O PIANO ALEMÃO DE SÃO PEDRO
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O PIANO ALEMÃO DE SÃO PEDRO
Era manhã de setembro e ainda ano dos tempos da desolação, do deserto interior, da sensação de desterro, da conjuntura da pandemia, do exílio vivido na própria casa.
Até o implacável relógio de parede havia se dado conta que ameaçava ruir o pedestal que construíra, em que nunca deveria ter subido, para opressivamente reinar.
Decisões supremas subvertiam as leis, como que esbofeteando as caras de indefesos cidadãos comuns.
Soltavam-se muitos apenados que agiam à margem da lei.
Os presságios não eram animadores e sugeriam que as coisas ainda poderiam piorar.
A miséria e a fome, que sempre existiram, mais uma vez insistiam no desejo de se perpetuarem na casa dos empobrecidos.
Estava no horizonte, e ainda por vir, a insanidade da guerra, apelidada "operação libertária" para nos iludir os simples e humildes.
A verdade parecia estar amordaçada!
Ainda assim, o sol colocou a cara na janela e anunciou um novo dia.
A coloração radiante do céu anunciava a primavera que estava por vir.
Para tentar entreter o tempo que, na ocasião, se percebia frustrado e irrelevante, encontrava-me revirando antigas fotografias, quando chamou a minha atenção um sexagenário Convite.
Nele estava epigrafado: Ginásio de Duas Barras. Em seguida – Ginasianos 1961.
A dura realidade recente, que convulsionava o espírito, deu lugar a uma paz íntima, surgida da promessa de uma lembrança.
Bastou cerrar os olhos e a mente projetou a límpida imagem de um filme.
Nem ajustar o foco foi necessário.
Foi como ouvir o conhecido e característico som do rolo girando e mostrando aquela “fita antiga", cena por cena, se desenrolando.
Recuando no tempo me situei no hiato de dezembro de 1961 a janeiro de 1962.
Voltou à lembrança aquela minúscula turma de oito ginasianos que iriam colar grau.
A imagem era nítida e o foco enquadrava cada um dos oito, as suas estórias de vida, os seus anseios legítimos.
Eram eles, pela ordem alfabética: Alberto Lima Abib Wermelinger Monnerat; Alcides José Wermelinger Lack; Amilton José Wermelinger de Araujo; Antônio Carlos Pinto; Liêda Turque Alexandre; Maria Adelir Fernandes; Maria de Lourdes Ferreira de Mattos. O Orador: Luiz Gonzaga Pagnuzzi Araujo.
Tudo registrado no papel de linho branco do Convite e gravado na memória.
Além das autoridades, os professores homenageados eram o Cônego Arthur Salvador; Antônio José Pires da Rocha; Eufrânio Gonçalves de Freitas; José Roberto de Lima Reis, Joana Dalva Fontoura Alves, Maria das Graças Felga, Maria do Carmo Araujo Vasconcelos; Mariinha Benevento; Maria Emília Alves Soares.
Constituir uma comissão de festa não foi necessário. Era formada pelos oito.
Uma festa estava sendo bem programada e exaustivamente planejada, com prudente antecedência.
Na vida vivida podemos observar que um bom plano tem sempre à espreita o imprevisível!
Estava tudo ocorrendo muitíssimo bem quanto aos preparativos.
A festa seria coroada por um baile de formatura, com valsa e tudo!
Escolhemos e fomos contratar o famosíssimo “Sexteto Rex”, de Porto Novo do Cunha, Além Paraíba.
Chegamos à divisa das terras fluminenses e as das Minas Gerais, pertinho do Carmo. Havia uma trama silenciosa em marcha e nós, ainda tão jovens, não havíamos percebido.
O dinheiro estava contado. Era só assinar o contrato com o Juju, a quem todo bom “pé de valsa” conhecia e se embebedava com a sua voz aveludada, sussurrada e captada nos bailes por jovens ouvidos, amaciados com a ajuda moderada de bebidas leves.
Juju, era um ídolo verdadeiro!
Voz adorável, postura e conduta nobre, em tudo afável, elegante e educado.
Era o que se chamava “uma pessoa de fino trato”.
Estávamos prontos para contratar o “Sexteto Rex”, assinar tudo, dar um sinal robusto que atestasse a firmeza dos jovens, todos na faixa de seus dezesseis a dezoito anos.
A data em que iria acontecer o baile, o tempo de duração, o valor do contrato, condições de pagamento, tudo certinho e alinhavado, conforme o planejado.
Eram somente alegrias estampadas nas faces das jovens fisionomias.
Juju, como sempre, educado e polido, preveniu:
- Olha, não se esqueçam,
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Fonte: Telegram
Data: 2026-03-31
From: Tiago Wermelinger
Chat: direto
Tipo de fonte
telegram_live
Tipo de documento
text
Signatura / Referencia
o_piano_alemao_de_sao_pedro_era_manha_de_1774923275513.txt
Status
imported
Registrado em
2026-03-31 02:37:29
Notas
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Como citar:
Arquivo Wermelinger, Documento #174, O PIANO ALEMÃO DE SÃO PEDRO. Acesso em 14/04/2026.
