato Luis do Couto Neto e Lemos,
afirma que a forma pela qual a república foi proclamada e a inexistência de qualquer
reação monárquica possibilitou de imediato, uma corrida de grupos conservadores,
aliados do antigo Regime, em direção ao novo Regime. Na ânsia de conseguir apoios
regionais o presidente Deodoro da Fonseca passou a estabelecer alianças indistintas nos
vários Estados, com o intuito de montar bases políticas de apoio ao projeto militar de
governo republicano. Por ocasião do governo provisório efetivou-se a nomeação de
governadores estaduais investidos de enormes poderes:
‘Nomeavam, dem itiam , distribuíam verbas, incentivos e concessões
financeiras, criavam e extinguiam cargos e repartições públicas,
desmembravam e anexavam m unicípios, tom avam enfim , todas as medidas
que pudessem fortalecer sua posição de erodir as bases políticas dos
adversários, f^ )
É nesse ambiente de tentativa de afirmação do novo poder em consonância com
bases locais nomeadas pelo Governo Estadual que devemos entender o
desmembramento de Nova Friburgo do município de Cantagalo assim como, sua
transformação em Município autônomo. Acompanhando tal raciocínio, podemos também
x os.oi-wo72
--- [PDF página 89] ---
entender 4 dissolução dos órgãos de administração local e su& substituição por câmaras
de intendentes nomeados pelo governador, em decreto assinado em 6 de janeiro de 1890.
Em Nova Friburgo foi nomeado intendente municipal o Cel. Manuel José Teixeira da
Costa em 1 ? de janeiro de 1890, que terá um curto mandato à frente do executivo
municipal, até 9 de outubro de 1890.(29)
A instabilidade política da nova ordem republicana a nível nacional e toda
discussão que evidenciava a fragilidade dessa nova ordem tiveram a nível do Estado do
Rio das Janeiro, efeitos imediatos. Na verdade notava-se a existência de enormes
dificuldades no que concernia àinteriorização de novas idéias. Por outro lado a questão
resumia-se numa luta pelo poder. A adesão imediata dos monarquistas ao projeto
republicano após o 1 5 de novembro, liderados por Conselheiro Paulino intensificava essa
luta As alianças entre Republicanos históricos e Monarquistas não passavam de epsódios
fortuitos.
A queda de Deodoro da Fonseca gerou um efeito cascata a nível das
representações estaduais, incluindo a queda de Francisco Portela Em abril de 1892, fruto
de uma tênue união entre Monarquistas e Republicanos históricos foi criado o Partido
Republicano Fluminense - PRF.(^)
Desse modo podemos perceber que a transformação de Nova FribuTgo em
município não obedeceu a utilização de critérios técnicos, que pudessem confera o real
cresarnento do município, ou mesmo, de critérios hiostóricos, frutos de um movimento
intemo de toda população, ou mesmo de parte dela, que exigisse a emancipação. Sendo
assim, a obtenção da condição de município autônomo para Nova Friburgo significou um
pequeno número de alterações. A criação de um município, é bem verdade, significava
alguns novos serviços, repartições, e um órgão legislativo (câmara de vereadores). Por
outro lado, as indefinições quanto às leis eleitorais vão adiar para mais tarde e por isso
possível de manipulações, as definições para eleições diretas para as Prefeituras
Municipais (30)
73
--- [PDF página 90] ---
Ho período relativo a 1890-1910, na constituição do poder público friburguense a
nível de sua composição social e de sua mentalidade política, verificamos a presença de
elementos de continuidade em relação ao período antenor Em primeira instância, ao
verificarmos os nomes dos políticos que assumiram a presidência da Câmara isto é, a
direção do executivo podemos comprovar a manutenção de representantes muito mais
compromissados com estruturas sociais e políticas conservadoras e monarquistas, do que
com elementos constitutivos de um ideal republicano.
TABELA > LISTA DOS PRESIDENTES DA CMNF- 1890 a 1913
PRESIDENTES DA CÂMARA MUNICIPAL- 1890/1913 - NOVA FRIBURGO
NOMES PERÍODOS
Coronel Manuel José Teixeira da Costa 17-01-1890 a 09-10-1890
Coronel Galiano Emílio das Neves 09-10-1890 a 08-01-1892
Dr.Teodoro Gomes 08-01-1892 a 07-01-1893
Dr. Ernesto Brasítio de Araújo 07-01-1893 a 02-06-1894
Dr.Teodoro Gomes 02-06-1894 a 26-03-1895
Carlos Engert 26-03-1895 a 10-01-1897
Dr. Ernesto BrasíHo de Araújo 10-01-1897 a 05-09-1908
Dr. Modesto Alves Pereira de Melo 05-09-1908 a 05-01-1909
Dr.Tébo de Morais 05-01-1909 a 12-03-1909
Dr. Modesto Alves Pereira de Melo 12-03-1909 a 12-01-1910
Coronel Galiano Emílio das Neves JúrrioT 12-01-1910 a 05-01-1913
FONTE: Nova Friburgo - Radiografia Sócia] de uma comunidade, op.cit, p . M
74
--- [PDF página 91] ---
Ao estudarmos a listagem acima toma-se possível inferir algumas conclusões que
referendam a afirmação precedente de que a implantação da República, intemamente
pouco alterou a situação de poder municipal. Verificamos assim, a presença de coronéis,
proprietários ruTais na direção do executivo municipal É interessante notar a afirmação
dos coronéis Galiano das Neves — pai e filho — como dirigentes maiores do minicípio
em dois momentos importantes e diferenciados no período em questão (1890 - 1910). O
primeiTO assumiu o poder em 1890, num momento em que a República acabava de se
instalar e por outro lado, já demonstrava seus primeiros desequilíbrios. O segundo,
Galiano Junior, instalou-se no poder municipal em 1910, quando algumas mudanças se
fazem notar, com o advento da indústria em Nova Friburgo.
A família Galiano da Neves era representativa do grandes proprietários rurais da
região, associada à família Marques BTagapor laços de casamento.^)
Aprofundando o nosso olhar sobre a listagem apresentada podemos verificar a
longa presença de Dr. Emesto Brasílio de Araújo na direção do executivo municipal.
Durante 14 anos, a Cãimara do Vereadores fora presidida por êle, sendo que 1 2 anos e 9
meses de forma consecutiva. O Dr. Emesto Brasílio, era um médico-dínico que segundo
a revista * A Lanterna':
‘'reparte os seus esforços de hom em para quem&u trabalho é um prazer,
ente os misteres da sua nobitissim a profissão e â solicitude com que
patrioticamente tom ou a si zelar pelo progresso material da cidade, que
ele tanto am a 132)
Percebemos a preocupação do autor em ressaltar, nesse trecho biográfico a
'nobreza' da profissão do médico Emesto Brasílio assim como, o seu "patriotismo' e
“zelo" pelo “ progresso" da cidade. Em suma, o progresso da cidade deveria ser visto
dentro de um quadro em que a tradição e a nobreza não poderíam ser descartadas.
75
--- [PDF página 92] ---
De certa, maneira, o projeto administrativo de Ernesto Btazílio, o médico
dirigente, convivia harmoniosamente com as idéias sobre uma cidade voltada paia o
progresso material, sem exigir rompimentos coro o antigo modelo de um representante
público "benfeitor" da população.
Ao longo portanto, dos vinte primeiros anos de implantação da República e da
transformação de Nova Friburgo em município autônomo, Dr Ernesto Brasflio e
Galleano das Neves (pai e filho) estivei ain dezoito anos na direção política do município
Ta! fato nos permite confirmar a colocação que em Nova Friburgo, as afinidades com o
passado aristocrático do II! Reinado permaneciam muito forte nos promórdios da
República A permanência no poder local, de pessoas vinculadas ao setor agrário e seu
posicionamento social entendido como grandes "benfeitores" da população municipal,
fica patente.
Outra conclusão que podemos sugerir é quanto as condições das eleições
municipais que poucas alterações posibilitaram na composição política local O voto fora
no período em questão, objeto de manipulação dos grupos oligatquicos dominantes, o
que permitia sua quase perpetuação no poder
Para Nova Friburgo, a implantação da ordem republicana não foi suficiente para a
ascensão ao poder de grupos opostos às oligarquias locais. Até o fim da primeira década
do século XX, o poder público permanecia dominado por setores ti adicionais ligados aos
vícios políticos do período anterior Na veidade, o poder público não passava de uma
extensão do poder privado dos grande proprietários rurais
Completando a afirmação acima e se imaginássemos a presença do propagandista
republicano Aristides Lobo, em Nova Friburgo em 1890, poderiamos supoi também o seu
desapontamento quanto anão presença do povo nos acontecimentos políticos ocorridos
durante e após a emancipação do município Também, em Nova Friburgo o povo tena
76
--- [PDF página 93] ---
assistido a tudo 'besM zado' e ainda mantido esse estado durante os vinte primeiros
anos.(33) A implantação da res-púbtica em Nova Friburgo não significou qualquer
avanço, a nível de participação no poder local, de setores sodais desvinculados das
oligarquias rurais, dominantes desde a fase monárquica.
77
--- [PDF página 94] ---
-* - 0 Q U E E R A N Q V A F R I B U R G O (1890-1910)
FIGURA 1 : ESTADO DQ RIO DE JANEIRO E Q MUNICÍPIO DE NOVA
FONTE: NOVA FRIBURGO: Radiografia Social de uma comunidade op a t p-41
Pelo mapa acima reproduzido podemos verificar que o Município de Nova
Friburgo ocupa uma região central do Estado do Rio de Janeiro, tendo como limites: a
norte os municípios de Sumidouro, Duas Barras, e Trajano de Moraes; a leste, o
Município de Macaé; a sul, os Municípios de Casemiro de Abreu, Silva Jardim e
Cachoeiras de Macacu; a oeste, o Município de Terezópolis.
É interessante notar que mais ou menos próximo ao litoral atlântico todo o estado
do Rio de Janeiro é recortado pela Sena do Mar, que forma um imenso paredão abrupto
e contínuo, separando as regiões da baixada litorânea daquelas regiões mais centrais
78
--- [PDF página 95] ---
desse Estado. Em alguns pontos dessa Serra, montanhas se erguem atingindo altitudes em
tomo de mil metros. No interior dessas montanhas forma-se o planalto, aninhado entre
monos, é onde se localiza Nova Friburgo, tendo a região centro municipal situada a 84?
metros acima do nível do mar. Completando o ambiente serrano de Nova Friburgo
constata-se a existência de um dima fresco e úmido, com verões brandos e chuvosos e
inverno secos com grandes nevoeiros. O fato do município de Nova Friburgo localizar-
se em uma região da Sena do Mar, um pouco mais distante do litoral, explica a existência
de um dima menos úmido, porém bastante ameno. Podemos afirmar que a suavidade do
dima friburguense em contraste com o dima da baixada litorânea foi o fator prindpal no
sentido de conferir-lhe, desde cedo, o caráter de estação de repouso, propidando-lhe a
condição de ddade de veraneio.
Em 1890, ao ser transformada em Munidpio autônomo, Nova Friburgo possuia
uma extensão territorial já bastante reduzida em comparação com o antigo território do
periodo inidal de colonização. Ao longo do século XIX algumas freguezias serão
desmembradas do Munidpio e anexadas a outros municípios.
Afreguezia de N. Senhora de Aparerida fora desmembrada de Nova Friburgo,
anexada ao munidpio de Magé, conforme o decreto n! 421 de 17 de maio de 1874:
‘A rt V- - A fteguezM de Nossa SnhoiA deApsreàdâ, do termo de Nova
Friburgo, ficâ doiAVAnte incorporádà ao M unicípio de Mágé.
A rt 2' - O P r esidente dâ Pr ovínan é m tonzàdo p er a mètrcàr às divisAS do
que frcã pertencemdo ao Munidpto de Mágé, desde o Porto Novo do
CurrhA Até os limites dA Vüa, resútuindo à fieguesiA de Nossa Senhor a dá
PiedAde, o território sobre a Sen a do Couto, que AcompAnhA a ÍAzendA
do PAquequer , hoje do ftnAdo George Maicó e outros. ^ 4 )
79
--- [PDF página 96] ---
Em 13 de outubro de 1881, pelo decreto n! 2.577, «freguesia de Nossa Senhora
da Conceição do Paquequer era desmembrada do Município de Nova Friburgo e
anexada ao Município do Carmo:
"A rt 2 ' -A freguezià de Nossa Senhora da ConceiçSo do Paquequer fica
desmembrada do M unicípio de Nova Friburgo e incorporada ao
Município do C arm o, que terá por lim ites os que estão marcados às duas
fieguezias, que o ficar am compondo. 1^5)
Em 1 0 de junho de 1890 pelo decreto n! 90, assinado pelo Presidente da Província
do Rio de Janeiro, Francisco Portela, a freguezià de Nossa Senhora da Conceição do
Paquequer foi alçada a categoria de Vila, sob a denominação de Município de
Sumidouro.(36)
Após a criação do Regime Republicano novas desanexações serão ativadas pelo
Governo Estadual, implicando naturalmente, em novas reduções do território do
Município friburguense. A freguesia de São José do Ribeirão foi desmembrada de Nova
Friburgo pelo Decreto n! 28, em 6 de julho de 1891, pela Lei n! 37, a sede deste
Município foi transferida para o Distrito de Bom Jardim, que passou « dar nome a todo
Município.( 37)
Em 17 de dezembro de 1901, com a assinatura da Lei n! 517, a freguezià de
Sebastiana foi desanexada de Nova Friburgo e incorporada ao Município de
Teresópolis.(38)
Com as medidas acima expostas, o Município de Nova Friburgo sofrerá reduções
significativas em seu território original e vemos assim, delinear em definitivo o seu espaço
territorial. Somente em 1911 é que verificamos nova e última alteração, quando se
efetivou a incorporação do território de Amparo ao território friburguense, até então
pertencente ao Município de Bom Jardim (^)
--- [PDF página 97] ---
A partir de todas as modificações assinaladas acima, o Município de Nova
Friburgo passou a se constituir de um território composto por um núdeo urbano, que se
estendia, com suas construções nas proximadades do rio Sto. Antonio e principalmente ao
longo do Rio Bengala, o que significava estabelecimento de edificações, ruas, praças
obedecendo a um traçado que era mais ou menos da época do assentamento da
colonização suiça. Circundando esse território urbano, percebia-se a fixação de espaços
rurais, responsáveis pela produção agrícola do Município. Separados pelos leitos do Rio
Grande e do Cônego D'Antas situava-se a região agrícola das Terras Frias, nas
proximidades do Rio Grande e limitando-se com o Município de Sumidouro, estabelecia-
se a região agrícola de Rio Grande. Na planície estreitada pelo curso dos rios Grande e
Bengala situava-se a região de Conselheiro Paulino. Toda essa região, composta pelo
núdeo urbano e seu entorno rural, representava o espaço territorial do 1 ! Distrito de
Nova Friburgo.
O 2! Distrito, criado pela deliberação de 6 de abril de 1869(^1 e mantido como tal
após a transformação de Nova Friburgo em Município autônomo, situava-se às margens
do Rio Macaé, tinha como sede a localidade de Lumiar.
81
--- [PDF página 98] ---
F I G U R A 2: Q M U N I C Í P I O D E N O V A F R I B U R O O -1 8 9 0
FONTE: Keller, Elza C. de S. - A Zona Rural de Nova Friburgo - Anais de AGB. AGB.
S.P., 1958, vol. V, tomo II, p.51, (adptação feita pelo autor)
Pelo mapa acima identificamos a localização do núcleo central do Município de
Nova Friburgo, localizado basicamente na confluência dos rios Sto. Antonio e Cônego,
quando é formado o rio Bengala. Tratava-se da localização do 1 ! Distrito, circundado
pelas regiões de Terras Frias, Rio Grande e Conselheiro Paulino Distante do núcleo
central do 1 ! Distrito e nas proximidades do Rio Macaé vemos a localidade de Lumiar,
correspondente ao 2! Distrito do Município.
A CTD A D F DF N O V A FRIBURGO O ESPAÇO URBANO
Localizada no alto da montanha a 84? metros acima do nível do mar, a cidade de
Nova Friburgo estendia-se com suas casas, prédios públicos, pequenas fábricas, ao longo
82
--- [PDF página 99] ---
de uma planície a partir do local de formação do Rio Bengala (confluência do Rio Sto.
Antonio e Rio Cônego). Observava-se também a existência de um número menor de
construções existentes em uma restrita planície localizada nas proximidades do Rio Sto.
Antonio. Isto nos permite afirmar que o traçado da cidade que encontramos a partir de
1890 obedecia a continuidade do traçado original da fase da criação da colônia em 1820.
FIGURA 3 PI A N T A DA CTDADF D F NOVA FRIBU RG O -1820
FONTE : Jaccound, Raphae! L de S. História, Contos e Lendas da Velha Nova
Friburgo Nova Friburgo, Cadernos de Cultura, PHNF s/d.
A planta conesponde ao traçado iniciàl da colônia e foi produzida em 1820 pelo
tenente José C e m de Queiroz C arreira(^) As casas ai constantes cora a respectiva
numeração representava os locais de assentamento das antigas famílias suiças que em
Nova Friburgo chegaram, nos priraordios de 1820. O loca! desenhado e corresponc :r.íe
83
--- [PDF página 100] ---
a numeração 1-14 situava-se um trecho da cidade denominado "Village do Alto', próximo
à estrada de Cantagalo Aparte correspondente aos lotes de n! 1 5 até n! 62 referia-se à
localidade central da Vila e era denominada "Vüle'.(^) Esse núdeo, centro da Vila,
situado à margem direita do Rio Bengala era mais afastado do rio, possivelmente para
evitar transtornos causados pelas cheias.
Um terceiro núdeo pode ser notado, nas proximidades do Largo do Pelourinho,
correspondentes aos lotes de n! 63 até o n! 100, situando-se em uma planírie entre os
Rios Cônego e Sto. Antonio, denominado "Village de Baixo".(^)
Atualizando esta planta e adequando-a ao período de 1890 - 1910, podemos
confirmar que a cidade de Nova Friburgo se expandia obedecendo ao traçado inicial, da
época da criação da colônia
FIGURA 4 : RUAS E PRAÇAS DE NOVA FRIBURGO -1900
8 4
--- [PDF página 101] ---
0 principal centro do Município situava-se em tomo da Praça 1 5 de novembro,
antiga Praça Princesa Isabel projetada segundo planejamento do urbanista frencês
daziou em 1881. Era a Praça de maior tamanho e considerada o coração da cidade:
‘ Praça 15 de novembro: Dividida em 3 partes por dois renques de
eucafyptus gigantes , , que medem m ais de 15 metros: duas destas partes
estão ajardinadas, tendo no cento grandes gramados onde se adiam
tanques destinados a receber repúdios.
O plano da arborização e ajardinamento d'essa praça pertence ao
Dr. daziou, tendo sido levado a efeito em 1881 a expetrsas do Sr. Conde
de Nova Fríburgo, que com o mesmo despendeu m ais de 20:000^000
A Praça Paissandu, cuja localização correspondia ao espaço anteriormente
denominada de Largo do Pelourinho, foi inicialmente ajardinada quando era Presidente
da Câmara Dr. Theodoro Gomes (1892 - 1893). Mais tarde, por ocasião da Presidência do
Dr. Ernesto Brazílio de Araújo, esta Praça foi reformada
'No cento dessa Pr aça destaca-se um a soqueira de bam bus, que cobre
um a superfície de cerca de 10 metos quadrados, belos canteiros de
flores, dispostas com arte, completam a ornamentação d'esse jardim . í^ )
Percebemos na organização espadai das duas Praças uma concepção de beleza
que era ressaltada por elementos naturais evidendados na preocupação com a
arborização e o ajardinamento. Desstacamos também, o uso de plantas como o eucalipto,
possivelmente utilizado como purificador do ar e em drenagens de pântanos. Tudo
indica que na construção da Praça 15 de novembro, por ser ela o centro da ddade e
provavelmente localizada em área insalubre (o problema das enchentes do Rio Bengala)
a maior preocupação das elites locais voltava-se para n irar a umidade do solo bem como
85
--- [PDF página 102] ---
diminuir o mau cheiro tomando o ar mais saudável. Na P. Paissandu, onde o solo era
menos úmido, tendo sua localização em lugar distante de enchentes, plantou-se o bambu,
planta ornamental, e as flores.
A Praça do Suspiro, construída em 1904, durante a Presidência de Ernesto
Brazítio de Araújo, localizada ao lado esquerdo do Rio Bengala obedeceu a uma
preocupação maior com sua estética.
"A lli se vêem bellâs pontesinhas, um as imitando madeira roliça, outras
bambus e pedras ;• em frente à entrada esta collocada um a estátua de
Minerva, de m árm ore, que tem m ais de IS O anos de existência, essa
estátua foi encontrada em um a fazenda de serra abaixo, em local que tinha
sido jardim de um a grande fazenda, abandonada há m ais de 60 anos, e
offeredda à cidade de Nova Friburgopelo D r. F arinha F ilho,
Vê-se ai uma construção preocupada com mínimos detalhes de "pontesinhas",
pequenos lagos e riachos ao lado da estátua de Minarva, deusa da sabedoria A intenção
de produzir o belo fica bastante patente, num momento em que começava a se impor uma
visão construída pelas elites friburguenses, de cidade do lazer, da tranquilidade, do bem-
estar, do turismo.
Quanto a Praça 1' de março, localizada próxima à saída em direção a Cantagalo,
não há registros que a descrevessem Tratava-se de uma praça situada em região pouco
nobre da cidade e que portanto não deve ter despertado maior atenção das elites
dirigentes.
Assinalada ainda na planta a rua General Argollo, principal artéria da cidade,
iniciava-se na Praça 15 de novembro e terminava nas proximidades do Rio Sto. Antonio.
Possuía 570 metros de extensão e era ai que se localizava o maior número de
edificações da ddadeí^). Era cortada ao meio pela tinha da ferrovia que se alongava em
direção a Cantagalo e Sumidouro. Em toda sua extensão fixavam-se casas de comércio e
B S
--- [PDF página 103] ---
em seu término fora construída a estação da E. F. Leopoldina Raithvay. Ponto de chegada
de população provmiente da capital e ponto de partida daqueles que iam em busca dos
"ares civilizados" na cidade do Rio de Janeiro.
Não poderiamos negar o papel econômico da rua Gen. Argollo para Nova
Friburgo como sede das principais casas comerciais da cidade. Entretanto, é necessário
ressaltar o seu papel de elo de ligação entre as pessoas que chegam à cidade,
provenientes da baixada litorânea e a busca do saudável ar puro encontrado na Praça 1 5
de Novembro. Significava portanto, a trilha que as pessoas deveriam percorrer para
entrar na cidade.
Por outro lado, era pela rua Gen. Argollo que as pessoas deveriam sair da cidade
em direção ao maior centro político, econômico, artístico e cultural brasileiro - a capital
da República.
Completando a chamado malha urbana, outras ruas e avenidas compunham o
quadro da cidade. Com 960 m de extensão e acompanhando a parte inicia] do Rio
Bengala situava-se a Avenida Friburgo Esta avenida interligava-se com a Rua Gen.
Argollo ou com a Praça 15 de novembro através de pequenas ruas como: Rua Jácome,
Rua Duque de Caxias, Rua D.Umbelina e Rua Riachuelo esta ao cortar àquela avenida
significava também o seu ponto terminal. Beira-rio e iniciando à Rua 7 Setembro
estendta-se em direção - Cantagalo e Avenida Santos Dumont até as proximidades da
antiga "Vülage do Alto" onde iniciava a Rua Cantagalo Na extremidade final da Rua
Gen Argollo, iniciava-se a Rua Barão de Bom Retiro e, um pouco além a Rua Mac-
Níven Na Rua Leuenroth havia uma ponte sobre o Rio Santo Antonio e ligava as ruas
Gen Argollo e Barão de Bom Retiro à Praça Paissandu. Desta Praça partam outras ruas,
como: Conselheiro Sinimbu, rua Baroneza, rua S.Ciemente. A rua Gen. Ozório,
localizada ao lado esquerdo do Rio Bengala, tinha início na Praça do Suspi; o e possuia
980 metros de extensão e por ela chegava-se à ponte sobre o Rio Bengala, que permitia
à população chegar até a Rua 7 de Setembro. Próxima à Praça do Suspiro localizava-se a
87
--- [PDF página 104] ---
Rua Salusse. Outras ruas e ladeiras podem ser citadas, como: Rua 8 de Janeiro, Rua
Gen. Pedra, Rua Uruguaiana, Rua Gen Câmara, Rua 3 de Janeiro, Rua Gen. Andrade
Neves, Rua Riachuelo, Rua Furny, Rua 1 ! de Março, Rua 28 de Setembro e Ladeira
Braune(^).
TABELA l ESPAÇOS PÚBUCOS EM N. FRIBURGO-1907
NOVA FRIBURGO - COMPOSIÇÃO URBANA - 190?
ESPAÇOS PÚBUCOS QUANTIDADE
RUAS 24
PRAÇAS 4
AVENIDAS 2
LADEIRAS 1
TRAVESSAS 1
FONTE. Revista “ A Lanterna’ 1
Pelo exposto acima podemos conduir que Nova Friburgo alargava seus espaços
e aos poucos adquiria foros de cidade separada do mundo rural. O crescimento do
números de praças, ruas e avenidas projetadas e construídas pelo Poder Público
evidenciavam algumas características importantes daquela conjuntura
A abertura de um maior contato com centros maiores tais como Rio de Janeiro e
Niterói, intensificado com a criação da linha férrea, impôs ao Poder Público Municipal a
necessidade de construção de praças, ruas, avenidas. Não bastava apenas construir, ma
era também importante embelezar dentro dos parâmetros modernos de construção dos
espaços públicos. Afinal de contas, Nova Friburgo atraía já um considerável número de
--- [PDF página 105] ---
pessoas, provenientes das regiões quentes do Estado como, da Baixada litorânea e de
Cantagalo. Era, portanto, necessário transformar o espaço urbano em algo agradável
para aqueles que a procuravam e também, um espaço sedutor para aqueles que
deveriam buscá-la.
3.1 - A CIDADE DE NOVA FRIBUROO: Q ESPAÇO ECONÔMICO
Com a entrada de Nova Friburgo na década de 90 e sua transformação em
condição de município autônomo foi possível acontecer um cresarnento considerável das
atividades econômicas em seu espaço interno. Podemos identificar também um
crescimento de algumas atividades concernente do setor de serviços. Além de uma
Câmara Municipal, um Cartório de Registro Civil, uma Cadeia, uma Agência de Correios,
sete escolas públicas, uma agência da Caixa Econômica, outras empresas faziam a vida
da cidade
Em 1898, o ' Indicador Fluminense'! ^ ) registrava
TABELA 5:INDÚSTRIAS E LOJAS EM N. FRIBURGO - 1898
ESTABELECIMENTO QUANTIDADE
Casas Comissárias 3
Empréterras Construtoras 1 1
Fábricas 7
Olarias 2
Oficinas 32
Lojas Comerciais 81
FONTE: M jçgjny Tm inftnsp - ]989
6$
--- [PDF página 106] ---
Analisando o quadro exposto podemos perceber a predominância dos
estabelecimentos comerciais, em quantidade bastante superior às demais. Segundo
informações obtidas na fonte pesquisada, as casas ali registradas hgavam-se ao comércio
de secos e molhados, fazendas, armarinhos, ferragens, louças, calçados, fumo, chapéu e
fogos. Esse comércio em número consideravelmente alto, voltava-se ao atendimento de
uma demanda típica de uma população urbana - alimentos, vestuário, objetos pessoais e
de pequeno consumo. Evidenciava já um quadro que demarcava os limites entre cidade
e campo. Enquanto que no campo a população tendia a uma maior autosufiriênda na
produção de sua pTÓpria alimentação e em certos casos até mesmo o vestuário, na cidade,
a população é quase sempre levada a obter através de compra os meios de sua
autosufiriênda. O comércio existente na cidade não se restringia a essas atividades
registradas no Indicador Fluminense Há evidências que, existia um comércio ambulante
bastante intenso em toda extensão das ruas da cidade, funcionando como complemento
alimentar da população. Ao lermos a coleção de jornais * 0 Friburguense* encontramos
citações esparsas que confirmam a existência desse comércio informal Hortaliças, leite,
frutas, legumes, doces, ovos, aves, peixes, carvão, lenha eram fornecidos à população de
porta em porta, por pequenos comerciantes que cotidianamente circulavam pelas ruas da
adadei^O)
0 código de Posturas Municipal, «provado pela Câmara de Vereadores, em 1893,
refere-se ao assunto em vários de seus capítulos e arbgos.í^l) No capítulo intitulado:
'SOBRE MATANÇAS DE REZES, VENDA DE CARNES E GÊNEROS
CORRUPTOS", esperiahnente no artigo n! 48, estabeleria-se que "o comércio
ambulante nas ruas da cidade só poderá existir com autorização da Câmara MuniripaT.
No capítulo intitulado: 'D a Polícia Urbana' verificamos vários
artigos que tratam do comércio ambulante:
90
--- [PDF página 107] ---
'artigo 101:0 comércio de ambulantes só poderá ocorrer com licença autorizada
pela Câmara Municipal, exceção para os lavradores que vendem seus próprios
produtos"
"artigo 102: Os ambulantes não poderão estacionar com seus produtos nas portas
de casas, ruas e praças"
“artigo 103: Ninguém poderá mascatear mercadorias que devam ser pesadas e
medidas sem pagar licença"
"artigo 107: É proibido o trânsito e estar parado com quitanda e carga nas calçadas
de ruas e praças"
E ainda no capítulo intitulado, ‘Da Polícia Rural":
"artigo 123: Ninguém poderá pombear mercadorias em áreas rurais sem a devida
licença fornecida pela Câmara Municipal".
As multas decorrentes de infração desses artigos variavam de 3$000 a lO jO O O ,
podendo ainda ocorrer apreensão dos produtos.
Da existência desse razoavel número de artigos, das Posturas Municipais de 1893,
podemos conduir que o comércio ambulante existia em quantidade considerável, assim
como podemos perceber as tentativas do Poder Público no sentido de controlá-lo. Não
se tratava, pois de tentativas de extinção dessa atividade, mas sim, de submetê-la ao
controle dos poderes munidpais.
91
--- [PDF página 108] ---
Outra atividade bastante numerosa, registrada pelo "IndicadoT Fluminense' eram
as Oficinas - ao todo 32, estabelecidas em toda cidade A mesma fonte nos fornece tipos e
quantidade.
TABELA 6 : TIPOS DE OFICINAS EM K FRTBURGO-1898
TIPOS DE OFICINAS QUANTIDADE
Alfaiatarias 5
Marcenarias $
Sapatarias 8
Ferrarias 3
SerTalherias 2
Feireiro 1
Funelarias 3
Tipografia 1
Colchoarias 2
Chapéus de Sol 1
Seleiro 1
TOTAL 32
FONTE: Indicador Fluminense, pp. 99 e 100
Algumas das atividades acima anotadas revelam a existência de uma população
em demanda de serviço típico de uma sociedade em processo de urbanização. São os
casos das alfaiatarias, marcenarias, sapatarias, tipografia, colchoarias, chapéus de sol. Por
outro lado, as atividades de serralheira, funilaria, marcenarias, se pensadas em
92
--- [PDF página 109] ---
articulação com o grande número de. Empreiteiras Construtoras — 1 1 ao todo — e das
duas Olarias, indicam-nos que o processo de crescimento urbano de Nova Friburgo era
bastante considerável no período em questão (1890 - 1910)
Quanto aos estabelecimentos fabris citados pela mesma fonte(^) podemos arrolá-
los:
— A. de Beaudair & G a
— Bastos & Ga
— Américo Samuel & Ga
— Antonio Henriques
— Carlos Dumans & Ga
— Luís José de Souza
— Carlos Dumans & Ga— Cervejaria
— Cervejaria
— Destilação de bebidas
— Tamancaria
— Tonefaçãode café
— Torrefaçãode café
— Refinaria de açúcar
O número pequeno de fábricas revela-nos a princípio, que nesse momento Nova
Friburgo ainda era uma cidade com produção industrial bastabte reduzida De outra
sorte, é também possível considerar que tais fábricas se destinavam quase íntegralmente à
produção de alimentos e bebidas requerendo tecnologia de pequena sofisticação. A
única fábnca de tamancos, tendo em vista as próprias característica do produto, não
deveria utilizar técnicas mais avançadas. Por outro lado, o uso de mão de obra nesses
estabelecimentos fabris não se fazia em grande quantidade e muito menos, com melhor
qualificação.
Quanto ao setor de serviços entregues a iniciativa privada, o Indicador
Fluminense, revela-nos:
93
--- [PDF página 110] ---
T A B E L A 7:L I S T A D E S E R V I Ç O S E M N . F R I B U R O O -1 8 9 6
TIPOS DE ESTABELECIMENTOS QUANTIDADE
Hotéis 8
Escalas 8
Reustaurante 1
Casas de pasto 9
Botequins 1 6
Cafés 2
Kiosque 1
Bilhares 5
Lojas de Barbeiros e
Chapelarias 2
Padarias 5
Confeitarias 2
Depósito de fumos, cigarros, charutos 4
Joalheiros 2
Costureiras 4
Relojoarias 3
Papelarias 1
Depósito de materiais 1
FONTE: Indicador Fluminense - pp. 97-98
Nesse momento em que Nova Friburgo aparecia como cidade de dima saudável,
possuidora de belezas naturais decantadas e portanto, vinha acentuando o seu papel de
9<
--- [PDF página 111] ---
ddade acolhedora de uma crescente população adventída, devemos nos deter sobre a
importânda de seus Hotéis, restaurantes, casas de pasto, bem como de suas escolas. Os
dois prindpais hotéis da ddade — Hotel Engert e Hotel Lenenroth — assim como o
■Restaurante da Estação*, pertendam a um único proprietário, Carlos Engert Outros
hotéis foram assim listados, com seus respectivos proprietários.
— Hotel Salusse
— Hotel Central
— Hotel friburguense
— Hotel do Prata
— Hotel do Commérdo
— Pensão Braga— proletário D. M ariana Salusse
— proletário João Rossi e Comp
— proletário Marcohno Mondert
— proletário Manoel de M . Prata
— profietário Gamma, Mattos e Comp.
— proletário Margarida R. dos S. Braga(^)
O número elevado de escolas privadas na ddade revela-nos duas possibilidades
interessantes. De um lado é possível perceber que vivia-se ali um dima intelectual de
qualidade acentuada. Por outro lado, o número de internatos era relativamente grande, o
que leva-nos a pensar que Nova Friburgo recebia um razoável números de alunos
provenientes de outros munidpios.
TABELA 8: PRINCIPAIS COLÉGIOS DE N. FRIBURGO ÍSetor Privado) -1891
ESTABELECIMENTOS FUNDAÇÃO TIPO CLIENTELA
Colégio Friburguense
Lyceo Nadonal1891
18881 e 2
1 e 2Meninas
Meninos
--- [PDF página 112] ---
Colégio Anchieta 1886 1 Meninos
Colégio Braune 1864 1 e 2 Meninas
Externato América — 2 Meninos
Colégio das Dorothéas 1893 1 Meninas
Externato SAntana — 2 Meninas
Externato Carvalho— 2 Misto
•Tipos: mtemato(l)
externato(2)
FONTE: Indicador Fluminense, 1898, pp 92 e 93
Se somarmos o número do hotéis, restaurantes e casa de Pasto com o número de
escolas particulares que adotavam o regime de internato podemos ter como resultado a
possibilidade de Nova Friburgo receber de outros municípios uma quantidade
significativa de pessoas em busca dos serviços daqueles estabelecimentos As famitias
com certas posses, ao trazerem seus filhos para se internarem nas escolas friburguenses,
tinham necessariamente que utilizar-se dos serviços dos hotéis, casas de pasto e
restaurantes É possível ainda concluir que o nível de ensino propiciado aos alunos das
escolas acima, gozavam de fama bastante favorável Isto talvez explique a existência de
cinco escolas com internato, num universo de oito estabelecimentos.
Pelos quadros obtidos a partir do ' Indicador Fluminense’ podemos inferir
algumas condusões gerais sobre a constituição do espaço urbano friburguense. Fica
daro para nós que, na década de 90 do século passado, a cidade via crescer suas funções
de centro comeráal, ponto de passagem de mercadorias que saiam das áreas rurais do
centro norte-fhiminense ou em direção às grandes adades de baixada litorânea. O
reverso também era verdadeiro. Os produtos provenientes do Rio de Janeiro, Niterói
96
--- [PDF página 113] ---
em direção as regiões de Cantagalo, Sumidouro, necessariamente passavam por Nova
Friburgo A existência de uma circulação grande de comerciante, mascates, ambulantes,
no espaço da cidade.
De outro lado, o papel de cidade que assumia um perfil de receptora de
população, provenientes de outros municípios, em busca de tranquilidade, dima
saudável, bons serviços para educação de jovens, fica também bastante evidente.
3 2 - NOVA FRIBURGO O ESPAÇT) POPITI ACIONAI
Ao estabelecermos uma analise sobre as características da população do
município de Nova Friburgo, no período de 1890 a 1910, buscaremos a princípio os dados
fornecidos pelos dois censos demográficos efetuados nos anos de 1890 e 1900. Sabemos
entretanto, que tal procedimento deve ser resguardados de alguns limites, em virtude do
fato de que os referidos dados devem ser olhados de forma crítica
'Para que se possa ter um a visão melhor da evolução demográfica
brasileira durante a República Velha (1889 -19301 devemos nos reportar
aos censos de 1872, 1900, 1920, desdenhando o censo de 1890, por seu
caráter absolutamente acritico.
De outro lado, o município de Nova Friburgo teve seu território reduzido em
função da desanaxação da fraguesia de S José do Ribeirão em fins do ano de 1892.
Dessa forma, além das críticas que podemos fazer as condições em que foram
levantados os dados do censo de 1890, temos ainda que lembrai as modificações sofridas
pelo território friburguense entre 1890 - 1900 e a partir dai estabeleceu nossas
conclusões.
9?
--- [PDF página 114] ---
TABELA 9: CENSO POPULACIONAL DE N. FRIBUROO -1896
POPULAÇÃO DO MUNICÍPIO DE N. FRIBURGO EM 1890
DISTRITOS H M TOTAL
J. B. de Nova Friburgo 5.115 4.742 9.857
José do Ribeirão 3.043 2.652 5.695
Sebastiana 1.347 1.388 2.735
TOTAIS 9.505 8.782 18.287
FONTE: Censo de 1890-IB G E
A princípio, comparando os resultados do Censo acima, com aquele realizado em
1872 deparamos, a nível do resultado total, uma redução populacional. Outrossim, é
necessário lembrar que este Censo foi realizado em um momento em que a freguesia de
N. S. do Paquequer já não fazia parle do território do município friburguense. Isso
explica aredução populacional em termos absolutos. Usando ainda da comparação com o
Censo anterior, verificamos também que na freguesia de S. José do Ribeirão houve um
dedírrio populacional. Tratavarse de uma região cafeeicultora-escravista, na época do
Império, e que, portanto, vivia as consequências de uma crise estrutural, decorrente do
esgotamento de seus solos e do fim da escravidão
A freguesia de Sebastiãb^região de terras frias, pouca alteração sofreu, em
termos populacionais. Entre os dois Censos realizados, a população de Sebastiana
cresceTa apenas em número de 359 pessoas. Podemos assim afirmar que em Sebastiana o
quadro demográfico permaneceu estacionário.
É exatamente na sede do município, no distrito de SJoão Batista de Kova
Friburgo, que o censo de 1890 revela o maior crescimento populaàonal. O crescimento
9G
--- [PDF página 115] ---
das atividades urbanas, assim como a expansão do espaço ocupado demonstrado
anteriormente, leva-nos a concluir sobre o aumento populacional do município, cujo
elemento central situava-se na região sede do município, já demonstrado no Censo de
1890. Podemos, então, afirmar que a população de Nova Friburgo entrava na década de
90 em processo de expansão. A diversificação das atividades econômicas verificadas no
espaço interno da cidade — comércio ambulante, lojas comerciais, botequins, padarias,
barbearia, lojas de bilhares, confeitarias etc — confirmam os dados obtidos no Censo do
início da década Tratava-se de um crescimento urbano, verificado pelo aumento
populacional, assim como pela diversificação das atividades urbanas.
Os dados computados pelo Censo de 1900 confirmam a tendência de ascensão
populacional de Nova Friburgo no período. Infehzmente, nesse Censo não foram
levantados dados discriminando a população em cada distrito pertencentes aos
municípios. Sendo assim optamos arrolar os resultados comprovantes da população total
daqueles municípios das proximidades de Nova Friburgo isto é, componentes do Centro-
Norte Fluminense.
TABELA 10: CENSO POPULACIONAL - MUNICÍPIOS DQ CENTRO-NORTE
m iM IH EH SE-ISPP
POPULAÇÃO DOS MUNICÍPIOS DO CENTRO-NORTE FLUMINENSE -1900
MUNICÍPIOS H M TOTAL
Cantagalo 15.873 13.983 29.856
Itaocara 9.512 7.795 17.305
Nova Friburgo 8.176 7.941 16.117
Bom Jardim 6.490 5.591 12.081
Duas Banas 4.885 4.250 9.135
99
--- [PDF página 116] ---
Sumidouro 4.851 4.192 9.043
Carmo 4.649 4.290 8.939
S. Maria Madalena 5.577 3.946 8.523
S. Sebastião do Aho 3.728 3.448 7.176
FONTE: Censo de 1900: IBGE
Em primeira instância, se compararmos o número acima da população total de
Nova Friburgo com os números do Censo de 1890 é possível comprovarmos o seu
crescimento, se levarmos em conta que a freguesia de SJosé do Ribeirão transferira e se
anexara ao município de Bom Jardim. Embora os números absolutos comrovam um
decréscimo populacional, a desanexação de SJosé do Ribeirão do município de Nova
Friburgo, permite-nos afirmar ter havido crescimento populacional ao longo desses anos.
Em segundo lugar, confirmamos o crescimento da cidade em termos populacionais
ao verificarmos que Nova Friburgo se situava já como terceiTa cidade do centro-norte
fluminense É possível que nos anos posteriores se acentue a tendência de um
crescimento populacional friburguense, e que os outros municípios sofram estagnações
ou mesmo reduções da crise cafeeira Tudo indica que ao longo do processo da crise do
café na região do Paraíba Oriental, Nova Friburgo toma-se uma cidade receptora de
população proveniente daquela região. É também possível que a cidade não apenas
recebia população oriunda das regiões cefeeiras em declínio assim como significava um
foco de atrações das populações livres das amarras do escravismo regional analisando o
noticiário publicado na imprensa friburguense nesse período o que se nota por exemplo,
são notícias atestando a presença de negros no espaço urbano:
* Chamamos a atenção do Dr. Delegado de Poliría para um e preta que
reside na praça V . de Itaborai e que comtantamento pronuncia em voz
103
--- [PDF página 117] ---
alta palavras im orais desrespeitando as fam ílias que aí residem e ao público
em geral Esperamos providências a bem da moralidade ofendida ^5)
Ao mesmo tempo são denunciadas práticas religiosas "estranhas" executadas por negros
em certos locais da cidade:
‘ Sobdtamos à polida acabar com as reunãos de negros praticando
canjerês, o que é um indtamento ao roubo e furtos. W
Outro fato que denotava o crescimento desordenado da população em Nova
Friburgo eTa expressado através de notícias que revelam no período, a existência de
"vadiagem" bem como a cobrança feita aos ÓTgãos públicos, em busca de atitudes firmes
no sentido de coibHa
" o s vadios andam a granel pelas ruas da ddade, anim ados com a
indiferença das autoridades pohdais que não lhes pedem contas do modo
de vida. t^7)
Em outro número do mesmo periódico anotamos:
" É sempre a nossa polida Cega1
Sempre!
Bandos e bandos de menoresvagabundos passam dias inteiros entr egues
ao vido do jogo, tão degradante, atendendo a idade deles sem que lhes
oponha a menor embargo
Isto vai sem comentário f58)
Várias são as notícias sobre a ocorrência de pequenos roubos, assaltos de pequeno
porte, publicados na imprensa local:
101
--- [PDF página 118] ---
‘Os vadios andam a grande pelas ruas da cidadei anim ados com a
indiferença das autoridades pohdais que não lhes pedem contas do modo
de vida Não há m uitos dias o st . Antonio Lopes de Sá foi vítim a da audácia
de alguns gatunos ; m ais tar de as Irm ãs Dorotéias. A pohda que par ece
estar de m ãos dadas com a C âm ara M unicipal, atendendo-se no pouco
caso com que trata dos interesses do povo, vive a dormir placidamente
enquanto que os am igos do alheio e m citam seu proveitoso ofício. 159)
Um toque de ironia está colocada na notícia abaixo, sem naturalmente, deixai de culpar a
ineficiência policial, pelas existência dos assaltos:
" A casa contígua da residência do st. M assa nesta cidade foi assaltada em
um a das noites passadas por dois atrevidos gatunos, às 9:30 hrs., que ali
penetraram bem alum iados por esplêndido luar, e em hora em que a
população ainda se adiava de pé, com a proteção da indiferença da
pohda que só m uito tarde compareceu ao local quando já os gatunos se
haviam retirado em paz, depois de minudosa revista na casa assaltada
É em agentes de segur ança de tal quilate pagos com o suor do já
muito tosquiado contribuinte que repousa a garantia de nossas vidas e
propriedades. 150)
A natureza dos assaltos ficapatente com anotida abaixo:
‘Chega ao nosso conhedmento que furtaram do quintal do sr. Anehno
Chaves m uitas peças de roupa que ali estavam estendidas e assaltaram o
galinheiro de D . M aria Dulce Braune, fazendo farta provisão de perus e
galmhàs. 150)
Outros episódios encontrados no notidário jornalístico atestam também o crescimento da
ddade proveniente de uma população ainda acostumada a um modo de vida tipicamente
rural:
102
Pre‘eitu'a d e o va Fiiburgo
Sccrutaria d§ ultura
ce Docum* r:t«çà»
H ulóclca • P io -M u m à il*
--- [PDF página 119] ---
‘Cham am os a atenção do sr. Carl E n ger% dos srs. fiscais e finalmente
qualquer funcionário encarregado da fiscalização municipal para a
grande quantidade de anim ais que pastam livremente pela Praça V de
M arço. 162)
Ou ainda em outro número do mesmo jornal:
'Na Praça do Suspiro, à doce luz das estrelas, nascem placidamente
alguns mansos representantes das raças m uar, cavalar, bovina
Se alguns do srs. Fiscais quizesse ali transitar de quando em vez, à
noite, concorrería com um a boa renda paia os cofres m unicipais, tão
onerados com empregados que recebem 14:000$O O P anuais. 163)
Pelo que podemos depreender das informações acima, percebia-se pelo ano de
1898, a existência de uma parcela da população de Nova Friburgo vivia alijada, do
mercado de trabalho de cidade. Era pois, um setor da população urbana que vivia
marginalizada e por isso mesmo identificada com a vadiagem, vivendo de expedientes
como pequenos roubos e assaltos. Constituía-se assim, uma reserva de mão de obra em
disponibilidade paia as empresas já instaladas na cidade, bem como àquelas que se
instalarão no futuro Não seria demais afirmarmos ainda, que tal população em
disponibilidade no mercado de trabalho tinha a capacidade de reduzir o valor possível da
força trabalho(^). A existência de baixos salários era já um grave problema assim como,
o hábito de alguns empregadores efetuarem os pagamentos a seus trabalhadores
trimestrahnente. Em 1891, o Jornal * 0 Friburguense* noticiava uma greve de operários,
acompanhada de passeata de protesto, logo controlada pela força pública:
‘U m grupo numeroso de operários de diversas dasses correu à rua desta
cidade na manhã do dia 2 do corrente ano, erguendo vivas a dasse
operária e ao tabalhador livre... quando chegaram vinte praças os
grevistas já haviam se recolhido às suas casas, em vista do procedimento
ordeiros dos operários que deixando o trabalho neste dia o fizeram como
103
--- [PDF página 120] ---
protesto áo sistema adotado há m uito tempo por âlguns mestres de obras
de pagarem os seus salários somente nos fins dos semestres ■ às vezes,
depois de venddos 4 meses pedindo pagamento mensal como praticam
outros mestres. $5)
Em 1893, em Nova Friburgo era criada uma sociedade operária de cunho
mutualista: Sociedade Benefidente Humanitária dos Operários. Tratava-se de uma
assodação em busca de formas de ajuda mútua entre os trabalhadores livres, autônomos
e assalariados que habitavam o espaço friburguense Analisando o livro de matrícula dos
sódos da SBHO é possível obter uma visão sobre as ocupações dos assodados desta
sodedade É evidente que a partir daí podemos inferir conclusões sobre as prindpais
atividades em que se envolviam os trabalhadores da ddade. Os 93 sódos matriculados no
ano de 1895 estavam assim distribuídos, quanto as suas respectivas atividades
ocupadonais:
TABELA 1 1 : LISTA DE SÓCIOS DA S.B.H.O -1895
SÓCIOS DAS.B.HO
______ OCUPAÇÃO
Agente
Aprendiz de barbeiro
Carvoerro/Rondante
Apl amad or/Cons ervador
E scritur ano/T omeir o
Lutador
Mecânico
Caldeireiro
tóalhadorQUANTIDADE
1
2
2
2
2
2
2
2
2
104
--- [PDF página 121] ---
Trabalhador 3
Pintor 3
Foguista 3
Ferreiro 5
Operário 5
Sapateiro 5
Pedreiro 7
Ajustador 9
Maquinista 1 7
Carpinteiro 1 9
TOTAL DE SÓCIOS 93
FONTE: Livro dos Sócios da S.B.H.O -1895
Podemos perceber que na relação exposta algumas anotações dificultam o
trabalho do historiador, quando identificamos algumas ocupações de enorme imprecisão,
como: trabalhador, operário Por outro lado, é importante registrar que alguns operários
ao identificarem suas profissões estabeleciam uma duplicidade de atividades como:
Carvoeiro/Rondante; Aplainador/Conservador; Escrituráno/Tomeiro. Isso nos parece
acontecer, num momento em que Nova Friburgo ainda eraum centro urbano, fortemente
influenciado por um passado recente caracterizado por fortes elementos do meio Rural.
Ao que nos leva a constatar que, Nova Friburgo em 1895 vivia um momento de transição
para um modelo urbano/capitalista Esta transição irá se completar consolidando-se o
modelo urbano/capitalista a partir de 1911, por ocasião da implantação da Companhia de
Eletricidade e da Fábrica de Rendas ARP.
105
--- [PDF página 122] ---
Nesse. fase de transição capitalista, as tíasses trabalhadoras sofrem também de
indefinições quatro as características de sua ocupação. Ao que nos parece, essas
indefinições estão presentes na listagem acima, onde os sócios matriculados sentiam
dificuldades de se auto definirem quanto as suas ocupações.
De outro modo, é possível assinalar que, na transição capitalista vivida por Nova
Friburgo, as dasses trabalhadoras já buscavam formas de organização em busca de
defesa de seus interesses. Embora de cunho mutuahsta, a Sodedade Humanitária deve
ser encarada como fruto de um momento da formação e organização das dasses
trabalhadoras na ddade, em busca de sua afirmação contra as tendêndas exploradoras
do capital.
Com relação aos setores médios da população friburguense, acreditamos ser
possível anotar algumas atividades típicas de tais setores. Com o crescimento do núdeo
urbano, inevitavelmente crescem as atividades com vistas ao fomedmento de serviços à
população urbana e rural do munidpio. Pelo ‘Indicador Fluminense* de 1898,
conseguimos anotar o seguinte número de profissionais-liberais em atuação no munidpio.
TABELA 1 2: PROFISSIONAIS URBANOS EM NOVA FRIBURGO -1898
PROFISSIONAIS QUANTIDADE
Médicos 1 1
Dentistas 6
Advogados 5
Professores de piano 4
Guarda-livros 2
FONTE: ‘Indicador Fluminense’ -1898
106
--- [PDF página 123] ---
Como não entendemos o trabalho no magistério pertinente ao conjunto dos
chamados profissionais liberais, optamos por registrá-los em listagem separada. Pela
mesma fonte acima obtemos informações que nas oito escolas privadas existentes na
cidade, em 1898, atuavam um total de 46 professores e 9 diretores.(^)
Os poderes públicos municipais achavam-se divididos em dois setores distintos:
a) O legislativo tinha função assumidada pela Câmara Municipal, composta por
vereadores eleitos; sendo que o presidente desta Câmara escolhido por seus
pares, exercia as funções do poder executivo.!*1 ?)
b) O poder judiciário, exercido por um juiz de direito nomeado, centrando suas
atividades no Foro da cidade.
É interessante perceber que os poderes públicos do município funcionavam
também como empregadores. Sendo assim podemos detectar algumas profissões de certo
setor da população — o chamado funcionalimo público.
TABELA 1 3 : FUNCIONALISMO DA CÂMARA MUNICIPAL - 1898
_____________ FUNÇÃO
Secretário
Amanuense
Procurador
Contador
Médico
EngenheiroQUANTIDADE
1
2
1
1
1
1
10?
--- [PDF página 124] ---
Inspector de obras 1
Fiscal das obras de abastecimento d'água 1
Medidor 1
Porteiro 1
Administrador do matadouro 1
Inspector dos Cemitérios 2
Fiscais 5
Professor Municipal ___________________________ 7 _
TOTAL 24
FONTE: ' Indicador Fluminense* - 1898
TABELA 14: FUNCIONALISMO NO FORO-1898
FUNÇÃO QUANTIDADE
Juiz de Direito 1
Juiz Municipal de orphãos 1
Suplentes de Juiz Municipal 3
Promotor público 1
Escrivão, tabelião e oficial do registro de hipotecas 1
Escrivão do 1! ofício 1
Partidor e Distribuidor 1
Depositário público 1
Oficial de justiça 1
Juiz de paz 3
Suplente de juiz de paz 2
TOTAL 1 7
108
--- [PDF página 125] ---
Há que se perceber «o todo 43 pessoas estavam envolvidas com funções públicas
no município, sem contar os vereadores que eram eleitos. Os quadros expostos
permitem-nos uma visão das funções e atividades exercidas pelos poderes municipais.
