Brasao da familia Wermelinger, 1575
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Arquivo Wermelinger

Genealogia da familia Wermelinger — de Wolhusen ao Brasil

De Nova Friburgo a Fribourg através das letras: a colonização suíça vista pelos próprios imigrantes

Conteudo do documento

--- [PDF página 1] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 173DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG vol. 10(1):173-202, jan-abr. 2003De Nova Friburgo a Fribourg atravØs das letras: a colonizaçªo suíça vista pelos próprios imigrantes From Nova Friburgo to Fribourg in writing: Swiss colonization seen by the immigrantsSanglard, G.: ‘De Nova Friburgo a Fribourg atravØs das letras: a colonizaçªo suíça vistapelos próprios imigrantes’.História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos , vol. 10(1): 173-202, jan.-abr. 2003. A história da imigraçªo suíça no Brasil tem como marco inicial a fundaçªo da colônia deNova Friburgo, em 1819. A singularidade deNova Friburgo se encontra no fato de ter sidoa primeira empresa colonial contratada pelogoverno portuguŒs. Este trabalho Ø umconvite a um retorno no tempo, para operíodo de constituiçªo da colônia de NovaFriburgo atravØs das cartas que os própriosimigrantes escreveram e que foram publicadasem um jornal suíço da Øpoca.AtravØs destas cartas pode-se perceber oencontro de dois mundos diferentes: o Velho eo Novo Mundo, alØm de encontrar com outrossuíços que jÆ estavam estabelecidos no Rio deJaneiro ou que aqui estavam se estabelecendo,mostrando toda a dinâmica do ir-e-vir deimigrantes, partícipes ou nªo de empresasmigratórias. Percepçªo, informaçªo eexpectativa sªo a tônica destas mensagens. PALAVRAS-CHAVE: história, imigraçªo suíça, Nova Friburgo, correspondŒncia, expectativa,representaçªo. Sanglard, G.: ‘From Nova Friburgo to Fribourg in writing: Swiss colonization seen by theimmigrants’.História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos , vol. 10(1): 173-202, Jan.-Apr. 2003. The history of Swiss immigration to Brazil began with the foundation of the colony of NovaFriburgo in 1819. Nova Friburgo was the firstcolonial company contracted by the Portuguesegovernment. This paper is an invitation to goback in time to the period in which NovaFriburgo was founded, through the letters theimmigrants wrote for publication in Swissnewspapers of the period. The meeting of theOld and the New Worlds is seen in these letters,as well as the encounter with other Swiss peoplealready established in Rio de Janeiro or whowere in the process of becoming so. They showthe dynamics of the coming and going ofimmigrants, whether or not they participated inthe companies. The migrants’ perceptions,information and expectations set the tone forthese messages. KEYWORDS: history, Swiss immigration, Nova Friburgo, correspondence, expectations,representation. Gisele Sanglard Doutoranda em história da ciŒncia da ciŒncia da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz Rua Barªo da Torre, 481/302 – B 22411-003 Rio de Janeiro — RJ Brasil sanglard@coc.fiocruz.brEste artigo Ø a versªo condensada de um capítulo da dissertaçªo de mestrado Nova Friburgo — entre o iluminismo portuguŒs e a gŒnese bíblica , defendida no Programa de História Social da Cultura, da PUC-RJ, em fevereiro de 2000, sob orientaçªo do prof. Antônio Edmilson Rodrigues. --- [PDF página 2] --- 174 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD “...Mas quem cantava chorou/ ao ver seu amigo partir/ Mas quem ficou no pensamento voou/ Com seu canto que o outro lembrou/e quem voou no pensamento ficou/Com a lembrança que o outro cantou/Amigo Ø coisa para se guardar/ ... /mesmo que o tempo e a distância, digam nªo/ mesmo esquecendo a cançªo... Cançªo da