Ternos que ressaltar ainda a questão da chamada instrução pública na cidade O
poder executivo mantinha 7 escolas públicas e paia o seu funcionamento contiatava os
serviços de 7 professores municipais, encarregados do ensino das primeiras séries
fundamentais As escolas municipais estavam localizadas em região da periferia do
município — Ponte da Saudade, Campina, Lumiar, Córrego Sujo, Bom Sucesso, Vieira e
Salina, fazendo com que os professores residissem nas próprias escolas. Nao poderiamos
deixar de ressaltai que no campo do ensino (instrução) à iniciativa privada ei a reservado
o espaço do centro urbano — Praça 1 5 de Novembro, Rua Gal. Osório, Rua Ga! Câmara
— enquanto que as escolas públicas limitavam-se aos espaços da periferia da adade.P)
Ressaltamos nesta condusão pardal, que no período estudado, o perfil urbano
caracteriza-se pela emergência expressiva de diferentes setoies médios urbanos
integrados pelos elementos já apresentados artífices, profissionais liberais, funcionários,
pequenos comerciantes etc
109
--- [PDF página 126] ---
3.3 - NOVA FRIBURGO: O PODER MUNICIPAL E O CÓDIGO DE POSTURAS -
1893
A análise das posturas municipais constitui-se num elemento de fundamental
importância no que concerne ao melhor conhecimento que um historiador pode
conseguir sobre determinada realidade. Os códigos de Posturas significavam um
conjunto de preceitos, normas, que obrigavam a população dos municípios a cumprirem,
certos deveres instituídos pelo poder púbhco.(^) Portanto, podemos entender que o
estudo do Código de Posturas possibilitamos conhecer as orientações que o poder
público traçava no sentido de ir aos poucos, organizando, orientando e até mesmo,
disciplinando a população que se estabelecia em determinado espaço municipal. André
Luiz Vieira de Campos(^®) faz um interessante estudo sobre os códigos de posturas dos
municípios de Campos e Niterói, quando ainda vigia o regima escravista bem como, o
estado monárquico.
No segundo capítulo de seu trabalho, o Autor acima citado coloca como título: "A
CIDADE: UM ESPAÇO A SER CONTROLADO" onde aborda o surgimento do
discurso médico, elemento surgido a partir da 2! metade do século XIX, assumindo forma
de controle e ordenação do modo de vida das populações urbanas. O crescimento dos
núdeos urbanos teria gerado o ‘medo das cidades" que por sua vez se repfletm na
produção de várias teses médicas, importantes no influenciar aos legisladores,
responsáveis pelos códigos de posturas. Desse modo, é possível constatar uma série de
obras "científicas", editadas entre 1815 a 1880, elaboradas por médicos higienistas,
engenheiros que alertavam para a necessidade de criação de normas para os habitantes
das cidades, com vistas a impedir a proliferação de doenças, epidemias, pestes etc.
110
--- [PDF página 127] ---
‘Foi este projeto de medicalizaçao dá cidade, difundido entre nós através
de médicos, higienistas, engenheiros e arquitetos ; que marcou elaboração
daspostui as municipais do século XIX... i)
Em Nova Friburgo registramos a criação de um código de Posturas, aprovado
pela Câmara Municipal em 6 de maio de 1893. Antes de debruçarmos mais atentamente
sobre esse documento adiamos de grande valia estabelecer algumas considerações
sobre a ridade, a constituição dos poderes e as características da elite política
responsável por sua elaboração.
A nosso ver, Nova Friburgo a começar pela década de 80 do século passado,
vivia um momento espedal da sua história. A contração da estrada de ferro e a
intensificação de suas atividades possibilitaram o fortalecimento da ridade como centro
comercial distribuidor de produtos agrícolas da região, paia os mercados do Rio de
Janeiro e Niterói. Ao mesmo tempo, processava-se a crise estrutural nas áreas cafeeiras-
escravistas do PaTaíba Oriental, possibilitando um êxodo da população que teve como
ponto de atração, a ridade de Nova Friburgo. Criava-se assim, no município
friburguense, um espaço moldado pelo capital comercial bem como, um conjunto de
população hvre em disponibilidade para atuação daquele capital. Em suma, a
transformação de Nova Friburgo em município autônomo, a partir de 1890, ocorrera num
momento em que se processava mudanças importantes em seu quadro interno,
identificadas com o estabelecimento de um modelo capitalista de ridade
Em contrapartida, a nível das elites que dominavam a vida política do município,
essas mudanças não ocorriam — verificava-se, no jogo político republicano a mesma
tendência de domínio político encontrada no período da monarquia Analisando as
condições dos grandes centros urbanos no séc. XIX, Emitia Víotti da Costa(^) afirma
que os fazendeiros construiram suas casas nas cidades e passavam a exercer grandes
influências na sua vida política Por outro lado, as transformações capitalistas ocorridas
111
--- [PDF página 128] ---
nos gr andes centos (esperiahnente no Rio de Janeiro) e os trabalhos voltados a
higenização, medicalização desses centros, irão acentuar o papel político desempenhado
poT médicos, higienistas etc.
Em Nova Friburgo tal situação parece acontecer no período entre 1890 -1910. De
uma lado uma sociedade caminhando em direção a um modelo capitalista De outro lado
uma elite política oriunda dos quadros de um conservadonismo rural. Completando esse
quadro é possível verificar o número bastante razoável de médicos que clinicavam na
cidade (ver tabela) no período em questão. A epóca da aprovação do Código de
Posturas de 1893, concidiu com a primeira fase de governo médico-dínico Dr. Emesto
Brezílio de Araújo.
As novidades do Código de Posturas, identificadas com as medidas no campo da
saúde, higiene podem ser entendidas por uma Câmara Municipal de traços ainda
nitidamente conservadores.
As Posturas Municipais de 1893 tinham ao todo 134 artigos, enquadrados nos
seguintes capítulos:
I - Patrimônio Municipal, reunindo 14 artigos.
II - Saúde pública, subdividida em Oftmtérios e Enterramentos, Sobre hospitais,
casas de saúde e moléstias contagiosas; Sobre matanças de rezes, venda de
carnes e gêneros corruptos e prejudiciais à saúde; Sobre pântanos, esgotos,
despejos e diferentes objetos que corrompem a atmosfera e danificam a
salubridade e segurança pública, reunindo 4? artigos.
III - Obras e Víação. reunindo 16 artigos.
IV- Polícia Administrativa - das multas, reunindo 1 0 artigos.
V - Da Polícia Urbana reunindo 32 artigos.
VI - Da Policia Rural reunindo 9 artigos.
VII - Da Instrução Municipal reunindo 3 artigos.
112
--- [PDF página 129] ---
No primeiro capítulo do código, achámos importante registrar a pr,.icípio, a nítida
preocupação no sentido de delimitar os terrenos que faziam parte do patrimônio público
e aqueles pertencentes aos setores particulares. A separação entre Público e Privado
começa a ser definida a partir de uma iniciativa da própria Câmara Municipal. A partir
dessas definições estabelecia-se normas para as edificações públicas e privadas, bem
como pagamentos de foros, laudêmicos, proibições quanto a desvios de bens públicos
etc. As multas, nos casos de infração, variavam de 20$000 a 100J000. Devemos ressaltar o
Art 6! que estabelecia 'as tranferências de terrenos só podenam ser feitas na presença
do tabelião que lavraria as escrituras após pagamento de foros e laudêmios.’ O não
cumprimento dessa norma implicaria no pagamento de uma multa de 100$000.(73)
Entendemos que tal medida se explica como uma tentativa do Poder Público
participar, organizar as tranzações imobiliárias assim como, auferir ganhos que
reverteríam em benefício do patrimônio financeiro Municipal
O segundo item do Código — Saúde Pública, é o que continha o maior número
de artigos, ao todo 47. A princípio, percebemos o papel do Poder Público Municipal, no
sentido de normatizar a criação dos cemitérios e bem como, as atividades de
enterramentos. Normas tais como; “a proibição de enterros fora dos cemitérios (art 1 6 ) e
o estabelecimento de ‘50 centímetros no mínimo, para a profundidade das sepulturas'
(art 19) Isso nos leva a cm , que até então, era possível que a população não levava em
contatais prescrições, o que podería provocar danos sociais bastante grandes.
Interessante também tomava-se o artigo 20 que 'proibia o enterramento de
mortos provenientes de outros municípios.' Tratava-se de medida de precaução contra a
possível transmissão de moléstias contagiosas no município. A transgressão desta norma
implicaria numa pesada multa de 100$00Ü .
Ainda dentro do capítulo Saúde Pública, o item: 'sobre a matança de rezes,
venda de carnes e gêneros corruptos e prejudiciais à saúde', trata principalmente da
113
--- [PDF página 130] ---
higiene e limpeza dos animais e produtos fornecidos no comércio locai. As muitas
variavam entre 5$0Ü 0 e 50$000. Ressaltamos o o art 36 que "proibe o abate de gado
doente" e estabelecia uma multa de 10$000, caso se comprovasse tal incorreção por parte
dos abatedouros. Esse artigo era completado pelo artigo 43 que 'proibe a venda de
carne deteriorada" e estabelaciamulta de 50$000 em caso de ti asgressão.
Completando o capítulo Saúde Publica o item: "Sobre Pântanos, esgotos,
despejos e diferentes objetos que corropem a atmosfera e danificam a salubridade e
segurança pública" é dos mais interessantes, no aspecto da disciplinarização da
população, imposta pelo poder público municipal Em primeiro lugar, no artigo 49 “os
proprietários de terrenos pantanosos são obrigados a drená-los em um prazo de 30 e 90
dias". O não cumprimento dessapostura implicaria em multa de 100$000.
Os artigos que seguem ao acima exposto todos tratam da manutenção da
salubridade, o que podemos perceber a existência de uma enorme preocupação com a
higienização do espaço urbano, com vistas a evitar a proliferação de doenças
contagiosas. Alguns exemplos atestam a afirmativa
'Art 53; Éproibido lançai nas mas, interior das casas, quintais, chácaras,
depósitos de couro, estrumes, águas pútridas, lixo em prejuízo da saúde
pública. A população é obrigada a depositar os detritos a frente das casas
a partir das 6 h . da manhã A C âm ar a M unicipal se encarrega de removê-
los."
'Art 5{ É proibida a manutenção de porcos por m ais de 48 h no
perímetro da 10‘ urbana ou mantê-los soltos nos distritos."
'Art 55; Os currais e cachoeiras devem ser devidamente higienizados. *
A preocupação com defesa da saúde pública não ficava apenas referida às
questões higiênicas. Percebia-se também uma preocupação no sentido de evitar o
--- [PDF página 131] ---
estabelecimento de fábricas que criassem danos à saúde da população. Os artigos de n!
59,60,61 proibiam a fundição de metais, a criação de depósitos de inflamáveis no intenor
da cidade.
No capítulo: Obras e Viação o que notamos é o papel do Poder Público no
sentido de normatizar as obras e construções da iniciativa privada Tratava-se também,
da criação de mecanismos com objetivos de ordenação da ocupação do solo urbano. Os
artigos de n ! 74 e 75, proibiam a "edificação e reformas de cortiços..." e a "costrução e
reconstrução de meia água". Por outro lado, o art 78 estabelecia "a assembléia Municipal
decretará os tipos de casa em geral e em especial para os operários e as condições
higiênicas necessárias à salubridade."
No capítulo: Polícia Administrativa - Multa, configurava-se o direito da Câmara
Municipal em estabelecer, cobrar e possibilitar as condições de pagamento das multas
aplicadas aos tranngressores de quaisqueT das normas impostas pelo Código de Posturas
É neste capítulo que podemos perceber de forma muito dara o poder municipal se
assumindo como tal.
No capítulo da Polida Urbana de um modo geral, trata das condições de
estabeledmento e fundonamento de indústrias e atividades comerdais. A prindpio,
qualquer estabeledmento dependia de licença proferida pela Câmara Municipal A
transgressão a essas normas implicaria em multa de 100$000.(74)
Os outros artigos tratam de horário de fundonamento de lojas comerdais,
fábricas, normas para o comérdo ambulante e a questão do tráfego de carroças e animais
no interior do espaço urbano. As multas para os infratores variavam de 5$000 a 50$000.
No capítulo: Da Polida Rural, o número de artigos é bastante menor que o
número dos capítulos anteriores. Achamos muito interessante, os 3 últimos artigos
constantes nesse capítulo, onde podemos perceber o embrião de uma preocupação do
poder público no sentido de defesa e preservação da natureza
115
--- [PDF página 132] ---
'Art 129; os proprietários sáo obrigados a defender às árvores dos etr&s
daninhas. ‘
‘ Ari IS O , Éproibidd a caça na cidade, nos subúrbios e nas proximidades
dos caminhos. “
‘ Art 131; É proibida a derrubada de m atas, sem prévia licença dada pela
Câm ara Municipal'
Finalmente, o último capítulo desse código: da Instrução Municipal é resumido em
apenas 3 capítulos. Em primeiro lugar o Poder Municipal garantia a criação de uma
escola em cada distrito municipal (art. 132). Em segundo lugar, estabelecia que a
“instrução primária seria gratuita e obrigatória (artl33)“. Pelo art 134, estabelecia-se que
o “ regulamento escolar, seria elaborado pela Câmara Municipal e aprovado pela
Assembléia Municipal’. Embora reconhecermos uma preocupação do Poder Público
com a Instrução Municipal, somos obrigados a admitir a timidez de tais medidas Como já
falamos em outro momento, nesse campo, o Poder Municipal limitou-se a cumprir o
previsto no código, criando algumas escolas na periferia da cidade.
Como afirmamos anteriormente, entendemos que o estudo sobre as Posturas
Municipais em primeiro lugar, nos permite conhecer certos fundamentos que orientaram
as relações entre o Poder Público e a sociedade, em determinado momento histórico No
caso das Posturas Municipais de 1893 em Nova Friburgo é possível perceber o início do
estabelecimento de certas definições no que tangia à questão do espaço público e do
espaço privado É obvio que a confusão existente en te o píblico e o privado contmuará
ocorrendo. Não seria a simples edição de um código, de difícil entendimento pela
população, que possibilitaria a essa população condições de entender com perfeição os
limites entre duas mstândais. Achamos importante entretanto, que o Código de Posturas
de 1893 dá início em Nova Friburgo, à elaboração de normas que definem com dareza a
separação entre o que erapúblico e o que eraprivado.
116
--- [PDF página 133] ---
Enfatizando ainda uma afirmação inicia], percebemos também todo um olhar do
Poder Público municipal com vistas a medicalizaçãoe higienização da sociedade.
Acreditamos que era esse o momento de construção e consolidação de um poder médico
na ddade.(^) Esse poder estaria expresso no longo período de governo de Dr. Ernesto
Brazílio de Araújo mas também, e prindpaímente, nas medidas higienizadoras,
medicalizadoras da sodedade friburguense.
117
--- [PDF página 134] ---
4 - A E . D E F E R R O L E O P O L D I N A : U M T R E M * E M N O V A F R I B U R G O .
Estudando a expansão do capital cafeeiro e sua relação cora a grande empresa de
serviços públicos, a partir da segunda metade do século XIX, Flávio Saes(^) procura
enfatizar a profunda relação entre aquele capital com a criação e expansão do transporte
ferroviário em São Paulo. Em seguida, este autor discute a independentização dos
setores públicos com relação ao capital cafeeiro paulista, a partir da década de 20 do
nosso século. De qualquer forma, Saes exemplifica com as estradas de ferro, que até
1915 eram perfeitamente vinculadas do capital cafeeiro. Depois da guerra a ligação das
ferrovias com o café começa anão ser tão forte. Verifica-se então, que após 1915 o café
perde aos poucos sua função de gerador de outras atividades (indústrias, ferrovias,
bancos) assim como, tem início um processo de autonomização desses setores da
economia, gerando acumulações próprias.
Com o objetivo de analisar o processo de crescimento e crise da indústria nc Rio
de Janeiro, Marcos Antonio Guarita(^) em sua dissertação de mestrado mostra a
importância do desenvolvimento das vias férreas no tocante àqueles eventos. Como ele
afirma, a questão dos mercados externos fora fundamental para o crescimento industrial
do Estado de Rio de Janeiro no início do século vinte, mercados esses que serão
atingidos graças à expansão das ferrovias. Por outro lado, a crise que vai atingir certos
setores da indústria do Rio de Janeiro a partir de 1920 teve como responsáveis as
próprias ferrovias que irão utilizai de uma política de elevação dos preços de suas tarifas,
encarecendo sobremaneira os custos dos transportes.
Capitalismo, industrialização, ferrovias: os três elementos estiveram estreitamente
vinculados em um determinado momento da história brasileira e são trabalhados pelos
dois autores acima citados, embora analizando universos diferentes. Em São Paulo a
118
--- [PDF página 135] ---
vmculação entre expansão cafeeita, desenvolvimento ferroviário e consolidação do
modo capitalista de produção é bastante estreita.
Na situação do Rio de Janeiro o que podemos notai é que o setor cafeeiro no
século XEX, dado os seus vínculos com modelo escravista de produção, fora em certos
casos responsável pela criação de ferrovias mas, por outro lado, não teve qualquer
responsabilidade nos investimentos industriais e muito menos podemos responsabilizá-los
pela criação do modelo capitalista de produção.
Se em São Paulo as ferrovias mantiveram-se dependentes dos investimentos
provenientes do café e assim manteve-se até mais ou menos 1915, no Rio de Janeiro o
divórcio entre •>(•* o setor escravista-cafeeiro ocorreu bem mais cedo. Isto teria
possibilitado uma autonomização ferroviária no Estado do Rio de Janeiro, já nos fins do
séc. XIX Além do mais, se o fim da escravidão provocara um impacto negativo,
irrecuperável para a cafeicultura fluminense, o mesmo não podemos dizer quanto às
ferrovias deste Estado que irão viver em todo início do séc. XX inegável expansão.
No caso específico de Nova Friburgo é possível notar as enormes influências
exercidas pela ferrovia no tocante a transformação do papel exercido pela cidade na
região em que se adiava inserida Entretanto, não pretendemos aqui demonstrar um
histórico aprofundado das funções econômicas da empresa ferroviária em Nova
Friburgo.
Nossa intenção, antes de mais nada, é tentar mostrar como a Estrada de Feno
Leopoldina Raillway exerceu considerável impacto, no sentido da organização,
orientação do modo de vida da população friburguense Coube a ela também as
indicações por onde deveria proseguir — dar o direcionamento — o processo de
ocupação do espaço urbano.
Estudando a formação urbana da cidade do Rio de Janeiro, o geógrafo Maurício
A. Abreu(^), quanto ao papel do trens na consolidação do espaço urbano carioca,
afirma:
119
--- [PDF página 136] ---
'Ao contrário dos bondes, que penetra am em áreas que já vinham sendo
urbanizadas ou retalhadas em chácaras desde a primeira metade do
século, os trens foram responsáveis pela rápida transformação de
fieguesias que até então se m antinham exdusivamente rurais,
Tentaremos aprinripio, demonstrar que de forma semelhante, em Nova Friburgo
o trem veio a exercer o mesmo papel. Se até então, e como afirmamos anteriormente, a
ocupação do espaço urbano friburguense se fazia ao longo das margens do rio Bengala,
com a chegada da ferrovia e sua extensão em direção a Porto Novo do Cunha e a
Cantagalo, o que podemos constatar é uma ocupação populacional obedecendo a
extensão da linha férrea.
Em segunda instância pretendemos levantar algumas analises quanto ao papel
desempenhado pela ferrovia no que concerne ao estabelecimento da influência
marcante nas definições do modo de vida da população do município. O elemento de
contato com o Rio de Janeiro, os horários de pass^ens dos trens, a estação como espaço
de chegada e saída de autoridades, as novidades trazidas pelos comboios, o trem como
mensageiro de vida e morte, tudo isto que o trem transporta em sua existência,
significando importante forma de controle da vida da população
A historiadora Emília Viotti da CostaP) apresenta numa série de transformações
provocada nas áreas urbanas em função do advento das ferrovias. O progresso e a
modernização das cidades esteve mtimamente ligados â estrada de feno Ao mesmo
tempo, aquelas cidades que porventura ficaram afastadas do traçado ferroviária passai am
a viver um processo de involução. Acentuava-se também, intemamente nas cidades, as
diferenciações sociais em função de novos modelos de construões que inegavelmente,
expressavam situações sociais diferenciadas.
120
--- [PDF página 137] ---
'Nos g r Andes centros, nos bairros m s ricos, os c a saide s de taipa foram
sendo substituídos por chalés de tijolo, tipo europeu, as paredes
decoradas em papel e os pesados móveis coloniais substituídos por
mobílias francesas e inglesas. Nos bairros pobres m ultiplicaram -se os
cortiços . t®l)
Percebe-se pela afirmativa acima a importância das ferrovias no tocante a
alterações profundas no panorama geral das cidades. Por outro lado, evidenciam-se as
diferenças entre os bairros ricos e os bairros pobres É importante lembrar, que no início
desse item, discutíamos as posições de alguns estudiosos que vinculavam a expansão
ferroviária ao processo de acentamento capitalista no Brasil. Podemos, ao confirmar tal
afirmação, perceber o papel desempenhado pelos ferrovias nessa nova visualização do
espaço urbano, onde tomavam-se bastante nítidas os "chalés de tipo europeu" — espaço
reservado a população rica —, em contraste, a espansão dos cortiços — espaço
reservado à pobreza—. Divisão típica de um capitalismo em momento de consolidação.
Como afirmamos anteriormente, coube ao 1 ! Barão de Nova Friburgo, Antonio
□emente Pinto as pnmeiras iniciativas e gestões junto ao Imperador Pedro II no sentido
de iniciar a construção da Estrada de Feno Cantagalo. Tratava-se de um momento de
expansão cafeeira na região do Paraíba Oriental e a construção de um ramal fenoviário
a partir da estação de Porto das Caixas na Baixada tomaria mais agíl o transporte
daquele produto até o porto do Rio de Janeiro. Em 1873, sob a orientação já do segundo
Barão de Nova Friburgo é conduido e inaugurado o trecho fenoviário que ligava
Cachoeiras de Macacu a Nova Friburgo.
Evidenciava-se daramente, a estreita ligação entre a lavoura cafeeira e a
expansão fenoviária, com a criação da Estrada de Ferro Cantagalo. Podemos afirmar que
até a década de 80 essa dependência dafenovia com relação a aristocracia rural cafeeira
ficava caracterizada A Estrada de Feno existia como fruto da ação de um setor do
121
--- [PDF página 138] ---
baronato do caíé que via cosí a sua criação, a aplicação de um meio bastante eficaz no
escoamento de sua produção.
Entre 1870 e 1890 consolidava a posição de Nova Friburgo como centro de
dispersão ferroviária. É que a via férrea prolongava-se além da estação localizada na
Rua Gal. Argollo. Os trilhos se estendiam por esta rua, passavam pelo lado da Praça XV
de Novembro, atingia a avenida Santos Dumont onde se construiu um pontilhão
atravessando o Bengala, chegava a localidade de Duas Pedras e daí quase em linha reta
se dirigia a estação de Cargas de Conselheiro Pautmo.
Da estação de Conselheiro Paulino a linha férrea iria se dividir em duas
direções Em 25 de abril de 1871 o governo provincial autorizava o prolongamento desta
via até Santa Maria Madalena, passando por Cantagalo, ramal este inaugurado em 1878,
em 1889 inauguTavarse o ramal de Sumidouro, cuja os trilhos se estendiam pelas estações
de Rio Grande, Dona Mariana, Murinelly, Barão de Aqumo e finalmente Vila de
Sumidouro. Os dois ramais faziam parte da Estrada de Ferro Cantagalo que em 25 de
agosto de 1887 era vendida pelo Barão de Nova Friburgo, a Companhia Leopoldina
Raillway.(82)
Destacamos o fato adrna por tratar de um momento em que a Estrada de Feno
Cantagalo construída e controlada até aquele momento pelo Barão de Nova Friburgo,
passava ao controle de uma companhia de capital inglês, até certo ponto, não vinculada
diretamente ao setor cafeeiro. Acreditamos ser esse momento de rompimento na relação
café-ferrovia, passando esta ater postura de maior autonomia com relação aquele setor
que a originara Os atritos entre os produtores regionais e a Companhia inglesa não
demorarão a aparecer. O jornal ' O Friburguense' em seu número 26 publica maténa
onde consta reclamação contra os bens da Companhia Leopoldina em virtude das
'demoras na enbega dos produtos como café, bebidas etc.':
122
--- [PDF página 139] ---
'0 cotrmérdo, a k oura, o povo, a imprensa clam am incessantemente
contra as faltas ; as irregularidades que cada dia m ais se augm entam na
Com panhia. Leopoldina 183)
As redamações em virtude de demoras, causadoras de prejuízos e
desabastedmentos dos munídpios servidos pela Companhia Leopoldina, não paravam
por aí.
'Inform aram -nos que os produtos das lavouras, como o café, que é o
principal dos m unicípios do Carm o, Sum idour o e parte de Nova Fiiburgo
são conduzidos por esta estrada com grande dem ora, ficando
completamente cheias as estações de Bella Joana Sum idouro, Barão de
Aquino, M unnelty, Dona tíariana e Conselheiro Paulino. Sendo alguns
desses gêneros expedidos a custa de m uitas rogadvas dos remententes,
que não poucas vezes testem unham a depredação de seus gêneros. 184)
No mesmo artigo, ainda se verificam críticas com relação aos preços altos dos
fretes cobrados pela mesma Companhia
'os fretes das bagagens são elevados excessivamente e as taxas que
pagam os transeuntes são altam ente fabulosas comparando-se com as de
outras vias sim ilares. * (0 Friburguense conf. nota 84)
Em outro número do mesmo jornal outro artigo voltava a atacar os péssimos
serviços oferecidos pela Companhia Leopoldina, à população da região.
Todos os dias e todas as horas, quase que todos os m om entos chegam-
nos reclamações a respeito dos grandes prejuízos e necessidades que
estão sofrendo as populações servidas por esta estr ada modelo que cobra
fretes fabulosos e não sabe zelar seu crédito, mostrando toda sua
relaxação que bem predsa de um a tutoria inglesa.. Duas padarias aqui
deixaram de fornecer pão porque a farinha não chegou; esta em
caminho 185)
123
--- [PDF página 140] ---
As denúncias expostas não se referiam apenas aos serviços ruins mas, também
notamos as reclamações quanto aos fretes e ao desabastecimento da cidade.
Pelo que podemos depreender. Estrada de Ferro Leopoldina exercia um forte
poder sobre a região, ao se tomar a única empresa responsável pela exportação de
produtos da região e ao mesmo tempo, a única responsável pelo transporte de
mercadorias necessárias a sobrevivência da população regional Desse modo, os lugares
do alto da serra dependiam exclusivamente daquela empresa que por sua vez, impunha
uma espécie de ’ditadura’sobre a vida da população ali instalada
Sobre o trem de passageiros adiamos interessante anotar como se fazia o
percurso da cidade do Rio de Janeiro até Nova Friburgo, de acordo com o texto: DO
RIO A NOVA FRIBURGO - COMO SE FAZ A VIAGEM, publicado na revista 'A
Lanterna’
A viagem iniciava-se com o embarque na estação marítima da Leopoldrna
localizada no Largo da Prainha e daí de barco atravessava-se a Baia até Estação
Ferroviária de SantAna de Maruy em Niterói A 7:25 hrs. o trem parta, passando pelas
Estações de Porto da Madalena, São Gonçalo, Alcântara, Guaxmdibá, Itamby até chegar
em Porto das Caixas A partir desse local a linha férrea bifurcava-se, a esqueTda para
Cantagalo e a direita para Campos. De Porto das Caixas até SanfAna de Japuyba, o
terreno era pantanoso, sendo a estada construída sobre aterro e passando pelas
estações de Sambaebba e Papucaia Após Japuyba a estada acompanhava o leito do Rio
Macacu até chegar em cachoeira de Macacu, onde estavam instaladas as oficinas da
estada de ferro. Neste local tocava-se de máquina pois, era necessária a utilização de
uma locomotiva especial para a subida da serra
'A tinha da serrá é composta de três trilhos, sendo o central m ais alto do
que os laterais, constituía esse trilho, na primitiva o sistema F E L L ,
empregado no Monte Cenis e ao lado dele corriam rodas horizontais que
124
--- [PDF página 141] ---
«jud«vm « tr& ç -à o ; hoje porém esse trilho cento! «pernis serve de
freio. Jcomo se fez a viagem - A , Lar'°ma)
Na subida da serra fazia-se ainda duas paradas: no Posto da Pena, a 586 metros
de altitude, e no Posto de Registro, local de abastecimento d'água, a 732 metros. A partir
daí, subia o trem até a estação de Tedoro de Oliveira, ponto mais alto da escalada, a 1006
metros de altitude Em continuação, alinha descia em pequeno dedive acompanhando o
leito do Rio St1 Antônio, passando pela Ponte da Saudade e a partir dai apitando a
locomotiva anunciava a chegada As 10:56 hrs. o trem parava na Estação de Nova
Friburgo, localizada a W metros de altitude, tendo percorrido um total de 109
quilômetros.
Prosseguindo em direção norte a Estrada de Ferro além do centro da cidade, se
aproximava do Rio Bengala e a frente, atravessava-o através de uma ponte de feno,
seguindo em direção às estações de Duas Pedras e mais além Conselheiro Paulmo. Foi
exatamente neste sentido que no período em questão, podemos perceber um processo
de ocupação populacional. Isto é, junto às estações de Duas Pedras, de Conselheiro
Paulino e na direção de Sumidouro, da Estação do Rio Grande verificou-se um pequeno
assentamento de casas, moradias e pequeno comércio. Sendo assim, podemos afirmar
que a Estrada de Feno norteou o assentamento, a expansão urbana friburguense, que se
fez a partir das estações criadas em pontos estratégicos de seu alinhamento (86)
Aos poucos também era possível identificar a presença das locomotivas, que ao
□rcularem pela cidade em momentos determinados, passavam a regular a vida cotidiana
da população. Encontros, horas de lazer, diversões, compromissos variados, horários
rígidos quase sempre, serão determinados de acordo com a passagem dos comboios. O
apito do trem além de significar a passagem da locomotiva passou a funcionar como
momentos de certas definições da população urbana.
125
--- [PDF página 142] ---
’ 0 trem entra na cidade pela rua principal faz um a pequena curva para a
direita afim de tocar < t plataforma da estação e, depois atravessa toda a
cidade devagarinho, badalando sinistramente, como um veíatlo da morte
que anunciasse a sua passagem A®) ,
Para alguns, como o autor da crônica acima, o badalar do trem se apresentava
como um "veículo da morte". Para outros entretanto, sua passagem significava a alegria
da chegada de familiares, amigos provenientes da Capital da República. A estação
ferroviária era um ponto de chegada
" E a cidade toda desperta do seu recolimento preguiçoso par a vir espiar o
trem e examinai a catadura dos passageiros que desembar cam . O trem
segue caminho de Cantagalo; e os t ecem-chegados a fíiburgo, recebidos
por suas fam ílias e am igos, que açodadamente se aglomeravam na estação,
tom am a pé ou de can o, garrulos e expansivos, o cam inho do hotel ou de
casas particulares. 1 & 8 )
Os trens de passageiros ao estacionarem na Estação eram sempre um
acontecimento importante na vida da população de Nova FribuTgo. Boa parte mobilizava-
se em direção a Estação Ferroviária para verificar aqueles que chegavam do Rio de
Janeiro, identificado como maior centro econômico, político, cultural e até mesmo, cnador
da moda Chegar do Rio de Janeno significava muito para as pessoas. O professor
aposentado Ernesto Tessarolo(^) «sim afirmava em entrevista recente:
'Para quem chegava do Rio, naquele tempo a viagem era de tem. havia
pessoas esperando na estação. Era um grande acontecimento. Ver quem
chegava (eram poucos, importantesl quantas m alas tazia, contar quantos
pacotes. Depois ia o cortejo acompanhar o viajante até em casa
Era um tem sem nenhum conforto, is vezes parava no meio do
cam inho, m as dava Status . '
126
--- [PDF página 143] ---
As palavras do professor confirmam o papel do trem no aspecto da moldagem da
vida da população. Era o trem o responsável pelo contato das pessoas provenientes de
um mundo provinciano com a grande capital — grande no sentido mais lato do termo. O
desconforto da viagem era compensado com o poder estar na cidade do Rio de Janeirc
É possível também observar outro tipo de envolvimento da população
friburguense com a ferrovia Na medida em que os trens circulavam pela cidade em
momentos previamente estabelecidos, verificamos que os horários dos moradores da
cidade passavam a ser definidos pelos horários dos trens. É possível pensar que no
aspecto da moldagem da vida dos friburguenses, a estrada de ferro se impunha de forma
sutil, também como "Senhora do Tempo" daqueles que ali viviam Um exemplo dessa
situação verificava-se com o trem de passageiros proveniente de Sumidouro que passava
pela Praça XV de Novembro às 9:30 hrs. da noite. Moças e rapazes que passeavam nos
arredores da Praça, sabiam que esse era o momento de se recolherem em seus lares.
Esse trem logo recebeu o nome de Trem Vassourinha". Em seu livro de poesia-memória
da cidade, Maria José Bragat^l refere-se ao trem:
"... sàudáde do trem - Sumidouro
pelàs noites vmedouro!
PdssãVã armtmdo a fitm aça,
vctrm â gente dá Prâçe,
pois moçd-donzek de bem
se recoíhii com o trem...'
Era ainda a estação da Leopoldina um local onde festas e manifestações populares
ocorriam em certas ocasiões. A chegada de políticos importantes, a nível estadual e
federal, possibilitava sempre a acorrênda de pessoas e aí se faziam comidos, discursos e
até mesmo midavam os cortejos em direção ao centro da ddade(^l). É bom lembrar que
o único restaurante existente na ddade, conforme anotações no "Indicador Fhrmmense*
12?
--- [PDF página 144] ---
era o Restaurante ca Estação, onde realizavam-se jantar es, organizados pelas elites em
momentos de apoio as personalidades políticas que passavam pela cidade.
As manifestações religiosas muitas vezes, tinham início na estação da Leopoldina
e a partir daí, organizavam-se as procissões em direção a Igreja Matriz, localizada na
Praça XV de Novembro. Assim Monsenhor M iranda(^) relata uma festa religiosa da
chegada de Bispos e Arcebispos na cidade em 1915:
" A recepção feita pelo povo católico friburguense a S.Eminênàa e aos
Ezmos. e Remos. Srs. Arcebispos e Bispos das Provmdas Eclesiásticas
do Sul do Br asil foi entusiástica e imponente Dentre a enorme m ultidão de
povo sobressaiam o Ezmo. Sr. D r: Adolpho Macario Figueira de M ello\
nosso D.D. Juiz de Direito, o Ihno. Dr. Delegado de Polida,
representantes da C âm ar a Munidpal e da política local, sem distinção de
partidos, Ilustres veranistas e quase todas as fam ílias católicas da paróquia
e as da Capital Federal que se adiavam a veranear. A banda m usical
"Recreio dos Artistas’ dava todo o realce e anim ação à festiva recepcão,
fazendo ouvir belas e harm oniosas peças do seu repertório.
Desembarcados e acomodados na sala prindpal da Estação,
S.Eminênda e SS. Ezs. receberam as saudações e as boas vindas... o
Eminentíssimo Sr. Cardeal sensivelmente comovido, em frases eloquentes
e paternais agr adeceu por si e pelos Ezm os. Srs. Ar cebispos e Bispos tão
espontâneo e filia] acolhim ento dos católicos ftiburguenses e de todos
aqueles que os acom panhavam Com o penhor de reconhedmento lançou
sobre a imensa multidadão a sua Santa benção. ’
A festa, a manifestação popular, a manifestação política e religiosa tmham o seu
ponto de partida na estação ferroviária da Leopoldina Raihvay Inegavelmente, a
empresa ferroviária significava um determinado espaço que auxiliava o pulsar da vida em
Nova Friburgo.
Num polo diamentralmente oposto a estrada de feno, em certos momentos
também, significava a desgraça, a mensageira da morte. Os jornais de circulação na
cidade, constantemente noticiavam descarrilhamento dos trens, desastres.
128
--- [PDF página 145] ---
atropelamentos, fatos que provocavam medo, pavor as pessoas da cidade. Em 1895, o
jo-nal "O Friburguense’(93) publicava uma pequena nota:
‘sobre o leito da linha férrea... foi encontrado cabido, um indivíduo de
cor preta F oi levado a um a farm ácia, depois para a cadêa, onde
faleceu ^4)
O ano de 1895 foi iniciado com um grande pesadelo ameaçando a vida da
população Tratava-se do cólera que se alastrava em Porto Novo do Cunha. Em 1 7 de
janeiro de 1895, um aviso assinado pelo Dr. Alfredo de Castro, médico da Câmara
Municipal, alertava os moradores e proprietários de hotéis da cidade de Nova Fiiburgo:
"pede-se aos moradores desta cidade e aos proprietários de hotéis que
hospedarem em suas casas, pessoa f vindas de Porto Novo do Qinha,
participar em ao abaixo-assinado, afim de serem elas visitadas diariamente
durante o prazo conveniente.'
O perigo que a epidemia do cólera representava para a população era uma
grande ameaça e por sua vez, poderia ser transportada pelo trem Novamente a ferrovia
significava a negação da vida para a população O mesmo jornal datado de 24 de janeiro
de 1895 relatava a existência de uma manifestação popular impedindo a passagem de um
trem pela cidade:
‘Pronunciamento popular/100 a 500pessoas impedem um trem de chegar
até a estação de Conselheiro Paulino, pois não viram as autoridades
tomarem providências contra o cholera que está assolando Porto Novo do
Cunha ‘
Diante desse fato o Poder Público tomará atitude de suspensão da circulação de
trens até Porto Novo.
129
--- [PDF página 146] ---
" E stá suspenso o tráfego entre esta adâde e Porto Novo, devendo por
estes dm correr o trem áté Sumidouro ^5)
Tentamos portanto, levantai nesse trecho de nosso trabalho a importância
desempenhada pela Companhia Leopoldina Raíltway paia a população de Nova
Fribuvgo.
É inegável a sua importância para o desenvolvimento econômico da cidade, já
que a partir de sua criação, (ortaleceu o papel da cidade como centro distribuídos dos
produtos da periferia rural para os mercados de Niterói e Rio de Janeiro Mas, a
importância da empresa ferroviária não se restringia apenas, aos aspectos econômicos e
financeiros. Devemos ressaltar as influências profundas desempenhadas por ela,
alterando o modo de vida, interferindo no dia-a-dia, estabelecendo profunda inserção no
cotidiano da população friburguense. Um modo de vida controlado, disciplinado estava
se consolidando dentro de característica nitidamente capitalistas. É evidadente que nesse
sentido a Estrada de Ferro Leopoldina Raillway cumprira o seu papel.
Podemos portanto, considerai que Nova Fiiburgo no periodo compreendido
entre 1890 a 1910 vivia um momento de expansão econômica enfatizada pela importância
adquirida com o advento da empresa ferroviária, que fazia acentuar seu papel de
entreposto comercial. A expansão urbana assim como, a configuração de cidade
descolada da dependia da agricultura cafeeira se fazia notar com clareza naquele
momento. Sorialmente e politicamente entretanto, percebia-se a manutenção do poder
representativo dos setores agrários tradicionais, alocados na Câmara Municipal
A partir de 1910 entretanto, novas alterações irão acontecer no espaço
friburguense com a chegada das empresas alemães, responsáveis pela industrialização
assim como, pela implantação da usina de eletricidade. É após esse evento que podemos
entender a construção de um novo modelo de cidade baseado na indústria e no turismo.
130
--- [PDF página 147] ---
A nova elite política que assumirei a condução política do município terá o papel de,
juntamente com o capital alemão, construir, modelar, a denominada 'Suiça brasileira"
131
--- [PDF página 148] ---
U) - NICOLIN, Martin. La Gene se de Mova Friburgo Suisse, Edicions Universitaire,
s/d
(2) - MIRANDA, Girian A Caminhada de uma ddade livre: Nova Friburgo Nova
Friburgo, SESC, 1981.
(3) - TSCHUD1, J J. Viagem a Província do Rio de Janeiro e São Paulo. S.P., Ed Itatiaia,
1980, p. 110.
H) - Nova Friburgo - Radiografia Social de uma Comunidade. Biblioteca de Estudos
Fluminenses, Niterói, Imprensa Oficial, 1988, p 45,46.
(5) - Sobre as mudanças sociais e políticas ocorridas no Brasil após 1850, verificamos a
existência de uma bibliografia bastante vasta. Entretanto, seria importante deixai
consignadas algumas obras, importantes para nossas observações: Caio Prado Jr. História
Econômica do Brasil. S.P., Brasiliense, 11! Ed, 1969, Celso Furtado, Formação Econômica
do Brasil. S.P, Ed. Nacional, 1967, Emíha Viotti da Costa, Da Monarquia a República -
momentos decisivos. S.P, Br asiliense, 1985; José de Sousa Martins, Cativeiro da Terra
S.P, Lech, 1981; Ciro Flamarion S. Cardoso, Agncultura Escravidão e Capitalismo
Petrópolis. Vozes, 1982, Maria Yedda Linhares e Francisco Carlos T. da Silva, História da
Agricultura Brasileira - controvérsias. S.P, Bi asiliense, 1981, limar Rohloff de Mattos, Q
Tempo Saquarema S.P, Ed Hudtec, 1987.
(6) - MATTOS, limar R. - op cit, p 58.
(?) - Sobre a expansão cafeeii a nos municípios de Bom Jardim e Sumidouro baseamo-
nos nas informações contidas nas seguintes obras: Alberto Ribeiro Lamego, Bom Jardim
e o centrifugismo agrícola de Nova Friburgo pela imposição climática, O Homem e a
Sena. R J , IBGE, Conselho Nacional de Geografia, 1950 e Luiz Henrique da Silva,
Sumidouro. R J , PMS, 1990
(8) - CORRÊA Heloisa B. Serzedelo - Nova Friburgo: O Nasamanto da Indústria (1890
- 1930) - dissertação apresentada no curso de mestrado em História da UFF, 1985, memo,
p.21N O T A S : D Q II? C A P ÍT U L O
132
--- [PDF página 149] ---
(9) - Do Rio a Nova Friburgo - Como se faz a viagem in Noya Friburgo Impressões e
Lembranças Nova Friburgo, Cadernos de Cultura, série 5, vol. 1, PMNF/Pro-Memória,
p.61-4.
(10) - CORRÊA, Heloisa Serzedelo - op rit, p.54.
(11) - KELLER, Elza Coelho de Sousa - A Zona Rural de Nova Friburgo relatório da
equipe de Geografia Rural - Anais da AGB. vol. V, tomo II, 1950 - 1 , S.P., 1958, p.50.
(12) - LAMEGO, Alberto R. - Nova Friburgo e as repercussões contrárias ao seu dima -
O Homem e a Serra. RJ., IBGE, 1950, p. 178.
(13) -idem ,p.l?8.
(14) - CORRÊA, Heloisa Serzedelo - op. dt, p. 30 -1.
(15) - Síntese importante sobre o papel dos Barões do Café na vida política do II!
Reinado encontra-se em Fragoso, José Luís, A Política no Império e no irado da
República Velha, in Linhares, Maria Yedda (org). História Geral do Brasil RJ., Ed
Campus, 1990, pp. 187/196.
(15) - F1SCHER, C. R. - Uma História em quatro tempos Nova Friburgo, editado pela
Fábrica de Rendas ARP S A , 1986, p.51.
(12) - LAMEGO, Alberto R - Os barões do café in O Homem e a Sena RJ., IBGE,
1950, p 282.
(1® ) - FISCHER, C. R. - op. rit,p.62.
(15) - COSTA Emília Viotti da - Da Monarquia a República - momento decisivos. S.P,
Brasiliense, 1985, 3! Ed., p 209
(20) - Em 1873, Bernardo Clemente Pmto tomou-se o V Barão de Nova Friburgo. Em
1883 recebe o título de Visconde de Nova Friburgo e em 1888 torna-se o Conde de Nova
Friburgo. FISCHER, C. R. - op. a t, p.62
(21) - FISCHER, C. R. - op. d t, p. 66-7.
133
--- [PDF página 150] ---
(22) - COSTA, Emfiia Viotti da-op. dl, p. 210.
(23) - GRIECO, Agripino - O Conde de Nova Friburgo, O Jornal 1927.
(24)-idem
(25)-idem.
(26) - LEMOS, Renato L do C. Neto e - A disputa do poder in Ferreira, Maneta de
Moraes (coord.) - A República na Velha Província. RJ.. Rio Fundo Ed, 1989, pp <3/63.
(27) -id em ,p .« .
(28) - Nova Friburgo - Radiografia Soaal de uma Comunidade, op dt., p. 154
(29) - LEMOS, Renato R do C. Neto - op dt, p. 61.
(30) - Em Nova Friburgo, somente no ano de 1916 e que será criada a prefeitura
munidpal Até esta data, o cargo de executivo munidpal eTâ ocupado pelo Presidende da
Câmara dos Vereadores. O primeiro prefeito em Nova Friburgo foi Everardo Barreto de
Andrade que assumiu aprefeitura em 26/8/1916.
(31) - A Revista * A Lanterna* album do Estado do Rio de Janeiro, editada poT volta de
1967, ei>sua p.3 traça uma pequena biografia do Coronel Galiano Emílio das Neves.
Quando jovem fora professor do Colégio Freese, tendo se casado com D Josephma
Marques Braga das Neves. Em 1861, após ter ocupado cargos de Delegado de Polícia e
suplente de Juiz Munidpal, foi nomeado Coronel Comandante superior da Guarda
Nadonal.
(32) — idem, p 4
(33) - importante análise sobre a presença do povo nos momentos inidais da República
encontra-se em CARVALHO, José Murilo de - “Os Bestializados- - o Rio de Janeiro e a
República guenãp foi. S.P., Cia das Letras, 1987.
(34) - Nova Friburgo - Radiografia Social de uma Comunidade, op. dt., p. 45.
134
--- [PDF página 151] ---
(35)-idem , ibidem.
(35) - SILVA, Luiz Henrique da - Sumidouro, op. d t, p. 46.
(37) - Noya Friburgo - Radiografia Soaal de uma Comunidade, op. dt, p. 46.
(38) - idem, ibidem.
(39) - idem, ibidem.
(40) - idem, ibidem.
(41) - O original desta planta encontra-se nos arquivos do Pró-Memória - Centro de
Documentação Histórica da PMNF.
(42) - BRAGA, Maria José - Das Casas Coloniais, texto manuscr ito N.F, 1991.
(43) -idem
(44) - "A LANTERNA* , op. dt. p. 23.
(45) - idem, ibidem.
(4® ) - idem, ibidem.
(47) -idem , ibidem.
(4® ) - a relação das ruas ladeiras e avenidas foi obtidas na relação encontrada na revista
‘A Lanterna* , op. d t, p. 23. e completada através de consultas ao catálogo Ruas e
Logradouros de Nova Friburgo. NovaFriburgo, 1975.
(49) - “Indicador Fluminense* . 1898 Documento arquivado no Pró-memória da PMNF,
pasta 800.
(5® ) - Consultar a coleção do Jornal “O FribuTguense* encontrado nos arquivos do Pró-
memória da PMNF.
135
--- [PDF página 152] ---
(51) - Co digo de Posturas Municipais de Nova Fribur go, 1893, Pró-memória da PMNF
(52) - ‘M s a jo í. Rumiri£ru.£‘, 1898, p. 95.
(53) - “Indicador Fluminense' 1898, p 96.
(5<) - MONTEIRO, Hamilton de M . - O aprofundamento do regionalismo e a crise do
modelo liberal in História Geral do Brasil. RJ., Ed. Campus, 1990, p. 216.
(55) - Jornal ‘O Sentinela* . n! 2, 23/01/1898, arquivos do Pró-memória da PMNF.
(55)- Jornal ‘O Sentinela“.n ! 12,03/04/1898, arquivos do Pró-memóna da PMNF.
(57) - Jomal ‘O Sentinela* . n! 2, 23/01/1898, arquivos do Pró-memória da PMNF.
(58) - Jomal ‘O Sentinela* . n! 6, 20/02/1898, arquivos do Pró-memória da PMNF.
(59) -Jo m al * 0 Sentinela* . n! 2,23/01/1898, arquivos do Pró-memória da PMNF.
(80) - Jomal *0 Sentinela* . n! 5, 13/02/1898, arquivos do PTÓ-memónadaPMNF.
(81) - Jomal *0 Sentinela* . n! 4, 06/02/1898, arquivos do Pró-memória da PMNF.
(57) - Jomal *Q Sentinela* . n! 3, 30/01/1898, arquivos do Pró-memória da PMNF.
(83) - Jomal *0 Sentinela* . n! 2, 23/01/1898, arquivos do Pró-memória da PMNF.
(84) - a questão da margmalização dos segmentos populares no espaço urbano, na
época da expansão capitalista no Rio de Janeiro foi brilhantemante trabalhado por
Raquel Soihet em sua tese de doutorado. A autora analisa além desse processo de
margmalização, os discursos das autoridades, juizes, médicos e outros elementos da
dasse dominante altamante preconceituosa em relação a esses segmentos. Ver Raquel
Soihet, Condição femmina e formas de violência mulheres pobres e ordem mbana -1898
- 1920. RJ., Forense Universitária, 1989.
(85) - Jomal * O Fribur guense". 08/03/1891, arquivos Pró-memória da PMNF.
136
--- [PDF página 153] ---
(66) - "In d ictjo r Fluminense*. 1896, pp.92-93.
(67) - Segundo o ' Indicador Fluminense* de 1898, ao todo eram 7 vereadores Gerais e 3
vereadores distritais.
(68) - ' Indicador Fluminense'. 1898, p. 60 e 92
(69) - FERREIRA, Aurélio B. de Hollanda - Novo Dicionário da língua portuguesa. RJ.,
Nova Fronteira, 1 ! ed.,p. 131.
(70) - CAMPOS, André Luiz Vieira de - Posturas Municipais da Província Fluminense, o
r.asn de Campos e Niterói UFF, cadernos do ICHF,n! 17, março de 90.
(71) - idem, p. 35-6.
(72) - Costa, Emitia Viotti, op d t, p 201.
(73) - Código de Posturas Munidpais - 1893 - Pró-memória da PMNF.
(74) - Ver os artigos 91 e 92 do Código de Posturas Munidpais de N. Friburgo - 1893,
Pró-memóna da PMNF
(75) - Sobre a quetão do poder médico indicamos o estudo de Jurandu Freire Costa,
Ordem Médica e Norma familiar RJ., Edições Graal, V ed., 1983.
(76) - SAES, Flávio. A grande empresa de serviços públicos na economia cafeeira. 1850 -
1930 S.P., Hudtec, 1986.
(77) - GUARITA, Marcos A Reis. A indústria de transformação do Rio de Janeiro no
iriiao do século XX. RJ., UFRJ/IEI, 1986, minveo
(78) - ABREU, Maurício A Evolução Urbana do Rio de Janeiro. RJ.,
IPLANRIO/ZAHAR, 1987.
(79) — 0p. dt, p. 50.
(80) - COSTA, Emíha Viotti, op. d t, p.2H.
137
--- [PDF página 154] ---
(81) -idem ,p. 208.
(82) - SIQUEIRA, Edmundo - Resumo Histórico de T h e Leopoldina Raillway Company
Limited, RJ., Gráfica editora Carioca, 1938, p 134.
(83) - Jornal *0 Frihnrgneme- n' 106, 23/09/1892.
(84) - Jornal ‘O Friburguense'. n! 102, 28/08/1892, citado por Luiz Henrique da Silva,
Sumidoma, op ciL,p. 41.
(85) - Jornal ‘O Friburguense-. n! 106, 23/09/1892.
(86) _ paja esta conclusão consultamos a coleção de exemplares de periódicos existentes
nos arquivos do Pró-memória da PMNF.
(8?) - CRÔNICA, 189? in Nova Friburgo Impressões - Lembraças Pró-memória da
PMNF, 1988 Crônica publicada no jornal ’0 Paiz* em 2 Ide janeiro de 189?.
(88)-idem
(89) - o professor Ernesto Tessarolo, nasceu no ano de 1916 e viveu a maior parte de
sua vida na ddade de Nova Friburgo A entrevista concedida à Sonia Regina Rebel
Araújo fez parte do trabalho Memória e História- Ijm hrafii de um velho friburguense
apresentado a professora Dra Rachel Soihet, foi realizada no ano de 1988.
(90) - ALBUQUERQUE, M José Braga C. de - O trem in Diga uma verso bem bonito
N.F., Gráfica e Papelaria Jackson, 1982. A autora nasceu em Bom Jardim, no ano de 1916
e passou a morar em Nova FribuTgo em 1919. Professora aposentada, contmua residente
nesta cidade.
(91) - Consultar a coleção de jornais, periódicos como ‘O Friburguense* ‘A ddade de
Npya Friburgo', ‘Q Sentinela', ‘A Paz- existentes nos arquivos do Pró-memória da
PMNF.
(92) - MIRANDA Monsenhor José S. L de - 1818 -1918. Centenário de Nova Friburgo
- Histórico da Paróchia de S. João Batista - parte religiosa N.F., Officmas Graphicas da
Aurora Colegial, 1918, arquivos do Pró-memória da PMNF, p. 47.
138
--- [PDF página 155] ---
(53) - Jornal "O Friburguense'. n! 328, 21/03/1895.
(34) - Ver coleção de Jornais no Pró-memória da PMNF.
(35) -Jom al “O FrihurguenseV n! 313.24/01/1895
139
--- [PDF página 156] ---
capitulo III
N O VA FRIBURGO: a
construção do modelo
industrial/ turístico
1910-1930
--- [PDF página 157] ---
C A P ÍT U L O 1 1 1
NQVA FRIBURGQ: A CONSTRUÇÃO DQ MODELO
tNDUSTRIAL/TURÍSTICQ Í1910-19301
1 - O REGIME REPUBLICANO: CONVIVÊNCIA ENTRE O NOVO E O VELHO
As análises históricas mais recentes que tratam da implantação do regime
republicano no Brasil após o 15 de novembro de 1889, são unânimes ao afirmarem que
mudanças se processaram ao nível político institucional mas, que no campo sócio-
econômico podemos constatar enorme timidez no que tange as transformações. Não
pretendemos aqui, historiar o que foi o processo de implantação republicana no Brasil até
sua culminância no momento da eclosão do movimento militar dirigido por Deodoro da
Fonseca Entretanto, adiamos ser importante anotarmos alguns itens que tiveram maior
significado na vida política e economica do país e que passaram a ter fundamental
importância na evolução histórica da antiga Província do Rio de Janeiro bem como,
estendendo seus laços até o Município de Nova Friburgo U)
As idéias de República no Brasil propagaram-se em círculos até certo ponto
fechados, a partir de 1870 e tinham como base de sustentação os ideais iluministas trazidas
ao mundo ocidental a partir do século XVIII O movimento republicano, disperso e sem
grande integração, se fizera a partir de um conjunto de insatisfações que passara a
acontecer com relação ao Imperador Pedro II e por exstensão à Monarquia As crises
políticas que após 1870 se alternaram no quadro histórico brasileiro — Questão Militar,
Questão Religiosa Questão Abolicionista — foram aos poucos solapando as bases de
poder do ImperadoT Pedro II ao mesmo tempo que, se processava um questionamento
sobre a viabilidade ou não de manutenção do regime Monárquico. A alternativa
constituia-se na implantação do regime Republicano.
--- [PDF página 158] ---
Por outro lado, tratava-se da implantação de um regime republicano associado,
não mais a uma forma centralista de governo mas sim, atingir uma situação onde
prevalecesse o poder dos governos Estaduais, cujos desenvolvimento não deveriam ser
obstaculizados pela presença constante do poder central. Tratava-se da implantação do
Federalismo Republicano como resposta ao excessivo centrabsmo monárquico, que
‘aviltava" os interesses locais.
No campo sódo-econômico, o regime republicano significava também, a
subordinação da máquina político-gorvenamentel aos interesses emergentes no país dos
fazendeiros de café do Oeste Paulista, até então alijados das prindpais decisões.
Afirmamos que a monarquia era, em uma visão bastante simplificada, a expires são política-
govemamental dos proprietários de café, senhores escravistas, do Vale do Paraíba
fluminense. Inegavelmente, podemos dizer, que a implantação da República e
pnndpalmente a construção republicana após o movrmento militar de 1 5 de novembTO,
significou uma crise de hegemonia política quando verificamos o afastamento dos Barões
de Café do Rio de Janeiro do centro das dedsões políticas e sua substituição pelos
cafeicultores paulistas.
Por outro lado, a instalação do novo regime da forma como se processou
historicamente, não se caracterizou de imediato pela ascensão dos cafeicultores paulistas.
O que se verificou foi um "Golpe Militar" que pennitiua um setor dos militares a tomada
imediata do poder Desse modo, o advento da República no Brasil não se constituiu na
implantação de um regime capaz de solucionar uma crise política-institucional que
remontava aos anos 70 do século XD<. Pelo contrário, a subida de Deodoro da Fonseca
ao poder significou o início de uma crise política que desequilibrou o novo regime até
princípios do novo século. De um lado, os militares tentando assegurai condições que
permitissem sua sustentação no poder e de outro lado, os setores liderados pelos
proprietários paulistas, partidários de um poder em mãos de civis e baseados em
propostas que permitissem aos Estados, autonomia significativa.
--- [PDF página 159] ---
A questão «cima representada explica a instabilidade política vivida pelo novo
regime nos seus primeiros anos de vida. Os defensores de uma República centralizada e
autoritária, representada pelos dois primeiros governos militares e dinamizada após o
governo de Floriano Peixoto pelos Jacobinos eram influenciados por idéias positivistas
aficciaonados de um Estado forte, ditatorial, progressista e mojiáemizante Os
defensores de uma República com feição liberal, com organização federativa
correspondia às aspirações dos setores civis, liderados por cafeicultores de S Paulo,
defensores das idéias que permitiriam assegurar a aqueles o predomínio na vida política
nacional.
Os conflitos expressando as posições expostas aama tiveram início por ocasião já
da montagem da Assembléia Nacional constituinte em 1690 e só diminuíram de
intensidade durante o Governo do paulista Campos Sales, a partir de 1698 A cnação da
um impacto político entre o poder federal e as oligarquias estaduais, efetivado por
Campos Sales, foi inegavelmente o responsável pela estabilidade do regime
republicano. Após dez anos de crise, instabilidade política, atentados, violência, a Nova
Velha República iniciava seu momento de tranquilidade, após a criação da 'Política dos
Governadores'.
Verificou-se então, a partir daí a consolidação republicana^ uma República que já
nascia velha Se é possível entendermos que esse regime em confronto com o regime
anterior, significava algumas novidades na vida política do país, é viável também
afirmarmos que os elementos de modernização criados não passaram de fórmulas
aplicadas de 'cima para baixo’. Na verdade não se operou a criação de medidas que
visassem maior participação popular. No dizer de José Murilo de Carvalhoí?) o novo
regime nada significou de res (coisa) e muito menos de pública (do povo). É que a
chamada República dos Coronéis (leia-se oligarquias rurais) ao longo de sua existência,
criou mecanismos capazes de afastar as pretensões de maior participação popular em
seus momento de decisões importantes. Embora a Constituição de 1891 tenha consagrado
142
--- [PDF página 160] ---
o sufrágio universal, «s leis que irêio tratar de sua regulamentação propiciaram
mecanismos de exdusão do povo, até mesmo na escolha de seus representantes
políticos.
Desse modo podemos constatar que o regime Republicano caracterizou-se muito
mais por elementos que expressaram uma continuidade, do que descontinuidade, em
relação ao Regime Imperial.
Ao plano econômico é evidente o papel dominante exercido pelo setor cafeeiro
na vida brasileira durante a Velha República. Na perspectiva do sistema capitalista
mundial, a República correspondeu ao momento de expansão do capital, quando este se
preparava para apoderar-se da produção em escala mundial. Intemamente isto
correspondeu a expansão da lavoura cafeeira, assentada na utilização da força de
trabalho livre e no incremento da exportações. Tais elementos favoreceram à utilização
de máquinas para o benefiriamento do café, dinamização do setor comercial (estradas de
ferro, melhoria dos portos) e ainda a diversificação nos investimentos como exemplo, em
bancos, atividades comerciais e industriais. Tratou-se de um amplo processo de
modernização do país porém, com características conservadoras, onde enormes
contigentes populacionais permaneciam exdusos das principais decisões. Neste contexto
de mudanças capitalistas no Brasil Republicano, a indústria representou um importante
papel principalmente nas regiões de São Paulo e Rio de Jeneiro. Entretanto, é
importante ressaltar que tal crescimento industrial efetivou-se numa conjuntura onde os
setores agrarios-exportadores exerceram sua hegemonia política-ideológica, sem
entretanto, impossibilitai um reduzido espaço que permitia a ascensão daquele setor
Num quadro amplo de predomínio agráno-exportador, o setor industrial conseguiu
espaço aberto para seu próprio estabelecimento, embora tal espaço tenha sido de
primeira ordem Afirmamos que seu crescimento tenha sido bastante significativo embora,
ainda ocupasse papel secundário no plano econômico nacional.
143
--- [PDF página 161] ---
1.1 - R I O D E J A N E I R O : A S D I F IC U L D A D E S D O -V E L H O F E I T O R ’
A implantação do regime republicano no Brasil foi para o Estado do Rio de
Janeiro um fato que veio aprofundar ainda mais, uma crise verificada a partir do declínio
de sua cafeicultura após 1880 assim como, a decadência política dos "Barões do Café" nos
quadros da monarquia decadente. Em um importante trabalho sobre a situação do Estado
do Rio de Janeiro no período da República Velha, Marieta Moraes Ferreira^) afirma:
"Prindpalpolo econômico do país durante quase meio século do período
imperial, graças à pujança de sua cafeicultura escravista, e um dos
principais sustentáculos do regime m onár quico, a então Provmda do Rio
de Janeiro entrou em dedíneo econômico ainda na década de IS S O , tendo
assistido à proclamação da República e a sua instalação em meio a grave
crise política."
De principais atores sociais e políticos do regime imperial, as elites fluminenses
passaram com a República, a exercer papéis secundários na vida nacional. Essas elites ao
longo da Velha República terão que desenvolvei estratégias políticas, no sentido da
busca de recuperação de sua economia face a crise cafeeii a, e o fim da escravidão assim
como, tentar implementar medidas que possibilitassem a elas recuperai o seu papel
importante na vida política nacional, agora solapado pela ascensão dos militares e das
oligarquias paulista e mineira Por outro lado, a quase inexistente penetração das idéias
republicanas no interior da Província Fluminense inviabilizou sua sedimentação por toda
região, fazendo com que o Partido Republicano do Rio de Janeiro só fosse criado em
fins do ano de 1888. É daro que a Abolição da Escravidão em maio daquele ano fez com
que muitos monarquistas, insatisfeitos com o ato da Pnncesa Isabel apoiasse em seguida, o
projeto republicano.W
--- [PDF página 162] ---
Assim formou-se o Partido Republicano na Província do Rio de Janeiro. Um
partido composto de ex-monarquistas, desalentados com o fim da escravidão e por outro
lado, sem compromissos maiores com o ideário republicano.
A construção do novo regime no estado do Rio de Janeiro teve que conviver
com todos esses problemas. Crise da Agricultura-exportadora escravista, perda de
hegemonia das elites fluminenses a nível nacional, fragilidade das elites republicanas no
seio das elites locais.
O curto período do Governo de Deodoro da Fonseca, correspondeu a nível
estadual, ao Governo de Francisco Portela cuja característica beseou-se na tentativa de
formação de alianças municipais com vistas a assentar suas bases de poder em todo o
Estado. Essas alianças se fizeram com o apoio de ex-monarquistas, como foi o caso do
Conselheiro Paulino Soares de Sousa. O fim do governo de Deodoro levou a queda do
govemo portebsta no Estado e verificamos a partir daí, a fragfl união entre republicanos
históricos e monarquistas na tentativa de construção do Partido Reapublicano
Fluminense.(^)
Na década de 90 vemos configurar um quadro político bastante confuso que fora
acentuado com o agravamento da crise cafeeira em virtude do grande dedíneo de seus
preços no mercado internacional.
Paralelamente a esta situação, percebemos no período inicial da República, o
começo dos conflitos no interior das elites fluminenses o que prejudicava a sustetação das
alianças política feitas para a manutenção do poder estadual De um lado, as lideranças
localizadas no município de Campos confrontando-se de outro lado, com a cúpula do
PRF representada por José Tomas de Porriúncula, Conselheiro Paulino e Alberto
Torres. Segundo Marieta de Moraes Ferreira^) o equilíbrio mantido pelo governo
fluminense começou a ser ameaçado quandos os grupos dissidentes passaram a se
articular entre si ou com grupos atuantes a nível nacional, prejudicando a frágil unidade
mantida pela cúpula do PRF.
H 5
--- [PDF página 163] ---
No governo de Alberto Tones, em sua fase inicial foi possível perceber uma
unidade das forças políticas fluminenses em tomo do programa de recuperação
econômica do Estado do Rio de Janeiro. Difusão da pequena propriedade,
aproveitamento do trabalhador nacional, diversificação agrícola, diminuiçãodo imposto de
exportação e criação do imposto territorial, foram medidas propostas por Alberto Torres
e imediatamente aprovadas. Entratanto, a oposição atais medidas logo se se fez sentir a
partir das posições contrárias assumidas pelos proprietários rurais do Estado. Tal situação,
expressando o descompasso entre a direção do PRF e as lideranças locais favoreceu a
abertura de um espaço, onde Alberto Torres passava a atuar, o que explica o seu
rompimento com o Partido e a fundação do Partido Republicano do Rio de Janeiro —
PRRJ.
Podemos perceber então, já no primeiro decênio republicano, o Estado do Rio
de Janeiro vivera uma conjuntura de grande instabilidade onde podemos ressaltar, no
plano econômico a crise envolvendo a decadência da produção cafeeii a em toda região,
no plano político, as dificuldades em tomo da formação de um grupo político coeso capaz
de implementar políticas voltadas paia o soerguimento econômico do Estado, do mesmo
modo incapaz de recuperaras funções de primeira linha exercida pelas elites
fluminensesno contexto político nacional; no plano ideológico, as dificuldades
decorrentes do pouco aprofundamento das idéias repubhcanasno interior da antiga
Província assim como, a presença de ex-monarquistas com atuação bastante forte na
direção dos partidos republicanos.
É dentro deste quadro de enorme instabilidade que podemos entender a
emergência da liderança de Nilo Peçanha, como figura de grande proeminência na vida
política do Estado do Rio de Janeiro, até meados da década de 20. Assim Maneta Moraes
de Ferreira!?) expõe sobre esse assunto:
--- [PDF página 164] ---
" F o i nesse quadro problemático, tonto do pondo de vista econômico com o
político, que começou a despontar a liderança de Nilo Peçanha, jovem
deputado federal campista ligado ao Baião de M ira cerna Aproveitando-se
da fragmentação do PRF e de suas boas relações com o Presidente da
República Campos Sales, que então im plantava no país a Política dos
Governadores', Nilo Peçanha iria reunir condições paia iniciar um a
escalada em direção ao poder, num processo que se desenrolou em
diversas etapas e deu origem à formação de um novo grupo na política
fluminense. ‘
Nflo Peçanha, apoiava-se nos grupos seguidores de Alberto Tones,
prindpalmente os descendentes do PRF de Petrópolis, nos grupos oposicionistas de
Niterói ligados a Francisco Portela e nos grupos políticos do norte Fluminense. Com essa
base de apoio, primando pela heterogeneidade que podemos perceber a denota do
PRF e a ascensão do PRRJ, principalmente do grupo nilísta, a partir do ano de 1900.
As eleições paia o governo do Estado em 1903 consagram a liderança de Nilo
Peçanha. É quando efetivamente o político campista assume o poder no Estado, buscando
a unificação da política fluminense sob sua liderança e ainda, tentando a busca de
programas econômicos-financeiros, na tentativa de encontrai soluções para a crise no
Estado.
" E ssas preocupações fizeram com que Nilo deixasse cada vez m ais de ser
um a liderança representativa do norte cam pista açúcareiro e am pliasse o
escopo de sua sustentação política, incorporando elementos hgados a
diferentes atividades econômicas e oriundos de diferentes regiões W
O governo de Nilo Peçanha procurou reeditai as medidas econômicas
financeiras propostas por Alberto Torres, apenas tentando amenizar as medidas mais
polêmicas, evitando assim, insatisfações de certos setores localizados. Por outro lado:
H 7
--- [PDF página 165] ---
" a administração niilista seria m arcada por um severo programa de
saneamento das finanças públicas que visava reduzir os gastos do estado
e am pliar a receita através de modificações no sistema tributário e, ainda
pela implementação de um conjunto de medidas destinadas a incentivai a
produção. Ainda que, sem abandonai a cafeicultura e a lavoura
açúcareira, Nilo via na diversificação da agricultura a principal saída pai a
a aise da economia flum inense. M
Fica patente nesta afirmação a intenção de Nilo Peçanha a princípio, com o
saneamento financeiro estadual assim como, a nível econômico, sua preocupação com
uma política agrarista, descartando portanto, qualquer tentativa industrializante para o
Estado. Era ainda, a agricultura o motor que podería propiciar ao Estado do Rio de
Janeiro, as condições para a superação da crise vivida até aquele momento
No plano nacional, Nilo Peçanha tenta firmar alianças com os estados da Bahia,
Pernambuco e Rio Gr ande do Sul tendo em vista, suas posições secundánas frente aos
estados de maior magnitude política; como São Paulo e Minas Gerais.
" o período de dominação nihsta no Estado do Rio, que se iniciou em 1 9 0 3 ,
pode ser interpretado como um a luta pela criação de eixo alternativo de
poder. Se em diversas oportunidades Nilo Peçanha firnou acordos,
articulou-se e mesmo submeteu-se as oligar quias m ineir as e paulistas, isso
não impediu que sua posição e de seu grupo divergisse das orientações
traçadas pelos dois grandes estados, evidenciando tentativas de
apr oximação com Bahia e Pernambuco, e em alguns momentos com o Rio
Grande do Sul, na busca de apoio para seu projeto político nacional 11 ® )
Em 1906, Nilo Peçanha foi eleito Vice-Presidente da República brasileira na
chapa encabeçada por Afonso Pena. Se por um lado, a nível pessoal verificamos a
projeção de Nilo Peçanha em escala nacional, por outro lado em relação à política
estadual o que se verificou foi o início de problemas internos com a perda parcial de
poder constatada durante a presidência estadual de Alfredo Backer. A ascensão de Nilo
--- [PDF página 166] ---
Peçanha à pTesidênda da nação após a morte de Afonso Pena, aprofundou ainda mais a
crise de seu poder pessoal a nível do Estado fluminense Sua posição tomou-se mais
problemática a partir do rompimento com as candidaturas de Hermes da Fonseca-
Prnheiro Machado para Presidente e Vice da República brasileira (U)
No plano político estadual, a perda de prestígio do político campista é
aprofundada a partir do confronto com o Presidente do Estado Oliveira Botelho em
virtude do apoio deste a Hermes da Fonsecapor ocasião da campanha dvüista.
Em 19 14, Nilo Peçanha é novamente eleito presidente do Estado do Rio de
Janeiro e podemos perceber que a evolução política estadual permanecerá ligada ao seu
nome até 1923 quando se processou a intervenção federal no Rio de Janeiro decretada
pelo presidente Arthur Bemardes. A denota eleitoral da Reação Republicana frente a
candidatura de Bemardes, patrocinada pelo binômio São Paulo-Minas Gerais explica a
intervenção federal no Estado a partir de 1923 e o consequente desalojar do nilismo do
controle da máquina política do estado. A partir daí, podemos constatar o dedíneo de Nilo
Peçanha no que concerne ao controle político no Estado do Rio de Janeiro como
também, a encergênda de um novo grupo estadual representado por Feliaano Sodré.
Utilizando mais uma vez o trabalho de Marieta Moraes Feneira, pnndpalmente
na introdução do livro * A República na Velha Província' podemos constatar o
levantamento de algumas hipóteses que explicam o fracasso do surgimento do Estado do
Rio de Janeiro no primeiro período republicano. Em primeiro lugar a autora afirma que
tal fracasso foi fruto da falta de coesão interna no interior dos pequenos grupos políticos
em luta pelo poder estadual. Tal fato é explicado pela existênda de projetos alternativos
de governo, colocando os grupos oposidonista a mercê do controle político dos
governos federais ! 12)
O projeto nilista, voltado a implantação de um modelo agrarista com vistas a
romper com o predomínio monocuttor, além de não dar ênfase a projetos voltados à
industrialização, catalizou forte oposição daqueles defensores de um modelo que
149
--- [PDF página 167] ---
enfatizava a agricultura de exportação As medidas voltadas para as reformas urbanas
foram sempre caracterizadas por um forte conteúdo dienteMco-eleitoral.
A inexistência de coesão política no Estado impossibilitou a solidificação de um
partido republicano no Estado, capaz de viabilizar políticas coerentes em busca de
soluções para os principais problemas da velha província. O crescimento e declínio
constantes do PRF e PRRJ revelam sua inconsistência e fraqueza no processo de
evolução política do Estado. Essa situação explica a tendência à personalização na
política, fluminense no período em questão.
Uma outra afirmação importante apresentada por Marieta de Moraes Ferreira
concernente ao fracasso das tentativas de soerguimento do Estado do Rio de Janeiro
estaria ligado a tendência a "nacionalização" da política estadual. A proximidade com o
Distrito Federal fez com que os políticos estaduais se envolvessem constantemente em
disputas referidas a problemas de amplitude nacional Os embates políticos em tomo das
questões estaduais sofreram constantemente ingerências que apontavam para
posicionamentos muitas vezes assumidos em virtude de questões nacionais, o que
fr agilizava as tentativas de maior coesão a nível do Estado.
Embora, não querendo afastar os problemas econômicos vividos pelo o Estado do
Rio de Janeiro desde as duas últimas décads do século passado, como causadores das
dificuldades de recuperação desse Estado durante a República Velha, Marieta de
Moraes Ferreira aponta como fatores de maior importância aqueles relacionados à
questão política como grandes responsáveis pelas dificuldades vividas pelo Estado no
período da primeira República.
A análise do processo de evolução política do Estado do Rio de Janeiro durante a
Velha República toma-se fundamental para nós, quando percebemos que no município
de Nova Friburgo as questões nacionais e estaduais quase sempre serviríam de
referências para as disputas nessa localidade. Por outro lado entendemos que o
crescimento do município, assim como a construção do modelo mdustrial/turístico ai
150
--- [PDF página 168] ---
implantado a partir da década 1910-1920 teve nas questões políticas sua referência
principal Acreditamos que a invenção de uma Nova Friburgo como cidade industrial e
ao mesmo tempo, centro importante no fornecimento de serviços voltados ao descanso,
ao lazer deveu-se prioritáriamente, ao comportamento assumido por lideranças políticas
locais implementadoras de medidas capazes de consolidai para o Município o seu novo
perfil. Desse modo, pretendemos pnvilegiar os aspectos políticos municipais, os confhtos
em tomo da solidificação de um grupo hegemônico em torno do poder público municipal,
responsabilizado pela consolidação de um novo perfil cunhado para a cidade.
1.2-A NOVA FRIBURGO NA VELHA REPÚBLICA:
Os primeiros momentosda implantação do regime republicano em Nova Friburgo
podemos considerar amautenção de elementos que configuraram a existência de fortes
traços de continuidade com o regime anterior. Embora datasse dos primordios de 1890 a
elevação de Nova Friburgo a categona de cidade autônoma na composição social do
poder local o que verificamos é o predomínio político de setores conservadores, quase
sempre ligados aos grandes proprietários rurais da região Utilizando a listagem dos
Presidentes da Câmara Municipal notamos ai a presença de um número significativo de
médicos e advogados na condução da política local mas, que não significava qualquer
rompimento com a política dos coronéis. Ressaltamos o longo período de govemo do Di
Emesto Brazílio de Araújo (1697 - 1908) período esse que perpassa uma fase de conflitos
em tomo da consolidação do regime republicano assim como, a fase de assentamentos do
poder das oligarquias rurais e seus representantes, que se verificou a partir do Govemo
Campos Sales (1896 - 1902). A "Política dos Governadores" responsável pela
consolidação e domínio político dos grandes proprietários rurais a nível dos poderes
151
--- [PDF página 169] ---
federal e estaduais, no plano do município significou mera continuidade. A permanência
de Ernesto Brazítio, à frente do executivo municipal expressa mais essa continuidade.
A presença de Dr Emesto Brasítio até 1908 como dirigente maior do município se
enquadra em um momento no qual não verificamos disputas no intenor das elites
friburguenses em tomo do poder local A continuidade do ‘velho clinico' na condução
da Presidência da Câmara refletia a unidade existente entre as elites locais em tomo da
escolha de seus representantes.
Por outro lado, os métodos aplicados nas eleições municipais corroborados pelas
leis nacionais, levaram a exclusão de enormes setores da população no que concerne a
participação do processo eleitor âl(13). As eleições no município, seja para a escolha dos
vereadores, seja para a escolha de deputados e presidentes o que se notava era a
reduzida presença da população. A consulta de algumas listagens eleitorais nos permite
comprovar a presença de um número em tomo de 1% (hum por cento) apenas da
população total do munidpio(^). Desse modo, é possível concluir que em Nova Friburgo
mesmo após a implantação do regime republicano, a coisa pública continuava sendo algo
das elites e para essas mesmas elites sem maior participação dos segmentos menos
favorecidos da sociedade.
Cumpre-nos assinalar ainda a presença da família Gahano das Neves no controle
do poder municipal friburguense já que é possível notar a presença de pai e filho na
direção da Câmara Municipal — o 1! como presidente da Câmara no período de 1090 -
1892 e o 2! , Galiano Emílio das Neves Júnior, presidente da Câmara no período de 1910
a 1913. Trata-se inegavelmente, de proprietários rurais da periferia da cidade, que
assumiram o cargo de dirigente municipal em momentos bastante significativos da
histoória de Nova Friburgo. Galiano Emílio das Neves assumira a presidência da Câmara
no momento minai de implantação do regime republicano enquanto que Galiano das
Neves Junior, dirigira a Câmara Municipal, num período de crises, de dissenções e até
mesmo conflitos envolvendo grupos desta mesma elite
--- [PDF página 170] ---
A ascensão de Nilo Peçanhano Estado do Rio de Janeiro e sua posterior eleição
como Vice-Presidente nacional na chapa de Afonso Penna e a eleição de Alfredo
Backer para o cargo de Presidente do Estado do Rio de Janeiro possibilitou o início da
divergências entre os partidários daquelas duas lideranças. Instigados por Afonso Penna,
nilistas e baqueristas iram se defrontar politicamente em vários municípios do Estado,
envolvendo querelas variadas, não faltando os indefectíveis ataques pessoais de parte a
parte.
Em Nova Friburgo, os problemas tomaram-se mais evidentes após o fim do
governo de Ernesto Brazílio em 1908 e a ascensão política de Galiano das Neves Júnior,
considerado mentor dos dirigentes locais: Dr. Modesto Alves P. de Mello e Dr. Télio de
MoraisUS). Era esse grupo, partidário de Alfredo Backer e que naturalmente fora se
afastando do alinhamento a Nilo Peçanha, transformando a Cáimara de Nova Friburgo em
um espaço pTÓxhno as determinações políticas do presidente estadual.
Em contrapartida, o grupo nihsta tendia a formar-se na cidade ao redor de um
jovem lidei, proveniente de uma família também de grandes proprietários da região Dr
Galdino do Valle Filho. Segundo biografia escrita por Alfrânio Veiga do Valle(^), Dr.
Galdino do Valle Filho, era filho do Dr Galdino Antonio do Valle e Francisca de Morais
Martins, sendo o pai médico e a mãe herdeira de propriedades de café na região.
Quando jovem ainda, a família transferiu residência para Nova Friburgo, tendo
Galdino Filho estudado no Colégio Anchieta e em 189? iniciado o Curso de Medicina na
Escola de Medicina do Rio de Janeiro. Tendo conduido o curso em 1902 e em seguida
casa-se com sua prima Evangelina de Morais Veiga indo residir e dinicar na ddade de
Mirai, no Estado de Minas Gerais. Posteriormente, retoma com a família para Nova
Friburgo iniciando trabalhos de dínica-médica na ddade. Em 1906, após união de
correntes partidárias dispersas no município, Dr. Galdino do Valle Filho conheddo pelo
nome de Dr. Galdo promove a criação do Jornal "A Paz" que a partir daí irá se tomar o
prindpal veículo de suas idéias políticas no muraripio.U?)
153
Pr»*eittra d e o va F rib u rg o
Secretaria cie ultura
Cerr • r"e Pocumentaçài
Hiatérlca * Pró-Momóriè
--- [PDF página 171] ---
Ao longo de sua vida, Di. Galdo acumulou as funções de médico em Nova
Friburgo e Niterói, e político.
" F oi sucessivamente, Vereador, Presidente dá C am ara M unicipal,
Deputado Estadual, Prefeito e Deputádo Federal, em memoráveis
cam panhas, À s quais nunca faltou o apoio do eleitorado friburguense {18)
No início da sua vida política em 1906 e até a eleição de Oliveira Botelho para a
Presidência do Estado do Rio de Janeiro, Galdino do Valle Filho se aproximou de Nilo
Peçanha, assumindo posição de alinhamento direto junto a liderança do político campista
Dessa forma, coloca-se, como oposição a Alfredo Backer no plano estadual, assim como,
também oposição a Galiano das Neves Junior a nível municipal Nesse momento, é
importante analisarmos os editoriais do Jornal * A P az"(19). onde podemos conferir o grau
e a qualidade da oposição Galdinistafrente aos governos Municipal e Estadual.
Quanto ao govemo municipal do Dr Thelio Morais (1909 - 1910) o jornal
oposicionista assim se expressava:
‘U m passo Mime foi dado já ao inído esperançoso de sua carreira,
deixando insensivelmente orientar-se por um cam inho que de certo não o
conduzirá à glória ambicionada O pape! ingrato que boamente consentru
repr esentar na violenta deposição do seu colega e alliado, se por um lado
o aproximou da realização das esperanças fagireiras que o atentam , o
ineffavel sonho que o afaga a toda hora, por outro tam bém , o afastou
consideravelmente do conceito que a si próprio fazia sem contar com que
tributavam os seus admiradores inspirados na auréola de integridade e
independência que o drarndava. {20)
O editorial lança farpas sobre a conduta do Presidente da Câmara Municipal por
ocasião da demisão do Presidente anterior. Fala o autor, usando de adjetivos favoráveis
ao Dr. Thélio de Moraes, até o episódio da deposição do Dr. Modesto A P. de Mello do
154
--- [PDF página 172] ---
corgo de Presidente da Câmara, que veio destruir a "auréola de integridade e
independência’ isto é, a imagem benévola do atual presidente.
Mais à frente, o editorial continua as críticas à pessoa de Dr. Thétio de Moraes,
explicando sua conduta como decorrente de sua ahançapolítica com o Coronel Galeano
das Neves Junior:
"como um p a ss o im p ru d en te é q u a se sem p re seg u id o d e ou tro mais g r a v e
ainda, o c e rto é q u e S. S. n áo p e rc e b e m q u e p o u c o à p o u c o s e ia
em botanto a sua von ta d e, a d o rm ecen d o a sua energia, dom inado p o r um
p o d e r estranho, p o r uma ação con stan te e forte, e assim s e en con tra
re d u z id o h o je a situação su baltern a e deprim ida, p e la som bra
m astodontica d o Sr. G alean o Junior, se u m entor assíduo agora e
volu n tarioso C h efe. f21)
Âs críticas ao dirigente do executivo municipal permanecem no campo
estritamente pessoal colocando-o totalmente dominado pela figura do líder e mentor
Galeano das Neves É importante frizai que aposição exercida pelo Dr. Galdo trilhava o
caminho do personalismo, não se verificando qualquer divergência programática ou
mesmo ideológicac Mais à frente, o texto refere-se a falta de direção do representante do
poder municipal mas, logo em seguida, retorna às críticas pessoais e para isso, utiliza-se
de um número grande de adjetivos na caracterização dos adversários.
"Somente assim s e p o d e r ia ju stificar a p o siç ã o d o Sr . T h élw d e Mor aes,
em fa ce a acephaha d o g o v e r n o m unicipal q u e hora s e n o s apresenta,
a ssesso ra d o p o r a q u e le rec a la tra n te p otiticasso, o p re s id e n te d e facto q u e
o g o vern a , e administra o s a ctos da vida municipal, a ra n d o em p reg o s e
d e m itin d o arbitrariam ente fu n cd o n a rio s, alter ando obras e supprim m do
serviço s, com g r a v e dam no p a ia o esta d o econôm ico e fin an ceiro d o
m unicípio, re d u z id o a co n seq u ên cia s alarm antem ente o p p resiva s, sem
m eios p a r a so c o rre r as su as n e c e ssid a d e s mais urgentes, e, a té m esm o
p a ia fa ze r fa c e ao p a g a m en to d o s se u s funcionários e trabalhadores, em
atraso alguns d e mais d e à n c o m e z e s n o s seu s p a rc o s vencim entos. 1^)
155
--- [PDF página 173] ---
Além das acusações ao Presidente da Câmara e sua dependência a Galeano
Junior chamado de "recaldtante politicasso’ o trecho do editorial acima exposto, fomece-
nos subsídios para pensar sobre a extensão de poder de governo municipal Por aí
podemos concluir que a concentração de forças em mãos do Presidente da Câmara era
bastante considerável, cabendo a ele criar empregos, contratar e demitir funcionários —
o caso acima refere-se a 5 meses de atraso. É bem verdade, que devemos entender o
texto em seus limites históricos e ideológicos. Não queremos afirmar que todas as
denúncias acima relatadas expressam a realidade dos fatos da administração Thélio de
Moraes. Cremos que o umportante é inferir conclusões sobre as formas de governo
implantadas naquele momento.
As reuniões da Câmara Municipal eram realizadas de forma intermitente, não
ocorrendo a partir de uma calendário previamente estabelecido, o que impossibilitava
sua constância. Cabia ao Presidente da Câmara a convocação de reuniões com os
vereadores, o que poderia acontecer em espaços de tempo bem dilatados.
Sendo assim, as Atas das reuniões da Câmara de Vereadores, em todo o período
pesquisado por nós, são em número bastante reduzido, já que refletem o reduzido
número dessas reuniões. Se as reuniões aconteciam em pequena quantidade, tal situação
abria espaço para atuação poderosa do presidente da Câmara que dingia os destinos do
Município através de atos exclusivos, denominados Resoluções. O trecho do artigo,
reproduzido abaixo permite-nos perceber a dimensão da questão:
"Som ente essa fascinação de serpente com que o novel âdm m istrâdor se
esquecesse de Inzer indispensável convocação da C âm ara em sessões
ordinárias no mez de fevereiro últm io e neste que vai findando, em que
deveríam ser tom adas as contas da adm inistração anterior e apuradas as
responsabilidades do atrazo em que ella se acha que já agora pezam
sobre a adm inistração do Sr. Thélio Moraes susàtando esse acto duvidas e
156
--- [PDF página 174] ---
apprehensões serias no ânim o dos contribuintes e daqueles que com a
Câm ara firm aram contractos e compromissos. $3)
Pelo que pudemos constatar, durante toda a Velha República, as reuniões da
Câmara para serem realizadas, dependiam de convocação proferida pelo Presidente, isto
acontecendo esporidicamente O esvaziamento do legislativo local, permitiu a
centralização de poderes no executivo. Dai, que para se entender as características das
administrações municipais que se sucederam no período da República Velha, ser
interessante o estúdo dos conteúdoa das Resoluções, atos impostos pelo poder
executivo. É o que pretendemos fazer em ocasião posterior, dessa dissertação
Em outro número do mesmo jornal encontramos denúncias de corrupção, péssimo
uso do patrimônio público efetivado por Galeano das Neves Junior, apelidado de Chon-
Chon:
'é inacr editável o modo por que a com m andità que se assenhoreou do
governo m im icrpa! explora em seu proveito os bens e os dinheiros
púbicos
Êpreciso que o publico e o Dr. Damasceno Saibam que par te da
m obüia que guarnece a sua residência nesta cidade pertence a C âm ar a
Murvápal e foi de lá retir ada pelos homens que merecem confiança do
governo do Estado Sabemos que ao Chon-Chon não faltam móveis que
podiam figur a r nas salas do Sea etário do E stado\ m as esses guarnecem as
casas que elle aluga e nessa questão de dinheiro o Chon-Chon se
pudesse, prendería em seus bolços: todo que gyra no m undo e ... não
acharia m uito. 124)
Em seguida o artigo denuncia a utilização de funcionários da Câmara Municipal
em serviços particulares de alguns membros daquela instituição:
" E como se isso não bastasse para cor adensar um a situação tem os tam bém
a cornara pagando um hom em o Manoel Tam anco que em vez de
--- [PDF página 175] ---
e m p re g a r-se no se rv iç o púbhco, o ccu p a -se n o se rv iç o d e C hon-C hon e
d o Farinha, d o is m em bros da firma fatídica d o n o sso atraso.
F o rq u e não p a g a o C hon-C hon quem trate d o s seu s cavalos s e os
q u e r te r n é d io s e h rsid io s? p o rq u e o Farinha não p ro cu ra jar din eiro fora
das fo lh a s d o s tr abalhadores da C â m a ra ? fà )
No plano estadual a posição de Galdino do Valle Filho situava-se em franca
oposição ao governo de Alfredo Backer, oposição esta que não se caracterizava por
divergências no campo de propostas políticas. A situação permanecia em torno de
divergências pessoais, o que explica muitas vezes, a virulência das acusações ao Chefe
do Governo Estadual. Por ocasião de uma visita feita por Backer ao município de
Teresópotis, assim o jornal “A Paz* se referia:
'F e z-se igualm ente, itin e r a n te , o Sr. B a ck er; e n o m esm o dia, q u içá a
m esm a hora, en ceto u a p o lv o ro sa mar ch a P ô s-se a caminho, então, o
T ailarim d e M achaé, com com fé ro senho, e mais som brio s e lh e tornava
a in d a à m edida q u e tam pava das alturas, e s e aproxim ava da chatice, p ara
q u a l v em rolan do c é le r e ...'
A p lá c id a e risonha N icth eroy, o n d e às manhans, p a r e c e surgir
banhada d e p u rp u ra e ouro da lu z d o n o sso s o l levan te, a encantadora
N gm pha da Guanabar a va e te r agora to ldado o se u c é o a zu l e cristalino
C om o as enxurradas q u e d escem das montanhas, s e derram ar á so b re a
in victa m etrópole, a b ilesp eço n h en ta ex tra va za d a da con gesta víscera d e
S. e x a l... 1^5)
A nível da política estadual até o ano de 1914, Galdmo do Valle Filho permanece
alinhado à figura de Nilo Peçanha. É o que podemos verificar no texto abaixo:
'N a adm inistração d o Estado d o R io d e Jan eiro, drstm guiu-se o Sr. N ilo
P eçan h a p e la criteriosa orien tação econôm ica-financeira q u e so u b e
imprimir ao se u g o vern o , p ro d u zin d o os m elh o res frvcto s que. s i não
p u d e r am s e r m em brosos com o fora p a ra d e se ja r-se e assim co rresp o n d er
a p o lític a d e expan são a q u e s e havia traçado e ao m agno pro b lem a da
transform ação agrícola qu e s e tom ar a a sua m aior e constante cogitação,
158
--- [PDF página 176] ---
deve-se isto infehsm ente, as condições precárias em que encontrou todas
as fontes de riqueza pública qimi inteiramente esgotadas e
desorganização de todos os serviços adm inistr ativos em que deixar am os
seus arrtecessores. t27)
É possível perceber nesse discurso o apoio dado pelo deputado Galdino do Valle
a Nilo Peçanha, ressaltando seus importantes feitos por ocasião de seu governo estadual.
Entende-se aí a agricultura como o maior problema do Estado e somente não resolvido
em virtude das condições precárias do erário público, depamperado pela
desorganização administrativa criada pelos antecessores do Político Campista à frente do
executivo estadual. Notava-se portanto, a aproximação de Galdino do Valle ao projeto
político nihsta enquanto que, permanecia em oposição ao governo de Alfredo Backer, a
nível da política do Estado do Rio de Janeiro.
Para substituição de Alfredo Backer no govemo do Estado, Galdino do Valle
apoia a candidatura vitoriosa e oposicionista de Oliveira Botelho. A partir deste momento,
verificamos a aproximação de Dr. Galdo com o governador do Estado porém, mantendo
forte oposição no plano municipal, a gestão política de Galleano das Neves. A aliança
com Oliveira Botelho explica a eleição de Galdino do Valle para a Câmara de
Vereadores em Nova Friburgo e sua escolha para presidente desta Câmara, chefiando o
executivo municipal no período de 1913 até 1916 É o início de uma nova era na história
política friburguense, quando é possível reconhecer mudanças na relação entre o poder
publico e a sociedade a vil organizada ou não e ainda constatar a configuração
ideológica voltada para a construção de um espaço urbano capitalista associada às noções
de moderno e de progresso.
Entre 1913 e 1916, o poder municipal esteve assim constituído:
159
--- [PDF página 177] ---
TABELA 15: LISTA DOS PRESIDENTES DA CÂMARA M U N IC IPA L BE NOVA
________________________F R IB U R G O - 1913-1916 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
NOMES PERÍODO
Dr. Galdino do Valle Filho 01-08-1913 a 01-08-1913
Eduardo Salusse 01-08-1913 a 07-01-1914
Dr. Galdino do Valle Filho 07-01-1914 a 08-01-1916
FONTE: Nova Friburgo - Radiografia Social de uma
comunidade op. rit., p. 154.
A ascensão e permanência de Dr. Galdino do Valle Filho a frente da Câmara
Municipal correspondia a uma aproximação desse político friburguense, a nível estadual
com o Presidente Oliveira Botelho e a nível federal, com o Presidente Hermes da
Fonseca. Ocorria portanto, um alinhamento pefeito entre os poderes municipal, estadual
e federal.
As principais ações propostas pela nova Câmara Municipal estão contidas em um
resumo publicado por aquela instituição, referente às principais metas a serem atingidas:
'Câm ara M unicipal resumo das decisões
V- prorrogação do orçamento da receita e despesa de 1 9 1 2 , paia o
corrente ano;
2~ creando o serviço de higiene m unicipal,
creando a tabela de canos de praça e automóveis e respectivos
regulamentos;
4'- estabelecendo a m atrícula e exame de condutores de automóveis e
outros vehículos;
ISO
--- [PDF página 178] ---
5 - A ltera n d o o s im postos a e a d o s p e k reso lu çã o d e V d e m arço d e 1912
so b r e autom óveis, m o to cyd eta s e b icyd e ta s;
6 ~ C o n ced en d o o p r a z o d e 60 dias p a ia os d e v e d o r e s d e im postos em
a tra zo effetuarem se u pagam en to com re le v a ç ã o d e m oeda,
2-'-A u to riza n d o o P resid en te a nom eação d e uma com issão p a ra organ izar
n o v o có d ig o d e P osturas e R egim en to interno;
8 !- C rea n d o a taxa d e quitação;
9 !- C rea n d o o im posto so b re com pradores d u e to s d e c a fé em g rã o ou
b e n e fiá a d o ,
10'- C rea n d o o im posto so b re o n e g o momento d e animais;
11'- C rea n d o o im posto s o b re animais d e tropas a frete;
12'-- A u to riza n d o o P re sid e n te a anular uma com isão p a ia o exam e da
e sc n p tu i ação da Câmara M unicipal n o triê mio 1910/1912;
13'- A u to riza n d o o Pr e sid e n te a fa z e r as rem o çõ es q u e ju lgar n ecessárias
n o s se r v iç o s municipais, sem aum ento d e d e sp e za s;
Ficaram p a ia s e r discutidas e aprovadas na próxim a se ssã o o s segu in tes: /•'
- C rea n d o a matrícula, 2- - Q e a n d o o im posto so b r e te n e n o s não
ed ifíca d o s W i
Procurando entender esta lista de prioridades estabelecidas pela Câmara
Munrdpal é possível inferir algumas conclusões que nos permitem depreender os
principais problemas vividos pelos governantes locais bem como, esses governantes
entendiam o espaço urbano. Na verdade, a listagem acima além de medidas concretas,
encobre uma postura ideológica dos principais mandatários no que concerne a s formas
variadas de entendimento do espaço a ser dirigido, governado.
161
--- [PDF página 179] ---
Percebemos em primeira instância, uma grande preocupação com o aumento da
arrecadação dos impostos, o que elevaria os fundos do tesouro municipal e
consequentemente, propiciando melhores condições para efetivação das obra públicas
Dos 13 itens aprovados, nada menos que 6 deles tratam de reformulação ou criação de
novos impostos, sem contar que ficava definido que para uma próxima reunião a
aprovação de um novo imposto sobre os terrenos não edificados. Os setores mais
atingidos pelas cobranças situavam-se no comércio e transportes urbanos Cumpre notar
que os produtores agrícolas e a indústna ficavam isentos das cobranças de impostos.
Essa situação se comprova quando analisamos a previsão da Receita Municipal
para o ano de 1913:
TABELA 16: RECEITA MUNICIPAL-ANO: 1913
Saldo do ano de 1912 52$504
Dívida activa 9:2425745
10! urbana 19:1295443
Pena d'água 12:0895954
Consumo de aguardente 6:880$000
Vehículos 2:2885000
Numeração de Vehículos e Caixa 1345000
Construções e Reconstruções 1195000
Talho de gado vaccum 2:396$600
Talho de gado suíno 2:254$500
Aferição 9115710
Transferência de licenças 185000
Transferência de terrenos 380$000
162
--- [PDF página 180] ---
Sepulturas L385ÍOOB
Selos e emolumentos 8:468$815
Foros 120$928
Laudêmios 2:072$250
Multas de infração de posturas 201$500
Taxa sanitária 2:371$520
Contribuição da empreza ARP 300$000
Eventuaes 1705503
(29)
As principais fontes da receita munidpa] eram provenientes dos impostos
cobrados aos moradores de um modo geral, evidenciados nas principais cobranças feitas
na 1 0 * urbana (espéae de imposto predial), penas d'água, sepulturas, selos e
emolumentos etc. Em seguida são penalizadas as atividades comerciais locais como:
consumo de aguardente, talho de gado bovino, talho de gado vaccun, laudêmios
(cobrados por ocasião das transações imobiliárias) etc. A cobrança de taxas sobre
veículos é também responsável por uma parcela substancial da arrecadação municipal É
digno de registro o pagamento efetuado pelo setor industrial, caractenzado pela modesta
contribuição da Empresa ARP, perfazendo 300$000. É importante notai que trata-se de
uma 'contribuição* que nos parece expontânea, não se caracterizando como imposto
determinado pela Câmara Municipal Não se percebe ainda, contribuições de outras
empresas industnais estabelecidas no município, num momento em qua já operava desde
o ano de 1911 a Empresa de Eletricidade ARP, a Fábrica de Rendas ARP e a Industna
Falk
163
--- [PDF página 181] ---
Cruzando os dados obtidos pela Receita da Câmara com a listagem dos principais
contribuintes que pagavam o imposto territorial, pubhcada pela Coletoria Municipal em
1914, podemos concluir que as indústrias gozavam de isenção de impostos:
TABELA 17: l.TSTA DOS MAIORF.S CONTRIBUINTES - IMPOSTO TERRITORIAL
-19 H
NOMES IMPORTÂNCIA
1- r Lhano Emílio das Neves Junior 252$000
2- Antonio José Mendes 181$700
3- Augusto Marques Braga 140$000
4- Julio Antonio Thurler 1405000
5- Pedro Alberto Gripp 1315600
6- Joaquim Francisco Pinto 955760
7- Eugênio Gripp 835700
8- José Antonio Marques Braga Sobrinho 725000
9- Fernando Lamblet 545400
10-Elias José Sanglard 61$600
11- Jeronymo Alexandre Frossard 455360
12-José Eugênto Frossard 425000
13-José Antonio Marques Braga 405600
14- Augusto Gripp 28$000
15- Manuel Almeida Cruz 285000
(30)
164
--- [PDF página 182] ---
A ampliação da arrecadação municipal permitiu a Galdmo do Valle Filho, a
implementação de obras no sentido de higienizai a ddade, coibindo possíveis focos de
doenças que pudessem disseminar epidemias em todo o município. É importante ressaltar
que o Presidente da Câmara Munidapal era um médico e que já deixava dara, a sua
posição em favor da industrialização — como estudaremos neste trabalho em um item
posterior. Higienizai portanto, o espaço urbano era paia um médico-vereador, um
desafio a ser enfrentado não só por questões do profissional da medidna mas, também
por se tratar de uma questão fundamental para a consolidação da indústria no munidpio.
Afinal de contas, para as empresas industriais recentemente alocadas em Nova Friburgo
tornava-se fundamental operar com mão-de-obra saudável sem problemas de doenças
que pudessem prejudicar o processo produtivo.
'A administação foi organizada, sendo criados os serviços de Higiene e
Obras, e baixando o regulamento dos Serviços M unicipais. As Obras
públicas, dento da modesta dos orçam entos, consistam na reconstrução
de tudo, desde o leito das ruas, aterrados com saibro par a evitar o lam açal
que se form ava, aos jardins, que foram remodelados e replantados com
espédmens tazidos do Hoilo Florestal
... As medidas profilatcas constantes 110 Regulamento de Higiene,
im punham as desinfecçôes sistemátcas dos prédios de aluguel, visando 0
combate a tuberculose, já que a cidade, pela sua a/ttude e ch in a, era m uito
procurada pelos portadores de tal doença ... $ 1 )
O controle da pobreza tomou-se no período de governo galdimsta um fato que
mereceu atenção da Câmara Municipal Foi nesse momento que a própria Câmara fez a
doação do terreno para a construção do *Abngo Amor a Jesus' cuja finalidade era 0
amparo e abrigo aos pobres que perambulavam pela ridade.(^)
Em 1914 por ocasião das eleições para preenchimento do cargo de Presidente do
Estado do Rio de Janeiro, verificamos importante cisão nos quadros do republicano
fluminense, que veio provocar alterações no cenário político de Nova Friburgo.
165
--- [PDF página 183] ---
Botelhistas e nihstas, a princípio, dispensaram a indicação partidária para concorrer as
eleições e em virtude de não haver consenso, dois candidatos representando duas
facções, se enfrentam dispretando os votos fluminenses. Indicados pela convenção
partidária controlada por Qtiven a Botelho, verificamos a candidatura do ex-prefeito de
Niterói, Feliciano Sodré. Por outro lado, o grupo nilista que controlava a executiva do
partido, indica o nome de seu líder Nilo Peçanha, paTa concorrer ao cargo de Presidente
do Estado. As eleições realizai am-se em clima de grande tensão e o resultado
inirialmente indefinido — os dois candidatos prodamai am-se vencedores — propiciará a
Nilo Peçanha o direito de pela V vez assumir a Presidênda do Estado do Rio de Janeiro.
O político campista reassumirá assim, a liderança da política fluminense, mantendo-se à
frente dela até 1922, quando disputando a Presidência da República pelo movimento da
Reação Republicana, sairá derrotado frente a coligação estadual que apoiara a
candidatura de Arfhut Bernardes.(^)
As disputas no plano estadual trouxeram consequêndas marcantes paia a vida
política de Nova Friburgo e espedalmente na trajetória de Galdino do Valle Filho. Em
primeiro lugar, seu posidonamento junto a Oliveira Botelho, o faz apoiai a candidatura
de Fetidano Sodré e consequentemente romper as ligações com Nilo Peçanha Com a
efetivação deste àfrente do executivo estadual verificamos que Galdmo do Valle Filho e
toda a Câmara tóumdpal de Nova Friburgo situava-se no polo oposidonista e
consequentemente tendo que se defrontai com problemas até então não vivenaados. Em
1916, após eleições munidpais que sana vitorioso paia um novo mandato na Câmara, a
chapa galdinista é impedida de tormar posse por uma dedsão do Tribunal de Apelação
estadual Posteriormente, quando o Supremo Tribunal Federal proferiu ganho da causa a
chapa eleita, a resposta do governo estadual veio com o Decreto assinado em 1 9 de
agosto de 1916, criando a Prefeitura Munidpal de Nova Friburgo.(34)
No período de 1916 até 1923, Nova Friburgo viveu fase em que a Prefeitura, isto
é, o executivo municipal fora assumido p o T interventores nomeados pelo Governo
166
--- [PDF página 184] ---
Estadual. Esse período, em que não se realizaram eleições para Prefeito em Nova
Friburgo, coincidiu exatamente com o momento da conjuntura estadual em que Nilo
Peçanha tomara a figura de maior expressão.
TABELA 18: INTERVENTORES NOMEADOS PELO GOVERNO ESTADUAL
NOVA FRIBURGO: 1916 a 1923
NOMES PERÍODO
Dr. Sílvio Fontoura Rangel 08-01-1916 a 28-08-1916
Everard Barreto de Andrade 28-08-1916 a 29-05-1917
Aristides L Sabóia de Alencar 29-05-191? a 13-11-1917
Dr. Sílvio Fontoura Rangel 13-11-1917 a 25-05-1918
Ten. Cel. Francisco Caetano da Silva 25-05-1918 a 02-12-1918
Dr. Sílvio Fountoura Rangel 02-12-1918 a 03-01-1919
Dr. Gustavo Lira da Silva 03-01-1919 a 03-01-1922
Cândido Pardal 03-01-1922 a 21-04-1923
FONTE: Nova Friburgo - Radiografia Social de
uma Comunidade, op. át.
Na exposição do quadro acima alguns elementos são dignos de registros,
necessitando de maior atenção nas análises. Em primeiro lugar, devemos ressaltar o
papel desempenhado à frente do executivo municipal, da figura do Dr Sílvio Fountoura
Rangel que por 3 momentos diferenciados ocupou as funções de prefeito/interventor em
Nova Friburgo Tratava-se de um deputado estadual, com base eleitoral em municípios
da Baixada Fluminense e plenamente afinado com a linha política do governador Nilo
Peçanha. Desse modo, o Dr. Sílvio Rangel por vários momentos era convocado e
167
--- [PDF página 185] ---
assumia funções diretivas em Nova Friburgo, atuando com elo de ligação entre o
município e o govemo do Estado, sempre que a situação política assim o exigisse.
Em segundo lugar, ressaltamos o período de govemo do engenheiro Dr.
Gustavo Lira da Silva, a mais longa fase de govemo dos interventores nomeados. Em sua
'Mensagem de Govemo* proferida em 28 de fevereiro de 1919, o prefeito Gustavo Lira
estabelecia como elementos prioritários de sua administração ’a construção de uma rede
de esgotos, a criação de mecanismos de defesa contra enchentes do Rio Bengala que no
período das chuvas provocavam estragos aos moradores da cidade e a necessidade de
calçamento das ruas principais da ridade.*l^) Além dessas prioridades que deviam ser
trabalhadas imediatamente, o Prefeito tecia comentários sobre outros problemas que
mereciam também atenção do poder executivo municipal:
a) Abastecimento d'água: necessidade de melhorar o abastecimento, já que
notava-se grande precariedade nas condições de fornecimento aos habitantes da cidade,
b) Ruminação pública também notava-se precariedade no fornecimento de
eletricidade, precisando melhorar suas condições;
c) Construções: o crescimento urbano e o aumento das construções venficava-se
de forma desordenada com desobediências constantes às Posturas Municipais;
d) Ensino Primáno: As escolas municipais absorvia um número pequeno de
alunos em virtude da pouca idoneidade dos professores;
e) Estradas Municipais: a construção de novas estradas e a conservação daquelas
já existentes, deveríam ser obras efetuadas em conjunto entre a Prefeitura e os
proprietários interessaodos.
166
--- [PDF página 186] ---
f) Condições financeiras: eram precárias as ftnaças pública e que necessitava de
autorização da Câmara de Vereadores para contrair empréstimos.^**)
Podemos perceber, que pelos itens expostos na "Mensagem de Governo" de
Gustavo Lira, uma preocupação básica no sentido de organizar o espaço urbano tendo
em vista propiciar a esse espaço condições mínimas de um modelo capitalista de cidade.
Um modelo racional com ruas calçadas, iluminação eficaz, com construções civis
baseadas em códigos definidos pelo poder público, com redes de agua e esgotos que
tornavam esse espaço bastante higiênico e ainda mais, podendo-se controlar as
adversidades quase sempre surpreendentes ocorridas nos períodos das chuvas
abundantes, era o que se imaginava ser o papel desempenhado pelo poder público É
bom lembrar, que o processo industrial desencadeado a partir de 1911 com a chegada
dos capitais ARP e Fal((k requeria naturahnente, a existência de uma cidade que fosse se
adequando mesmo que gradativamente, a essa nova realidade. Cabia então, ao Poder
Público e especificadamente à Prefeitura, a implementação de medidas administrativas
que fossem aos poucos, rompendo com um recente passado de dependência agrária,
onde o rural penetrava pelo espaço urbano e, criasse condições que favorecessem a um
novo tipo de cidade, próxima aos ideais de um modelo capitalista de produção.
Não seria mais possível admitir a existência de problemas que pudessem desviar o
caminhar de Nova Friburgo em direção confraria ao sentido capitalista As obras
implementadas na administração Gustavo Lira visavam rndusive, evitai que epidemias,
como a Gripe espanhola que assolara todo o município em 1918, promovessem novas
perturbações à população de Nova Friburgo. O balanço sobre a Espanhola, publicado
pela Prefeitura Municipal, em fins de 1918(37) atesta o enorme problema vivido pela
população:
y fitL c.K
169
--- [PDF página 187] ---
‘Está em franco decfín eo a epidemiA d e grippe que gr a sso u intensamente
sobre nós. Rareiam dià a d)a o s casos novos e os qu e AindA s io
constatados não apresentam grAvidAde. 0 hospitAÍ d e grippAdos instAlAdo
no " L A Z A ietto"... fo i fech ad o p o r ter d th se retrrAdo um único doente que
restAVA Verificou-se no Lazaretto um óbito... No hospitâlD! EugêniA .* o
movimento tem sido g r Ande, contando-se bons c a s o s de c u ia AindA estão
em tTAtAmento 8 doentes, todos em condições satisfatórias ■ em bora Alguns
deites AtACAdos d e pneumoniA'
Outras medidas importantes foram tomadas no sentido de facilitação no
abastecimento de alimentos à população urbana A questão das "estradas municipais"
situava-se como um dos fortes fatores que merecia atenção da Prefeitura de Nova
Friburgo, o que naturalmente viria facilitar a chegada com maior rapidez, dos produtos
necessários à subsistência da população. O Jornal "Cidade de Friburgo" em sua edição
datada de 02 de junho de 1921, noticiava a criação das "Feiras Livres" na cidade, o que
contribuira com amelhoria na questão do abastecimento alimentar da população.
Em suma, na fase da história friburguense correspondente aos governos dos
interventores, tendo em realce o período correspondente ao govemo de Gustavo Ura,
não percebemos queda no ntmo do processo de modernização urbana, iniciada na fase
anterior As várias interventorias durante os sete anos de sua existência, foram capazes
de manter a continuidade no sentido de tornar Nova Friburgo um espaço adequado à
expansão mdustrial capitalista
As eleições para governo federal, realizadas em 1922 situam-se como um marco
importante na história política fluminense O movimento de "Reação Republicana'
liderado por Nilo Peçanha colocara-se em oposição a chapa situacionista, liderada pelo
mineiro Arthur BemaTdes. A denota de Nilo Peçanha frente ao canditato das principais
oligarquias nacionais funcionou como o inicio do dedínio do grupo nilista no seio da
política do Estado do Rio de Janeiro. Conforme a afirmação de Mônica Almeida Kornis:
X T eoria o J > . tu-O e N Ía 6luíl a&r iO -oo a P oP uiA fA o At in í -itsa
PtLíl & O .Í P C .
170
--- [PDF página 188] ---
" A intervenção federá! dá jàneiro de 1923 no Estado do Rio, cujas raizes
rem ontam a denota de Nilo Peçanha na reação republicana, expurgou os
nihstas dã direção da política fluminense e fortaleceu ao m esm o tempo
novas lideranças • entre as quais se destacaram F elrcrano Sodté, M anoel
Duarte e Oliveira Botelho. Com o apoio dos Presidentes da República
Aitiur Bemardes (1922 -1926) e W ashington Luís (1929 -1930) a nova
situação flum inense, embora composta por um grupo heterogêneo iria
contr olar o governo num quadro de crescente centr alização política até a
revohição de outubro de 1930. 1 ® ® )
Um novo golpe veio atingir o grupo nilista e definitivamente afastá-lo das disputas
políticas no Estado, quando em 31 de março de 1924, morre Nilo Peçanhaí^í A partir
desse momento desarticula-se o grupo nilista em todo o Estado, consequentemente
abrindo espaço ao fortalecimento político de novas lideranças, ao mesmo tempo, que
possibilitava novas articulações entre políticos municipais com lideranças de expressões
estaduais
Em Nova Friburgo o ocaso do nilismo veio propiciar o ressurgimento de Dr.
Galdino do Valle Filho no controle político local bem como, a ascensão e domínio dos
principais organismos de decisão municipal ou seja, a Câmara de Vereadores e a
Prefeitura Ainda em 1922, realizaram as primeiras eleições para o cargo de Prefeito
Municipal, saindo vitorioso Galdino do Valle Filho derrotando a Gustavo Lira da
SilvaH®!. O resultado eleitoral fora contestado pelos representantes nilistas no governo
estadual, o que veio provocar em janeiro de 1923, a intervenção federal do Estado do
Rio de Janeiro e a nomeação de Aurélio Leal com interventor estadual. No plano
municipal, verificamos a nomeação de Cândido Pardal para exercer as funções de
interventor e organizar as novas eleições em meados de 1923 Embora em 1923, Galdino
do Valle Filho não concorrera ao cargo de prefeito, fica. evidente o papel assumido por
ele, como principal liderança local, orientando e conduzindo a política municipal até
171
--- [PDF página 189] ---
outubro de 1930. A partir do ano de 1923, todos os Prefeitos eleitos em Nova Friburgo,
até 1930, fazem parte do grupo Galdinista.
TABELA 19: LISTA BE PREFEITOS DE NOVA FRIBURGO - 1923 A 1930
NOMES PERÍODO
Dr. Galdmo do Valle Filho 21-04-1923 a OS-05-1923
Dr. Carlos Baltazar da Silveira 05-05-1923 a 21-03-1923
Dr. Pláddo Lopes Martins 21-05-1923 a 09-01-1924
Antonio Segadas Viana 09-01-1924 a 05-04-1921
José Dédo Ferrerra de Souza 05-04-1924 a 09-06-1924
Antonio Segadas Vrana 09-06-1924 a 09-07-1924
Ftandsco Celestino Berçot 09-07-1924 a 30-09-1924
Joaquin José Antunes 30-09-1924 a 17-08-1926
Luiz Muri 17-08-1926 a 02-09-1926
Joaquin José Antunes 02-09-1926 a 03-01-1927
Dr. Galdmo do Valle Filho 19-04-1927 a 09-05-1927
M anuel Aristão J accoud 09-05-1927 a 31-12-1929
Dr. Carlos Baltazar da Silveira 31-12-1929 a 28-10-1930
FONTE: Nova Friburgo - Radiogr afia Social de uma
Comunidade op. dt. p 155
É possível perceber que Galdino do Valle Filho era no período em questão, a
personalidade política que dava orientação a todos os prefeitos que sucederam na
direção da Prefeitura de Nova Friburgo. Nessa listagem destacamos os períodos de
Governo de Joaquin José Antunes e de Dr. Carlos Baltazar da Silveira, que além de
172
--- [PDF página 190] ---
amigos pessoais do já Deputado Federa! Galdirio do Válle Filho e que a nível da política
municipal, irão implementar linhas de governo em consonância com a visão daquele líder.
É possível afirmar portanto, que entre 1923 e 1930 forja-se em Nova Friburgo um
conjunto de dirigentes afinado com o pensamento político de Galdino do Valle Filho,
constituindo-se num bloco político que denominamos de Galdinismo. Essa afirmativa
pode-se confirmar a princípio, pelas análises efetuadas sobre as Atas da Câmara, assim
como as Resoluções, Editais e Mensagens proferidos pelos Prefeitos que estiveram à
frente do poder municipal. Por exemplo, a Resolução n! 281, assinada por Carlos
Baltazar da Silveira em 13 de junho de 1930, a Prefeitura Municipal concedia a
'autorização pai a custeai' as despezas das autoridades que virão a Nova Friburgo paia
as festividades de inauguração do busto do Dr. Galdino do Valle Filho ...'H * )
Joaquim José Antunes em sua mensagem dirigida a Câmara Municipal, em 24 de
dezembro de 1924, ao se referir a necessidade de melhorar as condições das estradas
que ligavam a cidade de Nova Friburgo às areas rurais do mmidpio, assim se expressava:
'W timámente devido a o s esforços do nosso predaro chefe Deputado
Federal Dr. Galdino F ilh o, junto ao governo do Estado, resolveu este
m andar orçai, para ter inicio no próximo anno as obras de que carecem
as que se dirigem ao M orr o dos fíans, onde há longos arm os reclam ada
pelos lavradores daquela zona e a do Rio Grande à barra do
Bengalla
Paralelamente à enorme influência exercida sobre a política de Nova Friburgo, a
nível nacional Galdino do Valle Filho procurava associar-se àqueles setores que
exerciam predominância econômica e política Tratava-se de manter alianças com os
setores oligárquicos que controlavam o aparelho do Estado, durante a maior parcela da
denominada República Velha.
173
--- [PDF página 191] ---
Por ocasião do Governo Árthur Bemardes em 1924, eclodiu a revolta tenentista
liderada por Izidoro Dias Lopes na cidade de São Paulo. O contingente militar
organizado na cidade do Rio de Janeiro em defesa da ordem dominante contou com a
presença do Deputado Galdino do Valle Filho, que seguiu para São paulo assumindo o
posto de Capitão Médico do V Batalhão.(^)
Em 1930, ligado por laços pessoais ao presidente Washington Luís, Galdino do
Valle Filho e naturalmente, todo o grupo Galdinista em Nova Friburgo, apoiará a
candidatura de Julio Prestes à Presidência da República A revolução que edodiu em
outubro do mesmo ano, fez com que o líder de Friburgo organizasse um grupo de
voluntários que se estabeleceu na cidade do Carmo, mais uma vez em defesa da ordem
vigente Embora não se efetivasse um confronto direto contra tropas adversárias como
imaginavam os "defensores do regime", defrontar com possíveis tr opas provenientes de
Minas Gerais e que provavelmente passariam pela cidade do Carmo.(^) Tal fato é mais
uma. evidência dos elementos conservadores que compunham os pensamentos políticos
de Galdino do Valle.
A deposição de Wasington Luís e a consequente alteração política com a
ascenção de Getúlio Vargas ao poder nacional colocou Galdino do Valle afastado das
derições políticas seja como deputado ou mesmo como liderança expresiva em Nova.
Friburgo Durante o longo período de Governo Vargas, irá ficar afastado de cargos
políticos ou administrativos na cidade, até que mais tarde resurgirá no longo do
movimento de "Redemocratização"a partir de 1943
A figura de Galdino do Valle Filho no plano da história política de Nova Friburgo
é importante ser destacada já que sua presença foi fundamenta] na elaboração de um
perfil na cidade industrial e turística, deslineado entre os anos de 1 9 1 (1 e 1930 Suas
defesas proferidas através do Jornal "A Paz" em favor dos capitais dos grupos alemães
que instalaram na cidade a partir de 1911, foram inegavelmente fundamentais no processo
de industrialização de Nova Fribur go Do mesmo modo, o galdinismo quando assumiu os
174
--- [PDF página 192] ---
poderes municipais, favoreceu de forma considerável a expansão desses capitais e o
consequente processo de acumulação capitalista Por outi o lado, as alianças mantidas nos
planos estadual e federal, com setores nitidamente agrários-conservadores estabeleciam
os limites dessa atuação em Nova Friburgo As idéias presentes em seus dircursos em
favor do moderno e do progresso em Nova Friburgo encontravam no empresariado
industrial um abado e por que não dizer de um parceiro fundamental Entretanto, o
progresso tena que acontecei ao mesmo tempo que impedisse alterações mais profundas
no plano sonal. As grandes mudanças deveriam acontecer "pelo alto", em uma perfeita
aplicações na cidade, sem que houvesse mudanças de maior profundidade. O moderno
em Nova Friburgo, do qual Galdmo do Valle Filho foi porta-voz, não deixou de
apresentar o seu lado conservador.H5)
175
--- [PDF página 193] ---
2 - N O V A F R I B U R G O : A I N D U S T R I A L I Z A Ç Ã O A P Ó S 1910
2.1 - Repensando uma Tese Recente:
O processo de industrialização de Nova. Friburgo, acontecido a parti do ano de
1911 foi estudado por Heloísa Beatriz Serzedello Corrêa, em sua dissertação de
mestrado, defendida no departamento de História na Universidade Federei Fluminense,
intitulada NOVA FRIBURGO: O nascimento da indústria ÍHW - 1930) Inegavelmente,
esse estudo tevestiu-se de enorme importância por se tratar de uma obra de excelente
nível, ao mesmo tempo quê podemos considerar ser o primeiro trabalho baseado em
métodos científicos que trata do processo industrial friburguense. O pioneirismo e o
tratamento dedicado ao tema fazem portanto, dessa obra, elemento de grande
importância no estudo da história de Nova Friburgo em geral e no estudo do processo
industrial, em particular.
Entretanto, alguns reparos devemos fazer sobre a obra acima citada,
principalmente quando percebemos que a autora se apoia em pressupostos teóricos
inadequados à análise do processo industrial friburguense. Esse problema fica mais
evidente quando Heloísa. B S. Corrêa apresenta a riqueza dos dados obitidos na sua.
pesquisa empírica. O processo induatrial friburguense é ai admiravelmente descrito e
analisado em toda sua densidade e originalidade mas que, pouco se aproxima da teona
apresentada nos momentos iniciais da dissertação.
Em primeiro lugar destacamos que para a autora a industrialização em Nova
Friburgo reflete um processo maior de implantação no capitalismo no Biasil A seguii
tece considerações sobre a industrialização brasileira baseando-se principalmente em
Celso Furtado(^), Sérgio SilvaH?) e Wilson C anoW .
176
--- [PDF página 194] ---
Enfatiza a ligação entre produção caíeeira e concentração industrial, numa
vinculação algo mecânica, que indusive mais tarde prejudica a sua análise do caso
friburguense.
'Assim o café fiimdou a ferrovia, o telégrafo, atraiu im igrantes, trouxe
trabalhadores livres e escravos. Vivificou a região, e esta enfrentando
momentos difíceis não sucum be, m ais tenta encontrai alternativas de vida,
diversificando a produção, deslocando seus homens e ainda trasfomandn
alguns dos antigos fazendeiros e comer dantes em novos industriais. 1*9)
(grifos nossos)
Em outra passagem de sua dissertação a autora formula a frase:
* O café tornou-se o centro motor do desenvovhnento capitalista no
Brasil. 150)
Percebemos nas passagens arima a tentativa de fazer uma ligação direta entre
café e o desenvolvimento capitalista e industrial no Brasil, reconhecendo entratanto, as
dificuldades trazidas pela decadência da cafeicultura no Vale do Paraíba Engana-se
porém, ao drzeT que seus fazendeiros reagem à crise transformando-se em industriais.
Acreditamos ser artificial, ligar o café ao surgimento dos capitas rndustnais,
particulamente no Rio de Janeiro. Argumentamos contranamente à idéia de que os
cafeicultures do Vale do Paraíba transformando-se em industrias, após o dedíneo
cafeeiro, quando usamos o exemplo da família Clemente Pinto Os Barões de Nova
Friburgo, sempre foram fazendeiros de café, mesmo quando usaram de sua enorme
influênda política para estender os trilhos da ferrovia até Cantagalo, zona caíeeira onde
se localizava suas fazendas. Era o escoamento de sua produção que estes típicos 'barões
de café' objetivaram Contudo, não investiram a mínima parte de seus lucros na indústria
Vimos no capítulo anterior como os Barões de Nova Friburgo gastavam seus lucros.
17?
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comprando objetos de arte, organizando festas, imobilizando-os nas construções de
mansões suntuosas — vidas vividas no fausto, jamais em aplicações industriais.
Adiamos conveniente ainda, qualificar um pouco mais, a ligação entre o café e a
indústria, na abordagem de Sezedello Corrêa A autora coloca como marcos
cronológicos de seu trabalho 1890, quando Nova Friburgo se emancipa
administrativamente, tornando-se cidade, emergindo de um mundo rural, e 1930, quando
a evolução para cidade industrial se completava. Anteriormente, Nova Friburgo estivera
ligada a Cantagalo, grande cent o cafeeiro fluminense, e que propiciou uma acumulação
com reflexos em Nova Friburgo Esta vila toma-se um cento educacional importante,
com colégios par a rapazes e moças, além de cento de veraneio, com vários hotéis,
explorando o dima aprazível do lugar. A dientela principal desses serviços provinha
principalmente das famílias dos cafeiailtores fluminenses. Assim, graças diretamente ao
café, cria-se em Nova Friburgo uma infra-estutrra urbana, mais tarde será um fator de
atação dos capitais industriais que ali vão se localizar
Não podemos concordar com essas afirmações por acharmos equivocado fazer
uma ilação direta e n te produção cafeeira e inversão de capitais na indústra A teoria
revelou-se inadequada pois a Autora adaptou, ou melhor, estendeu análises feitas e
cabíveis par a o modelo de industialização paulista, a miei o-região fluminense que foge
completamente ao esquema do 'complexo cafeeiro’.(-'i)
É prinripalmente a partir do capítulo 2, 'A Fábrica e seus Donos', que o tabalho
de Heloísa B S. Corrêa cresce em densidade e origirialidàde. O processo
admiravelmente descrito e analisado ganha interesse justamente pela sua peculiaridade
Percebemos ai a existência de um divórcio absoluto e n te a teoria proposta paia a
fundamentação do tabalho, com os dados obtidos na pesquisa realizada pela a Autora
Não negamos evidentemente, o valor da teoria Muito menos fazemos a apologia do
empirismo positivista. Mas cremos que ao nos acercarmos de certas problemáticas,
devemos procurar compreendê-las em suas especificidade, ligando-as por certo, a uma
178
--- [PDF página 196] ---
estrutura mais ampla 0 que pretendemos é apontar para originalidade do processo
industria] friburguense buscando ao mesmo tempo, um corpus teórico que nos permita
compreeder melhor aquele processo
Pai a uma análise correta do processo de industrialização em Nova Friburgo, a
partir de 1911 sugerimos que se busque como base teórico-metodológica os trabalhos
efetuados por Eulatia Maria Lahmeyer Lobo(^) e por Marcos Antonio R. Guarita!^),
Tais obras nos ajudam pensar nos fatores que favoreceram a industrialização do Rio de
Janeiro, a partir de pressupostos radicalmente diferentes daqueles sugeridos pelos
estudiosos da industrialização de São Paulo Isto é, que a industrialização do Rio de
Janeiro esteve ligada a uma dinâmica pouco dependente do desenvolvimento cafeeiro e
muito mais ligada ao capital comercial e financeiro Desse modo é necessário ver o Rio
de Janeiro como centro comercial de exportação e importação de artigos variados;
centro importador e distribuidor de escravos (até 1888), centro político, sede do governo
Imperial e Republicano etc Sendo assim, a relação caféAndustria nesta região possue elo
bastante tênue, diferente darelação bem mais estreita na região de São Paulo Os autores
acima revelam ainda, que o auge do processo industrial verificado no Rio de Janeiro
ocorreu entre os anos de 1890 e 1920, exatamente num momento de grande decadência
da produção cafeeira no território fluminense.
É interessante ressaltai ainda, que Eulália Lobo e Marcos Guarita desenvolveram
suas pesquisas a partir de pressupostos básicos diferenciados, isto é, sendo a primeira
uma historiadora e o segundo um economista, irão percorrer trilhas nem sempre muito
próximas mas, que chegarão a conclusões semelhantes. Em resumo, devemos estudar a
industrialização do Rio de Janeiro a partir dos seguintes pressupostos balizadores.
a) abandonar o paradigma sãopaulino, afastando qualquer possibilidade de
identificação de um ‘complexo econômico-cafeeiro‘na região do Rio de Janeiro;
179
--- [PDF página 197] ---
b) entender que a indústria do Rio de Janeiro possue um dinamismo
próprio, dificilmente visto em outras regiões do país;
c) a industrialização do Rio de Janeiro deve ser explicada em função das
aplicações dos capitais provineentes dos setores comercial e financeiro, como
também dos investimentos estrangeiros.
Contrariamente ao posicionamento teórico adotado por Heloisa B S. Corrêa,
podemos afirmar a total impossibilidade de adotarmos os fundamentos de anáhse da
industr ialização paulista para o caso específico do processo industrial de Nova Friburgo.
Acreditamos sim, ser mais coerente aceitarmos as indicações teóricas formuladas por
Eulália Lobo e Marcos Guarita em seus estudos sobre a industrialização do Rio de
Janeiro. Desse modo, podemos afirmar que os capitais que originaram a industrialização
no município de Nova Friburgo devem ser entendidos como decorrentes de setores
comer ciais sediados na cidade do Rio de Janeiro em conexão com setor es financeiros
alemães. Os principais empresários que se estabeleceram em Nova Friburgo possuiam
nacionalidade alemã e já atuavam desde os fins do século XIX, no setor comercial de
importação e exportação em Santos e Rio de Janeiro
2.2 - NOVA FRIBURGO: A INDÚSTRIA COMO QUESTÃO POLÍTICA:
A chegada de empresários de origem alemã, Peter Julius Ferdrnand ARP e
Maximilian Falck em Nova Friburgo a partir do atro de 1910 e o início das atividades
industriais a par tir de 1911, após a criação das firmas M SINJEN e Cia e M FALCK e Qa
é inegavelmente um marco na história do município. Tais eventos se associam também a
180
--- [PDF página 198] ---
criação da Companhia de Eletricidade com o consequente contr ole no fornecimento de
energia, pelo empresário M u s Arp.
Inegavelmente alguns fatores devem ser arrolados e podem ser
responsabilizados pela criação das empresas industriais.
Em primeiro lugar, como muito bem afirma Heloisa B. S. Corrêa é possível pensar
a industrialização friburguensecomo um aspecto da expansão do capitalismo mundial em
sua fase imperialista. Sublinha ainda, que o Brasil vivia um processo de transição para o
capitalismo, e que este em termos mundiais, passava pela fase monopolista de Estado
Em seguida, é possível argiiir por que Nova Friburgo7
A princípio, muitos são os fatores que explicam a escolha desse local para a
instalação das fábricas dos empresários alemãs.
Como afirma Heloisa B. S. Corrêa(^):
'N o v a F riburgo o fe re c e u vantagens fiscais p a ia a instalação d e indústrias,
p ro x im id a d e d o s g ra n d es cen tro s consum idores aos quais estava ligado
d ireta m en te p e la ferrovia, isen ção d e taxa d e tran sporte das m atérias-
p rim a s e en erg ia elétr ica em vias d e s e r in stalada. C oincidência ou não já
ex istia também, assim com o J o in ville uma colônia alem ã dedicada
basicam en te a p ro d u çã o d e alimentos, com sua ig reja evangélica, sua
esc o la e tc ’
Além das vantagens acima, mencionadas, outros fatores são explicáveis a partir de
certas especrfiadades do Estado do Rio de Janeiro. Por outro lado, a proximidade com a
cidade do Rio de Janeiro, capital federal foi elemento que favoreceu aqueles
estabelecimentos.
As vantagens podem ser assim resumidas:
a) O Rio de Janeiro seria o principal mercado consumidor dos produtos
fabricados em Nova Friburgo — rendas, passamanarias, filó etc — artigos
181
--- [PDF página 199] ---
supérfluos, de complementação das fábricas de tecidos cariocas, e que exigem um
mercado consumidor mais amplo do que Nova Friburgo constituía aquela época;
b) A princípio, Julius Arp tinha a intenção de implantar a fábrica de rendas
em Santa Catarina e para isso encomendara máquinas e equipamentos da
Alemanha O Governo do Estado de Santa Catarina exigia determinados impostos,
inexistentes no Estado do Rio. Desse modo, seria mais vatajoso abandonar o
projeto catarinense e implantar-se em Nova Friburgo,
c) Em Nova Fribur go existia uma pequena colônia alemã, criada desde
1824 e constituída com certa solidez. Desde o século XIX já existia na cidade, a
Igreja Luterana, um cemitério Alemão. Além disso, a cidade possuia alguma
infr aestrutura urbana pt opiciadora de algum conforto.(^)
Quanto às origens dos capitais, acreditamos ser de grande importância
historiarmos o surgimento e a formação dos empresários Julius Arp e M Falck
Peter Julius Ferdinand Arp nasceu em 26 de março de 1858 em Fahr em Holstein,
na Alemanha e era filho de Jcfchin Arp e de Gretze Ktrndt Arp Aos 23 anos veio para o
Br asil chegando ao Rio de Janeiro em 9 de janeir o de 1882 Inicialmente^ftxou-se na
cidade de Santos, dedicando-se ao comércio de café, retornando mais tarde, ao Rio de
Janeiro, empregando-se em uma empresa de importação de máquinas de costura,
brinquedos e armas(^) Tratava-se da fitma tó Nothmam e C5a pertencente a Maxmilrari
Nothmann e sua esposa Clara Nothmann Em 1895, após a morte de tó.Nothmanri a fitma
M Nothmann e C5a foi transferida para uma nova fitma ARP e Cia, tendo como sócios:
Julius Arp, participando com um capital equivalente a 180 contos de réis e José Ribeiro
de Araújo, participando com capital equivalente a 100 contos de réis(^) A nova empresa
localizava-se a rua do Ouvidor n! 68, na cidade do Rio de Janeiro. No mesmo ano de
182
--- [PDF página 200] ---
1895 d juntd comercial do Rio de Janeir o concedia a Julio Arp a carta de comerciante
matriculado.
Em 10 de junho de 1898, a firma ARP e Cia registrou o aumento de seu capital
inicial para 500 contos de réis, cabendo a Julius Arp participando com 280 contos de réis
e a José Ribeiro de Araújo, participação com os restardes 220 contos de réis Após a saída
de José Ribeiro de Araújo em 16.01.1902, a sociedade absorve novos sócios, Fritz Korke
e Hugo Belingrod mas, é interessante notar que Julius Arp amplia sua partiapaçao
acionária para 390 contos de réis.
No ano de 1900 a empresa Arp e Cia entra no ramo industrial associando-se em
Joinville a Ottomar Kaiser, dono de uma fábrica de meias e fundador da empresa Kaiser
e Ga. A produção dessa industria seria comercializada na cidade do Rio de Janeiro, pela
empresa Arp e CSa, soda oficial do empreendimento. Em Joinville, Julius Arp conhece o
caixeiro viajante tóarkeis Sinjen, funcionário da empresa importadora Ernesto Beck e
Cia, contratando-o mais tarde, para gerenciar a Arp e Q a no Rio de Janeiro Markeis
Sinjen toma-se-á um dos sócios de Arp nos empreendimentos aiados em Nova
Friburgo.l^®)
Os primeiros contatos com Nova Friburgo acontecerão através do amigo pessoal
e corretor da Bolsa de Valores, o alemão Maximihano Falck, sódo da empresa Dennis e
Falck que adquirira em 191 l,o Sítio Ypu Falck nascera em Berlim no ano de 1865 e teria
vindo para o Brasil, aos 26 anos de idade,como fundonário do Brasiltaniscbe Bank Fuer
Deutschland.
A aproximação dos empresários Falck e Arp bem como, as dificuldades
percebidas junto ao governo catarinense para instalação da fábrica de rendas em
Joinville, far ão com que os planos de Julius Arp sejam modificados no sentido de
transferênda daquele empreendimento para Nova Friburgo(^) A prindpio, Nova
Friburgo ofereria vantagens como: proximidades com grandes centros consumidores
(Rio de Janeiro, principàlmente), existência da Estrada de Feno Leopoldrna RaiUway
183
--- [PDF página 201] ---
que facilitaria o trecnsporte dos produtos; a isenção de tctxa de transporte de matéria
primas, etc.
O estudo da pequena biografia de Julius Arp e Maximiliano Falck, não nos deixa
dúvidas quanto às origens dos capitais responsáveis pelo processo industrial de Nova
Friburgo. Objetivamente, não podemos concluir sobre a existência de ligações mais
estreitas desses empresários-capitalistas com o setor cafeeiro do Estado do Rio de
Janeiro. Ademais, é bom observar que em 1911, a região de Cantagalo vivia já uma
decadência iniciada desde fins do século XIX, não gerando qualquer possibilidade de
criação de um "complexo econômico cafeeiro", como querem aqueles historiadores
adeptos do paradigma paulista. Oemos ser bastante evidente que, a princípio os
investimentos industriais responsáveis pelas aplicações em Nova Friburgo efetuados por
Arp, Falck e Sinjen provêm dos setores comercial e financeiro. Afinal de contas os
investidores de nacionalidade alemã se fizeram empresários através de
empreendimentos ligados ao setor comercial de importação e exportação ou através de
atividades ligadas a Bolda de Valores. Desse modo, podemos afirmar que o processo
industrial de Nova Friburgo deve ser compreendido a partir dos pressupostos
apresentados por Eulália Lobo e Marcos Guarita em suas respectivas obras.
A análise feita até agora sobre a industrialização de Nova Friburgo, observando
as origens dos capitais responsáveis por aqueles eventos são inegavelmente, de enorme
importância Não é possível compreender a magnitude de um processo industrial-
capitalista, sem que aprofundemos no estudo dos dados causadores do fenômeno
industrial. Sendo assim, acreditamos que como historiadores cumprimos parte do nosso
papel ao procurarmos definir as origens dos «pitais, seu processo formador, sua
gênese, tentando identificar sempre, as condições econômicas do processo industrial
Explicar os fenômenos históricos apenas pelas suas origens econômicas faz parte
de uma herança acadêmica proveniente da década de 70, quando o conhecimento era
buscado através do estudo das infra estruturas sociais — bases de sustentação daquilo
184
--- [PDF página 202] ---
que se m o estudo dos modos de produção. Na verdade tal concepção, vista a partir da
ótica de um historiador dos anos 90 pode ser considerada como uma deformação da
postura historiográfrca, junto de uma deformação ou mesmo vulgarização do pensamento
marxista, naquele momento O estudo dos fatores econômicos que induziram a
implantação de indústrias significava um caminho de enonrre importância entretanto, essa
postura não da conta de explicar todo o processo e muito menos, as condtções reais de
sua implantação. Estudar o processo industrial e espedficamente aquele acontecido em
Nova Friburgo a partir de 1911, toma-se ineficaz se não atentarmos par a as questões
políticas e sociais do Município que favoreceram ao advento dela. A industrialização de
Nova Friburgo foi antes de mais nada, o resultado de tramas políticas, de lutas no interior
das elites locais que confrontavam-se naquela ocasião em busca de projetos que lhes
propiciassem hegemonia no âmbito municipal. Explicitando esses confrontos, não faltaram
conflitos de rua, embates entre grupos, expressando posições sociais favoráveis ou não,
à implantação dos novos grupos no município Por considerarmos já devidamente
apr ofundada a discussão sobre as origens e características dos capitais responsáveis pela
promoção da industrialização em Nova Fribur go, procuraremos expor nesse trabalho as
condições políticas que vieram,favorecer ou retar dar, a consolidação daquele evento
Acreditamos pois, que estudar o processo industrial é um fato da esfera de políticas
econômicas que propriamente da história econômica Em suma, estamos propondo um
estudo sobre a industrialização de Nova Friburgo, nào preocupando tanto com as
determinações da estrutura econômica mas, lançando nossas atenções em direção às
políticas econômicas implantadas ou sugeridas pelas elites locais.
O confr onto político entre o grupo representado por Galiano das Neves Junior
que em 1911 dirigia o poder municipal como Presidente da Câmara dos Vereadores,
contra o grupo liderado por Dr. Galdino do Valle Filho, líder da oposição naquele
momento, agitava os meios políticos fribur guenses, por ocasião da chegada dos
empresários alemães na cidade. Ficava evidente, em toda a discussão sobre o papel da
185
--- [PDF página 203] ---
indústria, as divergências apontando sempre para a problemática política acerca, do poder
Estadual. Se Galhano Jr. no plano munidpal representava a situação, a nível estadual
verificamos naquele momento, a derrota eleitoral de Alfredo Backer e a consequente
vitória de Oliveira Botelho, em Nova Friburgo aliado a Galdino Filho Desse modo, as
discussões sobre a questão industrial em Nova Friburgo apontavam sempre para a
questão política estadual: o Jornal 'A Faz* de 29 de janeiro de 1911, em seu editorial
intitulado "Nosso Sonho" assim afirmava
'Q uando ainda a d erro ca d a d o malsinado g o v e rn o d o Sr. B a ck er era um
son h o q u e som en te p o v o a v a os c é re b ro s d o s visionários, propugnávam os
j á d esta s mesmas colunas, p e la prática d e m edidas q u e j á julgavam os,
arm o ainda h o je julgam os, elem en to s im prescin díveis ao desen vo lvim en to
m aterial desta te n a W
Ao mesmo tempo, percebemos criticas contundentes ao grupo que dirigia os
poderes munidpais nomeando-os como responsáveis pelo atraso e "inércia‘ existente no
município Esse grupo da situação, seria responsável pelo atraso verificado durante
vários anos em que dominavam o podei permitindo a perpetuação de uma aristocracia
local, desinteressada de implementar medidas que beneficiassem a população como um
todo:
"Não podíam os n o s conform ai com o estacionam ento d e ste m unicípio bem
fadado mas, q u e o d estin o a v e l acorrentara a d ireção d e hom ens a rjo
h o riso n te adm inistrativo não ia além da satisfação d e p e q u e n o s g o so s
materiais, a arsta d e ste g e n e ro so torrão A q u e le s q u e se tem su ced id o na
d ireçã o p o lítica local, vem com relig io so resp eito , guar dando as práticas
ro tin eiras q u e h á 50 anos procu ravam trancar as nossas fronteiras à
in vasão da indústria, à sanha avassaladora d e toda ordem d e p ro g re sso
M ostram os j á com a citação d e d isp o siçõ es legislativas municipais, a viva
p reo cu p a çã o d o s n o sso s g o vern a n tes em afastar dessa cid a d e toda so rie
d e indústria q u e v ie s se qu ebrar a linha anstociática d o s nossos
co n d d a çõ es. * )
166
--- [PDF página 204] ---
0 poder aristocrático é denunciado, como expressão do domínio de poucos, em
detrimento de interesses maiores:
‘P ie te n d e u -se sem p re fu z e r p a ir a a nossa encantadora u rbs em eleva d a
e sp h e r» d e n o b reza , in a tin g ív e l p a ia quem não fo sse bem aquinhoado na
d ivisã o d o s p r o v e n to s m ateriais fl> 2)
A defesa da indústria como sinônimo de progresso, bem-estar material deveria
estar associada às condições de salubridade, beleza e encantamento encontrados em
Nova Fribuigo Essas condições naturais e típicos do município friburguense deveríam
se ligar ao crescimento industrial, responsável pela criação de uma base sólida e
indestrutível Até mesmo outros município que não possuíam os atributos encontrados em
Nova Friburgo viviam situações deprogiesso decorrente da implantação industrial
'E nquanto lu g a res q u e em tem po algum reuniram o s elem en to s d e b e le za
e sa lu b n d a d e em q u e é p ró d ig a a nossa terra, despertam , d esen vo lvem -se
e p ro sp era m , g ra ça s ao im pulso re c e b id o p e la s em presas industriais, qu e
p a i a lá c o n em atrahidas p e la fr an q u eza e vantagens, p ro d ig a liza d a s p e la s
m uniàpallidades, secu n dadas p e la população, Friburgo, a b e la F riburgo, o
va lle en catador o n d e a p rim a vera é constante, arr astasse atrophiada p o r
tantos annos d e in ércia 1^3)
A questão do progresso, condição de felicidade, é decorrente da implantação da
indústria O jornal de Galdino do Valle Filho assumia a bandeira do ideal progiessista
necessariamente decorrente dafixação darndustnana cidade.
'A pellam os p a ra um iconoclasta, v ie sse d e o n d e viesse, q u e d estru ísse os
íd o lo s e a b rísse p a ra esta terra uma éra d e p ro g re sso e felicidade, qu e
tiv e sse com o b a se sólida, in destru tível, o trabalho e a h on estidade
18?
--- [PDF página 205] ---
Em pequena nota publicada rio mesmo jornal, verificamos a continuidade da
defesa da indústria como fator de progresso e mais explicitamente, a defesa da empresa
Arp como aquela que será a causadora dos futuros benefícios a Nova Friburgo:
" E m breves dias pois a nossa cidade experimentaiápela primeira vez, a
sensação de extremedmento de seu solo pela força propulsora da
industria moderna Afigura-se-nos que o m om ento atual é o início de u m a
era nova para a nossa cidade, cremos fimemente que o espantalho
plantado a sua porta, não resistirá ao movimento de progresso que se
opera atualm ente. E é justo que tal aconteça, Friburgo não pode por m ais
tem po, sofrer indolente o seu atrelamento à rotina atrofiante dos seus
músculos de gigante, ela tem que cam inhar e cam inhar á A F ábrica ARP
ser á na nossa histór ia futura, o m ar co glorioso do nosso progr esso e com o
tal receberá as nossas bênçãos. 1^)
No processo de criaçáo industrial a questão da energia, responsável pela
movimentação das máquinas, exercerá um papel fundamental No decorrer das mudanças
ocorridas no capitalismo ocidental a partir de 1870 verificamos a substituição gradativa do
uso da energia a vapor, pelo uso crescente da eletricidade como força motnz. Por outro
lado, a energia elétrica começara aos poucos, não somente a ser usada, como força
propulsora das máquinas industriais como também, usada na iluminação das cidades, nos
espaços públicos e privados. Tornava-se pois, a partir dos fins do século XIX, a
eletricidade como elemento fundamental do progresso e da modernidade. Verificava-se
então uma perfeita associação entre a questão industrial, a eletricidade e as idéias de
progresso
Em Nova Friburgo, a discussão sobre a implantação de uma usina hidroelétrica
vmha se processando desde fins do século XIX e em 1906 a Câmara Municipal
concedera a exploração desse serviço ao empresário Cel. Antônio Fernandes da Costa.
188
--- [PDF página 206] ---
‘ Antônio Fernandes Costa m ais conhecido simplesmente por Coronel
Costa era inegavelmente um hom em empreendedor. Cidadão tico bem
relacionado e prestigioso, possuía raio tino com ercial. E m M acaé, m ontou
um a fábrica de fósforos e, em Nova Fríburgo requereu a concessão para
a exploração de energia elétrica Assim teve início a construção de nossa
primeira U sina, a cham ada U sina do H ans com potência de 130 KVA
...<«)
A construção da usina, através da concessão ao Coronel Costa em virtude de
alguns problemas verificados no decorrer do período não conseguirá cumprir os prazos
determinados para o início de seu funcionamento Em princípio de 1911, Juliua Arp ao
mesmo tempo em que iniciava a construção e montagem da Fábrica de rendas,
principiava as negociações no sentido de adquirir do Cel Costa, a concessão para
concluir e operar a usina de eletricidade em Nova Fríburgo
Este fato irá se constituir em um dos momentos cruciais da implantação industrial
na cidade O controle da fonte fornecedora de energia assim como, pai a iluminação de
toda a cidade representava para o empresário alemão algo de fundamental importância
no que tange ao domínio estratégico do capital industrial Marcos A Guarita(^) e Mana
Barbara Levy(^) analizando o papel desempenhado pela "Rio de Janeiro Tranway,
Ljght and Power Co.Ltd “ no processo de aceleração e freio da industrialização da
cidade do Rio de Janeiro concordam ao concluir quanto ao papel de controle exercido
por aquela empresa Se rnrcialmente a Light and Power favorecera ao barateamento dos
custos industriais fornecendo energia a baixos preços, mais tarde, a própria Light criou
mecanismo de elevação nos preços das tarifas, tornando-se uma das responsáveis pela
elevação dos custos industriais no Rio de Janeiro Sendo assim, podemos inferir que o
controle da fonte fornecedora de energia em Nova Fribuigo, era para Juhus Aip
elemento essencial no aspecto do possível controle que tal fato lhe daria, sobre outras
empresas que posteriormente viessem a se instalar no mesmo espaço urbano Para uma
indústria moderna a energia elétrica tomava-se fundamental e acreditamos que Juhus
189
--- [PDF página 207] ---
Arp assim pensava ao postular-se como comprador da concessão outrora entregue ao
Coronel Costa, pela Câmara Municipal
A assinatura do novo contrato, efetivando a transferência da concessão da
empresa de eletricidade das mãos do Coronel Costa para o empresário Julius Arp não
será feita de forma imediata, em virtude dos embargos colocados por alguns
representantes da Câmar a Municipal Já de início, o jornal "A Paz’ noticiava a não
concretização do novo acordo, levantando suspeitas quanto aos interesses de alguns
vereadores, no sentido de lua arem individualmente com a tr ansação
'Surgem ãs primeiras desinteligênáas entre os representantes do poder
público personificados na figura do Sr. Galiano Jr. e o contr atante dos
serviços de eletricidade Não nos surpreende esses atritos, resultados
inevitáveis na execvsão de um contrato cuja confecção presidio, não o
interesse da coletividade m as, a previsão de lucros fabulosos. 1^9)
Mais tarde, em outro editorial o mesmo jornal acusava mais explidtamente, alguns
vereadores que tentavam embargar a transação, ao mesmo tempo que também notiaava a
desistênaa de Julius Arp, quanto a continuidade de suas empresas na cidade:
*Tantas , porém, foram as exigências do Sr Galiano Jr., presidente da
referida corporação, m ancom unado com os vereadores F arinha F ilho e
G iffoni, que o representante da nova empresa resolveu abria m ão do
contrato, entregando de novo ao Coronel Costa os serviços de instalação
da luz elétrica, e, predispondo-se a m andar transferir todos os
m aquinrsm os de sua fabrica já promptos, a m ovim entarerti-se para u m a
locahdade de outr o Estado da República 1 ?® )
Como vemos, a oposição poKtica em Nova Friburgo, representada na figura de
Galdmo do Valle Filho se fazia presente, em defesa do ideal de progr esso, expresso nas
possibilidades de industrialização da cidade. O impasse verificado entre o novo
190
--- [PDF página 208] ---
contratante Julius Aip e os membros da Câmara Municipal chegou ao auge em maio de
1911, quando influenciada pelo discurso oposicionista, parte da população da cidade
tornou-se protagonista de um fato, em nossa concepção, fundamental para o desenrolar
dos acontecimentos. No dia 17 de maio de 1911, ocorreu a "Noite do Quebra-Lampiões",
responsável pelo apressai da assinatura definitiva do contrato para implantação da
empr esa de eletr icidade sob a direção de Julius Arp. Diante da notícia que o empresário
alemão abandonava a intenção de manter suas indústrias em Nova Friburgo, os fatos
preciptai am-se da seguinte maneira, conforme o Jornal "A P az‘ .(71)
T a e s re so lu ç õ e s tom ou o Sr A rp m última quarta feira, d e p o is d e h a vei
sid o g ro sseira m en te re c e b id o p e lo p re s id e n te da Cârnaia, o qual
p ro cu ra ra com o fim d e ultimai as n eg o cia çõ e s D ian te d o fracasso d e tão
p ro m isso ra iniciativa, a pop u la çã o com eçou a agitar-se e p o u c o a p o u c o se
foram agitando o s ânimos O facto era com entado com g ra n d e indignação
notan do d esu sa d o m ovim ento nas ruas e em m enos d e uma hora uma
m ultidão en orm e s e aglom erava na f ia ç a 15 d e n o v e m b r o ... Sem a força
p ie d s a p a ia m anter a ordem , p o is q u e 5 p ra ç a s alienas constituíam o
destacam ento, 3 das quais p re sta v á o gu arda à cadeia e duas ao qu artel o
D e le g a d o d e P otida, com auxílio d e 8 com issáiios e d e alguns p o p u la i e s
p ro c u ro u acalmai o s ânimos não o con segu m to em vista d e h a ver < t
m ultidão s e su b d ivid id o em d iv e rso s g ru p o s q u e s e destacaram p a ia
d ife re n te s p o n to s da a d a d e, em e n o rn e algazan a, danificando no tra/eto
o s lam piões da ihim unaçãd pública, escapan do som en te os dous q u e s e
achaiv lo ca liza d o s em fren te a c a d e ia "
Após a destruição dos Lampiões de iluminação da cidade, a "multidão" voltou-se
em direção a Câmara Municipal
'Uma v e z a a d a d e com pletam ente às escu ras e sem a p o ssib ilid a d e do
m en or poh dam en to, o s g ru p o s reuniram -se novam ente, em fren te a
Cârnaia M unicipal form ando uma m ultidão d e mais d e quinhentas pesso a s,
qua aos viva s a em presa A R P e m on as ao p re s id e n te da Cârnai a,
apedrejaram o e d ifía o m uniapal, arrom bando em segu ida as p o rta s e
191
--- [PDF página 209] ---
janelas do m esm o, em cu/o recinto penetraram destruindo por completo os
móveis e utensílios ah'existentes Vl)
Os fatos acontecidos conforme relatos acima, tornaram-se fundamentais para o
apressar das negociações e a consequente assinatura do contrato de eletrificação entre a
Câmara Municipal e o empresário No dia 18 do mesmo mês, o mesmo jornal "A Paz'
noticiava:
" F ribu rgo, ltt - Graças ao enérgico movimento popular de hontem , o
advogado da C âm ara, desceu hoje levando o contracto de eletricidade
para a assinatura do contr atante
Tendo conseguido o seu desideratum a população volta a calm a
aguardando a solução final... t^ )
Do fato ocorrido em 1? de maio de 1911, conhecido como ’A Noite do Quebra
Lampiões" podemos tirar algumas conclusões, fundamentais para a compreensão do
processo industrial em Nova Friburgo.
Em primeiro lugar, afirmamos que não nos cabe agn, como o inquérito policia]
criado para encontrar os responsáveis pelo motim O que gostaríamos de afirmai e que a
Noite do Quebra Lampiões, inegavelmente significou um marco no processo industrial
friburguense A partir desse evento, verificamos a quase imediata assinatura do novo
contrato envolvendo a Câmara Municipal e o novo contratante Desse modo, é possível
afirmar que o evento do dia 1? de maio exerceu papel determinante para a consolidação
dos grupos alemães em tomo da fixação da indústria na cidade
Em segunda instância podemos também concluir que o fato acima descrito,
significou uma importante vitória política do grupo liderado por Galdmo do Valle Filho,
sobre os adversários, que naquela ocasião dirigiam o poder público municipal A
empresa de eletricidade, a Fábrica de Rendas M . Smjen e a Fábrica M Falck que
começam a operar no mes de junho de 1911 e em 1912 respedivamente em Nova
192
--- [PDF página 210] ---
Friburgo, não podem ser entendidas, sem compreendermos os aspectos históricos da
potítíca local Sem sombra de dúvidas, acr editamos que 'A Noite dos Quebra-Lampiões"
significou a culminância de um processo de lutas políticas, onde defrontaram-se a facção
liderada por Galliano das Neves contia o grupo liderado por Galdino do Valle Filho
Concretamente, confrontaram-se em 17 de maio, duas concepções difer enciadas, no que
concerne a realização das políticas públicas. De um lado, a tentativa de permanência no
poder, de um grupo representativo da antiga aristocracia que dominava a potítica
municipal, desde a sua autonomia em 1890 Poi outro lado, a nova facção política que via
na associação dos capitais industriais — transmissores do 'progresso' — a possibilidade
de tornar-se hegemônico politicamente em Nova Friburgo.
A assinatura do contrato que transferia a Julius Arp o controle da empresa de
eletricidade, em 20 de junho de 1911 representou um passo importante para a
industrialização de Nova Friburgo, assim como, novo passo na associação dos
empresários com o grupo político que mais tarde, assumiría a direção do poder municipal
Quanto aos termos desse contrato adiamos interessante ressaltar alguns aspectos
importantes dele, que nos permitem entendei certos parâmetros da associação entre o
público e o privado em Nova Friburgo Ao todo, o cont ato possuía 40 cláusulas sendo
algumas delas subdivididas em vários paiágrafos Inegavelmente, podemos considerai
que a Empresa Julius Arp e Cia percebia benefícios consideráveis previstos no referido
contato!^). Em primeiro lugar, podemos verificai tais vantagens, analisando algumas
dáusulas.
‘V - A Cànaia M unicipal de Nova Friburgo garante e concede aos
contratantes Julius Aip e Qa, sodedáde em com andita, o direito de
explorarem o serviço de üum inaçao pública e particular e força dentro de
um a circunferência que tenha de raio seis quilômetros e por centro a R ua
General Argollo, ao sahii da Praça 15 de Novembro
193P rèífcítm a d e f o v a F rib u rg o
Sétrètaria ue ultura
f Pn O ' • D# umfrfttaçáo
Hiitoric» - Pró-M»mófl«
--- [PDF página 211] ---
i” - O p r a z o d e co n cessã o s e r á d e 30 anos, con tados da data da
inauguração da ilum inação p ú b lica d esta a d a d e.
í Ú n ico P o r ilum inação p ú b lica e n ten d e-se ex d u siva m en te a iluminação
d a s ruas p ra ça s e lo g ra d o u ro s com prendidos d en tro da área constante da
p la n ta indicada a p ro va d a p e la Câmara {?$)
Notamos nessas dáusulas iniciais do contrito a delimitação espacial de atuação da
empresa, ficando evidente o prazo de 30 anos de vigência dessa concessão
Sobre os direitos garantidos à companhia podemos ressaltar a dáusula:
75-' - A Câmara M unicipal obriga-se
V - A c o n c e d e r isen çã o d e im postos, alvar as e qu aisqu er con tribu ições
m unicipais q u e estejam em sua alçada cobrai e lançar, seja qu a l fo r o título
o u denom inação p a ra ex ploração d o s se rv iç o s q u e fa zem p a r le n esse
con tra to e a in te rc e d e i p e ra n te ao g o v e rn o d o E stado a fim d e q u e p o r s i
o u p e lo g o v e rn o da União con ceda isenção d e im postos aduaneiros p ara
o m aterial q u e fo r im portado e q u e tiv e r q u e s e r e n p reg a d o na
instalação d o se rv iç o , v®)
Como podemos perceber a Câmara Munidpal não somente concedia isenção total
dos impostos que tinha o direito de cobrar como também, se comprometia interceder
junto ao Governo Estadual em busca da concessão de isenção de impostos aduaneiros,
por ocasião da importação de matenal nescessáno a implantação da empresa
Ainda sobre os direitos garantidos a M u s Arp e Cia. podemos destacar a
dáusula
7 5 '- O s contratantes terã o o direito .
a ) D e desapropiação, à custa d o s contratantes e seg u n d o às leis do
E stado, p a ra o s te rre n o s e im óveis q u e forem in d isp en sá veis aos se rviço s
d a s in stalações elétrica s e d e suas d ep en d ên cia s destinadas a iluminação
p ú b lic a
194
--- [PDF página 212] ---
b) De fornecer eletricidade para força motriz ou outro qualquer
fim , além do lim ite da ilum inação pública a qualquer industrial ou particular
que dela se quita utihzar ... 1??)
Os poderes garantidos à empresa contratante são de enorme magnitude cabendo
a ela definir a desapropriação de terrenos que lhes eram indispensáveis. Vemos aí, o
poder privado assumindo funções cabíveis ao poder público, o qual se afastava da
decisão sobre as áreas a serem desapropriadas No inciso b desta cláusula permitia-se o
prolongamento no fornecimento da energia além dos limites definidos pela Câmara
Municipal O fato de tal cláusula reverir-se a um direito e não a um dever da empresa de
eletricidade, permite-nos concluir que o fornecimento de enengia, além dos limites
urbanos, dependería do interesse exclusivo do contratante Desse modo, podemos
observar que a criação de novas industrias em Nova Friburgo dependería do julgamento
da empresa de eletricidade, quanto a sua validade ou não Em suma, a dáusula 26! em seu
inciso bpermitia a Julius Aip e G a o direito escolher aquelas empresas que poderíam se
instalar no espaço friburguense Inegavelmente, a dáusula 26! desse contrato indica-nos
as condições excepdonais em que foram se instalando as empresas industriais assim
como, o enorme podei concedido pela Câmara Municipal espedficamente ao empresário
Julius Arp Pelo que podemos perceber, a implantação de novas empresas em Nova
Friburgo, que necessitassem da energia fornecida pela empresa de eletriddáde, somente
poderia acontecer após consentimento daquela empresa Não podemos esquecer, que o
fornecimento de energia pelo contrato assinado, era previsto como um direito da
empresa contratante e consequentemente, era essa empresa que passava a assumir a
condição de avalisar ou não a implantação de um novo empreedimento em Nova
Friburgo Era na verdade o poder público munidpal transferindo para o setor privado, o
poder de definir qual empresa seria realmente assentadano espaço munidpal
195
--- [PDF página 213] ---
A partn da vertente acima apresentada é possível pensar o papel hegemônico
que os vários empresários de origem alemã que aos poucos irão se fixando na terra
friburguense A Empresa de Eletricidade, já iniciando suas operações a parti de
setembro de 1911, passava a direcionar o fornecimento de energia e eletricidade, as
empresas, ao serviço público, aos consumidores individuais, exercendo um papel de
grande monta no processo de implantação das novas empresas e no direcionamento da
ocupação do espaço municipal
Por outro lado, inidahnente, como também ao longo do período que estamos
estudando, percebemos a presença de empresários alemãs de forma crescente em Nova
Friburgo.
A empresa de eletricidade, registrada com o nome de Julius Arp e Cia, era uma
sociedade em comandita, tendo o próprio Julius Arp como sócio majoritário Como sócios
minoritários da empresa, registramos os seguintes investidores:
Maximilian Falck
H. Mutzenbecher
H Grube
Alfredo Vori Sydon
tóarkus Sinjen
Johannes Haasis
Berthold Walhnelt (?e)
Não nos é possível confirmar as nacionalidades dos investidores de Julius Arp e
C$a. O simples olhai nos sobrenomes acima listados nos permite sugerir tratar-se de
empresários de nacionalidade alemã, os que compõem o capital acionário desta empresa.
Desse modo podemos afirmar que a implantação da empresa de eletricidade significou
um momento marcante da presença alemã em Nova Friburgo e que a partir daí, essí
196
--- [PDF página 214] ---
empresariado alemão passa a exercer papel de enorme importância em termos de
direcionamento econômico, político, ideológico e até mesmo espacial de todo o
município.
Garantido o controle do fornecimento de energia, logo em seguida o empresário
Julius Arp adquiriu terras dos herdeiros do Barão de Nova Friburgo, às margens do Rio
Cônego e próximo a Praça Paissandu, dando início àfábrica de rendas M Sinjen e Cia É
bom lembrar que Markus Sinjen era gerente e pioairadoi de Arp e G a e, uni dos
acionistas da empresa de eletricidade. Em junho de 1911 chegaram as primeiras máquinas
alemães, tendo iniciado ímediatamente a montagem e a produção de rendas, com 36
em pregados.(^) Em 1913, verificamos a expansão de diversificação dapiodução quando
M SINJEN e G a importa da Alemanha um pantógrafo que produzia rendas bordadas
em filó grosso de 7 jardas. Para essa produção foi também contratado o alemão Afons
Grabhers, encarregado da manipulação e opei aoonalização do novo maqumáno P ) A
princípio a direção da empresa esteve a cargo de Ernesto Kappel e em junho de 1916 foi
contratado para. a direção da empresa de eletricidade Julius Arp e Ga. e ao mesmo
tempo também, dirigir as empresas M Sinjen e G a e M Falck e Ga., o empresário de
nacionalidade alemã, Henrich Hans Wtlhelm Schmidt P )
A guerra mundial que explodira em 1914 provocou algumas dificuldades nas
relações Brasil e Alemanha e consequentemente, implicando em dificuldades maiores no
que concerne à importação de novas máquinas para as empresa, de alemães em Nova
Friburgo. Um fato que tomou-se digno de nota, foi a apreensão de navios alemães pelo
governo brasileiro em 1917, pot ocasião da declaração, de estado de guerra proferido
por Wenceslau Br ás Os tripulantes dos navios alemães, aportados em vános portos
brasileiros tomaram-se prisioneiros e internados em regiões distantes do litoral Em Nova
Friburgo foram internados 227 alemães em duas casas de alvenaria e quatro barracões de
madeira. A esses prisioneiros era permitido empregar-se nas empresas da cidade, desde
que fosse imediatamente comunicado a Comissão Militar. Alguns dos prisioneiros serão
197
--- [PDF página 215] ---
utilizados como empregados nas empresas de Nova Friburgo, destacando-se a figura do
oficial Richard Hugo Otto Ihns que em 1919 assumia a direção da fabrica de rendas M
Sinjen e Q a De 1919 até 1960 Richard Ihns manteve-se como diretor dessa empresa.
Analisando o quadro de direção de tó Sinjen e Q a no período que propusemos
estudar, verificamos um quadro não muito difereente daquele percebido no quadro de
acionista da empresa de eletr icidade Juhus Arp e Qa. A presença de dir etores de origem
alemã fica evidente o que vem corroborar com a hipótese de que tratava-se de montai
em Nova Friburgo uma colônia de alemães, com laços de solidariedade montados em uma
unidade cultural, religiosa, linguística e porque não/iaaonalístico.
TABELA 2 Ü : LISTA DOS DIRETORES DE M . SINJEN E Q a -1911A 1930
NOMES PERÍODO
Ernesto Kappel 1911 a 1915
Heinrch Hans Wilhelm Schmidt 1915 a 1917
Wolf W em er Wyszomirski 1917 a 1919
Richard Hugo Otti Ihns 1919 a 1960
FONTE: C R. Fischer, op cit
PaTalelamente à criação da empresa de eletricidade e a Fábrica de Rendas M
Sinjen e Q a , verificamos também, fazendo parte da mesma conjuntuia histónca
municipal, a criação da empresa M Faleis e Q a especializada na produção de artigos de
passamanana Em 1910, Maximilian Falck alemão da cidade de Berlim e funcionário da
Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, morador da cidade de Niterói, havia adquirido um
terreno em Nova Friburgo, denominado Sítio Ypu Associando-se a Julius Arp, Falck em
1912 cria a empresa M Falck e Q a , localizada à margem esquerda do Rio Sto Antônio
Imcialmente, construi^e um barracão, onde foram instalados os M teares importados de
198
--- [PDF página 216] ---
Barmen na Alemanha e em junho de 1912 os 12 primeiros funcionários começaram a
produção dos artigos de passamanariai^)
Tudo indica que a expansão desta empresa ocorreu de forma bastante rápida
pois, já em 1917, possuía nada mais, que 155 funrionários(^). A evolução do número de
operários na empresa entre 1919 e 1925 oferece-nos um quadro do crescimento de tó
Falck e G a , como podemos perceber no quadro abaixo:
TA B E L A 21: N Ú M ERO DE EMPREGADOS BE M, FALCK E Cia
ANO JAN ABRIL JULHO OUT DEZ
1919 92 105 182 240 250
1922 — — 374 404 336
1923 336 418 420 439 409
1924 428 313 421 429 363
1925 370 338 318 253 —
FONTE: Livr o de Funcionános de M Falck e G a
O aumento do número de empregados no período acima está ligado à ampliação e
diversificação das ativrdades da empresa. Na década de 20, M Falck e G a passara a ter
além de passamanarra, tecelagem, trançadeira, tmturaria, engomação, tipografia
cartonagem, oficina mêcanica e carprntaria Grm a diversificação da produção a fábrica
passou a produztt suspensórios elásticos Quanto à organização desta empresa,
podemos afirmar que sua formação esteve umbilrcalmente Irgada a Julrus Arp que se
associara a M Falck. nesse empreendimento Evidenciava-se mais uma vez, a presença
dos empr esários alemães na promoção dessa nova indústria em Nova Fribut go
199
--- [PDF página 217] ---
Em janeiro de 1925 era fundada em Nova Friburgo a Fábrica de Filó S/A, que se
instalara em um grande terreno na Vila Amélia, nas pioximidades da Estrada de
Terezópoles, próximo também à Praça do Suspiro A história dessa fábrica em Nova
Friburgo liga-se inegavelmente, à crise capitalista vivida pela AlemanhâSconjuntura dos
anos 20 assim como, às negociações implementadas por M u s Arp, com intuito de atrair
novas empresas para esta cidade Segundo relatos, Ernesto Otto Siems, filho de um
proprietário de uma fábrica de filó em Plauen na Alemanha o empresário Gustav Siems,
encontrara com M u s Arp que o convenceu a escolher a cidade de Nova Friburgo para
a instalação de sua fábrica Desse modo,foi criada a fábrica de filó, como sociedade
anônima que passara a produzir filó liso, jacquard (crochê), rendas valenaanas e
derivados desses artigos, tecidos de estofamento e paia a decoração, além de madias
(85), O capital social da Fábrica Filó S/A fora inirialmente regist ado em 3 000.000$000
(três mil contos de réis) divididos em 3.000 açóes, no valoi de um conto réis cada uma
Vejamos a composição dos principais acionistas da ernpi esa.
TABELA 22 ACIONISTAS DA FÁBRICA FILÓ S/A - 1525
ACIONISTAS AÇÕES %
Gustav C Siems 1.629 54
Deustsch Sudamerikamstte Bank 328 1 1
Arp e G a 275 9
J Ruenning 200 6,5
L Breittmger 100 3
L Eissengarthen 100 3
M Falck 50 15
H Rerti 50 1,5
200
--- [PDF página 218] ---
Bernardo Barbosa 50 1,5
Ed Rurzverg 50 1,5
Emst Otto Siems 30 1
Janies tóagnus 20 0,6
Gustav Erlo 15 0,5
W em er Beck e G a 10 0,3
Rud Rnofh 10 0,3
Fr. Henninger 1 0 0,3
Alfi ed Harisen e Co. 1 0 0,3
FONTE Diário Oficia] de 1/2/1925, Imp Oficial
Como podemos percebei, ao depararmos com o quadro adrna, a Fábrica Filó
constituia-se com uma sociedade anônima, composta em sua maioria por acionistas de
origem germânica A começai por Gustav Siems que juntamente, com seu filho Emst Otto
Siems controlavam 55% das ações da empresa A presença do Deustsdi Sudamekanishe
Bank acentua ainda mais a importância dos empresários alemães em Nova Friburgo, em
termos de participação e controle dos capitais industriais Não devemos deixai de
comentar, a participação como aaomsta de Juhus Arp e G a, o que demostia a presença
do empresário Arp em todas as atividades industriais de maior porte em Nova Friburgo.
Sua presença também ficava patenteada na Fábrica Filó S/A quando participa da primeira
diretoria, ocupando o cargo de Vica-Piesidente
201
--- [PDF página 219] ---
D I R E Ç Ã O D A F Á B R IC A F iL Ó S /A -1 9 2 5
DIRETORIA CARGO
Gustav C. Siems Presidente
Julius Arp Vice-Presidente
Ernst Otto Siems Gerente-Diretor
FONTE: Diáiio Oficial -172/1925
Efetivamente o papel de dirigente da Fábrica Filo S/A coube a Ernst Otto Siems,
especialista na produção industrial do ramo. Percebemos náo só na composição do capital
acionário mas também, na composição da Direção da empresa, a presença de
empresários alemães, o que vem corroborai com a afirmação de que Nova Friburgo
gradativamente, se constituía num determinado espaço onde a presença dominante de
indústrias originárias de capitais alemães tornava-se cada vez mais evidente
Somente na década de 30, mais precisamente em 1! de abril de 1937, após intensos
contatos entre Julius Arp e os engenheiros Hans Gaiser e Frederico Stchel, completava-
se o processo de implantações de empresários alemãaem nova Friburgo. Criava-se em
1937, a Fábnca de Ferragens Hans Gaiser localizada à margem direita do Rio Bengala,
nas proximidades da localidade denominada Village, utilizando cerca de 10 operários e
especializada na produção de fechaduras A dneção da Fábrica de Ferragens Hans
Gaiser, forainicialmente assim constituida
202
--- [PDF página 220] ---
D I R E Ç Ã O D A F Á B R IC A D E F E R R A G E N S H . G A I S E R - 1937
DIRETORES CARGOS
Hans Gaiser Drretor-Presrdente
Sílvio de Bearidair Diietor-Tesouieiro
PCü/s/gflOH Anton Hermari Prarne Diretor-Secr etário
Fraderic Sidiel Drretor-Técnico
FONTE Boletim Informativo de Ferragem Haga
Outras industrias de menor porte se instalaram no espaço fríburguense e terão
certo dinamismo no período em que estamos analisando São empresas menores e que
não ter ão a expressão daquelas criadas pelos capitais alemãs O sociológo Arthur
Gurmarães(^) em sua obra publicada em 1916, dedica um capítulo onde relata a
presença de algumas indústrias em Nova Friburgo Iniciahnente ao descrever a
tmportânaa do uso de bicicletas como meio de locomoção pela população da cidade, o
Autor fala na Casa Oreste que
"fabrica b icyd e ta s, m andando v ir < r . < p e ç a s da Itália, com a d icu n stâ n d a d e
te r in tro d u zid o m elhoram entos n o aparelh o g e r a l
As pequenas fábncas, ligadas a produção de ahmentos podem ser destacada;.:
"H áfabncas d e m a ca n ã o e m acan on ete, com reg u la i vendagem
Ou então, em outra passagem
203
--- [PDF página 221] ---
" N a Ponte da Saudade, outro estabelecimento industriei se fundou\ u n iá
charutene, fabricando com perfeição salachanas e demais prepar ados do
gênero: salam es, m ortadellas, linguiças, m or cilhas etc
Sobre a produção de cervejas, assim t eferia o Autor:
"E xiste um a fábrica de cervejas, sem grande extração. 1^0)
Outro setor que florescia em Nova Friburgo era aquele ligado ao próprio
desenvolvimento urbano; no caso a produção de telhas e tijolos. Arthur Guimarães
assinalava essa produção em seu livro:
"florescem fora dos hm ites urbanos, u m cortume e várias O larias, sendo a
principal, quase abandonadõ a do cam inho do Cônego, fundada pelo
Barão de S Clemente Aberto um enorme galpão, coberto de telhas de
zinco, ah installou o illustre titu lar um a fábrica de tijolos e telhas, que
segundo dizem, pouco durou em suas m ãos, passando às dos suissos-
allemáesSrs. Thuller 1^1
Desse modo podemos concluir sobre a existência de outios estabelecimentos
fabris, de menor monta, em Nova Friburgo Entretanto, esses estabelecimentos não
possuíam a magnitude daqueles implantados a parti; de 1911, após a chegada do
empí esário Julius Arp e a consequente implantação da Companhia de Eletricidade
Já afirmamos nesse capítulo, que as condições que favorecei am a implantação da
empresa de eletricidade, no que concerne ao contrato assinado pelo empresário Julius
Arp e a Câmara Municipal, propiciaram ao empí esário e futuiamente a todo um conjunto
de empresários alemães, elementos excepidonais Ao longo do período analisado por
nós, podemos assinalar que o conjunto dos empresários alemães, liderados por Julius
Arp, irá assumir a condução do processo de industrialização na cidade Se partirmos do
204
--- [PDF página 222] ---
pressuposto que o discurso modernista naquele momento, procwava associar o ideal de
'pi ogresso’ao desenvolvimento industrial, podemos afirmai que os grupos alemães que
em Nova Friburgo chegaram a partii de M u s Arp, passaram a ser percebidos como os
verdadeiros criadores de uma nova Nova Friburgo.
Afastamos entietanto, qualquer possibilidade de afirmai que as ongens dos
capitais industriais tenham sido provenientes da Alemanha O tiabalh. de VILLELLA,
A V e SUZIGAN, W. Política, do Govemo e Q esdmento da Economia brasileii a - 1SS9 -
1969 permite-nos corta tar a presença significajtiva de capitais alemães, em vários
pontos do território brasileiro, no período por nós estudado Embora tenhamos
conhecimento desse fato, não nos foi possível confirmar que em Nova Friburgo isto
tenha ocorndo. Portanto, ao nos referimos à atuação alemã em N.Friburgo, estamos
atentos à Nadonahdafde dos empresários, o que nos permite conduii sobre a existência
de uma unidade cultuial, pfttsante neste grupo
É ainda mteiessante considerar que estrategicamente as indústrias alemãs — M.
Sinjen e C 5a_, M Falck e Ga., Fábrica Filó S/A e Ferragens Hans Gaisei — ocupavam
áreas que percebidas no conjunto do espaço urbano tinham um significado especial
Sem contai que, pot operarem no ramo têxtil, era importante suas locahzaçcies
nas proximidades de pequenas bacias fluviais
Anahsemos o mapa abaixo:
205
--- [PDF página 223] ---
- m.S/XJÍH £ c/A.
- •#. T A L C K E C/A.
-tÀBR/CA D E . FJLÔ S/A
-tE.RRAGL.1S IIA1SGA/SLR
--- [PDF página 224] ---
Ao lançarmos nosso olhai sobre o mapa que representava no período estudado o
território correspondente aquilo que era o espaço urbano do município de Nova
Friburgo, percebemos que suas ruas e praças se concentravam prindpalmente à margem
diteita do rio Bangala, em extensa planície desde o encontro do Rio Sto. Antônio e do
Rio Cônego — proximidades da Praça Paissandu — até o fmal da Av Santos Dumont —
nas pioximidades da Praça 1 ! de março. Percebe-se ainda, a Rua General Argollo,
principal artéria da cidade, hgada diretamente à Praça IS de novembro, centro de Nova
Friburgo.
Espaaalmente falando é possível afirmar que a cidade possuia um formato
semelhante a um grande quadrilátero
Peicebemos ainda que as industrias principais de propriedade dos empresários
alemái^situam-se em 4 extremos diferenciados do hipotético quadrilátero A indústria M
Sinjen e Ga ocupava um terreno nas proximidades do Rio Cônego, também proximo ao
encontro dos rios. A indústria M Falck e G a localizava-se a margem esquerda do Rio
Sto Antônio, também relativamente próxima do início do Rio Bengala Na outra
extremidade do núcleo urbano de Nova Friburgo e próxima a Praça do Suspiro, situava-
se a Fábnca Filó S/A. A margem direita do Rio Bengala, estabelecida em terreno próximo
ao final da Av Santos Dumont, situava-se a Fábrica de Ferragens Hans Gaisei
Ainda é possível constatai que as indústrias atadas ocupavam as 4 extieimdades
do núdeo urbano, como se executassem um grande abraço em torno da adade
Inegavelmente, as indústrias envolviam todo espaço correspondente ao núdeo urbano,
o que fatalmente lhes permitia, ao que nos parece, controlar toda a adade
É portanto possível afirmai que a implantação das principais indústrias no
terntóno friburguense obedeceu a determinados aiténos de contr ole e dominação que
os empresários alemães montaram estrategicamente para Nova Friburgo. Não nos parece
que tais assentamentos industriais se fizeram de forma aleatória Aaeditamos que num
momento de expansão capitalista, o controle do espaço urbano exerrido pelo grupo de
20?
--- [PDF página 225] ---
alemães possibilito-lhes condições excepidonais no tocante ao domínio sobre todo o
processo Nova Friburgo fora uma cidade que surgira num meio tipicamente rural, tivera
acelerado o seu cresdmento quando acentuara suas funções comerciais e agora assumia
características tipicamente industriais. A era do predomínio do capital industrial na ddade
se iniciava e vemos assim, esse capital ocupando ár eas que facilitavam consolidar suas
estratégias de dominação. Quando afirmamos que as indústrias pareciam abraçar a
cidade, concretamente queremos dizer que o capital industrial, representado pelos
empresários alemães a partir de 1911, desenvolveu mecanismos, envolvendo,
controlando, direcionando toda Nova Friburgo, inclusive anível espadai
Uma segunda observação importante que podemos assinalar, é que nac se
percebe também uma concentração industrial em Nova Friburgo. Os espaços que
separavam as prindpais indústrias correspondiam distâncias consideráveis. Na verdade
não se pode afirmar a existênda de uma região da ddade, ou mesmo um bairro onde
concentravam-se as indústrias. É possível sim , afirmar que a ddade como um todo sofria
os efeitos da industrialização. Desse modo, pela própria localização dessas indústrias,
conclui -se que a força de trabalho se dispersava pelos quatro extr emos do quatrilátero
Consequentemente, o contato entre os operários das várias empresas não se fazia de
forma tal que facilitasse a disseminação de idéias que pudessem perturbar o andamento
do processo. Indústrias desconceritradas significava também desconceritração da força
de trabalho, impossibilitada de maior contato entre si, no dia a dia Por outro lado, a
desconcentração das indústrias não significou a desconcentração do capital Este sim ,
permanecia mantendo grande unidade representada 11a pessoa jurídica da Empresa de
Eletricidade — centro gerador e irradiador de energia — e na pessoa física na figura de
Julius Antônio Arp.
O fato das empresas industriais terem sido localizadas em pontos estr atégicos e
diferenciados da cidade, levou também a uma dispersão da força de trabalho que
naturalmente buscava ocupai espaços próximos às indústrias 0 que lhes facilitava 0 a ceai
208
--- [PDF página 226] ---
«os locàis de trabalho, diariamente A própria dispersão das indústrias provocava como
consequência, a dispevção dos trabalhadores que acompanhavam os vários locais onde
se assentavam aqueles estabelecimento. O resultado imediato desta situação é que não
encontramos em Nova Friburgo, um único bairro que abrigava a população operária,
trabalhadora das fábricas. Acompanhando e fixando-se nos terrenos próximos as
indústrias, verificamos a formação de vários bairros ocupados pela população
trabalhadora. Desse modo, a Fábrica M Sinjen e C5a teria direcionado a ocupação dos
terrenos próximos ao Parque S demente, atingindo a região municipal onde
anteriormente se estabelecera a antiga Olaria do Cônego. Formava-se gradaúvemente o
Bairro de Olaria, com uma população voltada ao trabalho naquela indústria A pequena
distancia que se percorria, do Bain o de Olaria até a Fábrica, era feita a pé ou utilizando
bicicletas. Dai a importância a Casa Oi este, citada anteriormente, no atendimento dessa
demanda que crescia paralelamente ao crescimento dafábrica de re ndas.
Próxima a Fábrica tó Falck e d a percebemos o assentamento da população de
trabalhadores, subindo os monos, constituindo-se no bairro Perissê.
A partir de meados da década de 20, teve início a ocupação de região urbana em
torno da Fábrica Filó S/A o que significou o assentamento de moradias em direção ao
bairro que mais tarde seria denominado Lagoinha
Finalmente, na década de 30, com a criação da Fábrica de Ferragens Hans
Gaizer, o bairro da Village, uma das localidades mais antigas da cidade — ocupada com a
chegada de parte dos imigrantes suiços em 1820 — intensifica o povoamento com o
assentamento dos operários, trabalhadores daquela empresa
Pelo mapa abaixo é possível perceber a localização das principais fábncas em
Nova Friburgo e os respectivos bairros operários que foram se formando em suas
proximidades:
209
--- [PDF página 228] ---
Analisando o mapa acima é possível verificai a formação dos bairros operários,
em regiões próximas aos grupos fabris o que nos permite afirmar a existência de um
operariado desconcentrado, até mesmo em seus locais de moradia A inexistência de um
bairro que concentrasse toda população operária pode ter sido um fator que prejudicou
a formação de um movimento operário forte e unido em Nova Friburgo. A pulverização
das moradias dos trabalhadores em espaços diferenciados inegavelmente prejudicou a
unidade dos trabalhadores, invibializando a movimentação conjunta e
consequentemente, facilitando a dominação do capital A aparente desordem espacial, na
c a p ita lis tapratica provocava a implantação de uma ordem onde o domínio do capital
sobre a força de trabalho tornava-se bastante evidente Em conclusão, podemos
considerar primeiramente, que o capital industrial foi o responsável pelo direcionamento
da expansão e ocupação populacional em determinados tenitóiios do espaço
friburguense Em segundo lugar é necessário também afirmar que esse direcionamento
obedeceu a critérios montados pelo alemão, cuja estratégia de disciplinanzação da
força de trabalho tinha como elemento importante a manutenção da dispersão e com isto,
evitando maiores concentrações operárias geradoras de 'possíveis distúrbios'
Não poderiamos deixai de retomai, nesse momento de nossa dissertação, o
aspecto da política municipal que envolveu a criação e a expansão industria! em Nova
Friburgo. Inegavelmente, o papel desempenhado pelo grupo político chefiado por
em presáriosGaldino do Valle Filho, assumindo posições ideológicas, associando o s. . alemães
ao progresso desejado paia a cidade, fora de grande importância Os embates políticos
contia setores da elite municipal, empenhados em criar obstáculos à fixação dessas
empresas no território de Nova Friburgo, atingiram níveis de enorme seriedade, por
ocasião da chamada 'Noite do Quebra-Lampiões'. Afirmamos que_ ' . _ _
emoresgs alemãs
é possível historicamente^determinar que a fixação e a expansão aos — sm
Nova Friburgo ocorreram em determinados momentos em que se evidenciava
211
--- [PDF página 229] ---
concretamente a presença no poder municipal ou mesmo do poder estadual, de
representantes afinados à práticas políticas do Di. Galdmo do Valle Filho
Vejamos dois momentos importantes da história da indústria alemã em Nova
Friburgo.
O momento de implantação da empresa de eletricidade a partir da assinatura do
contato em que a Câmara Municipal concedia a Julius Arp e Ga os direitos de
exploração daqueles serviços, coincidia com a situação em que Galdmo Filho, afastado da
direção municipal, mantinha grande afinamento político com Oliveira Botelho, naquele
momento, Presidente do Estado do Rio de Janeiro. Pelo que já expusemos, a cnação das
indústrias M Sijen e Ga e M Falck e Qa coincidia historicamente com o governo de
Oliveira Botelho anível estadual e em 1914 com a ascensão de Galdino do Valle Filho, na
direção do poder municipal Percebe-se portanto, uma primeira fase do crescimento
industrial correspondendo no plano político, a ascensão do governo galdmista ao poder
municipal
O afastamento de Galdino do Valle Filho da direção política do município a partir
eapreSarlo*de 1 9 1 é, como resultado do choque com Nilo Peçanha, significou para os alemães
um rompimento da aliança com o poder político municipal. Consequentemente,
verificamos que no período de 1916 a 1923, correspondente ao alijamento do grupo
galdmista do poder municipal, um certo desaquedmento das expansão industrial em
NovaFriburgo.
Após 1923, com a derrocada de Nilo Peçanha a nível nacional e estadual,
identificamos a retomada do grupo galdinistano poder municipal O novo surto industrial
é quase que imediato. Exatamente, no início de 1925 é que anotamos a implantação da
Fabrica de Filó S/A, resultadp de novas articulações implementadas por Julius Arp no
e«rpr*8ari*s
sentido de atrair outros alemães para se sediarem no espaço friburguense. O
ano de 1925 é portanto um segundo momento da expansão capitalista alema no município
212
--- [PDF página 230] ---
município e reflete aredefinição da política municipal acontecida com o retorno do
galdinismo, agora dominando a Câmai a de Ver eadores e a Prefeitur a Municipal
Mais uma vez, gostaríamos de deixar patente nesses escritos que o processo de
industrialização em Nova Friburgo não pode sei entendido sem que se perceba a
conjugação de interesses, a aliança forte entre o poder econômico — representado pelos
empresários alemães — e o poder político municipal — representado por Galdmo do
Valle Filho e seus companheiros de militânciapolítica
Finalizando, acr editamos não ser possível entender a História de Nova Friburgo
no período pt oposto, como resultado exclusivo da consolidação de um processo
industrial que ai se fizera. É nesse momento também, que percebemos a definição de
Nova Friburgo, como cidade api opriada a uma população em busca de descanso e lazer
O pape! de cidade turística é uma outra faceta cunhada para. Nova Friburgo, nesses anos
iniciais do século XX
21
--- [PDF página 231] ---
3 - N O V A F R I B U R G O : U M M O D E L O D E C I D A D E T U R Í S T I C A
O período que estamos, estudando sobre a História de Nova Friburgo é bastante
rico no aspecto referente a construção de um determinado tipo de modelo industrial
construído nesta localidade Tratou-se inegavelmente, de um momento em que os
empresários alemâç,associados a um setor da elite friburguense, conseguiram montar um
razoável número de indústrias que ti ansfonnaram sobremaneira a paisagem da ridade.
É também nesse período estudado, que se aprofunda, que se solidifica o pape! de
Nova Friburgo como adade fornecedora de serviços variados, principalmente para uma
certa parcela da população brasileira que paia ali acorna em determinadas épocas do
ano Nesse momento, vemos construir, outtafunção além da industrial, configurando seu
papel de adade turística, passava-se então, a alardear as 'delidas dos seu dima', o
'conforto de suas acomodações', a 'beleza e o ver dor de sua natureza’, a "ti anquilidade
de sua vida’, a 'educação e ordem de seu povo', como elementos básicos e capazes atrn
um maior número de pessoas em busca de tudo aquilo ritado Por outro lado, desde a
criação da Estrada de Feno Leopoldina Railway que podemos concluir quanto às
maiores facilidades no transporte de população habitante da baixada fluminense, em
direção à adade serrana
De um lado é possível afirmar que os fatores naturais de Nova Friburgo — dima
ameno com verões chuvosos e invernos secos e frios, natuieza exuberante, altitude
razoável, topografia bela — serviram de grande atrativo àquelas populações
provenientes de Niterói ou do Rio de Janeiro, interessados em conviver com realidade
tão diferente de seu cotidiano de trabalho, de vida
Por outro lado, podemos confirmar que também o desenrolar de sua história, as
suas ongens identificadas com a presença dos imigi antes suíços e alemãs do século XIX,
será um fator fundamental na construção do modelo turístico de Nova Friburgo. Esse
passado foi absorvido e reinterpretado por grupos dirigentes do município e
214
--- [PDF página 232] ---
constantemente utilizado em seus discursos, na tentativa de demonstrai tratai-se de uma
localidade que guardava aspectos totahnente diferentes do restante das adades
biasileiras É nesse momento que tem início a construção da idéia de ‘Nova Friburgo. a
Suíça Biasileira' A princípio, podemos pensar haver uma contiadição grande entre a
prática e o discurso, espeaficaniente, foiam os grupos alemães os responsáveis pelo
processo de industrialização em Nova Fribuigo, entretanto ac construii o piotótipo de
cidade moderna, desenvolvida, o papel alemão era escamoteado em função dos suiços.
Não se tratava de uma ‘Alemanha Brasileira* mas, sim de uma ‘Suiça Bi asileu a‘
Acreditamos que a explicação paia tal fato deva ser buscada na analise da
conjuntura internacional referente à V década do século XX A eclosão da grande
guerra e o posicionamento da nação alemã durante todo o conflito, teria geTado uma
animosidade da população brasileira contr ária aos germânicos Nesse momento portanto,
teria sido mais interessante ressaltar as origens não alemãs das antiga colônia do Morr o
Queimado Paia isso, o elemento Suiço prestaria de forma bastante adequada a
construção do ideal de cidade européia montada em pleno seio de um mundo trpical
Nova Friburgo, toma-se-ia um pedaço da Suíça — leia-se, país adiantado, civilizado,
moderno — no meio de um mundo dos trópicos, onde predominava uma população de
origem portuguesa ou africana — leia-se, regiões atrasadas, não civilizadas
Tentaremos então, mostiar que é no momento de crescimento capitalista da
adade que também é construido o seu outro lado. Nova Friburgo, vive nesse período a
criação de suas duas faces. Como se pudéssemos usar uma alegoria, expressa na idéia de
uma moeda, em uma das faces, a cidade industrial, em outra face, a cidade turística
Para explicarmos a consolidação das duas faces da moeda fribui guense,
acreditamos ser fundamental, entendermos que a face turística fora o resultado de uma
construção elaborada por setores de sua elite Daí acharmos que a associação dos fatores
geográficos constitutivos do município, com os fatores de sua história remontados na
215
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colonização suíça iniciada em 1620, serão muito bem usadas pela nova elite municipal,
que se aproximava do poder, a partir de 1910
A tradição suiça em Nova Friburgo passa a sei recuada com o intuito de
elaboiação de um modelo de cidade diferente do restante das cidades brasileiras. Para
melbor compreesão do fato são interessantes as palavras do historiador inglês, Eric
Hobsbawm{62);
'Por tradição inventada entende-se u m conjunto de práticas, norm alm ente
reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas de
natureza ritual ou sim bólica, visam inculcar certos valores e norm as de
comportamento a tr avés da repetição, o que im plica, autom aticam ente, u m a
continuidade com relação ao passado Aliás. sempre que possível tenta-se
estabelecer continuidade com u m passado histónco apropriado. '
Ao pensarmos a questão da "invenção das traições" e ao aplicarmos seus
fundamentos na análise de realidade histórica friburguense podemos admitii a existência
da conjugação dos componentes geográfico que demarcavam suas diferenças com os
municípios da Baixada Fluminense, ao mesmo tempo que percebemos a busca de uma
continuidade com seu passado, a paitii da presença dos imigrantes $ços, assentados na
região da antiga Fazenda do Morro Queimado. O papel das elites políticas artculadas com
elites intelectuais do município foi de giande valia na construção do modelo de cidade
turística, com grandes belezas naturais, elaborado pai a Nova Friburgo.
A associação entie o espaço geográfico com o passado histórico fica
explicitamente caracterizado, quando da criação do "Hino a Nova Friburgo", elaborado
para os festejos comemorativos ao Centenário do Município, realizados no ano de
1918(93). A princípio os elementos da natureza pródiga, são ressaltados.
'Friburguenses cantemos o dia,
Que surgindo glorioso hoje vem
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--- [PDF página 234] ---
Nesta plaga, onde o amor e «poesia
São como as flores, nativos também.
Escutando os rumores da brisa.
Refletindo este céu todo azul,
O Bengala sereno desliza
Sob o olhai do Cruzeiro do Sul..."
Adiante, a letra do Hino mantem a referência geográfica:
"... Estas sen as de enorme estatura,
Alcançando das nuvens o céu...”
A referência sobre o passado de origem suiça fica bastante evidente nos versos que
compõem o estríbilho do mesmo Hino:
"... Salve brerihas do Morro Queimado,
Que os Suíços ousaram varar,
pois que um século agora é passado
Vale a pena esse tempo lembrai..."
Inegavelmente, devemos perceber que a criação do Hino enquadra-se no
processo de implementação de Símbolos, fundamentais na legitimação dos nossos novos
regimes, assim como, na efetivação das novas hegemonias burguesas. A discussão sobre
a criação de símbolos como elemento da consolidação da ordem burguesa na Europa do
século XIX, é feita por Eric Hobsbaan quando nos apresenta os vários símbolos, como
hinos, bandeiras, expressões ideológicas usadas pelas burguesias do Velho Mundo.
Vejamos o exemplo francês:
217
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‘U m a vez que a revolução havia estabelecido o fato, a natuieza e as
fronteiras da nação francesa e deu seu patr iotism o, a República podería
limitai-se a lembrados a seus adadõespor m eio de alguns símbolos óbvios
— M arianne, a tricolor, a M arselbesa, e dai por diante —
complementando-os com u m a pequena exegese ideológica que falasse
(aos adadoes m ais pobres) sobre as vantagens óbvias, embora às vezes
teórica, da Liberdade, Igualdade e Fraternidade í^ )
Em termos de realidade brasileira, podemos anotar o trabalho de José Murilo de
Carvalho (55), em seu livro 'A formação das Almas* que analisa a criação de vários
símbolos pelas elites republicanas.
" A tarefa que me proponho agora é discutir m ais a fundo o conteúdo de
alguns dos principais sím bolos utilizados pelos republicanos br a sileiros e,
na medida do possível avaliar sua aceitação ou não pelo público a que se
destinava, isto é, sua eficácia em promover a legitimação do novo
regime. \%)
Ao longo desse trabalho, cujo objetivo reproduzimos na citação acima, José
Murilo de Carvalho estabelece interessante discussão sobre a criação de elementos
simbólicos como: Tiradentes o herói republicano, República mulher, bandeira e o hino
nacional, importantes na consolidação do regime republicano brasileiro.
O que percebemos então, é que a criação do Hino tornou-se um fatoi importante
na composição do conjunto da simbologialegitimadorà de uma ordem nova No exemplo
específico de Nova FribuTgo, vemos o Hino do Município sendo cnado em 1918 e
contendo em seus versos, elementos importantes para a construção do ideal de ‘Nova
Friburgo, a Suiça brasileira'. Fatores geográficos e os fatores do passado histónco se
somavam, nos versos do Hino, ressaltando o caráter diferente da realidade do município.
218
--- [PDF página 236] ---
A princípio e ainda nos fins do século XIX quando se intensificam os contatos da
população piovenientes de outios municípios em Nova Friburgo, percebemos alguns
discursos que já ressaltavam as dehaas do seu clima O escritoi Carlos de Laet, em sua
Crônica Semanal do Jornal * A Gazeta de Notícias* , assim expressava em 1889:
'Nova fiiburgo — dela é que desejava contai-lhe — esta a cerca de 851
metros aaina do nível dà Rua do Ouvidoi, quando basta paia assegurar o
pitoresco povoado montezino um a diferença de temperatura não inferior
a dez graus centígrados. Nada m ais agr adável do que sentir, a medida que
o solo rapidamente se eleva depois de Cachoeiras a progressiva
diminuição do calor que nos enerva e desseca. De manhã lá em cim a
quando o excursionista em passeio m atutino tem de enffiar o sobretudo
para se resguardai da neblina que o bourifa só com a m ais profunda
comiseração pode lembrar-se dos infelizes que a m esm a hora tressuam
esbaforidos no gr ande foco da civilização nacional ^7)
Na mesma época o jornal * 0 Paiz‘ publicava a ôriica onde se per cebe o destaque
feito às questões da natureza pródiga, fator de bem-estai para aqueles que procutavam
visitar Nova Friburgo
'Visitam os Nova F riburgo, a antiga colônia suissa, a moderna cidade
fluminense que guarnece a form osura cam pesina da Sena da Boa V ista ,
ram ificação da Serra do M ar Era oportuno dizei delia algum a coisa, que < t
população abastada do Rio de Janeiro foge a canícula e vai pr ocurar
algum as centenas de metros acim a do nível do oceano, onde não se
esfaltem os pulmões nem se esti oinpe a pelle na disputa do oxigênio e no
trabalho forçado das secreções 1^’ )
Ao lado do fator geográfico e n a busca de um dem arcação do caráter diferente
de N ova Friburgo, buscavarse acentuai as origens históricas do município, remontadas
ao episódio da chegada dos suiços à Tegiãc em 1820. Na prim eira página da revista 'A
219
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Lanterna* , publicada coin o album do Estado do Rio de Janeiro, em seu número dedicado
a Nova Friburgo, anotamos a afirmativa:
‘Foi aquelle grupo de lomos filhos das m ontanhas, trabalhadores e
virtuosos, e os brasileiros delles nascidos, que da modesta colônia de
cr iadores e cultivadores, fizeram < t cidade cívilisada e bella de hoje, essa
Friburgo tão singular entre nós, pelos vestígios dos esplendores das
nossas m attas, do nosso céo, e das nossas cachoeiras t - j
Em 1918, em edição comemorativa ao centenário verificamos a publicação do
Album de Nova Frihurgo(lM) com destaque para os antecedentes suiços, na formação da
população do município
'Na alm a dos friburguenses existe ainda u m a gr ande ternur a e veneração
pelos fundadores da sua urbes e o nome de M m e Sahrsse, há alguns
arrnos toleada é, entre outros, sempre lembrado com carinho, pois era ella
u rn a das m attr onas que representavam o núcleo dos intelhgentes e tenazes
colonizadores que trouxeram com um grande am or ao trabalho um fundo
de vrrtrdes cívicas, próprias do poro helrético, e são o patrimônio
rnextrngurvel da população de Nova Friburgo “
O que podemos depreendei do texto acima é em primeiro lugar, a afirmação que
todo fributguense possue uma atitude de veneração pelos suiços — gi andes fundadores
do município Poi outio lado, o texto avança ainda mais, ao afirmai que os helvéticos
foram os responsáveis pela criação e perpetuação no caráter do povo friburguense, de
qualidade tais como, o amoi ao trabalho e as virtudes do civismo Trata-se inegavelmente,
de um discui so pleno de ideologia onde o ti abalho e amor a pátria se conjugam a parta
das origens do povo de Nova Friburgo, montadas no passado euiopeu O discurso
ideológico certamente, estabelece-se no sentido de escamoftear a realidade, onde
podemos perceber que a presença na população friburguense de indivíduos de origem
2 2 0
--- [PDF página 238] ---
suiça ei a bastante reduzida naquele momento A questão fica dara quando se usou o
exemplo de tíadame Salusse, uma das poucas últimas remanescentes dos criadores da
colônia, morta alguns anos antes. Entretanto é a ideologia, a representação um elemento
fundamental no sentido de demar car a diferença de Nova Friburgo em comparação com
os outros municípios. Em um momento de implantação e crescimento das empresas alemãs
na região, expressar discuisos que enfatizavam as origens nao portuguesas e não
africanas da população significava induzir na massa trabalhadora, as idéias de patriotismo
e disciplina no trabalho. Em suma, as “ virtudes cívicas* devem sei lidas como
reconhecimento da superioridade helvética, enquanto que, “amor ao trabalho",
entendemos como disciplina e aceitação de normas impostas pelos capitais alemães.
No plano interno da cidade, alguns espaços são constantemente ressaltados como
locais que deveríam ser visitados poi aqueles que acorriam à cidade, por se tratarem de
espaços onde a calma e a beleza se faziam presentes Na verdade, era o estímulo ao
turismo interno, traduzido em visitações a certos locais da própria cidade. O exemplo
marcante era a Praça do Suspiro, com seus riachos, pontes e a Fonte do Suspiro Em seu
livro, Lendas e Legendas de Friburgo(M). Galdino do Valle Filho assim se refere:
" N o recánto m ais tranquilo da cidade, n‘ um a suave elevaçSo do terreno
umbrozo que dom m » a Praça, bem junto a capelhm ha que invoca a Santo
Antonio. se ergue, simples e modesta como as floi es da sombra a Fonte do
Suspiro
(...) Por tiez bicos de granito, m urm urantes como bocas que
segredam, instilla a fonte n 'a lm a do forasteiro o m ilagre de seusphiltros
A m alsinada m ão do hom em , leal e franca em seus propósitos,
fazendo insculpir na pedra as legendas cautelosas como avisos, desvenda
rudemente o segredo das Nymphas rnsidiosas AMOR — SAUDADE — a UME '
A natureza pródiga e exuberante é também explorada nos discuisos vanados
como formas de incentivos aos visitantes do município, em busca das novas belezas, dos
221
--- [PDF página 239] ---
espetáculos criados naturahnente. Os Rios que percorrem a região eram vistos como
fonte de energia mas, também como elementos de deleite para aqueles que buscam
novas paisagens na região serrana As cascatas sáo descritas como elementos de grande
beleza, além de serem referidas como fontes inspirador as de lendas:
"Duas de ente ellas, no entanto merecem u m a referência especial nestas
páginas, pela íntim a ligação as m ais bellas lendas de nossa terra, a Cascata
do Pinei, que tem nome oficial de Santa Izabel, e a do Paquequer ou
Cascata do Conde D‘ E u , nas divisas com o m unicípio de Sum idouro f l^ ’ )
Desse modo, Galdmo do Valle Filho descreve a Cascata do Pinei, ponto
importante para visitação
" A primeira form ada pelo Rio Grande, visitada de um a feita pelos
Príncipes Im periais, mereceu o nome de Izabel a Rendemptora, que se
acha gravado no granito de um a lage, a m argem direita e a m ontanha da
queda Por m uitos anos, permaneceu ignorada essa legenda, encoberta
pelo musgo que se form ou, foi descoberta e avivada por nós, na ocasião
de um ;"pic-nic'alireatisado e está assim concebida ‘ Cascata Santa Izabel,
20 de m aio de 1060' Conserva assim o culto popular o nome de seus
primeiros donos, a fam ília Pinei, e recorda o do seu ilhrste e m ais
ascedente, C ar los Sapião Pinei, o genro criador da Psychiabia, nascido en
Tam, na F r ança em 1710 Herdeiros do nome e da glória do grande
atienista, a fam ília Pinei guar da em seu poder as bellas condecorações
sdentíficas do chefe, m edalhas dos m ais afam ados institutos europeus de
saenda ...1^*3)
A outra cascata referida pelo Autor, em suas explicações, percebemos a tentativa
de demostrar suas ligações com o passado literário, artístico e lendário.
‘ A cascata Conde D Eu que igualmente recebeu tal nome quando foi da
visida do Príndpe Consorte, é form ada pelo Paquequer e constituo u m
222
--- [PDF página 240] ---
dos m ais bellos espetáculos que a prodigalidade da Natureza reservou
pai a o Biasil.
Dir-se-ia, olhado à distância, um a im ensa colunna de puro m árm ore
lanado a escorai o flanco da m ontanha, si o echo movimentado da queda
nâo contrastasse pelo ribombai constante, com a mudez secular da pedra
heraldica que permanece m uda ainda quando vivificada pelo sopro da
aite. É todo o lio que se adia num arremesso, do alto do rochedo sobre o
vácuo do abysmo hyante, como estalactite gigantesca que a prumo
demandasse o solo. Foi esse scenario estupendo e m aravilhoso que
empolgou a alm a de aiU sta do m aior rom ancista de nossas selvas, José de
Alencar, fazendo desenrolar naquele palco soberbo a lenda imoital do
Guaiany foi ainda esse m esm o quadro da Natureza atiavez da m agia
pictórica do imcomparavel escriptor, que sabia vazai no rytlmo suave de
um estylo natural e sim ples, toda a sonoridade sentimental dos versos que
nâo compoz, que inspirou o estro genial do formidável Carlos G om es,
levando-o a traduzir na symphonia heróica de sua obra prima aquelle
conjuncto religioso de divina aite que só a própria Natureza soube
conceber e arranjai 1^4)
É interessante ainda assinalai que em todos os momentos do texto de Galdino do
Valle Filho, a palavra Natureza é destacada, ao ser inidada com letra maiuscula
Acreditamos tratar-se de um reconherimento feito pelo Autor, do papel determinante na
montagem do espetáculo da naturais, independendo da intervenção humana
31- O TURISMO E A HOTELARIA
Namontagem do modelo turístico de Nova Friburgo, devemos ainda evidenciar o
papel exerrido pelos Hotéis que durante essa fase eram responsáveis por propinarem
tranquilidade e conforto à população que visitava ou drculava à serviço, pelo município
É possível perceber também, que parte dessa população que circulava em certas épocas
223
--- [PDF página 241] ---
do ano por Nova Fribuvgo, adquiria casas, somente ocupando-as com seus familiar es nos
períodos veraneios.
Segundo o Indicador Comercial de Nova FributgoU05). editado em 1930,
verificamos a existência de 3 grandes hotéis, assim descriminados:
"H O T E L ENGERT
(situação central)
Estabelecimento de primeira ordem, a 5 m inutos da Estação, assobradado,
o m ais aa editado e o m ais antigo. Cozinha hygenica e de primeira dasse.
Banho e duchas, obedecendo aos modernos principias de hydroterapia,
com quasi 100 quailos. Rigoroso asseio Agua própria e corrente em quasi
todos os quartos. Paik com bosques e lago Não Recebe Doentes.
HOTEL FLO RESTA
Installação moderna e confortável, aposentos encerados. — agia corrente
em todos os quailos — alim entação de primeira ordem, simples e sadia,
agua nascente própria, situado dentio de gande jardim .\ na encosta de
soberba e frondosa floresta, sendo por esse encanto o m ais preferido.
Altitude - S50m ts. acim a do nível do m ar. Não Recebe Doentes
H O T E L ROMA
Cozinha de primeira ordem, pelo systema italiano e brasileiro É dirigido
pelo seu proprietário ’
Na publicação adma reproduzida, onde os proprietários dos Kotéis procuravam
propagandear as excelências dos serviços de seus respectivos estabelecimentos,
notamos que a questão da boa alimentação era um elemento provavelmente, capaz de
atração de novos hóspedes. Todos eles afirmam possuir cozinha de primeira dasse ou
primeira ordem.
De grande significado também, o que poderia atrair novos dientes, situava-se a
questão da higiene, mantida nos estabeledmentos A existênda de água corrente, a
221
--- [PDF página 242] ---
manutençS do asseio devevià ser ressaltada, contrastando com as condições encontradas
em grandes centr os urbanos brasileiros, como era a cidade do Rio de Janeiro. Os hotéis
como estabelerimenttjque abrigavam uma população flutuante bastante grande, é notória
a preocupação de seus propietários comrelação àpropagação de moléstias, doenças que
poderíam ti asformat-se em epidemias. Os hotéis poderíam tornar-se centros
propagadores dessas epidemias. Daí per cebemos a preocupação daqueles proprietários
explicitando em suas pr opagandas; 'Não Recebe Doentes*.
No decorrer de nossas pesquisas, conseguimos depar ai com a existência de um
livro de Hóspedes do Hotel Engert, dos mais antigos da cidade, que nos dá amostragem
do movimento de pessoas em busca dos seus serviços, no período de 1890 a 1920.
Entendemos as limitações desse tipo de fonte, já que as informações ai encontradas não
podem ser comprovadas. Entretanto, esse documento pode nos indicar algumas
conclusões par ciais naturalmente, tais como: os períodos do ano em que a cidade era mais
procurada pelos turistas, de que cidade provinham os hóspedes e quais as profissões
desses hóspedes. Gostaríamos de ressaltar ainda que a partir do ano 1890 fizemos nosso
levantamento de dados, de 5 em 5 anos, até o ano de 1920 Portanto, utilizamos no livro
de Hóspedes do Hotel Engert, os registr os encontrados nos anos de 1890, 1895, 1900,
1905, 1910, 1915 e 1920.
Como já afirmamos, as conclusões obtidas a partir desse tipo de fonte utilizada por
nós têm que ser bastante relativizadas. O ideal seria que tivéssemos acesso também, aos
liví os de t egisti os de Hóspedes dos outros hotéis, que nos permitiría uma dimensão mais
ampliada em nossas conclusões. Entretanto, dada a impossibilidade, podemos pensai em
algumas conclusões, reconhecendo os seus limites.
Em primeiro lugar, apresentamos os dados obtidos com relação ao número de
hóspedes registrados no hotel
225
--- [PDF página 243] ---
TABELA 23: HOTEL ENGERT -HÓSPEDES. 1890-1920
MESES N! DE HÓSPEDES
I-Janeiro 83
2- Fevereiro 80
3- Março 69
4- Abril 31
5- Maio 67
6 - Junho 22
? - Julho 1 7
8 - Agosto 49
9 - Setembro 56
10 - Outubro 52
11-Novembro 20
12- Dezembro 79
FONTE Livro de Hóspedes do Hotel Erigert- Pró-Memória -
PMNF
Pelos dados acima podemos perceber que os meses em que verificamos a maior
afluência de hóspedes, girava em forno de dezembro até março Entendemos que esse
período coincidia naturalmente com a fase em que a temperatur a em Nova Ftiburgo é
mais alta e portanto, o chtna torna-se mais ameno Por outr o lado, é o período em que no
Rio de Janeiro verificamos o calor mais intenso facilitando a proliferação de epidemias
como, a febre amarela etc Desse modo, podemos concluir que a presença de um maioi
número de turistas em Nova Friburgo nos meses de dezembro, janeiro, fevereiro e
março decorre da tentativa de fuga das famílias daquelas cidades onde as temperaturas
226
--- [PDF página 244] ---
tomam-se elevadas, buscando no alto da serra, temperaturas mais amenas. Os meses de
junho, julho, agosto são aqueles em que as temperaturas são mais baixas, atingindo
médias reduzidas, o que explicaria a menor afluência de turistas à cidade
Outia razão que pode explicai a maior movimentação de turistas nos meses de
dezembro a março, seria o fato de se tratar de um período de férias escolares É bom
lembrar, que ampliava-se junto aos setores médios da sociedade brasileira a busca de
escolas pai a seus filhos. Desse modo, as famílias tinham limitadas suas possibilidades de
viagem, aos momentos de férias escolares de seus filhos. É ainda interessante realçai que
normalmente, encontramos no livro de registro do Hotel, os dados referentes ao chefe
da família, o que nos permite conduir que a análise fria dos números apresentados não
nos permite perceber a dimensão exata de toda movimentação de pessoas, no espaço
interno do hotel
Um segundo elemento que pudemos depreendei de nossapesquisa sobre o livro
de Registros de hóspedes do Hotel Engert é o referente as origens sóao-econômicas
daquelas pessoas que procuravam os serviços daquele estabelecimento. No momento em
que se regisb ava no hotel, individualmente ou com sua família, além do nome completo, o
hóspede deveria assinalai também a sua profissão Sendo assim, pudemos obter em
conjunto bastante grande de profissões anotadas no livro. Como não havia uma lista de
profissões que permitisse maior padi onização das informações, o que podemos percebei
é uma variedade muito grande das respetivas profissões. Poi outro lado, as informações
v .rç .h ', : ■
eram pessoais, não havendo qualquei mecanismo de confirmação quanto à veracidade
das informações. Mesmo reconhecendo esses limites, acreditamos que a listagem obtida
torna-se importante pois, nos permite perceber que setores da sociedade biasileira,
normalmente se hospedava no Hotel Engert.
22?
--- [PDF página 245] ---
TABELA 24: LISTA DE PROFISSÕES - HÓSPEDES DQ HQTEL ENGERT-
1890/1 q?n
PROFISSÕES QUANTIDADE
Estudantes 43
Negoriantes 33
Comerciante 32
Engenheiro 21
Advogado 1 7
Viajante 1 4
Médico 1 0
Capitalista 6
Lavrador 5
Professor 5
Fazendeiro 8
Proprietário 4
Magistrado 4 •
Industrial 4
Empregado púbhco 3
Guarda-livros 3
Construtor 2
Farmacêutico 2
Guitarrista 2
Empregado do comércio 2
Jornalista 2
Empreiteiro 1
228
--- [PDF página 246] ---
Arquiteto 1
Militar 1
Desenhista 1
Abade 1
Gravateiro 1
Feitor 1
Escrivão 1
Apicultor 1
Assistente de Superintendência 1
Corretor de mercados 1
FONTE: Livro de Hospedes do Hotel Engert- Pró-Memória
PMNF
Notamos à primeira vista, uma variação consideravelmente extensa de pt ofissões
encontradas nos registros de hóspedes do Hotel Algumas delas carecem de clareza
quanto a uma defrnrção do tipo de profissão, por exemplo capitalista, proprietário, feitor,
assistente de superintendência, guitarrista, gravateiro Por outro lado, outras profissões
poderíam ser identificadas a partir de uma única definição, como por exemplo,
comerciante/ viajante/ negodante, emppieiteno/ construtor, ou mesmo, lavrador/
fazendeiro Entretanto, optamos por manter os nomes das pt ofissões tal qual encoriti amos
assinalado no registro, escritos de próprio punho, pelos respectivos hóspedes
Acreditamos que agindo assim, conseguimos mantei rnaioi autenticidade no processo de
análise histórica
É possível ainda conduii sobre esses dados recolhido' que notamos; que
estudantes, negodantes, engenheiro, comerdantes, advogados, viajantes, médicos
representavam o maior número de hóspedes do Hotel Tratava-se portanto, de um Hotel,
229
--- [PDF página 247] ---
cujos hóspedes provinham de setores médios da sociedade brasileira, em sua maioria. Tal
revelação é importante por caracterizar esse estabelecimento como não de aho nível
pois, não atendia a uma clientela representativa das elites econômicas ou políticas Do
mesmo modo, nao significava ser um estabelecimento que atendia setores popular es —
naturalmente impossibilitados de recorrer a serviços de hotelaria Em conclusão, e
usando o exemplo do Hotel Engert, podemos afirmar que Nova Ftiburgo, situava-se na
época como cidade turística, uma opção de lazer, descanso para uma parcela da
população brasileira que novamente podemos identificar como setores médios
Provavelmente, Petr ópolis continuava sendo a opção turística preferida pela par cela mais
poderosa e rica do Rio de Janeiro, e Nova Ftiburgo, tornava-se portanto, a opção
daqueles setores de menor poder aquisitivo mas, que possutam condições financeiras de
fazer viagens de lazer.
Outros dados importantes que pudemos obter no hvro de registro do Hotel
Engert são os que se referem às origens dos hóspedes. Vejamos o quadr o abarxo
TABELA 25:1.1STA DE ORIGENS - HÓSPEDES DO HOTEJ. ENGERT Ifttíi/IW l
CIDADES N' DE REGISTROS
Rto de Janeiro 123
Petr ópolis 9
Niterói 6
Cantagalo i
Duas Barras 3
Campos 3
Mtracema 2
Porto Novo 2
23D
--- [PDF página 248] ---
França 2
ItàOCàTà 2
Sumidouro 1
Rio Preto 1
Cordeiro 1
Bom Jardim 1
Cataguases 1
São Geraldo 1
Cysneiro 1
Além Paraiba 1
Rio Bonito 1
Macaé 1
Bemposta 1
Roma 1
Bahia 1
Pará 1
Juiz de Fora 1
Vila M ariana 1
Mato Grosso 1
Amazonas 1
África 1
Sao Paulo I
FONTE. Livro de Registros de Hóspedes do Hotel Engert Pró-
Memória- PMNF
231
--- [PDF página 249] ---
Pelos dados acima expostos, percebemos que o maior contingente de hóspedes
provinha da cidade do Rio de Janeiro, principal centro político, econômico e cultural do
Brasil, naquele momento. Alguns fatoies podem explicar esse fato A facilidade no
transporte de passageiros propiciada com a intensificação dos trens da ferrovia
Leopoldina Raillway, certamente foi um fator que explica tal situação. Poi outro lado
embora, no início do século XX verificamos reformas urbanas e o desenvolvimento de
uma política sanitarista na cidade do Rio de Janeiro, ainda o fantasma das epidemias de
febre amai ela nos períodos de verão, deveríam continuai impulsionando fugas de sua
população em busca de regiões mais saudáveis. Cruzando os dados acima, com aqueles
referentes a listagem de profissões é possível também, afirmar que pelo fato do Rio de
Janeiro ser um grande centro urbano, era daí que provinha o maior contigente de
turistas, oriundo dos setores médios da população Comerciante, profissionais liberais
existiam em quantidade maior na cidade do Rio de Janeiro e era essa parcela da
população carioca que buscava nos períodos de maior calor, o clima sahibre, as belezas
naturais, no alto da Serra friburguense.
Verificamos ainda em circulação pelo Hotel Erigert pessoas provenientes de
municípios que outrora destacaram-se através da produção de café — nesse período em
fase de enorme decadência Cantagalo, Duas Ban as, Bom Jardim, Itaocara
É digno de registo também, a presença, de hóspedes estrangeiros, como consta
no levantamento, como: franceses, italianos, africanos. Embora diminuta, há que se
reSaltar a presença de hóspedes de alguns estados brasileiros, como se vê pelos registos
de paulista, mineiro, amazonense, matogrossense, bahiano. A importância de tudo isto
está no fato de que Nova Friburgo, tornava-se um cento turístco, atingindo um universo,
de amplitude bastante significativa
O uto elemento fundamental no que concerne a caracterização de Nova
Fribuigo como cento industrial/turísbco é o referente a constituição de seus
estabelecimentos ligados ao fornecimento de serviços educacionais.
232
--- [PDF página 250] ---
Desde o século XIX que verificamos afirmações, discursos, relatos de viajantes
ressaltando a excelência das Escolas existentes no município É nosso propósito elaborai
um pequeno estudo sobre a Educação em Nova Friburgo e específicamente o papel
desempenhado pelo Colégio Anchieta, nesse contexto
3.2 - O COLÉGIO ANCHIETA, UM EXEMPLO DE SERVIÇO E EDUCAÇÃO
A situação da Educação no Brasil da República Velha parece não apresentar
grandes alterações se compararmos com a situação vigente durante o regime que a
precedeu. Do mesmo modo que no plano sócio - econômico, é possível perceber que no
campo educacional o regime republicano manteve elementos comprovadores da
existência de uma continuidade, em relação ao regime imperial. Embora, nos discursos
que propagandeavam o novo regime a questão da Educação ocupasse posição de
destaque, na prática a República foi implantada e as alterações na estrutura educacional
não se fizeram acontecer. Vencido o período de lutas, dos conflitos iniciais de
implantação da República, os ideais que apontavam pai a as novas realizações no campo
educacional foram sendo arrefecidos.
Segundo Jorge NagleU^) somente a partir de 1915 é que podemos identificar
um novo momento, cai actenzado por novas idéias, novos planos, criados por
republicanos na tentativa de redimir a República de seus erros Concietamente
entretanto, algumas só serão operadonalizadas na década de 20 e mesmo assim,
assumindo âmbitos estaduais e não atingindo a estrutura da educação a nível nacional. É o
próprio JoTge Nagle que afirma:
'.. nos Estados surgem mwtãs retomas atingindo a escola primária e
normal espedahnente, do que constituem exemplos: em 1920 a realizada
por Sampaio Dóría, em Sao Paulo: em 1923, a de Lourenço F ilho, no
233
--- [PDF página 251] ---
Ceará, em 1925 a de Anísio Teixeira, na B ahia, em 1927 a de Francisco
Cam pos, em M inas Gerais, em Í92S, d de Fernando de Azevedo, no
Distrito Federal, em 1929, a de Carneiro Leão, em Pernambuco, em 1930, d
de Lourenço F ilho, em São Paulo. M ais do que na U nião os Estados
procedem à implantação ou reorganização da adm inistração escolar, bem
armo o uso de instrumentos de planejamento, como os recenseamentos
escolares ..A ^)
Desse modo é possível concluir que mais de 30 anos se passaram do novo regime
sem que possamos verificar alterações mais profundas na estrutura da educação
brasileira Não resta dúvida que, a um regime Republicano que primava pela
excludência de setores populares e pela consequente manutenção de privilégios ao
setores elitistas da aristocracia rural, não podería corresponder um modelo educacional
mais democratizado Sendo assim, o Estado Nacional, seja na forma Imperial ou mesmo na
maior parte da República Velha, pouca atenção dera a montagem de uma engrenagem
educacional que pudesse inserir a ampla massa de despossuidos da sociedade brasileira
A pequena atenção dada a um diminuto número de escolas primárias em todo território
nacional, permaneceu sem maiores alterações até a década de 20, quando por iniciativa
de alguns govemos estaduais inicia-se um processo de pequena mudanças
Em Nova Friburgo, a stuação da Educação colocava-se de forma diferenciada
desde os momentos iniciais da implantação da colônia de suiços e alemãs No século XIX
como já abordamos em momento anterior desta dissertação, a Vila de São João Batista de
Nova Friburgo, apresentava um quadro em que se ressaltava um número razoável de
escolas e já naquela época atiamdo as atenções daqueles que por ela passavam Nos
relatos dos visitantes da Vila é possível identificar referências, sempre elogiosas, quanto
aos excelentes colégios existentes no espaço friburguense Cnou-se assim, certa tradição
no sentido de que Nova Friburgo possuía uma população cujo o nível cultural,
intelectual, diferia do restante das cidade brasileiras
234
--- [PDF página 252] ---
0 advento da República e a transformação da Vila ent município autônomo (1890)
não alterou esse quadro. Pelo contrário, aprofunda-se essa tendência no sentido de que
os serviços prestados por Nova Friburgo no campo educacional mantinham suas
características de boa qualidade. Acresce a isto, a criação em fins do século, de duas
escolas religiosas: o Colégio Anchieta, internato paia meninos, inaugurado no ano de
1886 e o Colégio N. S. das Dores, internato para meninas, inaugurado em 1893.
Estabelecia-se já nesse momento uma divisão nítida de tarefas entre o poder
público e o poder privado. Pelo Código de Posturas de 1893, cabia à Câmara Municipal o
fornecimento de ensino primário obrigatório, obngando-se a criação de uma escola
primária em cada distrito municipal! 1^) o novo Código de Posturas, aprovado pela
Câmar a em 1916, já não apresenta qualquer título referente a instrução pública Julio
Fom peuU ^) em sua publicação comemorativa do Centenário de Nova Friburgo revela
nos a existência de 1 1 escolas municipais e 6 escolas estaduais.
Por outro lado, ao setor privado era reservado o direito da implantação de
Escolas nas regiões centrais da cidade e já em 1898, conforme o ‘Indicador Fluminense-
verificamos a existência de 7 estabelecimentos, voltados ao ensino primário e secundário
Tornava-se nitida a divisão espadai em Nova Friburgo no campo educadonal. Ao poder
político cabia a criação de escolas nas áreas afastadas do perímetro urbano. A rniaatíva
privada era também, reservado o direito de aplicação do ensico primário e secundário
enquanto que, o poder público apenas atuava fornecendo ensino primário.
Caiacteriza-se assim, em Nova Friburgo uma presença bastante forte de escolas
partícula; es, que serão as grandes responsáveis pela implementação de serviços ligados
à Educação A posição assumida pelo município, referente a existênda de um conjunto
de escolas responsáveis por uma população cujo nível de educação situava-se acima do
normal, tornou-se uma responsabilidade do poder privado Embora não tenhamos censos
educadonais confiáveis que pudessem traçar um quadro mais próximo do real, sobre a
condição educadonal da população, os discursos das autoridades munidpais e estaduais
235
--- [PDF página 253] ---
traçavam quadros sempre otimistas. Segundo o Boletim de Recenseamento, organizado
pela Prefeitura Municipal em 1918, existia na área urbana do município, um total de 7.303
habitantes, sendo que 3.797 do sexo masculino e 3.506 do sexo feminino. O mesmo
boletim registrava a existência de 686 pessoas maiores de 7 anos, que não sabiam lei e
escrever. Desse total, 286 eram do sexo masculino e 390, do sexo feminino! 1 1® ). Em que
pese o fato do registro acima nao sabemos os métodos de sua aplicação, acreditamos,
que ele nos ofereça um quadro relativamente próximo ao real.
Aci editamos ainda, que o fato de Nova Friburgo constituii -se em uma cidade, cujo
nível educacional de sua população situava-se acima da média, teria sido uma das razoes
responsável pela implantação industrial alemã, a aprtii de 1911. Inegavelmente, uma
população educada, no que tange a utilização de técnicas modernas assim como, mais
afeitas à disciplina do trabalho. É possível afirmar, que há uma relação direta entre
desenvolvimento industrial e bom nível educacional A história do desenvolvimento
industrial europeu no século XIX nos permite perceber essa alteração. O historiador
inglês Eric Hobsbawm afirma
"U m a consequência significativa desta penetração da indústria pela
ciênaa era que dali em diante, o sistema educacional tornai a-se crucial
para o desenvolvimento da indústria Os pioneiros da primeira fase
industrial Inglaterra e Bélgica, nao estavam entre os povos m ais
alfabetizados, e seus sistemas de educação avançada ou tecnológica (se
exceptuarmos o escocês) estavam longe de serem bons. Daquele
momento em diante, era quase impossível que um país, onde faltasse
educação de massa e instituições de educação avançada viesse a se tomai
um a economia ‘ moderna', e vice-versa, países pobres e r elogiados que
contavam com um bom sistema educacional encontravam facilidade para
iniciai o desenvolvimento, por exemplo, a Suéàa
O valor prático de um a boa educação primária para um a tecnologia
cientifica, econômica e m ilitar é evidente. Não foi outra razão da
facihdade com a Prússia derrotou os franceses em 1870-71 senão a
alf abetização muito superior de seus soldados f 111)
236
--- [PDF página 254] ---
Sem sombra de dúvidas, pela afirmação acima, há uma relação bastante direta
e n te desenvolvimento industrial e desenvolvimento educacional de um povo,
principalmente a partir da 2! metade do século passado. É inegével portanto, que para o
advento dos capitais alemãs em Nova Friburgo, observou-se o aspecto educacional da
população naquela conjuntura.
O maior destaque em termos de estabelecimeto voltado para os serviços de
educação primária e secundária em Nova Friburgo, deve ser dado ao Colégio Anchieta,
implantado na cidade desde o ano de 1886, pelos padres da. Companhia de Jesus:
" E m janeiro de 1885, estando de passagem no Rio de Janeiro o padre José
M atia M antero, Reitor do Colégio de S . Luis de Itu, foi para o mesmo fim
instado por m uitas pessoas distintas, ente os quais o próprio Presidente do
Conselho de Ministos, todas interessadas na fundação do Colégio em
Nova Friburgo. A esse pedidos não pode o Padre Mantero da outa
resposta senão que a iniciativa da obra excedia as suas atribuições, m as
lepália com sim patia a idéia ao conhecimento dos superiores,
acrescentando, todavia se necessário antes de tudo, a aprovação do
Governo e do Imperador. A isto respondeu o Presidente do Conselho,
que ele próprio como chefe dos Ministos, gaiantia desde já a aceitação
do governo e, quanto ao Imperador, se incum biría tam bém de conversar
com S. Majestade sobre o assunto e obtei seu consentimento
Efetivamente, no dia seguinte, teve ensejo de falai com D . Pedro II e com
a Princesa Im perial. Do Imperador recebeu, como resposta que era m uito
oportuno e conveniente um bom colégio de Padres, próximo à capita!
tendo igualmente a Piincesa D Isabel manifestado a m ais cordial
aprovação à criação projetada
A consulta feita aos orgãos superiores da Companhia de Jesus, teve como
resposta indicativa de Nova Friburgo, onde provisoriamente deveria ser instalado o
Colégio Imediatamente, foi nomeado o Padre Lourenço Rossi, que sena o primeiro
Reitor. O local escolhido fora um antigo casarão, denominado Qiateau, onde após
237
--- [PDF página 255] ---
algumas refoiTiiftS e adaptações, abrigariaas primeiras turmas do Colégio Anchieta Em 1 2
de abril de 1886 seria inaugurado o Colégio, com a realização de uma Missa, contando
com a presença de ? alunos e seus familiares.(M3)
Até o ano de 1902 as atividades escolar es permaneceram no prédio do Chateau,
quando toda a área fora adquirida pela Companhia de Jesus e teria início a construção do
novo prédio, adaptado as novas condições — o número de alunos crescia anualmente e
verificava-se a necessidade de construção de um novo prédio. Entre 1902 e 190? o
prédio seria construido, durante o reitorado de Padre Luiz Yabar.
A revista "A Lanterna* ! M ) referia-se dessa forma, ao prédio em fase final de
construção.
" O edifício do Colégio Anchieta, em véspera de acabamento é
consideradoi desde já um dos m ais bellos monumentos do Brasil, talvez da
América Meridional Occupa um a área de S O O U metros quadrados, tem S
andares com 10 metros de altura e está situado sobre a encosta da
m ontanha, dominando toda a ddade de Friburgo e arredores . '
Sobre a distribuição e organização do espaço interno do novo colégio,
verificamos a seguinte descrição:
' O edifício no seu projeto final, se comporá de grande corpo central, de
um vasto pavilhão à direita, destinado ao refeitório geral e ao salão de atos
solenes e de um a capella ainda em pr ojeto, a esquer da. O primeiro andar
do pavimento térreo de corpo central é ocupado por u m a capella
provisória, vastos corredores que com unicam com o pátio, duas grandes e
elegantes salas de visita, o átrio de entrada, as salas de chim ica, esgrim a,
esaiptório, enferm aria, roupaiia, alfaiataria, estabelecimento de banhos
thermaes e de duchas, salas acessórias etc No segundo andar, se acham 4
gr andes salões destinados ao estudo particulai dos allunos, 14 vastas sãB as
pai a as aulas, um salão par a o museu de Historia N atural, a capella dos
congregados, um a bella sala de visitas,: aposentos do Reitor, M inistro,
Padre espiritual, secretario, 6 quartos para hóspedes, 8 pequenos
cômodos pat a piano de estudo, salas de m úsica e o grandioso salão de
238
--- [PDF página 256] ---
àctos que tem o cumprimento de 42 medos por 9,50 de altura e 12 de
largura {11$)
0 terceiro andai do edifício seria reservado aos dormitórios dos alunos e a
grande biblioteca
Segundo a descrição elaborada na obra do Padre Pedro Américo Maia SJ (H$)
podemos assinalai :
' U m admirável sistemas de escadarias une » em diversos pontos, os 3
andai es e as 2 alas do edifício Ê dupla a escada centr al que dá acesso do
átno ao* pavimentes superiores, tendo sido levantada sobre u m a
superfície de $6 metros quadr ados e formando o belo saguão de entrada
M ais de 400 janelas externas dão u m aspecto imponente ao grandioso
edifício, que dispõe intemamente de m ais de 150 portas, 10 entradas, 32
janelões e m ais de 00janelas abertas sobre o vasto jardim do pátio interno,
onde domina o belo monumento à Virgem Im aculada, ladeado por 2
chafaiizes. “
Sâo importantes também os comentários referentes às características externas do
edifício bem como, suaposição com relação à cidade de Nova Friburgo:
'A ar quitetura obedeceu a arte clássica, com decorações elegantes A
parte do centr o da fachada é más ornamentada sendo no segundo e
terceir o andar es usado o estilo coríndo...
O edifício contruido com todas as regras da arte. solidez e
elegância sob a hábil inteligência e direção do S r Francisco Vidal Gom es,
construtor de reconhecida nomeada está colocado, quanto a sua posição
topogr áfica, num dos melhores pontos da ddade, no antigo morro do
Chateau, donde desajrareceu o antigo prédio, em que os padres da
Com jranhia de Jesus fundaram em 1 8 8 6 , o Colégio Anchieta, para ser
substhudo pelo atu al, cuja desctiçao deixamos hgeiramente
esboçada {11?)
239
--- [PDF página 257] ---
Pot essa descrição podemos avaliai o requinte e a beleza do novo prédio e mais
ainda, sua posição diante da cidade de Nova Friburgo Sua situação, no alto de uma
pequena elevasção coloca-o em destaque, adma do núdeo urbano Na verdade o
Colégio Anchieta tinha a ddade de Nova Friburgo situada a seus pés, quando era
possível perceber toda a sua imponênda e explendor.
Na parte central da tachada, situadas no plano mais alto do prédio, foram
assentadas duas gr andes estátuas, simbolizando a Fé e a Gênero Aci editamos que tais
estátuas resumiam as propostas básicas do projeto educadonal implementado no Colégio
Anchieta, cujos alicerces se fundavam no pensamento inadano da Companhia de Jesus.
É possível fundamentar nossa afirmação a partir do artigo “ Fé e Sdenda é o teu mote'
publicado narevista "Aurora CoHegiaT.tll®)
"C om o todas as casas de edicaçáo dirigidas por Religiosos > este Collégio
Anchieta é um tem plo\ em cujos altares se entoam a Deus os hymnos da
sdenda coroada de louros, brilhante dos fulgores de um a fé que. accesa
no lar paterno, lhes ai de perenne nas pyras do coração (. . .) E hoje com o
hontem, a juventude, robusta e alaa e, paite deste rem anso, empunhando
os brandões da Fé que ilum ina as trilhas da vida e o archote da instrução e
da sdenda que lhe illusba a mente e, cam inha sem receio, olhos fitos no
descanso e no prêmio da caiidade hum ilde e da esperança fum e, no
triumpho do ti abalho no seio do Eterno. “
Fé e G ên d a constituiam-se nos fundamentos básicos, que orientavam, em termos
amplos, a proposta educadonal jesuítica. Reportando-nos ao século XIX, no momento em
que a d ê n d a burguesa vivia momentos de grande expansão, verificamos que a própria
Igreja católica se postulava como a defensora da Fé e estabelecendo-se em posição
oposta ao pensamento dentífico. Somente a par tir da última década do século passado e
após a edição da Enddica Rerun Novarum é que percebemos uma aproximação da
Igreja Católica com os novos valores trasmitidos pela dênda. Daí, ser possível a
aproximação entre Fé e G ê n d a No caso espedfico do Colégio Anchieta, instituição
240
--- [PDF página 258] ---
educacional-católica, a preocupação com o ministério da Fé e da Ciência, corresponde a
uma adequação de seus pressupostos a modernidade católica, instituida a partir do
papado de L eáoX III.
O período de vida do Colégio Anchieta, do ano de sua fundação em 1886 até 1923
foi marcado por uma procura cr escente de alunos oriundos de várias regiões do país,
contando ainda com a presença de alunos provenientes do estrangeiro. Pelo
levantamento que pudemos obter, efetuado em 1915, foi possível comprovar estas
afirmações:
T A B E L A 26: PR O C E D Ê N C IA D O S A L U N O S D P C Q LteM C H JEIA rJEM dSlS
PROCEDÊNCIA 1886- 1915 1915
NACIONAES
Rio de Janeiro 1.301 131
Minas 310 38
S. Paulo 164 28
Pará 121 11
Ceará 86 20
Pernambuco 53 12
Amazonas 43 10
Espirito Santo 39 6
Bahia 36 3
Rio Grande do Sul 29 5
Matto Grosso 28 5
Maranhão 16 3
Paraná 1 1—
2 4 1
--- [PDF página 259] ---
9 Sergipe
Rio Grande do Norte
Alago as
Santa Catharina
Piauhy
Parahyba
Goyaz
Acre
Portugal
França
Itaba
Montevidéo
Argentina
Inglaterra
N oruega
Paiaguay
Alsada8
5
3
3
2
1
1
ESTRANGEIROS
24
9
4
3
2
1
1
1
1
2.3151
1
1
3
1
1
280
FONTE: O Direito do Colégio Anchieta - a aquiparaçao com os
institutos- oficiais de instrução secundaria. RJ, Typ. Besnard
Frères, 1916, p. 16
Pelos dados ai apresentados podemos conferir que o Colégio recebia alunos de
varias regiões do país sendo que, predominava naturahnente, os alunos oriundos do
Estado do Rio de Janeiro, estando computados aí, aqueles provenientes do Distrito
242
--- [PDF página 260] ---
Federal Embot a, todos estados da federação estivessem representados é possível ainda
perceber, a presença marcante de alunos provenientes de Minas Gerais, São Paulo, Pará
e Ceará.
A presença de alunos estrangeiros matriculados também é digna de registro,
tendo maior realce o número daqueles provenientes de Portugal e França.
Registramos ainda, o reconhecimento quanto à excelência do ensino ai ministrado
ao verificarmos que várias universidades estrangeiras aceitavam matriculas de alunos
egressos do Colégio Anchieta, sem que para isto, fossem necessários os exames
vestibular es. O atestado de estudo completos nesse colégio dava o direito de admissão
nas seguintes universidades do exterior:
TABELA 27: UNIVERSIDADES ESTRANGEIRAS EM CONVÊNIO COM Q
COLÉGIO ANCHIETA
INSTITUIÇÃO LOCALIDADE PAÍS
Université de Fribourg Fribourg Suiça
Universrty of Rensselaer, Troy Nova York E U A
University of Galveston Texas E U A
Unrversrty of S Clara Califórnia E U A
Universrty of S Ignatius Califórnia E U A
Unrversrty of Detrort Michrgan E U A
University of Crerghton Omaha E U A
FONTE O Dn eito do Colégio Anchieta. idem, p 35/9
A partir de 1901 o Colégio Anchieta, por determinação do Governo Federal,
obteve a equipar ação com os colégios oficiais, o que significava poder efetuar os exames
243
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de conclusão de séries bem como, exames de conclusão de bacherelato Em 1911, o
Decreto n ! 8 659, o Governo Federal extingue os privilégios de equipai ação a todas as
escolas, tomando oficiais os exames realizados no Colégio Pedro II Mais tarde, pelo
Decreto n ! 11.530, de 18 de março de 1915, os privilégios de equiparação foram
restaurados para as escolas públicas oficiais, mantendo a interdição as escolas
particulares!E sta decisão governamental fazia com que os exames finais fossem
realizados no Colégio Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro. Esta medida
governamental provocou enorme reação por parte dos educadores, pais e
parlamentares, que através de cartas, abaixo assinados, discursos tentaram uma reversão
da medida! 128). Em que pese toda a reação, não se obteve êxito e até 1923 o Colégio
Anchieta foi mantido na condição de preparar alunos, realizando os exames finais na
cidade do Rio de Janeiro.
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Além dos programas cumpridos em cada período acima exposto, o dia-a-dia dos
alunos se completavam com hor ários de estudos, aulas de esgrima, linha de tiro, música,
banda de músiça e uma vez por semana, cinema As atividades esportivas completavam o
conjunto de atividades propostas aos alunos, tudo isto previamente organizado por seus
dirigentes:
" U m horário bem organizado, distribuid as horas de modo a serem ds aulas
e os estudos entremeados com recreios e refeições, nás quais d
alimentação é simples, fàilã e substdnàosd. Sem adr no excessos do
dtletismo, organizam os Fddies Pr efeitos todàs ds espécies de jogos
ginásticos £ esportes, tdfs como o futebol, o basquetebol, os jogos de forç-à
e agilidade (o doido, o disco, os saltos) e outras m uitas diversões,
acompanhando com criterioso discernimento o progresso e movimento
das modernas as soa ações ginásticas e esportivas 1121)
Devemos anda, ressaltar que em 1905 for criada a princípio quinzenal e
posteriormente bimestral, a revista denominada “Aurora Colegial" A revista
confeccionada na gráfica existente no Colégio, era composta de matérias escritas pelos
próprios alunos, em sua maioria e de a alguns artigos escritos por algum padre da
instituição .(122)
Um importante documento explicativo sobre a vida que se desenrolava rio
interior do Colégio An chi et a e que também permitiu-nos inferir condusões sobre as
concepções gerais que orientavam o processo educativo naquele orgão, é-nos
to rneados pelos poemas denominados “Fria Friburgo", escritos pelo poeta Carlos
Drumond de Andrade Ao todo, são 4 l i poemas onde o poeta mineiro relata momentos
importantes de sua vida, quando ahino-rnterno do Colégio, nos anos de 1916 e 1919(123)
O poeta, ao longo desta pequena obra com versos de rara beleza, relembra os momentos
vividos como aluno assim como, os momentos de contato com o Município de Nova
245
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Friburgo. Certamente, a . elaboração deita obra nâo se trata de um registro feito pelo
Autor no exato momento de ocorrência dos fatos. Trata-se sem dúvida, de um exercido
de memória do passado, não se constituindo em uma mera evocação deste mas sim, de um
momento em que o indivíduo “velho" usa a memória evocando e refazendo esse
passado.
Em seu memorável livro "Lembranças de Velhos"! 124). Ecléa Bose estabelece
importante diferença entre o significado da memória para o homem adulto e o velho.
" O adulto àtivo nâo se ocupa longamente com o passado, m as, quando o
faz; é como se este lhe sobreviesse em forma de sonho. Em sum a: para o
adulto ativo, vida prática é vida prática, e memória é fuga, aite, lazer,
contemplação. É o momento em que as águas se separam com maior
nitidez. ‘
Quanto ao velho:
" A o lembrai o passado ele nâo está descansando, por um instante das lides
cotidianas, nâo está entregando-se fugitivamente às delidas do sonho ele
está ocupando consciente e atentamente do próprio passado, da
substância da sua vida 'O velho nâo se contenta, em geral, de aguardar
passivamente que as lembranças o despertem, ele procura preásá-las, ele
interroga outios velhos, compulsa seus velhos papéis, suas antigas cartas
e, prindpahnente, conta aquilo de que se lembra, quando nâo cuida de
fixá-las por esaito'. Em sum a, o velho se interessa pelo passado bem m ais
que o adulto ... 1125)
É dentro deste quadro apresentado por Bosi que gostaríamos de entendei os
poemas de "Fna Friburgo". Publicados em um momento de sua vida, no avanço dos anos,
Carlos Drumond de Andrade não só evoca o seu passado de jovem no Colégio Anchieta
mas, trata-se também de um momento de refacção desse passado Inegavelmente, que o
peso representado pelo ato de sua expulsão do Colégio em fins de 1919 é uma marca que
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acentua o tom acre facilmente perceptível nos escritos em questão. Isto porém,
acreditamos não invalida nossas conclusões obtidas a aprtii de nossa leitura desses
versos.
Observando os poemas que compõem 'Fria Friburgo" é possível depreender
alguns temas acentuados pelo poeta, que podem nos apresentai certas condições que
norteavam o processo educativo naquela instituição.
Em primeiro lugar, mesmo com o aparente isolamento imposto aos alunos no que
se referem as questões do mundo exterior — a vida no interior da Escola deveria não ser
afetada pelos conflitos externos — verificamos que sutilmente, novas idéias, novas
concepções penetravam naquele mundo pretensamente fechado Influenciado
naturalmente, por embates sociais ocorridos no Brasil e no mundo naquele período, o
próprio Drumond apresentava-se como porta-voz de novas concepções, frente aos
colegas, em seu segundo dia de colégio interno:
'Sou anarquista Declaro honestamente.
(a tarde cai cerzindo no recreio
o plano de entrecordata confissão.)
Espanto, susto. Como ?
O quê ? Por quê? Explica essa besteira ?
A solução é a anar quia Sou
anarquista Nem de longe vocês captam
o sublime anar quismo Sou
Com m uita honra M as, vocês que são?
Vocês são uns carneiros
de lãobediente...
Por outro lado, o processo capitalista em curso no Brasil naquele momento trouxe
consigo as idéias do controle financeiro e o estímulo as poupanças individuais. O próprio
24?
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colégio cuidava dessa questão, não só constituindo-se como guarda das pequenas
finanças dos alunos mas também, como estimulador do conti ole e das poupanças pessoais
Vejamos a lição de poupança descrita pelo poeta:
"Todo o aluno tem direito
ao dinheiro do lobinho'
paia comprar guhrdices
e outros gastos fantasistas
M as o bobo do uniforme
jamais vm esse dinheiro
fornecido pelos pais
Fica na tesouraria
Sexta-feira a gente faz
O pedido por escrito .
'Quero quatro bons-bocados
e um pote de brilhantina '
Domingo no pátio a hora
de entrega das encomendar
aqui estão quatro mães-bentas
Quanto à brilhantina, excede
o limite do bobinho
e as dimensões da vaidade
Poupe m ais o seu dinheinnho Í ^ J
A questão do progresso, da civilização ficava presente no conjunto de valores
que a escola procurava transmitir aos alunos Desse modo, era possível perceber a
preocupação em estimular hábitos “civilizados" àqueles jovens que no momento
preparavam-se para no futoro, dirigirem o país. Constituiam-se portanto, em jovens da
elite preparando-se para assumirem mais tarde, a direção do país A proibição do uso de
canivetes em todo o espaço escolar é um exemplo no sentido de coibir hábitos e posturas
não condizentes com a educação de jovens, considerados a "nata do Brasil":
248
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" F ica proibido o canivete
em aula no recr eio, em qualquer parte
pois num país ávilizãdo
entre estudantes àvüizadíssimos ;
á nata do Brasil,
o canivete é mesmo indesculpável... í 128)
Podemos ainda constatar a estreita relação criada entie a Educação desenvolvida
no Colégio Anchieta e a formação militarizada, pensada para os jovens daquela época.
Isto fica patente a se percebermos a preocupação com a montagem de Bandas
executoras de binos militares assim como, a criação de uma Linha de Tiro, no próprio
Colégio No entanto, a educação militarizada t torriava-se mais evidente quando se
montava o ritual de premiação dos alunos, por ocasião da divulgação das notas
bimestrais As notas altas nas várias matérias significavam a possibilidade de obtenção de
medalhas correspondentes aos postos mais altos da hierarquia militar:
7 # generais à ir ente de três divisões
— pequenos, Médios e Maiores
Incontável o número de coronéis
Estarei no colégio ou isto é o exercito?
Se os coronéis anelam promoção
podem os generais ser rebaixados,
cada patente dura m ais de dois meses
E u, general neste bimestre?
Só porque estudei cem réis de geografia
duzentos réis de português ?
Meu Deus, é m uita glória
para táo frágeis ombros ignorantes
Jamais serei general em aritmética. {129)
A proximidade entre a educação e a formação militar pode ser também,
considerada a partii de um estrito controle que se fazia sobre a vida dos alunos assim
como, na exti ema rig id ez das leis de funcionamento do estabelecimento Quase sempre.
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o Poeta Mineiro refere-se ao controle exercido sobre sua vida e a consequente
sensação de estar vivendo em uma prisão:
" A amanho do refeitório, admiramos pela vidraça
o leque vertical do pavão
com toda a sua pompa
solitária no jardim.
De que vale esse luxo, se estápreso
entie dois blocos de edifícios?
O pavão é, como nós, interno do colégio 1130)
O controle, a prisão, o fechamento, o confinamento dos jovens articulavam-se às
tentativas de modelagem do caráter, das consciências, onde a questão da obediência às
normas era o ponto de partida Incrédulo e duvidoso, Drumond fazia algumas
indagações
" N ão entendo, não engulo este latim
Perinte ac cadáver.
Você tem que obedecer como um cadáver' .
Cadáver obedecei1
Tanto vale morrer como viver’
Paia isso nos cham am , nos modelam’... 1131)
250Prefeitura d e l' ova Fiiburgo
Secretaria de ultura
Cen-o cfe Documentação
Histórica - Pró-Msmórls
--- [PDF página 268] ---
Em se tratando de um colégio interno, receptáculo de um número grande de
jovens, o controle da sexualidade era naturalmente de enorme constância Essa
preocupação do internato-católico frca evidente nos ver sos-memória abaixo:
” ... O padre português, no confessionário,
àütes que o pecador
debulhe seus pecados
indaga
— Quantas vezes mexeste nopirohto ...1^2)
Podemos perceber ai a relação direta entre a sexualidade e ato pecaminoso.
Entretanto, o controle das consciências e dos hábitos através do confessionário não era o
único meio de controlar os atos "impuros” , provocados pela tentação do sexo Era
preciso vigiar posturas que porventura pudessem estimular as transgressões e de forma
251
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inevitável, o pecado Desse modo, normas eram impostas com relação à postura no
dormitório. É interessante, alembrança do Poeta:
"Noite azuhbaço no domitório onde três lâmpadas
de tom velado controlam m inha ensimesmada quietude,
Que faço aqui, jonge de M inas e meus guaidos, ■ r ■
nesse castelo de aulas contínuas e rezas longas?
Piisao de luxo, todo conforto, luz inspetor a
de sonhos ilícitos. Joelho esticado . nenhuma saliência
a transgredir a horizontal postura de sono puro.
Fria Fríburgo, m as aqui dentro a paz de feitio 1133)
As punições ocorriam como formas de castigar aqueles alunos que porventura
cometessem alguma falta considerada prejudicial à disciplina e ao "bom andamento" da
escola Tais punições variavam, desde ficai de pé, dui ante certo tempo em fr ente a uma
par ade, ou até mesmo a expulsão do colégio:
7{ fique de coluna'
" L á vou eu, de castigo, contemplar
por meia hora o ermo da parede.
Meia hora de pé, ante o reboco
na insensibilidade das colunas
de feno (maàano?)me resgata ...1134)
O episódio de expulasão do Poeta Mineiro, do Colégio Anchieta, em fins de 1919,
é assim comentado:
"... Que resta fazer agora
no adiantado da hora
de nossa faina escolar
em forma complementar
e que se tome oportuno
par a melhor prepará-lo
252
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qual ádestiado C dV àlo.
dá vida nopáreo duro?
Que seja expulso—no escuro. 1 ^ )
A aplicação das normas, a rotina diária, o isolamento com relação ao mundo
exterior quase sempre era contestado através de certos atos e comportamentos que
evidenciavam a reação, a negação de tais normas por parte do ahmado Em alguns
momentos, a simples brincadeira deixava patente o reagir dos alunos contrários à
disciplina excessiva
“ Há os que ássobiâtn Meu boi morreu,
os que cantarolavam Luai do Sertão
O 48 dá divisão dos médios,
embàk opensamento repetindo
Sdnto Inácio de Loiola,
fundador desta gaiola ...1136)
A utilização de objetos proibidos, como o caso dos canivetes, tornava-se um
elemento de negação promovida pelos alunos contranamente, às normas impostas:
”... fica permitido o canivete
nos passeios a chácar a
para coita algum apó
descascar laranja
e outros fins de rural necessidade.
Restituiam-sepois os canivetes
a seus proprietários
com obrigação de serem recolhidos
na volta do passeio, e tenho dito
So que na volta do passeio
veiificou-se com surpresa
no matinho ralo dá chácara
todos os canivetes tinham sumido 113?)
253
--- [PDF página 271] ---
A necessidade de transgredir as normas estabelecidas era responsável, até
mesmo por uma pequena 'indústria" que segundo o Autor, floi esda no espaço colegial
'Não é a toa que Sabino, dos maiores
a falta de instrumentos confessáreis,
montâ a indústria de caxerenguengue.
E afia fino o fio enferrujado,
alisa a lâmina sem cdbo
que encontr ou não sei onde, obstinado
à procur a de ferro-aço cortante,
Trabalhando em surdina, jápreparara
três caxerenguengues razoáreis.
Vou aperfeiçoai — diz ele — o meu produto,
é dato, não jápor mihréis... í 138)
Aos alunos maiores, com autorização paterna, era permitido fumai no pátio,
durante os recreios Entretanto, aqueles que não obtinham a autorização, burlavam a
fiscalização constante dos padres, ao fumarem no banheiro
". atento às numerosas portas de paradas,
o Pr efeito não rê em que cada um a
no tampo da latr ina
um toco de agarro está à espera
de ser fumado e conservado
par a outr o fumante e m ais um outro
até que apenas anza desapar eça na descarga... 1139)
O direito de sonhai e consequentemente, fugir às determinações impostas pelo
rigor das ordens e normas, pode ser entendido tembém, como maneira do aluno reagii
diante da inevitabilidade dos castigos.
eis que eu mesmo conrerto-me em coluna
e já não é castigo, é fuga e sonho.
254
--- [PDF página 272] ---
Nao me atinge a sentença punitiva
Se pensam condenai-me, estão ihisos.
A liberdade invade m inha estátua
e no recreio ganho a azul distância f HO)
Nos últimos versos de “Fria Friburgo", relatando a viagem de trem, no triste
retorno à casa paterna, Carlos Drumond de Andrade expressa sua reação, coberta de
mágoa, diante de sua expulsão do Colégio:
"... Expulso de sua vista
volto a saber-me expulso do Colégio
e o Brasil é dor em m im por toda parte. 1H 1 )
Acreditamos que o estudo dessa parte da obra de Drumond nos permitiu
compreender alguns aspectos do funcionamento do Colégio Anchieta assim como, o
psesar das vrdas que habiftavem o seu interior. Os versos do grande Poeta além da
beleza expressam também, a enorme sensibilidade do Autor ao relatai, às vezes em
minúcias, cenas variadas do cotidiano do Colégio.
Ao tentarmos compreender a dinâmica de funcionamento do Colégio Anchieta,
internato preocupado com a aplicação de um modelo educacional que procurava afastai
seus alunos das questões mundanas, acreditamos nos aproximar do referencial teórico
cnado por Erving Goffmam(H2) no que tange a “instituição total”:
" U m a instituição total pode ser definida como um local de residência e
trabalho onde um gr ande número de indivíduos com situação semelhante,
separadas da sociedade m ais am pla por considerável período de tempo,
levem um a vida fechada e formalmente adm inistrada t H3)
255
--- [PDF página 273] ---
Ao iniciar o ano de 1923 o Colégio Anchieta cerrou as suas portas, transformando-
se em Casa de Formação de padres jesuítas que compreendia, o juntriorato (curso de
letras clássicas), o Filosofato e a Escola Apostólica (seminário nrenorj(l^).
A mudança, assumida como temporária, era explicada por seus dirigentes em
virtude da escassez de religiosos docentes que pudessem dar continuidade ao trabalho
pedagógico no estabelecimento. A guerra mundial, e a consequente crise verificada no
Velho tóundo, teria reduzida as possibilidades de padres europeus migr arem paia o
Brasil, desse modo justificando o fechamento do Colégio. Em circular enviada aos pais e
datada de 9 de dezembro de 1922, o padre-reitor Manoel Crespo assim explicava a
decisão;
'Cumpre-me partiàpar a V . Exa que, unicamente por fàltã de número
suficiente de pessoal religioso docente, consequênda da diminuição de
sacerdotes vindos da Europa depois da guerra, resolveram os superiores
maiores suspender por alguns anos o funcionamento do Colégio Anchieta,
que ficará fediado para alunos de tora, sendo, durante esse tempo
aproveitado paia a formação dos nossos jovens religiosos estudantes, que
se prepar am par a , a seu tempo, se dedicarem ao ensino e outros
ministérios afiostólicos... ’
Fechava-se assim, um rido da história do Colégio Anchieta, importante na
formação educacional de jovens provenientes de vários partes do país mas também,
exercendo um papel de cidade turística, fornecedora de serviços, criado para Nova
Fribut go no período por nós estudado.
Durante esse trecho de nossa dissertação acreditamos ter sido possível
comprovar que as duas faces da moeda friburguense — cidade industrial e adade
turística — teve entre 1910 a 1930 o momento determinante para sua consolidação. Fara a
construção desse modelo de cidade foi fundamental a associação ocorrida entr e uma
nova elite política, com presença destacada no município a partir de 1910, com o
2 5 6
--- [PDF página 274] ---
empresariado alemão que a aprtii de 1911 deva início ao processo de industrialização.
Inegavelmente, o direcionamento da ocupação espadai do núdeo municipal assim como,
a contsrução da malha urbana obedeceu os critérios colocados em prática, a partir
daquela assodação entre o poder público e o poder privado.
Por outro lado, é nossa intenção ainda, tentarmos perceber a distribuição da
população no espaço interno da ddade bem como, de todo município. Acreditamos que
essa distribuição obedeceu a uma lógica capitalista, tendo em seu interior, o constante
confronto entre capital e trabalho.
257
--- [PDF página 275] ---
N O T A S : D Q III» C A PITU L O
(1) - Para uma Análise da implantação da República no Brasil e sua consolidação
consultamos as seguintes obras:
CARDOSO, F Henrique, Dos Governos Militares a Prudente Campos Sales in O Bi asil
Republicano - Estrutuia de Podei e Economia. HGCB, SP, Difel, tomo III, vol 6, 1975,
org. Boris Fausto,
CASALECHI. José Enio. A Pioclamação da República. SP, Biasiliense, 1981, col Tudo é
História ri! 1 8;
PASAVENTO, Sanda J A Revolução Fedei alista. SP, Biasiliense, 1983, col Tudo é
História rP 80,
QUEIROZ, Suely Robles R Os Radicais da República. SP, Bi asiliense, 1986,
LESSA. Renato. A Invenção Republicana — Campos Sales, as bases e a decadência ii?
prim eii a República b ia s ile n a SP, Ed Vértice e IUPERJ. 1988;
MARTINS, Ana Luiz a República: um outi o olhai. SP, Contexto, 1989,
CARVALHO. Jo'se'Murilo de A Formação das Almas - O imaginário da Republicano
Brasil SP, Cia das Letras. 1990
(2) - CARVALHO, Jo'sé Murilo de. “Os Bestiahzadps* . op at
(3) - FERREIRA Marieta de Moraes (org.). A República na. Velha Piovíncta. RJ, Rio
Fundo, 1989.
(4) - idem, p 1 4
(5) -id e m ,p .K
(6) — idem, p. 15.
(?)-rdem ,p 16
(0)-idem ,p.l7.
(9) — idem, p.17
(10) - idem, p. 1 8
258
--- [PDF página 276] ---
(11) - CARONE, Edgard A República Velha (evolução política). SP, DIFEL, 1971, pp.
244 -147.
(17) - FERR.EIRA, Marieta de Moraes, op at., p. 2 U .
(131 - Ho capítulo III, "cidadãos Inativos: A Abstenção eleitoral", do livro Q$
Bestializados - Rio de Janeiro na República que não íoi. SP, Cia das Letras, 1987, José
Murilo de Carvalho, traça um importante quadr o demonstrando as formas legais (formais)
e informais que levavam a exclusão de grandes setores da população do Rio de Janeiro,
da participação no processo eleitoral
(14) -V e r listagens eleitorais existentes nos Arquivos do Pró-Memóna da PMNF
(15) - V e r listagens dos presidentes da Câmara e Prefeitos de NovaFriburgo constante
no livro Nova Friburgo - Radiografia Social de uma comunidade. Niterói, Imprensa
oficial, 1988, p 154.
(16) - Notas Diográfrcas para Monografia Nova Friburgo, cadernos de cultura, vol 1 ,
Pró-Memóna da PMNF, pp 14 - 72.
(17) - Di . Galdino do Valle Filho (1879 - 1961) um pouco de sua vida m Notas Biográficas
para Monografia, op. a t
(l®)-idem, ibidem, p l6
(15) - Toda coleção do Jornal ' A Paz" encontra-se na seção de periódicos do Pió-
Memóna do Departamento de Cultui a da PMNF
(20) _ j omâ] -a Paz". n! 78, 28/83/1909, arquivos do Pró-Memória do Departamento de
Cultura da PMNF.
(21) — idem, ibidem.
(22) - idem, ibidem
(23) - idem, ibidem.
259
--- [PDF página 277] ---
(24) - Joma] “ A Paz". n ! 80,11/04/1909 - at quivos do Pró-Memória do Dep de Cultura da
PMNF
(25) - idem, ibidem.
(2 8 )-Jornal * A Paz* n ! 79,04/04/1909 - arquivos do Pró-Memória do Dep de Cultura da
PMNF.
(27) - Jornal ‘A Paz". n! 88, 29/06/1909 - arqurvos do Pró-Memóna do Dep de Cultura da
PMNF
(28) - Ata da Câmara Munidpal de Nova Friburgo, publicada em 9 de mar ço de 1913.
(29) - Receita e Despesa da Câmara Municipal de Nova Friburgo publicado em 06 de
abril de 1913.
(30) - Listagem dos maiores contribuintes de Imposto Territorial no ano de 1914,
Coletoria Munidpal de Nova Friburgo, publicado no Jornal "A Paz", ri1 343, 13 de
dezembro de 1914
(31) - Notas Biográficas para Monografia, op. dt., p. 27.
(32) -idem , ibidem.
(33) - O retorno de Nilo Peçanha na liderança da política fluminense é estudado nos
seguintes artigos: Korms, Moriica Almeida - Enfrentado e Acordo; Brandi, Paulo -
Estabilidade e Compromisso, Ferreira, Marieta de Moraes, Rebeldia e Recomposição,
Ferreira, Marieta de Moraes, Um Eixo Alternativo de Poder, Ferreira, Maneta de
Moraes, Crime e Castigo; Romis, Monica Almeida, A Nova situação Fluminense. Esses
artigos constam do Iívto organizado por FERREIRA, Maneta de Moraes - A República
na Velha Província, op. cit
(34) - Ver a coleção do Jornal "A Paz", durante o ano de 1916, constante nos aiquivos do
Pró-Memória da PMNF.
(35) - Ver a Mensagem do Prefeito Gustavo Lira pubhcado no Jornal "Cidade de
Fnhurgo". n ! 93 de 01/06/1919, constante nos arquivos do Pró-Memóna da PMNF
260
--- [PDF página 278] ---
(3 í> ) — idem
(37) - Jornal ' (Idade cie Friburgo'. n! 8, de 17/11/1918, Pró-Memória da PMNF.
(38) - KORN1S, Mônica Almeida- A nova situação fluminense m FERREIRA, Maneta de
Moraes, A República na Velha Pi OYÍuda. op. d t, p 275
(38) - PEÇANHA, Celso - Nilo Peçanha e a Revolução Brasileira. RJ, Civilização
Brasileira, 1969.
(40) _ o resultado eleitoral de 1922, possibilitou a Galdino do Vaie Filho 612 votos e a
Gustavo Lira, 141 votos, segundo ' Resultado eleitor as de 1922* . Pró-Memória, PMNF.
(41) - Resolução n ! 281 de 13/06/1930, publicadano Jornal “ A Paz” de 29/06/1930, Pró-
Memória da PMNF
(42) _ Mensagem do Prefeito a Câmara Municipal de Nova Friburgo, em 24/12/1924, Pró-
Memória da PMNF.
(43) - Notas Biográficas para Monografias, op. dt., p. 32.
(44) -idem,p 3 3
(45) - A quetão da “modernização conservadora" é apresentada na obra de MOORE,
Bamngton, As Ongens Sodais da Ditadura e da Democraria. SP, Martins Fontes.
(48) - FURTADO, Celso Formação Econômica do Biasil. 9! ed., SP, Cta Ed Nadonal,
1969.
(47) - SILVA, Sérgio Expansão Cafeeira e Origens da Industria no Biasil SP, Alfa-
Omega, 1976.
(48) - CANO, Wilson. Raizes da Concentação Industrial em S. Paulo. SP, Ed T. A
Queiroz, 1983.
(49) - CORRÊA, Heloisa B. S Nova Friburgo: O nascimento da Indústria (1890 - 1930).
dissertação de mestrado, UFF, 1985, p.12
261
--- [PDF página 279] ---
(50) _ idem, p 16
(51) - Modelo desenvolvido por Sérgio Silva, op. cit.. e Wilson Cano, op. cit.
(52) - LOBO, Eulalia M . Lahmeyer - História do Rio de Janeiio - do capital comei aal ao
capital industrial e financeiro, RJ, IBMEC, 1978
(53) - GUARITA, Marcos A R A Indústria de transformação do Rio de Janeiro no séc,
XX, dissertação mestrado IE1 - UFRJ, R), mim 1986
(54) _ CORRÊA, H. B. S. - op dt.. p 103 - 4.
(55) - CORRÊA, H. B S - op cit cap "A Fabrica e seus donos", p.?9 -128
(56) - FISCHER, C. R. Uma históna em quatro tempos. Nova Friburgo, Tipografia da
Fábnca de Rendas ARP, s/d, p 80 -1.
(57) -idem,p.91.
(58) - idem, ibidem
(59) - CORRÊA, H. B. S . op cit. p. 103.
(6 8 )-Jornal * A Paz", ri' 1S3 de 29/01/1911, Pró-Memória do Dept de Cultura da PMNF
(61) -idem , ibidem
(62) - idem, ibidem.
(63) - idem, ibidem
(64) - idem, ibidem.
(65) - idem, ibidem
262
--- [PDF página 280] ---
(66) - Texto de Raphael L S Jaccoud, reproduzido por C R Fischer, Uma História em
quatro tempos op cit, p 102
(67) - GUARITA, Marcos A., op. cit.. pp. 189/205.
(68) - LEVY, Maria Barbai a As tarifas de energia elétrica na composição dos custos
industriais na cidade do Rio de Janeiio no início do século Anais do 1! Seminário
Nacional de História e Energia V. 1 , SP, Eletropaulo, 1986
(69) - Jornal * A Paz". n ! 155, 12/02/1911, arquivos do Pró-memória da PMNF
(70) - Jomal ' A Paz* . ri! 168, 21/05/1911, arquivos do Pr ó-memória da PMNF.
(71)- roem, ibidem
(72) - idem , ibidem
(73) - idem, ibidem.
(74) - Conforme o contrato assinado entre a Câmara Municipal de Nova Friburgo e
Juhus Arp e Cia., em 20 de junho de 1911, Pró-memóna da PMNF
(75) - idem , ibidem .
(76) - idem , ibidem .
(77) - idem , ibidem .
(78) - FISCHER, C. R. op. cit.. p 104
(79) - idem, p. 105
(80) - idem, p. 106
(81) -idem, ibidem .
263
--- [PDF página 281] ---
(82) - Boletim comemoi ativo dos 75 anos da Fábrica Ypu, avquivos do Pró-memória da
PMNF
(83)-idem.
(84) -id em
(85) - Boletim informativo da Fábrica Filó S/A, arquivos do Pró-memória da PMNF.
(86) _ GUIMARÃES, Arthur. Um inquérito em Nova Friburgo. RJ, Typogiaphia do
Jornal do Comércio de Rodrigues e Cia, 1916.
(87) -idem , p.143.
(88) -id em ,p .W .
(89) -idem ,p.H 5
(38)-idem ,p 146
(31)-id em ,p . 145/5.
(92) - HOBSBAWM. Ene, Introdução. A Invenção das Tradições in HOBSBAWM, e
Ranget.Teience. A Invenção das Tradições. RJ, Faz e T e n a.p 9
(33) - Hino a Nova Fnburgo, letra de Frankhn Coutmbo e música de Sérgio Lago
(94) _ HOBSBAWM, eiic, A Produção em Massa de tradições. Europa, 1870 a 1914 in A
Invenção das Tradições, op. rit, pp. 271/316.
(35) - CARVALHO, Jose'Murilo de, A Formação das Almas - O imaginário da República
no Brasil SP, G a das Letias, 1990
(36) — idem, p 1 3
(37) - LAET, Carlos, Gônica Semanal, Gazeta de Notícias, 1889, in Nova Friburgo.
Impí essões - lembranças Pró-memória da PMNF, 1988.
261
--- [PDF página 282] ---
I98) - Jornal "Q Parz'. 31 de janeiro de 1397, in Nova Friburgo. Impiessóes -
Lem branças, op at
(^ ) - Nova Friburgo, A Lanterna. 1987, arquivos do Pró-memória da PMNF.
(108) - POMPEU, Julio. Álbum de Nova Fribuigo. RJ, Oficinas Gráficas l. Silva e C ,
1918, p.4
(101) _ VALE FILHO, Galdino do Lendas e Legendas de Friburgo RJ, Off Graph.
'Pernambucana", 1928
(102) — idem, p.3S.
(103) _ idem, p 39/40
(104) — idem, p 40/41
(105) - indicador Comercial de Nova Friburgo, 1930, arquivos do Pró-memória. da
PMNF, pasta n! 800.
(106) - NAGLE, Jorge - Educação na Primeira Republica in Bons Fausto (org.) Q Brasil
Republicano. Sociedade e instituição. SP, Drfel, t III, V 2, 1976, pp 259/292
(107) — idem, p.264.
(108) - código de Posturas Municipais de 1893. vei artigos n ! 132, 133 e 134 desse
código Pió-memória da PMNF.
(109) _ POMPEU, Julio Álbum - Nova Friburgo. Petrópolis, Officinas Graphrcas J Silva
e c., 1918
(H 8) - Boletim de Recenseamento. Jornal ‘Gdade de Friburgo' de 09/06/1918, Pró-
memória da PMNF.
(UI) - HOBSBAWM, EricJ A Era do Capital- 1848 - 1875 RJ, Paz e Terra, V ed„ 1979,
p 62.
265
--- [PDF página 283] ---
(112) - MAIA S J.( Pe Pedro Américo (org) Colégio Anchieta de Nova Friburgo (1686
-1976) SP, Ed Loyola, 1976, p. 1 6
(113} — idem, p.18.
(114) - A Lanterna op. dl., Pió-memóriadaFMNF
(115) — ideirr, ibrdem.
(1 lí) - tóAIA S. J., Pe. Pedro Américo, op. d t, pp 25/26.
(H 2)-idem , p 27.
(118) _ 'f é e Sdenda é teu mote’, rn Aurora Collegial de 10-12-1911, biblioteca do
Colégio Anchieta, Nova Friburgo.
(119) - Q Direito do Colégio Anchieta - a equiparação com os institutos oficiais de
instrução secundária.. RJ,Typ Besnard Fieres, 1916
(120) _ ídem, ibidem
(121) — MAIA S. J, Pe Pedro Américo, op. dt.,p.3í
(122) - Os exemplaies da ’Auiota Colegial’ conespondentes aos anos de 1905 a 1923
encontram-se atualmente, na Biblioteca dos Padres do Colégio Anchieta. em Nova
Friburgo.
(123) - ANDRADE, Carlos Drumorid de - “Fria Friburgo’, Boitempo 1 1 1 , m Nova
Reunião V 1 1 , Rro de Janerro, Ed José Olímpio, 1983,pp 785/816
(124) - BOSI, E déa Memória e Soaedade: Lembranças de Velho:, SP, T. A. Queiroz
Editora, 1987, p.23.
(125) -ídem, ibidem.
(126) - ANDRADE, Carlos Drumond de. ‘Segundo Dia", op dt., p.785.
266
--- [PDF página 284] ---
(127) - ‘Lição de Poupança” , idem, p 787
(128) _ "Somem Canivetes” , idem, p 798.
(129) _ ’p 0stos de Honra” , idem, p.802.
(130) _ "Pavão” , idem, p.792.
(131) - ""Recusa” , idem, p.796.
(132) - "Inventor” , idem, p 796
(133) _ "Dormitório” , idem, p.803
(134) _ "Punição” , idem, p.806.
(135) - “Certificados Escolares” , idem, p 813
(136) _ "Verso Proibido” , idem, p.?95.
(137) _ "Somem Canivetes”, idem, p 796
(138) _ "Caxarenguengue” , idem, p.799
(139) - "Direito de Fumai” ,idem ,p.804.
(140) _ "punição” , roem, p 806
(141) - "Adeus Colégio” ,idem,p 816
(142) _ "GOFFMAN, Ervmg - Manicômios Prisões e Conventos. SP, Ed Perpectivà, V
ed„ 1987.
(143) _ idem, p 1 1
(144) - MALA S. J., Pe. Pedro Américo, op. d t, p.43.
267
--- [PDF página 285] ---
capitulo IV
f
NO VA FRIBÜRGO e a
população 1 ricos e
--- [PDF página 286] ---
CAPÍTULO IV
I - NOVA FRIBURGO: O ESPAÇO E O HOMEM
No período correspondente à denominada República Velha, o município de
Nova Friburgo, teve desmembrado de seu território, as terras correspondentes ao
Município de S. José do Riboirãoü) e as terras da região de Sebastianaí^l, incorporadas
ao município de Terezópolis.
Em 10 de outubro de 1911, pela Lei estadual n! 1.003, as terras correspondentes a
região de Amparo foram desmembradas do município de Bom Jardim e anexadas ao
Município de Nova Friburgc.
Após estas alterações no que tange à constituição espacial do município, Nova
Friburgo não sofreu qualquer outra mudança, mantendo a área urbana como sede do 1 !
distr ito e a região de Lumiar, correspondendo ao V Distrito.
Em 25 de janeiro de 1924, pelo Decreto n! 1.809 verificamos um novo
reordenamento de todo o município, com a criação de 5 distritos, assim constituídos:
1 ! Distrito: Nova Friburgo, sede do município,
2! Distrito: Estação do Rio Grande;
3! Distrito: Terras Fr as, com sede em Campo do Coelho;
V - Distrito: Amparo,
5! Distrito. Lumiar, com sede na localidade de S. Pedro.
Tratava-se inegavelmente, de um novo ordenamento do município quando se
define com maior clareza o território correspondete ao espaço urbano e os espaços
258
--- [PDF página 287] ---
rurais. Na ótica do capital em consonância com o Poder Público municipal, tal definição
tinha como objetivo o estabelecimento de políticas públicas adequadas as realidades
distritais. Ao se definir o q ie é urbano e o que é rural, os dirigentes locais podei iam
traçar normas, institituir fornas de ocupação espacial de acordo com características de
cada Distrito. Pelo mapa abaxo, assim apresentava-se o Município de Nova Friburgo
FIGURA 7: Q MUN) CÍPQ DE NOVA FRIBURGO E DISTRITOS -1930
FONTE: Ai quivos do Pró-Memória da PMNF
As localidades correspondentes aos Distritos de Estação do Rio Grande, Terras
Frias, Amparo e Lumiar se caracterizavam por serem áreas rurais, com cuttivos
269
--- [PDF página 288] ---
diversificados. Estabeleciam ai pequenas e médias propriedades, onde se produziam
cereais, batatas, criação de m imais visando basicamente o metcado urbano (1' Drstritoj
Priridpalmente, na região do 2! Distrito, estabeleda-se a produção de frutas e flores,
tendo sua destinação voltada a atender basicamente o mercado do Rio de Janeiro O
atendimento deste objetivo articula-se ao fato de ser o Distrito de Rio Grande, juntamente
com o 1 ! Distiito, os únicos sorvidos pela Estrada de Ferro Leopoldina Railiway, o t&re
naturalmente fadlitava o transporte de seus produtos até a capital da República. Na
região do Distrito verificava-se, além de alimentos básicos também, a produção de café.
O 3!, 4! e 5! Distritos eram ligados a sede do muniripio por estradas de rodagens.
Pelo mapa do município podemos constatar que o centro urbano, a área
correspondente ao l! Distrito era cercada por urna extensa área rural, responsável pelo
abastecimento era termos ce hortifrutigrangeiros. Tratava-se pois, de um extenso*
cinturão verde que permitia ao setor urbano manter certa autosufudênda, f que quase
tudo necessário era cbído no próprio munidpio.
A região correspondente ao 1! Distrito, denominado de Cidade de Nova
Friburgo, correspondia a uma área, inicialmente ocupada pelos primeiros colonos suiços,
que se estendia ao longo do Rio Bengala. Na década de 20, podemos verificar na planta
abaixo, o norteamento da idade obedecendo os mesmos contornos, anterior mente
percebido no século X IX É possível ainda, observar a existência de novas uras,
propiciando assim, um quadr urrais ampliado do espaço urbano.
270
--- [PDF página 289] ---
FIGURA 8:
LEGENDA
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C(u>T(W0 TVSUCO M U M C M A L
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0 crescimento da cidade e ta ^ fato inegável. Por outro lado, observando a
legenda é possível identificar a considerável quantidade de estabelecimentos públicos.
Além da fábricas, observamos que Nova Friburgo abrigava alguns estabelecimentos
típicos de uma localidade que assumia definitivamente, características urbanas. Ressalte-
se a existência de hotéis, escolas. Agências de correios, Telegráfo Nacional A questão
do lazer da população esta identificado com a presença dos Cinemas Leal e Nacional e
do Teatro D. Eugênia.
No campo religioso identificamos a presença católica através da Igreja Matriz,
localizada em região cential da cidade e dedicada ao padroeiro S. João Batista, e a
Capela de S. Antômo localizada na Praça do Suspiro. A presença de adeptos do
catolicismo era dominante na cidade, em que pese a existcnaa de outras religiõesPLANTA DA CIDADE- NOVA FRIBUR3Q
2 »
FONTE: Arquivos do Pró-memória da PMNF.
271
--- [PDF página 290] ---
identificadas na planta, con a Igreja Luterana e Igreja Presbiteriana. O Luteranisnro em
Nova Friburgo é explicado a partir da colonização alemã, iniciada a partir de 1824
Embora naquele momento, o Catolicismo fosse a religião oficial, através de uma
autorização de D. Pedro I foi possível a implantação das práticas luteranas na cidade e
consequentemente a criação de seu templo. Através do Recenseamento(^) efetuado pelo
poder público Municipal em 1918, verificamos o seguinte resultado, quanto às opções
religiosas da população:
TABELA 29: CENSO AEUGIQSO DA POPULAÇÃO DE H. FRIBURGO -1918
RELIGIÃO NÚMERO %
Católicos 5.723 78
Protestantes 700 9
Espítitas 72 1
Israelitas 4 -
Livres Pensadores 144 2
Não declararam 660 9
TCTAL 7 303 100
FO NTE: Jornal ‘cidade de Friburgo". 89/08/1918
Embora não tenfamos conhecimento das condições em que foram feitas as
pesquisas, os resultados apresentados revelam-nos em enorme prodomínio da população
católica habitando a cidade.
Retornando a anílise da Planta da cidade verificamos ainda, a existência do
Cemitério Público Mui ripai e do Cemitério Protestante. O Cemitério Público Municipal,
localizado nas proximidades da Estação Ferroviária possuia uma divisão interna, sendo
272
--- [PDF página 291] ---
reservado um loc-al especial rara o enterramento daqueles pertencentes à Irmandade do
S. S. Sacramento. Segundo os relatos do Monsenhor José Silvestre Alves de MirandaH),
a Irmandade fora criada em 1853 e era sustentada por condições pecuniárias de seus
membros, quase todos repre sentarivos das camadas dirigentes da cidade. Desse modo,
podemos conduir que em Nova Friburgo a segmentação social persistente até mesmo,
após a morte de seus habitantesA criação de um local específico onde eram enterrados
os membros da Irmandade do S. S. Sacramento — leia-se, representantes das elites da
cidade — colocava-os em posição destacada até mesmo no espaço correspondente ao
Cemitério Público.
Ouua forma de segregação Social existente em Nova Friburgo pode ser
confirmado com a existência do Cemitério Protestante, localizado em terras próximas a
Fábrica de Rendas. Esse Cr mitério, fora criado no século XIX pelos primeiros alemãs
estabelecidos na antiga colônia(^). A manutenção desse Cemitério, separado do
Cemitério Público e reconhecido pelos dirigentes municipais, pode significar a tentativa
da pequena população de erigem alemã habitante da cidade, no sentido de manter um
isolamento relativo com relação ao restante da população. Tal separação se confir ma até
mesmo, após a morte dos indivíduos.
É possível conduir portanto, que em Nova Friburgo, além da distarida que
separava ricos e pobres — confirmado dentro do próprio Cemitério Público — a
segregação processava-se arnbérn, entre católicos e protestantes — confirmada pela
f
existênda do Cemitério Protestante. Podemos ainda, afirmar que a segregação se fazia
tambénr, entre brasileiros r alemães. O Cemitério Protestante era conheddo pela
população como Cemitério dos Alemães.
Com relação a popu ação habitante do município de Nova Friburgo constatamos
um cresamento bastante ande.
Vejamos os resultados do Censo efetuado em 1920((’l.
273
--- [PDF página 292] ---
TABELA 30:
NACIONALIDADE HOMEM MULHER TOTAIS
Brasileiros 13.565 13.589 27.154
Estrangeiros 935 540 1.475
Ignorada 1 4 8 22
TOTAIS 14.514 14.137 28.651
FONTE: Censo do IBGE -1920
Js
Em comparação com nossos daos obtidos «través do censo realizado no ano de
Í900 podemos constatar um crescimento populacional, em torno de 78% (setenta e oito
por cento) entre 1900 e 1970. O Recenseamento de 1900, conferia para o município de
Nova Friburgo, um total de 16.117 habitantes, enquanto que constatamos para o ano de
1920, um total de 28.651 habitantes.
Infelizmente, não pudemos obter dados referentes à quantidade de habitantes
urbanos e rurais na composçáo do município. Mesmo assim, em termos globais, é possível
conferir um considerável crescimento populacional cujas causas devem ser implantadas
ao cresdmeto dos setores secundário e terceário ocorridos na cidade, no período por
nós estudado.
Sobre a questão tia nacionalidade da população que habitava o município
constatamos uma presença reduzida de estrangeiros representava apenas, 5,5% (cinco e
meio por cento) do total da população registrada pelo censo Em primeiro lugar,
comprovamos assim que a presença estittgeira no município em termos quantitativos, eia
bastante reduzida Mais uma vez questionamos aqueles trabalhos que afirmam ser Nova
Friburgo, a Suiça Br asile.«
274
--- [PDF página 293] ---
Concluímos pois, que o papel exercido pelos giupos estiaugeiios lixados no
município possivelmente, st circunscrevia aos setores de direção e controle d,rs
empresas, enquanto que, o mundo do trabalho eia composto poi uma população de
br asileii os.
Em segundo lugar, podemos sugerir que o crescimento populacional de Nova
Friburgo teria acontecido — em função do seu papel industiial/tuiístico e comercial em
virtude de torncBe um centro de atração de população proveniente daqueles municípios,
em processo de crise decor ente da decadência da produção cafceita Possivelmente,
Nova Fribrugo atraia contingentes populacionais, expulsos de alguns municípios do
Centro Norte fluminense, eir função da crise cafeeir a — ver o exemplo de Cantagalu, S.
Sebastião do Alto, Suinidourc, Duas Barras.
A composição sexual dos habitantes do município torna se também, bastante
interessante paia uma análise. O equilíbrio entie homens e mulheres 6 evidente
principalmente, no tocante á população de brasileiros. O desequilíbrio apresenta se de
forma patente, quando verificamos apopulação de estrageir os registrada no município. A
população masculina estrangeira supera em quase o dobro a população feminina. A
explicação para tal fato encontrar-se naturalmente, na própiia origem do processo
imigratório. O imigrante noriiialmente, ao abandonai seu país de oiigem, o faz de foi ma
isolada, ainda quando é solle.ro ou deixando a família no seu país. É bom assinalar ainda,
a mão de obra absorvida pelas indústrias da cidade compunha se de um grande mimei o
de mulheres já que o predomínio da produção têxtil requeiia o trabalho feminino em
maior escala. Sendo assim, a mão-de-obra feminina pruvmiente da migração interna
explica o maior equilíbrio 1 1c divisão sexual friburguense, no oque tange ao número de
habitantes designados co- o brasileiros.
0 crescimento ui' a o associado ao aumento populacional de W . Friburgo nesse
período pode ser percebido através dos pronunciamentos dos políticos e administradores
locais, que quase sempre lamentavam ao se referirem ás dificuldades pata a
275
--- [PDF página 294] ---
Administração municipal. O prefeito Joaquin Antunes, em sua Mensagem à Câmara
Municipal de 2 -1 de dezembio de 1921^), assim se leferia sobre o crescimento urbano e
os problemas de abatesdmento d agua:
"N os últimos dez mios o número de prédios existentes na zona urbana
passou de 740 para 1.29S, sendo que no corrente ano o número de
ligações novas, até agosto, elevou-se a 271"
Os problemas tomavam-se maiores, quando o mesmo Prefeito se reteiia às melhorias na
questão darede de esgotos:
" o que temos feito em relação a esse serviço é nulo e defeituoso.
As canalizações das casas próximas às valas existentes são a ela
dirigidas, encaminhando se às das vizinhanças do rio para ele.
Isso que podería bastar, quando éramos a V ila do Mo iio
Queimado não é possível ser conservado quando temos um século de
existência e contamos já umas dez mil alm as na nossa população urbana
Ê necessário pois legisleis, armando o Executivo dos meios
precisos, para que dotada seja nossa cidade, desse elemento
indispensável a sua r nda 1'V
O rápido crescimento populacional e a consequente ampliação das áreas
construídas; o maior transito de pessoas pelas mas da cidade e o aumento de pessoas
circulando r espaço municipal na época do verão, criava sérios problemas
administrativos. As ruas da cidade não oram calçadas, o que significava problemas séiios,
para uma cidade que se assumia como espaço turístico:
"N a estação que atravessarnos de abundantes chuvas, o lamaçal que cobre
as ruas ; impedindo quase por completo o trahsito até de veículos, é o
fantasma que ver apavoiando a quantos têm passado pelo governo local
Exatamevte, quando os hóteis se enchem de forasteiros ilustres
que buscavam a suavidade do nosso clima fugindo à canícula carioca, é
que se transforma com as chuvas habituais, o aspecto da nossa terra e
m
--- [PDF página 295] ---
então, surgem as redatnações dos condutores de veículos e os protestos
de quantos têm palmilhar o vasto lodaçal... ÍV
Era outra passagem da mesma mensagem, o Prefeito Joaquim Antunes voltava a
ressaltar a necessidade do calçamento das ruas bem coroo, a reforma da rede de áeua e
esgoto.
"Permanecer no que esta, limitai a nossa atividade, por m ais tempo, à capina das mas e à
limpeza das tradicionais valas, gritar no verão contia a lam a e no inverno contra o pó,
reclamar contra a falta de água e maldizer a sua qualidade não pode ser o gesto de um a
cidade onde se aninham várias indústrias, eles mesmos forçados e consertar as ruas para
entrar.
Não podemos permitir que o hóspede limpe a nossa casa; temos que assea '.apara
recebê-la. " (10)
A ÍH 5Ü S S Q Ü S podomn; pfetnjr sobre 5 sjjnaçjn injgina ijo MunidpiO d? Nova
Friburgo, nos 30 pnmenos anos do século XX aponta-nos para uma realidade de
crescimento econômico, paralelamente ao ciescimento urbano, ü aumento acelerado da
população re q u e ria dos Poderes Públicos, medidas imediatas no sentido de tornar
principalmente, 0 espaço urbano em condições que favorecessem ã ampliação das
atividades comerciais e turísticas Não seria possível a continuidade, no sentido d» atrair
novos investimentos industriais, sendo evidentes as características do seu passado rural.
Desse modo, a cidade que mudava-se rapidamente para a consolidação do novo modelo,
necessitava de medidas que a adequasse às novas condições. É nesse quadro, que
podemos entender 0 pape’ da Prefeitura e da Câmara de Vereadores, como instituições
do município,capazes de implementar políticas públicas com vistas a atendei a essas
demandas.
Em suma, Nova Friburgo caminhava para a consolidação de sua economia
capitalista,ao mesmo tem; j que deveria se assumir como cidade também capitalista íle aos
111
--- [PDF página 296] ---
investimentos privados cabia o papel de disciplina e organização do trabalho, aos
Foderes Públicos cabia a organização e o ordenamento do espaço urbano, onde se
assentava aqueles investimentos.
Cabe nos agora, buscar um melhor entendimento sobre a distribuição e
organização da vida privada em Nova Fribrugo, ao longo do espaço urbano diiigidu
pelos Poderes Públicos.
2 - AS ELITES DE NOVA FRIBRUGO
2.1 -A Elite Agrária. Uma Iler ança Imperial
N o'da historia friburguense que estamos estudando e possível identificai dois
conjuntos da sociedade que se contituiram como elites municipais. A piinrípio, no
peiíodo compreendido entie 1890 a 191(1, percebemos a presença dominante em tod ■ n
município, aq u eles serores ligados à agronomia agrária, que predominavam desde o
auge da produção cafeeira na região centro norte fluminense. Tratava-se pois, do
predomínio de um pequeno i úmero de pessoas r eptesentativo das oligarquias rui ais que
tinham como figura de maior impoitânda aqueles provinientes da família Clemente Pinto
Como já abordamos, em momentos anteriores dessa dissertação, os Barões de Nova
Friburgo irão exercer eno nie influência na condução de atividades variadas no
Município de Nova Fribrugo, durante toda 2- metade do século XIX até o primeiro
decênio do século XX. F.sv: influência podemos perceber, a principio, na criação de
obias variadas como: O 'Casarão" e Jardins do Parque S. Clemente, o Barracão,
utilizado para as atividade do caça e o Solar da Baroneza, localizados na praça pt incipal
da cidade. A remodelação da Praça Princesa Isabel - mais tarde Pi aça XV de novembi o
2 7 8
--- [PDF página 297] ---
— e a construção da Estiada de Ferro Cantagalo, foram também, imputadas a família
Clemente Pinto.
No plano político evidimciou-se com bastante clareza a presença das oligarquias
rurais que dominaram os poderes municipais até o início da V década do novo século
Famílias como Brazílio de Araújo, Galiano das Neves, Fernandes Entres, Teodoro
Gomes, Tého de Morais, Pereira de Melo, provenientes dos setores de grande
proprietários na região, irão dominar politicamente o município até o ano de 1913. Esta
elite oligarquica cons’ . i-se u n a herança imperial, extendida à República e em Nova
Friburgo, presente durante ainda um tempo considerável.
A elite agrária habitava espaços do município correspondentes a locais afastados
do centro urbano. O noticiário local revelava quase sempre, a beleza dos sítios, chácaras
e fazendas localizados em regiões afastadas da cidade. A clicara do Paiaíso, de
propriedade da família Marques Braga, era assim descrita pelo Jornai “A Sentinela"! 1 * )
" ...A longa e vasta entrada apresentava-se de belíssimo efeito, achando-se
em toda a sua extensão de quase ',30 metí os, toda ornamentada de arcos
donde pendiam flores e serpentinas de variadas cores. O encantador e
ondulado sítio (.. ) achava-se completamente circundado de flores.
..Admirávelentão era a vista que se descortinava: as coljnas tão
capnchosamente arborizadas, ver de jante,$ no meio da qual se erguia
garbosa e inada, um a tone Eiffel de flores com M l metros de altura,
alegoria ao grande monumento de Paris, e limitando esta paisagem de tão
palpitante beleza as curvas das montanhas que arctmdam aquela chácara
encantadora..."
Em seu Album de Nova Fnburgoíl2). Dt Julio Pompeu, relata a beleza e a
produção de frutas encontradas no sítio S. Luiz de propriedade do Dr. Julio V. Zamith:
"Cultura selecionada de fiutas exóticas, mui próxima da cidade, premiada
pelo Ministério da \gricultura e Governo do Estado do Rio
A área de 30.256 braçss quadradas contem mais um a pai te em m ata, pastos
e alguns milhares de t ucaliptus. Está iniciada uma grande plantação de
279
--- [PDF página 298] ---
camélias da variedade alba plena. O F r. Labroy engenheiro Hortícula
laureado pela Escola de Hortiarltitra de Versalhes... depois de aludir, em
longa notícia, que sobre o pomar do Dr. Zãinith vai ser vulgarizada tu
Imprensa francesa, à magnífica produção do Kakis e à excessiva
fertilidade das ameixas ..."
A tevista "A Lanterna”U j ) publicada em 1907 pela Câmara Municipal, assim
referia-se a fazenda do Cone go:
"Julio Antonio ThuHer é um dos grmdes proprietários rurais, tendo
adquirido a 5 anos, dos herdeiros do Conde de S. Clemente, a impoitante
fazenda do Cônego, a seis quilômetros da cidade de Fiiburgo, notável
pela extensão territorial riquezas de mananciais, uberdade e boa
disposição do solo para culturas variadas e pelas obras úteis e custosas
que enct,,a O seu irmão Frotasio Antonio 1 burlei fez a campanha do
Faraguay. como voluntário. Éalferes honorário do exército “
Sobre a associação entre o poder da oligarquia rural e o domínio do político no
município íriburguense, a mesma Revista assim relatava:
V tenente coronel Galiano Emílio das Neves Junior (...) tem actualmenfe
3.9 anos de idade, é filho de Fiiburgo, ai residiu sernpie e é lwje c» dos
braços for tes do partido político que constituiu a maioi ia municipal
É vereador da Câmara eprestigiosopoT' o. A sua extiaordináiia
atividade repar te-se entie os assuntos relativos a política e a ”a fazenda
de café, uma importante e florescente fazenda, distante apenas nove
kilometros desta cidade, denominada Cachoeira do Amparo
Também possui uma magnífica fazenda de criação, a de F Dento,
inquestionavelmente a mais impoitante do município (...) Foi delegado de
Policia da administração do Dr. Alberto Tones — e. nesse momento difícil
da política fluminense, intensamente agitada, revelou-se um a autoiidade
talhada para a oca . ião, ativa, zelosa e enérgica É comandante do Sllf
Batalhão da Guarda Nacional, da comarca de Nova Friburgo iW
280
--- [PDF página 299] ---
Fica evidente nesse texto a associação entie o podei econômico dos
proprietários rurais e o domínio do poder público em Nova Fiiburgo A figura de
Galiano das Neves Júuiu era a exp.essão mais clara dessa associação. Além de
proprietário rural de gr arde poite, fora também a principal expressão política do
município nos primeiros momentos da República Velba. Sendu proprietário das Fazendas
Cachoeiras do Amparo e S. Bento, fora delegado da Polícia local por ocasião da
Presidência Estadual de Albeito Torres, eia naquele momento, chefe do piiudpal
partido municipal e comandante da Guarda Nacional. Mais tarde, de 1910 a 191?., Galiano
Emílio das Neves Jr. fora eleito vereador e tornou-se Presidente da Câmara, dirigindo o
executivo Municipal.
A elite rural apresentava seu poder, demonstrava sua torça à população
íriburguense através de suas obras, muitas vezes expressas na arquitetura de suas
moradias. Mesmo tendo seus principais negócios estabelecidosr i suas fazendas, sítios, a
cidade era o espaço de sou poderio Nada melhor do que a construção de grandes
casarões, palacetes paia que os habitantes da área urbana, ao circularem pela cidade,
pudessem admirar o poderio de sua elite:
"PROPRIEDADES PARTICULARES.
- O chalet — é assim denominada a propriedade pertencente aos
herdeiros do conselheiro Rodolfo Dantas, que foi casado com uma filha
do Conde de S. Ütmente.
Belíssima pi opriedade, vasto parque delineado pelo Dr Clarion
Exterior da casa modesto em forma de Chalet com varanda na frente e
nos lados.
Interior da casa lico. belo pátio de estilo áialw, giande saláo estilo Luís
A T ' com lindapirit ra no teto. mobília e cm tina de seda, guindes espelhos.
A iluminação é feita por 4 enormes candelabios de bronze
dourado, bondo rs Fompadoui, mobília forrada de couro, rica biblioteca,
artística sala de bilar. No parque há giande quantidade de camaleiras.
craveiros ejabotic beii as.
2 8 !
--- [PDF página 300] ---
OBáUÂCib Épiopnedade do conde de Nova Fiibuigo. È tosim chamado
porque qirndo se o estar* edificmdo e se petguntava ao conde se
estavam adiantadas as obras ele respondia que o seu barracão ainda não
estava pronto. Vasto prédio de estilo alemão, com 22 quartos
Casa Grande: Épropriedade do Barão de S. Clemente, na Praça A Y de
Noveinbio. assim denominada quando pertencia ao Baião de Nova
Ftiburgo e eia a maior casa da Vila de Nova Friburgo. Belos jardins aos
fundos.
Palacete do Dt. Elias de Moraes: Na ma General Osório, plano e
execifião do arquiteto Jannuzzi, plantações de parreiras e outios frutos
europeus.
Palacete Francisco José llwmaz também na rua General Osóiio,
construído pela empresa de Obras Públicas do Brasil Foi seu primitivo
proprietário o Conde Salvador de Mattosinbos.
( I Na Praça XV de Novembro notam-se as propriedades dos Srs
Ernesto Biazílio de Araújo, elegante Cbalet, Francisco Guarilha e Anfonio
Salusse.
Na ma General Atgollo — üialetdo Dr. A Rimes, chaleldepiopiiedade
de Amélia Dumans e casa de l) Fhza Seita ( IV'')
Como vemos no intorior do espaço urbano friburguense as marcas claa elites
rurais eram bem foites, traduzidas pelos casardes, palacetes edifi^dos naquele espaço
Desse modo, a separação entre o rural e o urbano eia ainda pouco claia em Nova
Ftiburgo até a primeira década do século XÍX As própiias elites não foram capazes, pot
razoes da sua própria história, de criar condições de demarcar com maior nitidez e<.ta
separação. As bases de seu domínio assentavam se no controle cia terra e era a partir dai,
que estendiam seus mecanismos de contrle sobre o espaço urbano tornando este uma
continuidade do espaço u ra l. T r ’o isto era refletido naquele período, na falta de
calçamento das tuas, na pequena extensão da rede de água e esgoto e no peiamlurlat
constante de animais nas vias públicas municipais.
A criação de novas elites mi ripais — representadas pela expansão do romér < jn
e da indústria — provocam mudanças na paisagem urbana ptincipalmente, na década de
--- [PDF página 301] ---
20 d partir do crescimento ut bõ.no e do surgimento de novas demandas estimulado! as de
novas políticas públicas.
2.2 - AS ELITES URBANAS: O COMÉRCIO E A INDÚSTRIA
O crescimento do e;paço mbano, a intensificação dos contatos cor» 0 Rio de
Janeiro e Niterói através da ferrovia provocaram ao longo do período, mudanças
substanciais na realidade interna friburguense. O crescimento gradativo das atividades
comerciais internas assim como, 0 crescimento das indústrias a partir de 1911 serão
inegavelmente, responsáveis pela criação de uma nova elite, com consequências
importantes na expansão e conformação do espaço urbano friburguense.
A atividade comercial em Nova Ft iburgo intensificou-se a partir do momento em
que a cidade consolidava seu papel de centro de dispersão de produtos da região As
várias atividades de comércio foram sedimentando principalmente, em torno da. PraçaXV
de Novembro e por tcda a extensão da Rua General Argollo Esta tua, além de se tornar
importante artéria ligando ii Estação ferroviária à praça principa’ "ra também onde se
estabeleciam as principais lojas de comércio e serviços da cidade.
Várias eram as atividades comerciais cujos proprietários originários de nações
diversas. Arthur Guimarães em seu "Um Inquérito Social em Nova Fribmgo"!
comenta a seguinte situação comercial da cidade:
"Ocoméíào concentra-se, na maioria, n .r Piaça 15de Novembro 0 nama
General Ar gollo, caminho da estação. Espraia-se. poiém. entie as
moradias O mesmo acontece às quitandas Aqueles são ponto de gente
desocupada."
233
--- [PDF página 302] ---
Vê-se no texto a afirmação que demonstra além do comércio centrado na Praça
XV de Novembro e na rua General Argollo, a existência de um intenso comércio de
ambulantes que se fazia de casa em casa. Esse especto informal da atividade comercial da
cidade, parece exercer papel importante no abastecimento da população.
Sobre o comércio concentrado em lojas e . estabelecimentos foi-nos possível
identificar os principais ramos e as várias origens de seua proprietários:
TIPOS DE ESTABELECIMENTOS PR O PR IETÁ R IO S
1 - Armarinhos, fazendas, secos e
molhados e louças
2 - Alfaiatarias - italianos
- italianos
- italianos
-italiano
-italiano
- italiano- espanhóis, sírios, brasileiros,
portugueses e suiços
3 - Relojoaria
4 - Sapatarias
5-Jom aleiros
6 - Funiiarias
7 - Açougue
8 - Padarias
9 - Confeitarias- italianos, portugueses
- portugueses, espanhóis
- brasileiros, portugueses
- italianos, brasileiros
- italiano, suíço
- italiano
- brasileiro, alemão, italiano
-italiano10 - Barbearia
11-Verdureiros
12-Joalhena
13 - tóarmoraria
14- Farmácias
15 - Carpintaria
--- [PDF página 303] ---
16-Laticínios
17 - Comércio de íiutas
10 - Florista
19 - Botequins
20 - Quitandas
21-Papelarias
22 - Comércio de balaios e taquaras
23 - Restaurantes
24-B azares-brasileiros
-brasileiro
-brasileiro
-brasileiros
- brasileiros, italianos
- brasileiros
-n e g ro s
-brasileiro, português
- sít ios
FONTE: Artliur Guimatães. IJm Inquérito,social em
, op. cit, pp 13142
Como vemos, atravé* das intotmações acima é possível perceber, uma grande
variedade de atividades comerciais que denotam já em 1916, um processo crescente de
atividades comerciais típicas de uma sociedade urbana A presença de comereiaute de
inúmeras nacionalidades é evidente, ressaltando o papel de elementos de oti; n italiana.
A presença de portugueses e espanhóis íica bastante clara no controle de
atividades comerciais diversas. A imigração ibética, ocorrida a partir dos tins do século
XIX, tinha a cidade do Rio de Janeiro como grande centro receptor Nova Fnbutgo em
menores proporções tornou-se também um centr o receptor desses imigrantes ihér ir os
Nas pequenas lojas, pequenos bazares e armarinhos pontificavam os
comerciantes sírios, marcando presença importante no comércio de Nova Fiiburgo.
Maria José BragaU?) em sert livro de poemas niemói ias assim se refere às "Lojinhas de
Turco":
2 8 6
--- [PDF página 304] ---
"Q uanta lojinha catita
aberta ao redor da praça!
Bazar de rendas e fitas
tentando d moça que passa.
Na viti me, água de cheiro,
enxoval para bebê,
gorro de IS de carneiro
grinalda, véu e buquê.
Fala mansa no balcão...
Muita labia do Nagibe
pra vender a pi estação.
Deu./ quanta gente "babibe"
Para as lojinhas, 6 morte,
também chegaste, cruel,
viraram Estrelas do Norte
com freguezia no céu ÍW
U comércio ambulante é também lembrado pela mesma escritora, em sua ptosa-
poética, denominada “Rua Dona Umbelina"-
" E ra nas tardes de domingo que se ouvia o pregão: 'olha o bom docinho'
na voz do gentil wlato que vendia imitações pi operadas pela viúva
Damasceno A um sinal ele se aproximava, pousava o tabullieiio no
suporte que trazia ao ombro, levantava a toalha alvissima e exibia um a
coleção de pratos muito bem arranjados Doce de batata-doce clara e
roxa, doce de abóbora, doce de ndta. mães-hentas, brevidades. meadas
e inesquecíveis empadmhas ^ camarão ... 7IV
Intei essante os pregões que alertavam a população da cidade quanto às delidas
ofereddas pelos mercaduies ambulantes, bastanle comuns naquele momento. Além dos
dodnbos e salgadinhos que faziam a alegria da criançada (e porque não dos adultos
também) outras mercadorias eram levadas às porta das residências, sempre anunciadas
por pregões proferidos por vendedores diversos — lenha, leite, veiduias, trutas p etc
--- [PDF página 305] ---
As informações prestadas por Arthur Guimarães permite nos perceber também
um comércio de balaios e taquaras exercido por negros. Naturalmenle, os balaios
deveríam ser confeccionados através da habilidade manual dos próprios negros que
posteriormente, os colocavam no mercado local.
Arthur Guimarães oferece-nos informações também, quanto aos principais
estabelecimentos comerciai! da cidade.
NOME TIPO PROPRIETÁRIO
Casa Vidal - fazendas, armarinho, Francisco G Vidal
louças, secos/molhados
Bazar Friburguense - fazendas e armarinhos Américo Cardoso
CasaBalga - Confeitaria Balga
Farmácia Central -medicamentos Braulio S. Araújo
Farmácia Guaiiglia - medicamentos A Guaiiglia
Fannácia Btaurte - medicamentos Albeilo Braune
Casa Ideal - papelaria/livratia Olílio Cardoso
FONTE Arthnr Guimai ães, 0p rit, pp 01 4?
A Casa Vidal e o Bazar Friburguense eram as duas maior es lojas de comércio
local onde se transacionava desde alimentos, a louça e panos Ainda era muito comum a
existência desse tipo de es abelécimerito, onde produtos variados eram vendidos o que
atraia um maior número de compradores
287
--- [PDF página 306] ---
Os periódicos locais, referiam se quase sempre a Confeitaria Balga, local de
tradição nas iguarias c acepipes, de gr ande procura pela população e visitantes
Conforme Júlio Pompeu(^), na Rua General Argollo encontravam-se ediíicados
103 picdios e na Ptaça XV de Novembro, um total de 09 prédios, por ocasião du ano de
1910. Grande parte dos estabelecimentos comerciais estavam ai localizados. Geralmente
ao fundo das lojas de comércio situavam se as moradias dos proprietários, que nelas
viviam com sua respectivas famílias. Desse modo, a proximidade física entie o negócio e
família era um fato corrente. A atividade comercial situava se como uma extensão da
própria casa que por sua vez, apresentava-se como a, base sólida em que se apoiava os
negócios. Portanto, a rifrel de ocupação espacial da cidade de Nova Fubutgo
verificamos que aparte central, além dos palacetes — representação das elites rurais —
estabeleciam-se os comerciantes com suas lojas e moradias.
Com advento das indústrias em Nova Friburgo, a partir da 2‘ década do século
XX a paisagem da cidade sofreu interessantes alterações. Como já apresentamos no
capítulo anterior, as indústrias ocuparam espaços afastados, envolvendo como um
cinturão o centr o urbano municipal Eram gr andes construções com enormes chaminés
que passaram a sei incorporados a paisagem da cidade. O apito dessas fábricas,
demarcando os horários de entrada e saída dos operários, veio se incorporar também ao
cotidiano dos habitantes. As fábricas passam a exercer influência na marcação dos
horários dos que viviam na cidade A elite industrial de origem alemã construía sua
moradias nas pi oximidade: dos seus estabelecimentos irnJusti iais. Geralmente, ao lado ou
a frente dos grandes prédios fabris e separados por um pequeno jardim, situavam se as
casas dos industriais Os modelos arquitetônicos das casas dos empresários contrastavam
com os prédios da indústrias. Desse modo, embora diferente dos estabelecimentos
comer ciais onde loja e mc radia se misturavem, a presença do industrial comandante da
empresa era sentida pela edificação de sua moradia em realce naquela paisagem Casa e
288
--- [PDF página 307] ---
negócio não se tuisfutavatt como no coméido mas, a presença diligente do capital se
fazia sentir pelo conti dos edifícios, durante todo o tempo, por quem por ali passasse.
Ao longo das mudanças ocorridas em Nova Friburgo no período que estudamos
foi possível perceber a conjugação de esforços por paite das elites econômicas
comerciais e industriais — no sentido de contruirem mecanismos que os levassem a uma
liderança moral e intelectual na sociedade friburguense. Tratava se de uma unificação
de suas forças, a produção de discursos traduzindo normas sociais, em busca do
consentimento da população. À Construção da hegemonia!^) por paite dos gmpos
empresaiiàis, pode se’ - explicada inicialmente com a criação da Associação r urrei ciai de
Nova Friburgo, fundada ein dezembro de 1917. Os Estatutos da Associação^-) em seu
capítulo II intitulado: DOS SEUS FINS, no artigo 5!, expressa os piincipais objetivos da
entidade.
A Associação tem por fim :
a) representar em todos os sentidos prinripalmente perante os podei es
públicos epinto as associações congêneres as da«e< representadas pelos
seus sócios;
bj constituir-se defensora e cooper adota activa e consta,, poi todos os
meios hdtos e legaes ao seu alcance de tudo que possa concorrer para o
desenvolvimento, prosperidade e melhoramento dessas classes,
c) colligii; publicai e distribuir p nr quaisquer meios informações, dados
estatísticos, instruções etc. tendentes a estimular ou beneficiai as ditas
dasses.f.J"
A união de classes fica patente rro item d ., do mesmo ai ligo 5!, em defesa dos
interesses comuns aos membros da Associação:
2 8 9
--- [PDF página 308] ---
'... d) Reclamar de quem de dneito, sobre a necessidade que se verificar,
de redução ou abolição de impostos, fretes ou outros ônus, de modificação
ou anulação de leis aiinentes às ditas classes . "
Nos meios impresariais já se percebia o papel importante da Educação como meio
para se chegar ao consenso sodal, no que concerne a importância desses setores da
sociedade. Em dois itens do artigo ! > ! é possível verificar tal preocupação:
"... g) Promover pelos meios ao seu alcance, a difusão do ensino primário
nas zonas rurais e do secundai io na cidade de sua sede,
(...)
tu) Montar o ensino comer dal... dentio ou fora da Associação contei me
for m ais conveniente "
A Associação comercial de Nova Friburgo constituiu-se como um centro
aglutinador das elites econômicas do município. É a partir dela que verificamos, ao longo
de sua história, a criação de novas demandas que influenciarão nas decisíL. assumidas
pelos poderes públicos. A presença do empresariado alemão marcada pela implantação
da Companhia de Eletricidade e da indústria têxtil, é fortalecida com a chegada das
famílias de operários alemães em junho de 1921, em Nova Friburgo(^) Com objetivo
inicial de facilitar a integração desse novo contingente alemão à . realidade brasileira,
Julius Arp e M. Falck organizaram uma reunião na Contataria Bníga, em 18 do junho de
1921, surgindo daí a idéia de cnação da "DEUTSCHER SCIIUL - HMD
K1RCHENVEREIN" - - Sociedade Alemã de Escola e Culto(^)
Em recente est'/’o sobre a história da Sociedade Esportiva
Friburguense, Luiz Henrique da Silva(^) afirma que a Sociedade Alemã de E s r 1 e
Culto exerceu importante papel na aglutinação da população germânica radicada em
Nova Friburgo. Os principais objetivos da Sociedade Alemã foram assim traçados:
290
--- [PDF página 309] ---
' m i t r a aglutinador e difusor dá ailluià teufônica. um mitra com
funções leligiosás {para ofícios luteranosl educacionais e pedâgógicos
{escola, onde fossem ministradas disapliim regulares aos filhos de
operários, e as línguas portuguesa e alem ã), e, ainda, funcionasse como
um centro recreativo, social, esportivo, assistência! e cultural "b-il
Inegavelmente, «o analisarmos os objetivos da "Escola-Alemã" pode n
perceber a intenção no ser tido de ptnpagaçao e enraizamento da cultoi a e dos valor e s
germânicos em Mova Friburgo, necessáiios à consolidação do empresariado germânico
na cidade Nesse aspecto, os trabalhos voltados paia a educação, além da divulgação da
cultura alemã nos seus aspectos mais amplos, tinha também, o propósito de constmir um
ideal de respeito e disciplina para aqu eles ligados ao mundo do trabalho
Inicialmente a "Escola-Alemã" foi instalada no templo da comunidade, localizada
tia Piaça PaissanJu e em 1 * 1 2 4 , (oi transferida para sua sede própria no Caminho do
Reservatório, nas proximid ides do Rio Sto Antonio.(27)
As várias atividades culturais desenvolvidas pela entidade eram responsáveis
peia drnamização da cultura alemã e ainda, pela att ação de elementos brasileiros, que aos
poucos, ia sendo difund-1 * pel» população de Nova Ftibu. ..o
" A sede era o centro da difusão cultural e da preservação dos valores
tefyônicos Encenações teatrais reproduziam situações e nfstumes tijmis.
além de despertarem a saudade Nas testas, cânticos e orqnesttas, a s
emoções se avolumavam Nos bailes, a música ecoava pela madiugada e
convidava a dança alegre.
Alguns brasileiros foram aos poucos se apioxiinando Seduzidos
pela alegria ou pelas belas tranças louias das "fraunleine'' Também aos
poucos, foram incorporando parte do espirita germânico se interessando
por aqueles jogos diferentes, por aqueles hábitos 'estranhos' Diferentes e
sedutor es.
291
--- [PDF página 310] ---
Confinnd. se no texto, d inserção da cultor d alemã petú população Intuir gueuse, o
que tornava a 'Escola Alemã* um instrumento na construção da hegemonia industrial
germânica em todo o espaço municipal.
No mais amplo, a Associação Comercial de Nova Friburgo, e de forma mais
restrita a DEUTSCHER SCHUL- UND KIRCHENVEREIN, tiveram função impoiianto
e necessária no sentido dc construírem Btt Nova Friburgo uma concepção de vida
capitalista e alemã, que gradativamente, penetrava, alterando o modo de viver da
população.
Em termos espaciais, principalmente na década de 20, verificamos a presença das
'
elites através de suas casas seu* baitros espedfrcos, suas festas, seus liábitus, que se
faziam presentes ao longo da área urbana Em termos ideológicos, a presença das elites
— industris, comerciais, alemães — torna-se evidente pela construção de uma
mentalidade tipicamente européia, teptônica, identificada na modelagem de uma cidade,
orgulhosa de ser caracterizada como a "Suiça Brasileira".
3 - NOVA FRIBURGO: O E3FAÇO DA POBREZA
A existência da pobr sz^ro espaço urbano de Nova Friburgo ei a um fato sernpt o
destacado na Imprensa local Quase sempre o noticiário local afirmava a existência de
pobres perambulando pelas ruas e praças da cidade, o que gerava clamores no sentidoCoÁWo
d e v " tal situaçãol^J O espetáculo da pobreza era evidente no espaço urbano de
Nova Friburgo, como afirmava Arthur Guimarães, em 1916:
" O u l, a revista de mostia, fenana, é dos mendigos, piincipalmente < ros
sábados. Esm olam todo o dia Oiçam por dezenas, de ambos os u . > .
acompanhados os cegos por aeanças e guiadores, alguns com alberges,
para as esmolas em espéáe. Há como em toda a parte, a indústria da
2 9 2
--- [PDF página 311] ---
esmola. Aos sábados, um contingente de foi a, explora o veiai»'fi
Apareceu falsos mendigos, mesmo da terra.
A primeira revista, alegre, ruidosa A segunda, tiiste, grave
symptonia dessa enfermidade social, alarmante pelo argumento constante:
o paupensmo.
Orçam por cincoenta os mendigos de Fribmgo "(^)
É interessante notar a percepção por parte do Autor, da existência da pobreza,
da miséria como decorrência de uma enfermidade social. Por outro lado, a pobreza
tornava-se mais aparentes nos fins de semana, ocasiões em que aumentava a circulação
de turistas, o que possibilitava aos mendigos, a obtenção de suas esmolas.
Em maio de 1918, po: ocasião dos festejos comemorativos de Centenário do
Município, dentre outras festividades, as elites locais promovem "Almoço dos Pobres” ,
assim relatado pelo Jornal “A cidade de hiburgo":
‘ ALMOÇO DOS POBRES:
No dia 23 foi vffereado na alameda dos eucafyptus, pelas fam ílias
fiiburguenses, um almoço, a m ais de 130pobres.
Essa parte dos festejos do nosso centenário, foi a m ais L mite por
revelai■ a caridade dos corações fiiburguenses que. mesmo no reboliço c
esplendores da festa, não se esqueceram dos que mendigam o pâo de
cada dia, debaixo dos olhos e Omnipotencia Divina
O Dr. Rio Apa. promotor público da comarca, num a brilhante
oração, offereceu o almoço, em nome das famílias friburguenses. Ü Sr.
Amando Negreiros mm disi curso que foi um a verdadeira obra de arte.
agradeceu em nome dos pobres desta terra o banquete que lhes foi
offetecido. For ultimo f ’ju Mon^nhor M iranda, nosso distincto parodio
que bastante commovido. abençoou os organizado/es desta festa de
caridade.
Acspobres o Cinema Leal offereceu um a sessáo gratuita logo em
seguida ao almouço " 1 3tf
W
--- [PDF página 312] ---
Como vemos noticiado em 1915 o número aumentara para 135, conforme
presença anotada no almoço efevecido aos pobres de Nova Friburgo. Interessante é
ainda, ressaltar que no evento não faltaram os discursos do promotor da comarca, do
vigário da Paróquia como também, o discurso de agradecimento de um representante da
pobreza. Não resta dúvida que amoi.iagem do evento significa o reconhecimento por
parte das elfites municipais, la existência da pobreza em Nova Friburgo, merecedora de
um almoço, de vários discrui sos e ainda, de uma sessão gratuita de cinema.
No interior desse mundo miserável não faltavam certos tipos, denotando
evi d e n te loucura, que ci eulavam constaiiterrtente pelas íuas da cidade. Os bancos
serviam par a as brincadeir as e galhofas da população, especiatmente dos mais jovens:
“ Não faltam os tftics de rua. Alguns gosm popularidade. A gaiotada
persegue-os e, a mido, lhes faz partidas. O Seraphim, por exemplo\ é
doido inoffensivo. Perambula peda cidade, provocando a galhofa dos
inconscientes.
A região mais miserável da cidade localizava se nas proximidades da Rua
Visconde do Bom Retiro, situada ao lado esquerdo da estação ferroviária. A Leopoldina
Raillway estabelecia-se corro um divisor de águas entre riqueza e pobreza Ao lado
direito, estendia-se a t ua Gen. Argollo, artéria de ligação com a Praça XV de Novembr o,
onde estabeleciam-se as principais lojas e moradias dos maiores comerciantes da cidade.
Ao lado esquerdo, estendia-se a rua Visconde do Bom Retiro, de onde saiam becos e
ruelas, ocupadas por habitações de famílias miseráveis. Ironicamente, era nessa parte da
cidade que fora instalado o Cemitério Público Municipal. As moradias em j ' imas
condições, a proliferação de habitações coletivas, a existência de cortiços eram fatos
correntes nesse lado da (idade. O pauperismo associado naluralmente, as péssimas
condições das habitações:
2 9 4
--- [PDF página 313] ---
"Tendo-me occupado dás iniciativas da leu a , é azado o momento de dizei
acerca de seus elementos improductivos, os 'bas fonds ' fiiburguenses. For
ali, praticamente, se < valiam a extensão e a profundeza do pauperismo
existente nas localidades do interior. Nem a vida fácil, pela achega de
alimentos obtidos quesi sem esforço e sem dispendw, por plantações e
outros meios, nem o preenchimento de necessidades imperiosas, com
vestir e outras dá < ? essa gente, habituada a promiscuidade dos cortiços.
das casinhas sem tubagem e, poi tanto, sem ar e sem luz — actividades e
estimulo. " (3 'V
Ao mesmo tempo, o Autor relaciona a miséria com a ociosidade, sendo esta a
razão principal do problema;
"Permanecem na oaosidade. fazem o soalheiro nas portadas. Cencidos
peloparasitismo, entregues àproximidade. Em cada vinte, só um trabalha,
tembora todos se aptcm estenlmente, nas noitadas de violão e sambas
característicos ou. ainda, nas conversas das vendinhas. ’ P'-)
fira nesta região miserável da cidade, onde se instalava o ócio é que podemos
encontrar a musica, e o violão tocado noite a dentro.
fixatamente, na confluência das ruas Gen Argolio e Visconde de Bom Retiro fora
criado uma pequena rua onde se estabeleceram as oficinas de consertos rios trens da
Leopoldina RailKvay. Iniciámente, chamado de "Bcco da Oficina", essa rua era um
espaço de giande circulação de operários da e m p ^ a ferroviária Mais tarde no tocai,
foram construidas algumas cisas, estabelecendo ai a zona de prostituição De "Beco das
Oficinas", o local passa a se: reconhecido pela população friburgueme, como "Roa da
Alegria".
"Perpendicular ao encontro da Visconde do Bom Retiro com a Albeito
Braune (General Argolio), havia em direção a Leste, rma rua estrita
chamada Gonçalves Dias, conhecida popularmente como Beco da Oficina.
Como alt funcionar a a zona de meretrício / as crianças em suas idas e
2f t$
--- [PDF página 314] ---
vindas, tinham ordem de não olhar para entrada do local, onde as
mulheres costumavam parar com vistosos robes de cetim
Várias derífininações foram conferidas á pequena rua - rua Gonçalves Dias.
Deco da Oficina, Rua da Alegria — e a esquina defronte a referida rua, a população
costumava chamá-la de "Esquina do Pecado".
É interessante notar que no imaginário da população, as concepções acerca
daquele local vinham carregados de ceita moralidade, mas ao mesmo tempo, imbuídas
também de enorme fantasia. Alegria e pecado — termos apater 'emente opostos ...era
como a população de Nova Ftiburgo ccrrcebia em sua imaginação, o pequeno espaço
ocupado pelos operários da oficina e pela prostituição.
A população operária habitave inicialmente, até a implantação das indústrias
alemães, a região da Vilage, próxima a rua Santos Dutnond e a estrada para Cantagalo
Assim Arthur Guimarães relata sua existência:
"H á um bairro operário, o Village de Cantagalo. N'ello reina a maior
ordem entre as fam ílias, não li :ndo exemplos de rixas. A paz é só
interrompida pela garotada a •egai footbal! na Praça 1' de M arço.
Quantas pessoas em média, habitam cada casar Dez. sendo os extr emos
seis e vinte. Pelo regimen cotmmmano, só um . o chefe, tr abalha para
todos, com ratas excepções. Í ‘l’ J
Quanto a alimentação da população operária, o mesmo Autor assim refere:
“ Qual a alimentação? As fam ílias medianas pobres, têm o seguinte: feijão,
canjrqumha(milhopmado), angu, couve, batatas, aipim , mhame, carne,, ,a
(nem todas) e café com pão.
Com o processo de incustriabzação ocorrido com a implantação das empresas
alemãs, trovas localidades operárias irão surgir, como já comentamos no capítulo anterior
2%
--- [PDF página 315] ---
Além da Village, as localidade de Olaria, Perissê, Lagoinha, próximos às indústrias,
começam a sei ocupada; por trabalhadores operários.
O crescimento do número de operários das indústrias e a consequente ampliação
da demanda por habitações eram temas responsáveis por novas preocupações do poder
público. Na 2! década deste século, por exemplo, podemos perceber que o •” unt0
moradia para os operários tornou-se um dos elementos de atenção da Cama; Municipal
que estabelece incentivos pai a a construção de moradias populares:
”4 Câm ara Municipalde Nuv-. triburgo resolve:
Al t. - fiem isentos do pagamento de impostos de 10- urbana as V ilas
Operárias que se edificarem até dezembro de 19tá de acordo com as
plantas e condições torneadas pela municipalidade,
Alt 2! -A disposição das cazas nas Idas, será sempre que for possível
orientada, de modo a: habitações serem lavadas pelo sol e corrente de
Art. 3! - O valor loeativo de cada caza não podei á exced~r i e m i l
réis mensais;
Alt 4' - terão preferência na aquisição de tenenos foi erros aqueles que
se comprometerem a effeito a construção da referida Vila Y -’ç/
Como vemos por esta Resolução, o poder púb*’ v o municipal já em 1913
demonstrava preocupação com a construção de moradias operárias. Ficava evidente
• í \porém, o incetivo ao setor privado que obteria iíiseção de impostos da ltt- urbana caso
efetivasse tais construções. Por outro lado, o Poder Público não abria mão de sua
presença, traçando normas e condições pra efetivação das edificações.
Em período posterior, durante o governo municipal de Dr. Gustavo Liia, a
preocupação com habitações op > r árias, continuava na planta do podei municipal.
Vejamos a Resolução n! 61, de 29 dc março de 1921, assinada pelo Piefeito(^)
29?
--- [PDF página 316] ---
V povo do Município de Nova Fnburgo. por seua representantes m
Camaia M unicipal, vete: r eu sanciono a seguinte resolução:
Alt - Fica a Piefeiüra Municipalautousada a conceder licença paia a
construção de casas para operários sob as seguintes condições .
a) essas casas ser ão constr uídas em grupos de $ no m áxim o, isoladas
completamente entre si por paredes de tijolos, até a cunieén a . por pai edes
de 0,25 de espessura, b) com 2 ou 2 cômodos de 9 metí os quadrados cada
um , além da cr-nha de 2.00 medos por 1.50 no m ínim o. (...) f) as
instalações sanitárias, banheiros e lavatórios deverão ser na proporção
m ínim a de 1 para 4 casas, gl as construções desse gênero seião permitidas,
mesmo nos limites do perímetio urbana, porém afastados das n r' p " >
terrenos am plos, secos e depronumundada dechvidade... ‘
Câmara Municipal 3 Prefeitura se colocavam como incentivadores das
construções de casas para atender à população operária, em crescimento na cidade.
Ficava evidente a autorização paia as construções etn giupos de casas, o que
provavelmente baratearia os custos. Ressalte-^e também, a permissão para que se
contruisse habitações conjuntas com instalações saniláiias de uso coletivo — banlieii os o
sanitários poderíam ser construídos na base de 1 paia conjunto de 4 casas. Era o piúptin
poder público incentivandr < , construção de cortiços em atendimento às famílias
operarias. Inegavelmente, esta medida expressava o seu atendimento sobie as
necessidades habitacionais des populações mais carentes.
As condições de vida du opetaiiado nas (ábiicas de Nova Fiibiugo eiam de
gtande precariedade. No úl imo capítulo de sua disseilação de mestrado!**1 ), intitulado
O liabalho e a fabrica", Heloísa D. üerzedelu Corrêa relata nos as condições difíceis
dos operários friburguenses no qeujie tange aos baixos saláiios, horáiios extensos da
jornada de tr abalho e disciplina fé” ea imposta a esses ti abalhadores.
--- [PDF página 317] ---
Sobre a situação saktial, a Autora nos revela que o empresariado instalado em
Nova Fiiburgo remunerava seus ti aba" adores com quairtias inferiores àquelas pagas
aos trabalhadores rurais:
“ Redimem? o H ilário industr ial que se impôs, em Nova Fíiburgo, em 1911.
era extremamente baixo., menor inclusive do (que aquele pago aos
trabalhadores rurais Fm Cantagalo, por < ... pio, estes percebiam de
3$B00 a 3,9500por dia a seco, enquanto o salário médio industrial oscilava
entre 1,9500 a 0,9000 diários (...) Tal remuneração pendurou até 1919,
apesar da inflação existente! nos anos de guerra... " i • II
Comparando com o nível salarial do restante do país a mesma Autora aíirnra:
" os salários industrias médios de Nova Fíiburgo estavam doados l / e m
abaixo daqueles referentes à Capital Federal. São Paulo e eram mesmo
inferiores , à média do Brasil f ^ 7
É tnegavel que a existência de baixas remunerações efetuados pelo
empresarrado asuaíorçade trabalho em Nova Fíiburgo estava associado a existência, de
uma grande exército d r e;erva de mão de obra, fruto principahnerite do êxodo rural.
For outro lado, verificava-se a utilização de uma relativa massa de trabalhadores do sexo
feminino assim como, grande continente de crianças Np<sp quadro, percebemos que a
oferta de mão de obra ?o mercado de * ah alho friburguense, somado à inenutcnria de
leis que protegessem a força de trabalho podemos entender as razoes explicativas dessa
situação
A questão de superexploração óa força de trabalho associava-se também, a .
extensa jornada diária, sem contar ainda com os acrésimns de horas -exli as:
14 detenorizaçâd da vida operária era, então, m aior, porque além dos
baixos salários c., . ntes • as extensas jornadas de tr abalho, de 10 à 11
horas, acrescidos muitas vezes, de 'serão'. "H P
--- [PDF página 318] ---
A opção pelo 'ser3o', que significava acréscimo substanciais, na jornada diária de
trabalho, representava para o trabalhador a única opção de elevação dos seus minguados
rendimentos.
As condições internas nas fábricas eram também de grande pt ecai iedade
" A s próprias condições de trabalho em Nova Fnburgo eram m uito
precárias, As oficinas caracterizavam pela falta de luz. at e higiene (h
operários permaniaam em pé durante todo o tempo — em salas fechadas ,
ladrilhadas, frias e cheias de gazes Náo usavam lu rs, nem máscaras de
proteção adoecendo constantemente... A própria arquitetura habitua! das
fápricas... com paredes elevadas e janelas abertas no alto, inp^^do o
arjamento, m as, também , a visão do exterior, fazia parte dos mecanismos
de exploração do tr abalho facilitando a observação e a vigilância. "H V
A disciplina rígida da trabalho era um Itaço marcanlef das normas impostas aos
operários das fábricas fribur guenses. 0 cunlrole se fazia solie os municípios oeslus dos
trbalhadores evitando qualquer desvio que resultasse em prejuízos par a o capital:
" E ra proibido fum ar, conversar durante a hora do alue tom ai
cafezinho no hoiãtio do expediente podería significar um a dispensa 0
controle da fábrica atingia até mesmo a ida ao banheiro onde as poilas de
meia altura visavam denunciar os fumantes aos rígidos fiscahzadores. Além
do m ais. eia-lhe necessáiio se fazei acompanhai de um a identificação,
pequena tábua p ie fa que gaiantia a alter m ia e inexistência de possíveis
conversas no horário de ti abalho. 1^1
Como podemos concluir, a vida no interior da fabrica acontecia dentro de um
quadro de extrema rigidez. Fora da fábrica a situação não era tão diferente. Moradias
precárias, baixos salários e alimentos caros tornavam a vida do trabalhador ftibuiguense
ura cotidiano beirando ao insuportável Alguns fatos permite n o s comprovar a reação dos
trabalhadores frente a esse quadro de exploração profunda.
--- [PDF página 319] ---
3 . 1 - N O V A F R I B U R G O . O T R A B A L H A D O R R E A G E
Ao longo desta dissertação tentamo< mostrar como a adade de Nova Friburgo
solieu um processo de reordenamerito, a partir da consolidação de seu papel de centro
comerctal a princípio e, mais tarde, aparlir do ptocesso industrial nela despuvolvrdo Sem
dúvida, apoiamo-nos no pressuposto que o município vivenciou, prindpalmente apos
1911, um processo de gr adativa inserção no sistema de produção capita,ista. Indústria e
cidade são elementos que se completam nesse process, onde o poder do capital
organizou estratégias, dentro e fora da fábrica, para o controle da força de trabalho.
Desse tttodo, não podemos d errar de reconhecer que não só através da disciplina
imposta no espaço interno fabril inas também, através do direcionamento e organização
do espaço urbano, é possível perceber o papel determinante do capital.
Por outro lado, devemos também reconhecer que a força de trabalho disponível
na cidade não se constituiu em total apatia frente aos mecanismos de dominaçao do
capital. Às estratégias de dominação do capital, correspondiam quase sempre, reações da
força de trabalho. A luta se tra/ava no cotidiano dos indivíduos, expiessando-se das
formas mais variadas. Tratava-se de um movimento social constante que também ve seu
papel na modelagem do espaço - ocial friburguense(^).
Desde fins do século XIX, após a criação do ramal serrano da Estrada de Feno
Leopoldina Railtway podemos observar uma maior circulação dos operários desta
empresa no espaço de Nova Friburgo. Além de maquinistas, foguistas, bilheteiros
verificamos também, operáiios do setor de conservação dos trens, já que em Nova
Friburgo instalara-se oficina ruspon '■ vel por consertos e manutenção das maquinas,
carros e linhas da ferrovia. O; operários responsáveis pelas tarefas acima citadas, em
1893 irão criar a Soei dade Benefidente Humanitária dos Operáiio< 1SRHO) de Nova
301
--- [PDF página 320] ---
Fiiburgo, cujo caráter centrava se na instalação de um projeto assistentialista, de ajuda
aos membros fi,: 'os a ela. Em1 í u disarrso corr emorativo do 31* aniversário desta
entidade, o seu piesidente assim definia as funções ia Sociedade Humanitária:
“ ... Sociedades como esto que se destinam a levar ao leito do sódo
enfermo.\ o auxilio pai a o seu tratamento e anda outros fins philanlrópicos,
uu ecem de especial cai inho de todos aqueles que se interessem pelo seu
pi egresso, paia que possa cada vez m ais se destacar dentre seus
congêneres.. j^O
Pela definição de seu Presidente, podemos concluir sobre o caráter mutualista da
Sociedade Humanitária, onde a ajuda aos seu sócios, as finalidades filantrópicas tornaram
a sua pi ópna razão de ser. a sua criação ocon eu a partir desses objetivos, que não foram
alterados ao longo de sua trajetória histórica.
Em 1926, por ocasião da posse de seu 3 * mandato, o presidente da Sociedade Sr.
João Mouraresumiaum pouco dahistória da entidade:
"... Fundada em 03/03/1983por iniciativa de alguns operários amigos da
classe, trataram eles atravez de maiores difícudades, de adquirir um
terreno onde sei iam assentadas as primeiras pedras, sobre cuja bases iam
sei erguidas as paredes de seu humilde templo. "W
Prosseguindo em sua alocução, o Presidente relata a existência de uma dissenção
U i ina, provocando a separação entre alguns componentes da entidade:
" em junho desse mesmo ano quando se desab. achava na alm a desse
punhado de operários probos um a viva té pela realização de sua obra um
ligeiro incidente se verificou: alguns outros operários, descontentes pelo
tato de nao permitir a m aioria de seus companheiros que se transferisse
para a capital do nosso Estado a sede oesta sociedade, como era seu
intento, porque se afastava assim dos fins ’ ssa instituição, fundaram eles
382
--- [PDF página 321] ---
um a outià sociedade congênere em Peito Novo do Cunha. Estado de
M inas Gerais ; d-, minada 18 de julho'. 'H -V
Era 1900 foi aprovaca p"la assembléia Geral dos Sócios a Lei Orgânica da
entidade entrando em vigor a partir do ano de 190 H-'1 1 ) As preocupações mutnalrstas ir ão
se acentuar após a doação à e;.'.idade, feita por um sódo, de grande terreno onde se
edificaria, um conjunto de casas que seriam alugadas aos sócios:
" E m outubro de 1901, pelo saudoso Manuel José Rodrigues Sobrinho foi
feita a doação de u m terreno corrtiguo a nossa sedt representando um
donativo de grande vulto para esta associação. Teuuo sido condiciona!
essa doação isto e, para que se construíssem no terreno casas de pequeno
aluguel para serem ocupadas por pessoas menos favorecidas da sorte,
ficava tolhido o direito desta sociedade utiliza to de modo m ais proveitoso
pata seus cofres. í ‘ ‘\
A sede da Sociedace situava-se na rua D Umbelina, localizada entre a . rua
General Argollo e a Avenida Nova Friburgo. No amplo terreno recebido através da
doação condicional, conforrre o relato do Presidente João Moura, em 1923 foi iniciada a .
ronstroção das casas que 'ririam a atender ac necessidades do moradia de algu m as
famítias operárias:
" E m 02 de agosto de 192J tm contraído por esta sociedade um enq no
de 10 contos de réis, com garantia hipotecaria que. adicionado a
importância de 17 contos de réis m ais ou menos existentes ha Caixa
Econômica Federal foram empregados na construção de 2 prédios
existentes que nesse mesmo ano ficaram concluídos.
Consolidava-se assim, o caráter beneficente e mutualista da Sociedade
H um anitária E m nenhum itiom eiC o pudem os perceber, esta entidade cam inhando em
CP ,
direção que não fosse a da ajuda filantrópica de seus filiados. N os m om entos de conflito.
--- [PDF página 322] ---
de explicitação da luta òe classes, nos greves que colocavemem confronto direto patiões
e empregados, a Sociedade Humanitária jamais se fez presente através de seus
dirigentes ou mesmo, de algun dircurso em favor do operariado friburguense. O máximo
que pudemos verificar, aconteceu por ocasião da Greve Oper ária de l'Õ0, quando rara
sede fora emprestada para que se realizassem as assembléias operárias.
O caminho percorrido pela Sociedade Beneficente Humanitária do Operários de
Nova Friburgo fora traçado, com r égua e compasso, na direção do mutualismo e da
filantropia, sem jamais quesionar as relações de trabalho capitalista Todavia, sua
presença se fazia sentir sempre que a enfermidade atingia a um dos sócios ou a algum de
seus familiares couro também, na preocupação de manto los amparados, com a construção
de moradias.
O movimento social em Nova Fribur go tornava se mais explícito por ocasião de
alguns acontecimentos como greves, meetinga, quebra-quebras, manifestações A
Imprensa local registra em vários momentos a ocorrência de tais fatos, alguns aconfer idos
mesmo anteriormetite ao processo de industrialização, quando ainda percebemos um
reduzido número de empresas. Não nos preocupamos em registrar nesse trabalho, os
movimentos grevistas ocorridos na Estrada de Feno Leopoldina Raillway por
considerarmos que suas origens assentavam se na Capital do Estado, tornando a gravo
em Nova Fribur go, quase sempre uma extensão dos movimentos grevistas que
paralizararn as atividades da Eshada de Ferro nesse período de nosso estudo embora,
não tenhamos intenção de pcrmenorizá-los.
Podemos constatar ainda, que os movimentos acontecidos nas empresas
fribur onses giraram em torno de questões salariais, o que nos permito observar que
uma das conclusões feitas ror Serdezello Corrêa 6 bastante pertinente "Eur Nr va
Friburgo, os salários pagos aos tubalhadores livres situavam se abaixo daqueles pagos
por outras empresas existentes em outras regiões do Brasil." Pot outro lado, é também
possível concluir que o período por nós estudado situa se num momento de inserção
304
--- [PDF página 323] ---
capitalista, onde a luta entie capital e trabalho se fazia acontecer em todo deconer desta
enserção.
Ainda quando o processo opitalista industrial acontecia de forma bastante lenta,
em princípios do ano de 1891, anotamos a seguinte notícia publicada no Jornal "O
fiiburguense":
" G reve PadficA
U m giupo numeroso de operários de diversas classes cone» as ruas desta
ddade, na manha do dia 2 do corrente, erguendo vivas à classe operária e
«o trabalho livre. Í$-V
As reivindicações situavam-se em torno de regularização das formas de pagamento de
seus sócios.
" ... solidtaram mudanças ao systoma adoptado há muito tempo por alguns
mestres de obra aopcgaretn os seos salários só mente nos fii de trimestre
e as vezes depois do vencidos quatr o mezes, e pedindo para que taes
pagamentos se relisem mensalmente, como praticam outr os mesties. Iisse
procedimento dos operários deu lhes « r conhecer o caminho a seguirem e
quaes os honram a sua classe. Em toda essa emergência, a autoridade
policialportou-se com muitapadência 'ft o
É interessante notar nesse movimento em primeiro lugar, a presença dos mesties
de obras, responsabilizados por pagarem os salários de seus operários, ale mesmo de
quatro em quatro meses. O confronto se estabelecia entre os operários, ao buscarem as
soluções de seus problemas. Em última instância."O Friburguense" registrava a presença
policial mobilizada para controlar o movimento, portando s e "com muita paciência" A
greve era inegavelmente, elemento no^na história do município, )« que a escr avidão
havia sido extinta, há «pena; 3 anos. A presença pnhcial demostra-nos o início de uma
305
--- [PDF página 324] ---
concepção, comum durante toda a República Velha, que entendia a questão social como
"caso de polícia”.
Em princípios do ano de 1900, o Jornal "O Sentinela* relata os acontecimentos
ocorridos na cidade em torno da questão da Estrade de Fano(55). O movimento ocorreu
quando manifestantes se dirigiram à estação, realizando um protesto contra os altos
pregos dos fretes O conflito estabeleceu-se quando a guarda ferroviária com o apoio da
c/apolí municipal, tentou frear a entrada dos manifestantes na estação de Nova Friburgo.
Os manifestantes avançaram pelo interior da estação, destruindo alguns compartimentos,
quebrando vidros. A chegada do destacamento policial não conseguiu impedir a
continuidade das destrui ,‘ies, ocorrendo até mesmo, um ataque da multidão ao Delegado
de Polícia, Galleano das Neves Júnior que saiu com alguns ferimentos. Nos dias que se
seguiram, prerisamente 1 !, 2!, 3! de abril verificou-se a extensão dos conflitos pelas
estações de Conselheiro Paulino, Rio Grande atingindo até mesmo os municípios de Bom
Jardim e Cantagalo{$6).
Após 3 dias de caos onde verificamos as dificuldades de um maior controle por
parte das forças policiais, a empresa ferroviária publicou uma nota revisando os preços
de suas tarifas, possibilitando assim, um arrefecimento dos conditos. Os vários lances que
fizeram parte desse evento refleti^cV certa animosidade da população da região
em relação a esc da de ferro. Desse modo, os conflitos revelaram muito m iais, um
movimento com cai acterísticas expontaneistas do que propriamente, um fato, resultado de
uma preparação prévia que demandasse maiores articulações entre seus participantes.
A partir da segunda década do nosso século, com a implantação das indústrias de
maior porte, com maior concentração de operários conseguimos perceber que os
movimentos que se formam passaram a ter um conteúdo massivo mais evidente, ao mesmo
tempo que acentuava-se a relação entre os salários pagos pelas empresas e o custo de
vida. Por outro lado, o movimento operário em formação ria cidade de Nova Friburgo
demonstrava algumas limitações principalmente, no que diziarespeito a sua organização
306
--- [PDF página 325] ---
interna. Em Nova Friburgo o operai is\do surgia, crescia paraleiamente «o surgimento o
crescimento das indústrias n as, nao possuía ainda, uma organização capar, de conduzir
os movimentos de classe. A Sociedade Ilumanitáiia existente desde 1033, mantinha se
presa a seus preceitos iniciais de cunho mutualista. O Sindicato em ente será criado a
partir da década de 30, em outra etapa da história da organização do operariado
friburguetrse. Sendo assim, os movimentos nao possuíam esti atégias de lutas muito dar as,
ptedcminando forte conteúdo expontaneístico, • Esta situação permitia a
manipulação dos movimentos ” °r parte de lideranças extr a classe, que os conduzam por
caminhos nem sempre próprios aos interesses do operariado
Em agosto de 1918, o Jornal “Cidade de Friburgo" publicava a matéria intitulada
“Echos do Meeting", relatando um movimento contra a cai estia de vida:
"Conforme um boletim que foi distribuído nesta adule realizou-se na
últim a segunda-feira um meeting conti a a carestia de vida. As lli horas
compareceu o Dr. Doniíkio Figueiredo e, como o disse, delegado do
povo, proferiu em discurso arjo final foi o pedido de ire n r todos os
presentes às fábricas Ar p e Ypu afim de pedirem aos gerentes das mesmas
augmentos de salários 7
Em seguida, prossegue o relato sobre as negociações efetuadas nas portas das
fábricas:
"... U m grupo de populares juntamente com m uitas avanças curiosas,
tendo à frente o Dr. Bonifácio Figueiredo foi até a Fábrica Arp, arjo
portão for forçado. Chamado o Sr. ffappel. gerente da mesma talou o D r
Bonifácio pedindo augnwnto de salários. Respondeu o Sr gáppel que o
Sr. Arp já havia feitr a 2 meses passados, um augnwnto, porém, transm itiría
a seu chefe o pedido que acabava de lhe ser feito V ( V
A continuação rio relato le/ola lances curiosos, rçn an rin ria chegaria rios m anifestantes na
Fábrica Ypu:
38?Prefeitura d» f ova Friburgo
Secrataria (e ultufj
1 »n o « • 0 » 'u m fin t« çâ #
H in ó ric a - Pró M a m ó ri*
--- [PDF página 326] ---
"... Desta fábrica o grupo foiãté a Ypu, fazendo grande bulha ao se
aproximar dando em resultado alguns desmaios de opeiariàs que
julgavam ser um assalto ... Depois d. visita às fabricas, foi entregue um
abaixo assinado, do pessoas que não trabalhavam nas m esm as, pedindo
aiigmento de salários. “ fity
Pelo que vemos, ao invés de manifestações de apoio na Fabrica You, o
movimento teria gerado pavor, a ponto de algumas operarias desmaiarem com medo de
assalto. Por outro lado, resultado do movimento foi bastante tímido, ocorrendo apenas a
assinatura de abaixo-assinado contendo u,, licações relacionadas a possíveis
aumentos de salários.
Em 1 6 de março de 1 9 2 1 ) explode uma greve nas fábricas Arp e Ypu, constituindo-
se num dos movimentos, mais importantes no período que estudamos. O início da greve
ocorreu por ocasião da dispensa de trabalhadores que reivindicavam melhorias salariais,
assim relatado na primeira página do Jornal T ^ d e de Ftiburgo". com a seguinte
manchete: “A Greve Geral dos Operários das fábricas de piopiedade de M . Sinjen e
Conip. e M. Falck e Comp".
“ Eia inevitável a insurreição cuja exploçao, afinal se verificou no
momento em que o gerente, um alemão da fábrica dos Srs. M . Falck num
gesto de brutalidade, colérico despedia alguns menores que a elle se
dirigiram com um a solicitação de melhoria de salário.Interronpidos alti
subitamente todos os trabalhadores, sahiram os pobres-obreiros, um a
grande m assa de crianças, mulheres e hemense, com destino a fábrica
Aip. afim de obterem a solidariedade dos seus companheiros de infortúnio
desse outro estabelecimento... ÍÍ > ! V
A imediata adesão dos operários da fábrica Arp possibilitou a formação de uma
gi ande passeata que se dirigiu ao centro da adad ?, onde se realizou uma manifestação
com vários discuisos proferidos pelas principais lideranças.
308
--- [PDF página 327] ---
Após a realização de uma assembléia na sede da Sociedade Ilumaniláiia. foi
publicado um panfleto explicativo do movimento, contendo a s principais reivindicações.
A reprodução desse panfleto nos permite perceber a; dimensões do problema assim
como, a situação em qu„ >o encontrava o operariado íribur guense:
‘ Boletim dos O; ?xmi'íátt Fábricas M . FalckAJZAlLSiiWLeSi ao
público.
Os operários que assignaiam o presente boletim, representando todos os
seus companheiros, homens, mulheres e aianças, que tiabalham nas
fábricas M . Faleis e C e que se encontram em greve , mal pacífica, tem
todo o empenho em despertar a attenção pública para os motivos que
determinaram o seu movimento de pudestes, muito embora ihes pareçam
m ais que notóiMs, m ais que evidentes, estes motivos, de um a notoriedade,
de um a evidência, q nunca lhes deixaram sem apoio, sem solidai ted- ' 1
d'aquelles que sabem sentir com honestidade, que sabem ter
respo,..mbitidàdc.
Debalde tem os operários apetlado para os sentimentos de
bondade dos seus patrões. Files nada ouvem, tomam se ao contrai io, m ais
opressores, fazem maiores as suas impnrições. Eisso ao mesmo tempo que
proporcionam todas regalias aos seus patrícios allemáes. os quaes sáo
pagos m ais que generosamente. Dirse-ia que reservam para estes aqinlto
que injustamente subtraem aos operários brasileiros. M as, basta salientar
que nós todos, ti abatíamos m ais de 10 horas, sem extraordinários, tendo as
mutheies saláiios insuficientíssimos, que variam de 1 0 0 a 0 0 0 0 . nunca
excedendo desta quantia, já tão mesquinha. As crianças sotiem as m esm a
injustiça. Não ganham m ais que 1 0 0 sendo que a maior parle da
multidão de pefquenos, com serviços de m ais de 10 horas percebe o
mísero salário de 1 0 0. Epetas faltas m ínim as recebem sobie elles m ultas
absurdas. A situação do operai io a ’»lto tem , do mesmo m odo, esses
aspectos de desampaio.
Mugem os nossos patrões impmemente os regulamentos oficiais .
Fazem o que bem entendem sem que sejam reprimidos nos seus intuitos
cegos, egoístas, de turnos fabulosos.
São estes os motivos da gieve. Ela significa a infelicidade. < i
desventura, a miséria moral a que estamos deshmnammente reduzidos
3 0 9
--- [PDF página 328] ---
No vá F i ibuigo, 17 de nwço de 1920 - Alfredo M . de Oliveiiá.
Ai tinir Qvz, Anseh w Boimy, Eduardo de Cm velho. Robei to dá fílveíi < >
lemos, Antonio Tevceiià V'll
Percebemos no panfleto acima reproduzido, as razões principais que lev " •" os
operários das fábricas Arp e Ypu a decretarem o movimento grevista. Em primeiro lugar,
observamos que as fábricas eram responsáveis pelo pagamento de baixos salários aos
trabalhadores em geral e, particularmente aos componentes femininos e infantis de sua
mão de obra. A utilização ds mulheres e crianças em escalas considet áveis, já havia sido
ressaltado por Heloisa B. Serzedello Corrêa e no momento da greve frea bastante
evidente, quando das denúncias de baixos salários, contidos no panfleto explicativo d»
movimento. A jornada de trabalho, com base nas 18 horas diárias e ainda com a exigência
quase sempre, de acréscimos no horário é outra denúncia percebida no documento que
expressa a exploração do trabalho nas principais empresas de Nova Friburgo. Podemos
imaginar que pelo fato das fábricas Arp e Ypu serem as duas tumores empresas de Nova
Friburgo, possivelmente as formas de exploração do trabalho nelas implantadas, ' riam
servir de exemplo para as outras menores empresas existentes na cidade. Por o u t r o tido,
fiJ 'exploração e discíplirtCzação do trabalho tornavam evidentes, ao percebermos as
denúncias quanto às multa: constantemente impostas aos operários. Os baixos salários e
ainda as subtrações decorrentes das multas tornavam dramática a situação dos
empregados das fábneas em Nova Friburgo.
Um elemento típico da situação do operário íriburguense era ti atamento especial
dado aos trabalhadores da origem germânica. A denúncia quanto ao pagamento de
salários mais elevados aos Tabalhadores alemães demostra a existência do um tratamento
diferenciado aos operário:- estrangeiros. Tal tr atamento provocava inegavelmente uma
divisão no inteiior d aío rçi do trabalho o que propiciava ao capital melhores condições
c!o8 dominação. Acreditamos ainda, que a implementação desta estratégia tornava mais
fácil aos empresários alemães, construírem sua hegemonia no espaço municipal
3 1 0
--- [PDF página 329] ---
fribut guense já, que a possível luta de classes podei ia sei esvaziada pui uma questão
de nacionalidade. Em suma, o operariado alemão possivelmente alinhava se junto aos
empresários germânicos contra os trabalhadores nacionais, no momento de conflito
explícito. Na lista de opeiários que assinam o panfleto em nome dos grevistas noo consta
um nome sequer de origem alemã, induzindo-nos a concluir que os ti bali calmes alemães
ficavam à margem do movimento
Um dia após o início da 7ove, reunidos em assembléia na sede da 1 ' '«d •
Humanitária, os operários estabelecei ama lista se suas principais reivindicações:
Eis 0 que reclamamos:
a) 50%de augmentopar a os nossos salátios em gei d,
b) equiparação dos vencimentos dos opeiários nadonais uso dos
estr angeiros de eyual categoria,
c) dia de $ bot as de ti abalho,
d) as horas excedentes pagas como extraordinárias;
ejoü abalho exir aoi diráno à noite pago < i 1 azSo do dobr 0 do diui no.
f) almoço às 10 horas /V í m inutos para 0 almoço) e café a 1 boia (10
minutos pata 0 café)
g) modificação do tegiuen disciplinar, com a ahohçào das penas in/iistas.
b) não pagai em os operários < 1 linha e agulhas que casualmente
danificarem;
i) liberdade da escolha do médico e da pbantráda paia 0 tratamento por
conta da Caixa Beneficente de que somos contribuintes,
i)garantia de trabalho effestnv. e só ser tomada a medida de exoneração
de operários por falta verificada em inquérito em que funcionem, além de
representante electivc dos operários;
31!
--- [PDF página 330] ---
k) admissão ao trabalho de todos os opemios em greve,
II pagamento dos dias da presente greve ... Í^J
A resposta proferida pelos dirigentes das empresas Arp e Ypu negava
praticamonte todas as reivindicações feitas pelos opeiários, alegando a princípio,
"a situação precária" das indú:trias.(^)
Em 30 de março de 1!'20, após interferência do prefeito interino, Silvio Rangel,
publicava-sc nas respectivas empresas, as decisões do; empresários, quanto a;
reivindicações .operários, que levaram ao fim da greve. Na fábrica Falck e C1 ,
conhecida como fábrica Ypu, era atixado o seguinte aviso:
”... de 1' abril em diante os salóiios por dia serão convertidos em .. ,.ios
por ho. com um augmento de 10% (dezpor cento). ’ i^ )
Arferiormente, conforme nota p o d a d a no Jomat ‘Q d í.d f..d £tJÍÍÍía.gü " , a
gerência da empresa havia confirmada a redução da jornada de trabalho para ? horas
diárias. VeTdadeiramente, a r eduçao das horas de trabalho associado à transformação dos
trabalhadores, de diaristas parahoristas implicava em redução salarial
A solução dada pela fábrica Arp não diferia daquela aplicada a fábrica Ypu. O
aíso afixado no portão da empresa M. Sinjen e Cia, assim se retona:
“ De V de abril em diante introduzimos nesta fábrica o dia de trabalho de 0
horas, percebendo os operáiios, o ordenado que até agora percebiam.
lendo a fábrica actualmente suffiaentes pedidos que lhe
penmttem dar aos operários opportunidade de fazer serões concordamos
em continuarem a trabalhar pelo horário presente (ido é 91/2 horas para a
turma do dia e 9 para c da noite) pagando a tãbnca pelo trabalho
excedente um a recompensa de 25%da diáiia. Y ^-V
--- [PDF página 331] ---
Segundo o Jornal "Cidade de Nova Fiiburgo". a greve chegava ao fim, após 1 5
dias de paralização das atividades, trazendo como resultado concreto a redução da
jornada de trabalho para 8 horas diárias e um acréscimo pequeno no salário-hora dos
operários. Esse movimento entretanto, fornece a nós historiadores, elementos
importantes para que podamos perceber as condições em que se estabeleceram as
relações de trabalho na dade, pelo empresariado alemão
Em 24 de março de 1929, o Jornal * A Paz* , em sua primeira página, publicava a
manchete, assim intitulada: “A Greve na Fabrica de Filó“(^). A questão das
reivindicações de aumentos^salários era o motivo básico c greve, conforme matéria
explicativa:
"Durante alguns dias da semona últim a dedararam-se em greve os
operários da fabrica F üó, absiendo-se do sei viço, m as mantendo atiiíude
pacifica e de absoluta calm a. Reclamavam aumento de vcnàmentasque
julgavam inferiores as suas necessidades, pleiteando os ordenados
percebidos peles operários das demais fábricas municipais."
Per informação do mesmo jornal pudemos verificar que a condução do
movimenlo fora feita por uma Comissão de Operários, que indicara o Delegai.o de
Polida e o político muniap.il Alberto Meyer como repi esentantes seus nas negociações
com a gerênda da fábrica(^). A negociação fora assim relatada:
”... Com surpresa paia elles ouviram do Sr. Siems (diretor da F ab. Füó) < r
dedar ação que ^elo contrário, era aquella a fábrica que concedia
vencimentos m ais aitos, exceptuados os tecelões das fitas Trata -se pois de
um a questão de fado, a verificar "m a revisão real dos quadros. e, como
notassem essa mesma deposição os Diretores aconselharam francamente,
aos opemios que aguardassem essa revisão dando, como piova dessa
confiança que affimaiiam em coita, a volta ao trabalho. Foi o que fizeram,
m t o r n a n d n » .* ( ' f r i a ú lt iiiiA n u f p r V f Ç V f "fó S J
' /
--- [PDF página 332] ---
0 término da greve Fábrica Filó demonstra em primeira instancia, a
problemática de baixos salários vivida pelo operariado da cidade 1 1 .,boi a, esse
movimento tenha se restringido a uma única fálúca é possível perceber que a questão
central do problema situava se nas baixas remunerações percebidas pelos tra1 -'badoi cs
Verificamos ainda, certa ingenuidade do movimento, ao convocar um representante da
Polida local para servir de interlocutor nas negodações com a empresa. Inegavelmente,
a existênaa de uma unidade do movimento operário em Nova Ftiburgo tinha como uma
das razões apropria dispersão das fábricas em espaços urbanos diferendados, o que
prejudicava a integração dos trabalhador es. Verificamos nesr $ eve ocorrida na Fábr ica
Filó, um certo isolamento dos grevistas tornando-os fadlmente controlados pelo st ' ,
empresarial. Ainda não se verificava qualquer intenção no sentido de promover algum
tipo de organização que visasse maior unificação das lutas operárias na ddade A única
entidade existente — ÍSodedade Benefiriente Humanitária dos Operários de Nova
Friburgo — mantinha sua condição mutualista, sem maiores envolvimentos com a luta d o
dasses, mais explídta.
Finalmente, 6 possível confirmar que em Nova Friburgo os espaços ocupados por
ricos e pobres eram perfer.amente identificados pois, tr atava se de uma ddade onde a
separação entre eles era ce uma clareza bastante grande A organização do espaço
urbano fiiburguense «bederia a critérios segregadonistas, impedindo a existência, a
convivênda cotidiana entre riqueza e pobreza. Os bairros operários estendiam . polas
proximidades das fábricas, as ruas e becos fixados nas proximidades da vertente
esquer da da estação fet rociar ia, não possibilitavam o contato da nobreza tom os mais
ricos, que ocupavam lugares difereiuo e mrosios no município. Como já «firmamos alc
mesmo nos Cemitérios, o segregadonismo mantinha em sepa; ado, os ricos e os p rbi es de
Nova Fiiburgo.
A industrialização se por u m lado perm itiu a dissem inação do discurso d a
modernidade em Nova Fribui go. por <niiro lado, trouxe consigo a exploração do m aior os
--- [PDF página 333] ---
contingentes de população consequentemente, ampliando o espetáculo da miséria pela
ddade. Ricos e pobres continuavam então, ocupando espaços diversos mas também,
confrontando-se nos momentos em que com maior constância, o operariado reagia
contrariamente aos mecanismos de exploiação da sua foiça de trabalho Nesses
momentos ficavam e v ^ je n te s as diferenças profundas entre os dois segmentos da
sociedade friburguense porém, tornava impossível manter o segí egacioriismo na mclida
em que os ticos e pobres se colocava frente a fi ente
As lutas que se desenvolveram na década de 20, apontavam j ’ • > um futuro onde
os conflitos sociais urbanos to: se-ãomais intensos. A década !e 30 em Nova Fiibui go
significou um momento avançado das lutas operarias caracterizado pelo acontc " ■ nto
de novas greves e pela formação dos sindicatos
É possível pois, concluir no espaço que constituía o município de Nova Fi ibut go
ou da denominada "Suiça B;asileira“, os seres humanos se relacionavam atiavés das
barreiras impostas >egiegacionismo. Tal situação se estabelecia pela sepataçao
bastante nítida, entre a riqueza e a pobreza mas também, entre os trabalhadores nacionais
e aqueles de origem alemã.
3 !b
--- [PDF página 334] ---
HQIASJiÜJm BUUlQ
(1) - Conforme Decreto n! 23 de 06/06/1891 No ano seguinte, São José do Riheiião foi
anexado ao município de Bom Jardim
(2) - Conforme Lei n ! 61? de 17/12/1901, as terras correspondentes a região de
Sebastiana foram anexadas a terezópolrs.
(3) - Buietirn de Rccenseamento, realizado em maio de 1918 pela Prefeitura Mun; ;ipal
de N Friburgo e publicada no Jornal “Cidade de Fitbutgo*. em 09/06/19 1 8 .
(9) - MIRANDA, Monsenhor José Silvestre A. de - Histórico da faiacM ô .d e ^ João
Batista - Farte Religiosa. NF, Gráphicas da Aurora Colegial, 1918.
(8) -- o primeiro túmulo no Cemitério Protestante foi construído para abrigar o corpo do
um filho do Pastor Sauerbron, líder luterano, que chegara em Nova Friburgo, em 1674 A
inauguração do Camitério ac: V-ceu em 13/05/1824.
(6) - Conforme publicação do Ministério da Agricultura Indústria e Comércio Diretoria
geral de Estatística, Vol. IV - receriseamento de 01/09/1920, Typ. Estatística, 1938,
Biblioteca Pública de Niterói.
(7 ) - A Mensagem do Fxmo Sr Preteito Mnuurnal. dirigido aos Vereadores, em
24/12/1924, Pró-memóriada éMNF
(8) -idem .
(9) - idetn.
(10) — idern
(11) - Jornal "A Sentinela". 13/03/1902, arquivos so Pró memória daTMNF
(12) - POMPEU, Dr Julro. Alb.yTn.de Noya Fribm m, op cit.
( U ) - “A Lanterna’, op.dt.
3 1 6
--- [PDF página 335] ---
( H ) _ i d o m ib id e m
(15)-i(jem,ibtd8tn.
0®) - GUIMARÃES, Auliur. Um Inquétilo Social feiiutíoya Eiibuigo -.em aio.Te
sociologia prática, RJ. Typ. do Jornal do Cométuu, 1916, p. 131.
(!') - ALBUQUERQUE, M! José Braga Cavalcanti. Diga mn verso bem bonito. M
Friburgo, 1982.
(18)-idem ,p. 123.
(^ )-id e m ,p . 163.
(20) -poM P E U .D r.Julio.op.at.
(21) - Para a compreesac da questão da hegemonia apoiamo nos em GR/ MS Cl,
Aritonio. flLMelectoais e ft Q tgflliiZftÇ Ã Q , &LÜiI>'m PJ. Civilização Brasileira, 1968
Utilizamos ainda os estudos sobre a questão da hegemonia, encontrados nas segui:. :
obras: MACCIOCHI, M Antonietta A favor de Gramsri. RJ. Taz e Terra, 1976;
BOTTQMORE.Tom. P iar níaio do Pensamento MoiKi.Ua. PJ, Jorge Zahai Editor, 1908
(22) - Os Estatutos da Associação Comercial de Nova Friburgo, publicados em 1932
encontram-se nos Arquivos do Pró-memória da PMNF.
(23) _ Ver a coleção de Jornais "Cidade de Friburgo". a partir de julho de 1921, nos
arquivos do Pró-memória da PMNF.I
(21 !) - Os Estatutos de criação da DEUTSCIIER SCHUL UND RIRCHENVERE1N,
encontran-se nos arquivos do Pró-memória da PMNF
(26) - SILVA, Luiz Henrique da. Um mundo na Sociedade. N Friburgo, Atlas Arfes
Gráficas, 1990.
(2F)-cp. cit,p. 35.
317
--- [PDF página 336] ---
(27) - idem, ibidem.
(28) - idem, p. 37.
(23) - Consultar a coleção de jornais: “ A Pr<f, ”A crdade J.e. F ite g tT , "Q-SenlinHa".
constantes nos arquivos do Pró-memótia da PMNF.
(30) _ GUL1ARÃES, Arthur, op. cit., p 176/7.
(31) - Jornal "A cidade de Frijurgo". 16/06/1918, arquivos do Pró-memória da PM NF.
(32) -G U IM AR ÃES , Arthur. op. ut.,p. 127.
(33) - idem, p 12S.
(33) - idem, ibidem.
(35) - SANTOS, Iedda Pereira dos. Rua Visconde do Bom Retiro in i t e v a f i i.b u > eo -
Impressões - Lembraças. HF, Ptó-memória centro de Documentação Histórica, PMNF,
1988, p. 155.
(36) - GUIMARÃES, Arthur, op. cit, p 127.
(37) - idem, ibidem.
(38) - Resolução n ! 289. de 28/11/1913, da Câmara Municipal d» Nova 6'uburgo
(39) - Resolução n* 61, de 29'63/1921, da Câmara Municipal de Nova Friburgo
W - CORRÊA Heloisa B. Serzedello. op. cit, pp. 121/65
(; ll)-id em ,p 135.
(42) - idem, p. 137.
(33) - idem , p 1 4 1 .
318
--- [PDF página 337] ---
(44) - idem, ibidem
(45) - idem, p. 143.
(46) _ Apoiámos esse estudo m s obias seguintes: Fausto, BORIS. Xwb.aM.e.X'W'l,',,>
Social. Sp, Difel, 1976; YIÀNNA, Luiz W eineck. Ubetaliauü. è Sindicato it« Bt.au), R),
Paz e T eua. 1978. CARONE, Edgatd. Moy.ime.uty opeiáiiouo. Brasil (18.77; i 44).;T
DIFEL, 1979; MARAM, L Stie don - Auar quist.asjmigi antes e o Movimento aperário nn
B iasil - 1890 - 1920. RJ, Paz e Teira, 1979, SADER, Eder et alti Movimento. operário
biasileito - 1900- 1979. Belo lloiizoute, Ed. Vega, 1988, ADDÜR, Curtos Augusto A
InsurrejçSo Anarquista no Rio de Jfflreiro. RI. Dois Pontos Editoia 1986; GOMES,
Angela M. de Castro e FERREIRA. Marista de M. Jodusto . .ação...e.. CLoy:
T iabalhadoiauo Rio de Janeiros. Hov. "eLSReclivaiSjlB-AaáiiRJ, Fundação Gei - o
Vargas, 1988; GOMES, Arrola de Castio Õ r /e t it ã o .do Iiab<ilhi>itio, Sir e Rj, Ed
Vértice e 1UPERJ, 1988.
(47) - Discurso proferido pelo Presidente da Soc. Beneficente Humanitária do
Operários de Nova Friburgo, em comemoração ao 31' aniversm.u da enfid^'» e
publrcado rio Jornal " A Paz" , rd 12, de 15/04/1925. Arquivos do Pró memória da I MLF.
(48) _ Discurso proferido pelo Sr. João Moura, Presidente da SBHO, publicado pGo
Jornal " A Faz" . n! 15, de 22/03/1926, A; quivos do Pr ó inemói ia da FMHF.
(49) - idem, rbidem.
(88) - idem, ibidem.
(51)- idem, ibidem.
(82) - idem, ibidem
(83) - Jornal * 0 Fributguerse". n! 25, de 08/(0/1892, arquivos do Pró memória da
PMNF.
(84)-idem , ibidem.
(55)- Jornal “O Sentinela", n* 107, de 15/04/1980, arquivos do Pró-memnria da PMM F .
3!9
--- [PDF página 338] ---
(5 6 ) - i d e m , ib id e m
(57) - Jornal “Hidade de Fiiburgo". n! 69, dc 11/98/1918, arquivos do Pi 6 memória da
PMNF.
(58) - idem, ibidem.
(59) - idem, rbidem.
(60) - Jornal "Cidade d r rihuriro“. n' 135, de 21/03/1920, Pró-memóiia da PMNF.
(61) — Uoietim dos Operáí.os, publicado no Jornal "Qdàslfijie Jlifaumo , n 1 de
21/03/1< 920, Pró-memória da PMNF
(62) - Jornal "Cidade de Friburgo". idem, ibidem
(60) - Jornal "Cidade de Friborgo". n ! 137, de 1 1 de abril de 1320, Pró-menrória da
PMNF.
(64) - Jornal "Cidade de Friburgo". n! 137, de 1 1 de abril de 1920, Pró-memória da
PMNF.
(65) - idem, ibidem.
(66) -Jo rn al "A Pa?.". n! 17, de 24/03/1929. Pró memória da PMNF
(67) -idem , ibidem
(60) - idem, ibidem.
3 2 0
--- [PDF página 340] ---
C O N S ID E R A Ç Õ E S F IN A 'S
"... O homem está na adade
como um a coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outr a adade
mas variados sáo os modos
como um a coisa
está em outr a coisa.
o homem, por exemplo, não está na adade
como um a árvor e está
em qualquer outra
nem como um a árvore
está em qualquer um a de suas folhas
(mesmo r olando longe dela)
O homem não está na adade
como um a árvor e está no livr o
quando um vento ali a folheia
A adade está no homem
mas não da mesma maneira
que um pássaro está num a árvore
não da mesma maneira que um pássaro
(a imagem dele)
está^va na água
e nem da mesma maneira
que o susto do pássaro
321
--- [PDF página 341] ---
está no pássaro que eu escrevo.
A cidade está no homem
qi/Ase como a Árvore v o a
no pássaro que d deisa
Câdá C O ÍS d está em 0116 A
de sua próprid maneira
e de maneirá distinta
de como está em si m esm à
a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas, praças e ruas . '
(Ferreira Gulkr - Poema Suio - 1975)
É como nos belos versos de Ferreira Gullar que estudamos e entendemos 0
processo de formação urbana de Nova Friburgo. Esta cidade está verdadeiramente na
homem fribut guense assim como, esse homem está na cidade que ele mesmo engendrou,
ele mesmo construivGidàde e homem, homem e cidade se misturaram como causa e ao
mesmo tempo consequência de si mesmos. Se a cidade é fruto de criação humana, ela
também influencia a vida desse homem, alter ando-a,mudando-a segundo as condições
históricas vividas por ambos. Um está no outro, de sua própria maneiia embora ainda,
de maneira distinta que estão neles mesmos. A relação ddade-homem se confirma de uma
forma dialética, onde não se pode entendê-los isoladamente, já que dentro de um está
contido 0 outro, de maneira diferente do que estão neles mesmos.
Assim entendemos Nova Friburgo.
Um certo espaço físico que se organizou, se fez a partir da ação humana em um
momento historicamente determinado. Em primeiro lugar, tratando-se de um processo de
322
--- [PDF página 342] ---
formação urbana compreendido dentro da? característica* criadas no momento de
sedimentação do modo de produção capitalista no território brasileiro. Nova Friburgo no
período de 1890 a 1930 enquadra-se nesses parâmetros
Em segundo lugar, procuramos demonstrar o papel exercido pelas estradas de
ferro nessas mudanças. Criada inicialmente, para favorecer o transporte de café,
originário da produção escravista cantagalense, a Estrada de Ferro Leopoldina Raillway
assumiu no decorrer do tempo, funções importantes no aspecto de modernização
capitalista da região e, espeaficamente no espaço friburguense Além da introdução de
novas relações de trabalho, foi ela responsável também, pelo direcionamento na
ocupação territorial pela população de Nova Friburgo Acompanhando os trilhos da
fen o via verificamos aformação dos bairros, como duas Pedras e Estação de Conselheiro
Paulino. Foi com a ferrovia que Nova Friburgo tornou-se um centro comercial,
exportando produtos agrícolas para a capital da República, tornando-se também, centro
que absorvia populações provenientes dos núcleos regionais em crise, após o declínio
da cafeicultura escravista Com aferrovia vemos crescer o papel de Nova Friburgo como
cidade fornecedora de descanso, lazer e serviços (principalmente no setor educacional),
a uma população proveniente do Rio de Janeiro e Niterói ou mesmo, proveniente da
região do Paraíba Oriental
Identificamos a presença de um passado escravocrata em Nova Friburgo não só
pela arquitetura de suas mansões mas, pnnapalmente, pela ação de suas elites políticas,
oriundas dos quadros das oligarquias rurais e dominantes no município até o início da
segunda década do século em curso Percebe-se a existência dé^poder público
entendido como mera extensão dos interesses privados.
Importante recorte temporal de nossos estudos verificamos a partir de 1911,
quando se processa o início da industrialização de Nova Friburgo, com o advento dos
empresámos alemães. Com a criação de companhia de Eletricidade e várias indústnoas do
ramo têxtil, constatamos a presença de um empresariado de origem alemã que aos
323
--- [PDF página 343] ---
poucos, traçava para Nova Friburgo,normas no sentido de moldá-la nos quadros de uma
cidade industrial-capitalista. À dispersão da indústria em diferentes pontos do espaço
urbano correspondeu a formação de bairros operários também dispersos, obedecendo
às imposições do capital interessado na descoricentração da força de trabalho, inclusive
nos seus locais de moradia.
Nesse período vemos Nova Friburgo consolidar sua posição de cidade turística,
solidificando-se como espaço do descanso, lazer oferecidos à populações de outras
praças. Os equipamentos necessários a esta situação tornam-se cada vez mais esmerados,
como hotéis, restaurantes etc. Paralelamente, o fornecimento de serviços torna-se de
maior vulto como por exemplo, o papel desempenhado pelo colégio Anchieta, internato
jesuíta que contava com alunos de todos os pontos do país. Verificamos assim, a
construção do ideal de cidade hospitaleira e cheia de atrativos,constituindo-se como urbe
civilizada, graças a presença dos imigrantes suíços desde a sua criação. Vemos nesse
momento, amvenção do lema 'Nova Friburgo: A Suiça Brasileira".
É portanto, no período de 1911 a 1930, que Nova Friburgo constitui-se
marcadamente como cidade industrial, turística e prestadora de serviços.
Paralelamente à construção desse perfil,podemos constatar que a ocupação
espacial da cidade obedeceu a características de grande segregação social. Isto é, foi
possível demonstrar com nitidez a separação dos espaços ocupados por ncos e pobres
que habitavam Nova Friburgo Tal segregação ocorria até mesmo, na divisão social
percebida nos espaços internos dos Cemitérios, quando se podia verificai os locais dos
enterros de ricos, pobres, alemães e brasileiros. Enquanto os operários habitavam as
áreas próximas as fábricas, a população desempregada habitava uma área próxima da
estação ferroviária, em casas miseráveis, cortiços etc.
O espaço dos ricos situava-se nas proximidades da Praça XV de Novembro, rua
Gen. Argollo ou mesmo, em propriedade rurais na penfena da cidade. Palacetes,
mansões, casarões de enorme beleza arquitetônica comprovam a existência dos espaços
--- [PDF página 344] ---
dà íiquezc, geograficamente SepOtadOsdG H V U V id O opeidiio O U meS U iú, dos G S p ò Ç O .v dd
miséria.
O recorte temporal identificado por nos a partii de 1911 significou também, a
ascensão de um novo grupo político, que a c > assumir o discurso da modernidade,
aproxima-se dos empresários industriais, passando a tei papel determinante na
construção do ideal de "Suiça Brasileira". O grupo liderado por Galdmo do Valle Filho,
ao controlar c poder municipal tomará medidas no sentido de tornai Nova Fribuigo um
espaço ordenado, higienizado, fundamental na consolidação do modelo industrial-
turístico. Constatamos que nesse momento, o poder municipal passa a tratei a coisa
pública não mais como expressão dos interesses individuais. Às medidas públicas
decorrem de demandas formuladas pela sociedade civil, onde o capital industrial-turístico
assume funções determinantes. Percebe-se doramente a separação entre público e
privado, a partir da. segunda década do século XX.
Em condusão, afirmamos que a história da formação sodal friburguense, no
período de 1890 a 1930 revela-nos a construção de um espaço urbano, fruto da ação de
seres humanos diferenciados sodalmente, cai acterizada pelos constantes confrontos. Na
verdade, a própria ddade, o próprio espaço urbano, são a expressão concreta desse
movimento vivido pela sua população.
Desse modo, ddade e homem se confundem em um só pr ocesso porém^mantendo
suas identidades próprias. O homem está na ddade, assim como a ddade está no homem
embora, de forma distinta e cada um a sua morteira. Sendo assim, retornamos ao poeta,
com queminidamos essas conclusões:
'... O homem estám cidade
como um a coisa está em outra
à adade está no homem
que está em outra adade... ’
325
--- [PDF página 345] ---
- FONTES E BIBLIOGRAFIA
-FONTES MANUSCRITAS:
- livros de Atas dá Câmara Municipal de Nova Friburgo,
-livros de Registros de Ofícios e Expedientes da CâmaraMunicipal de Nova Friburgo,
- livro de Medição, demarcação e tombamento de terrenos de Nova Friburgo,
- Código de Posturas Municipais de Nova Friburgo - 1848,1893,1918;
- livro de Registro Geral da Intendênaa de Nova Friburgo,
- livro de Ofícios, Portarias, Editais, Ordens de Pagamentos da Câmara Municipal de
Nova Friburgo,
- livro de Receita e Despensas da Câmara Municipal de Nova Friburgo,
- livro de medição, demarcação de terrenos foreiros de Nova Friburgo;
- livro de alistamento eleitoral de Nova Friburgo;
- livro de Registro de Resoluções da Câmara Municipal de Nova Friburgo,
- livros de Atas de reuniões da Sociedade Beneíiciente Humanitária dos Operários de
Nova Friburgo,
- livros de Sócios da Sociedade Beneíiciente Humanitária dos Operários de Nova
Friburgo;
- livros de Registros de óbitos - T Oficio - Nova Friburgo;
- Relatórios dos Pr esidentes de Província;
-livros de Registros de Operários da Fábrica Srrumbú S/A;
-fotografias
-FONTES IMPRESSAS:
- Almariak laemmert - Bib N acionai;
- Annuana Administrativo, agrícola, profissional, mercantil e industrial da República dos
Estados Unidos do Brasil,
328
--- [PDF página 346] ---
- Fontes jornalísticas no ptó-memóna da PMNF:
*0 Fribui guense"
’0 Sentinela*
"A Paz"
- livio de Postai as Municipais de Nova Friburgo (1803)
-livro de Posturas Municipais 4e.KFnbuigQ.U916)
- BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil através da.'; pronvíncias do Rio de Janeiro
e Minas Gerais. BH, Ed. Itatiaia, SP, Ed. Univ. de SP, 1980,
- GUIMARÃES, Arthur Um Inquérito social em Nova Friburgo ensaio de sociologia
prática RJ, tipografia do Jornal do Comércio, 1916,
- POMPEU, Julio. Album de Nova Friburgo N.Friburgo, 1918
-TSCHUBI, J J . Viagem às Piovíricifts do Rio de J arieirp e gãoJP aul? BH Ed Itatiaia e
SP, Ed Univ. de SP, 1980.
-V ARRE FIRHO, Galdino do Rendas e Revendas de N.Friburgo. N.Friburgo, 1928
- Coleção de Mapas e plantas de Nova friburgo - Ptó-Memóna- PMNF
- BIBRIOGRAFIA SOBRE NOVA FRIBURGO:
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Tipo de fonte
historical_thesis
Tipo de documento
academic_thesis
Signatura / Referencia
Dissertação de Mestrado — UFF, Niterói, 1992
Data do evento
1992
Status
imported
Registrado em
2026-03-30 15:27:57
Notas
Fonte secundária acadêmica. Contexto histórico regional de Nova Friburgo 1890-1930. Relevante para genealogia Wermelinger: colonização suíça, elites locais, ferrovia, censos populacionais.
Evidencias (2)
Nova Friburgo é o objeto principal da dissertação (1890-1930)
statedNova Friburgo: O Processo de Urbanização da 'Suíça Brasileira' — 1890-1930Dissertação de Mestrado — UFF, Niterói, 1992p. Título e toda a obra
Dissertação complementar — Ricardo Costa analisa hegemonia política onde João Raimundo analisou urbanização
statedNova Friburgo: O Processo de Urbanização da 'Suíça Brasileira' — 1890-1930Dissertação de Mestrado — UFF, Niterói, 1992p. Referência cruzada
Como citar:
Arquivo Wermelinger, Documento #139, Nova Friburgo: O Processo de Urbanização da 'Suíça Brasileira' — 1890-1930. Acesso em 14/04/2026.