AmØrica , Milton Nascimento e Fernando Brant Ahistória da imigraçªo europØia organizada para o Brasil estÆ dire- tamente relacionada à instalaçªo da Corte portuguesa no país e à questªo dos escravos, no que tange tanto ao grande contingente de negros no Rio de Janeiro, o que gerava insegurança na Corte, quanto às medidas restritivas ao trÆfico negreiro. A primeira experiŒncia levada a cabo pela Coroa portuguesa no Brasil foi a criaçªo da colônia de Nova Friburgo, em 1819, nas cercanias da capital, e que recebeu cerca de um milhar de colonos suíços católicos. A ela sucedeu-se a colônia de Petrópolis, formada por alemªes. No presente artigo serªo analisadas as primeiras percepçıes acerca da nova vida no Brasil, a partir do estudo de cartas enviadas pelos colonos suíços recØm-chegados a seus familiares na Suíça, buscando perceber a diferença entre esse discurso e aquele formulado pelos descendentes dos primeiros colonos. Nova Friburgo pode ser considerada a primeira vaga migratória suíça para o Brasil. Apesar de seu pioneirismo, essa migraçªo nªo foi uma das mais significativas no Brasil. Cabe mencionar dois outros nœcleos: a colônia Leopoldina, instalada na Bahia desde 1816, mas que só recebeu colonos suíços a partir da segunda leva de imigrantes (por volta de 1823); e os arregimentados para as colônias do senador Vergueiro em Sªo Paulo, na segunda metade do sØculo XIX, nas chamadas colônias de substituiçªo de mªo-de-obra (Hollanda, 1980). AlØm desses trŒs momentos datados, restam os movimentos voluntÆrios, cujos destinos sªo dificilmente seguidos. Vale lembrar que, quando o governo suíço designou o conde J. J. de Tschudi, na dØcada de 1860, para vistoriar suas colônias no Brasil, seu destino foi o Rio de Janeiro (Nova Friburgo) e Sªo Paulo (regiªo de Campinas). Contudo, a experiŒncia migratória suíça fica marcada pelo pioneirismo de Nova Friburgo e pela revolta dos colonos em Sªo Paulo. Nova Friburgo O trecho da mœsica Cançªo da AmØrica, de Milton Nascimento e Fernando Brant, que serve de epígrafe ao artigo fala de ‘partida’, ‘lembrança’ e ‘esquecimento’, trŒs substantivos que resumem a trajetória --- [PDF página 3] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 175DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG de um migrante. Ele parte, leva e deixa lembranças, vivendo a dialØtica do recordar e do esquecer. Para a primeira geraçªo de imigrantes, a troca de correspondŒncia aquece as lembranças por algum período, atØ que ela se perca nas brumas do tempo e da distância. Pela leitura das cartas que trocam os que vªo e os que ficam, Ø possível perceber toda a mobilizaçªo em torno de uma empresa migratória cuja peculiaridade foi ter sido a primeira contratada pelo governo portuguŒs. Essa mobilizaçªo nªo se restringia aos organizadores, mas generalizava-se a todos os suíços — tanto os de lÆ quanto os de cÆ — que ajudaram os que iam partir assim como os que foram recepcionar os recØm-chegados. A anÆlise, contudo, serÆ feita somente sobre parte do acervo epistolar, mais exatamente as cartas de quem partiu. Elas deixam entrever, em respostas, afirmaçıes e informaçıes sobre o movimento global de ida e vinda das missivas de um lado a outro do oceano, a busca de acalmar angœstias, desejos e saudades. Lida-se aqui com dois blocos diferentes de cartas: as publicadas no Journal du Jura (notas, fragmentos, extratos e algumas na íntegra) e as que constam do livro de Martin Nicoulin (1988). As notícias que cruzavam o oceano a separar os dois mundos — o Novo e o Velho — podiam ter a forma de simples informaçıes sobre o país de origem trazidas por um navegante ou viajante, ou de troca de cartas entre os que partiam e os que ficavam. Aquelas que foram publicadas em jornais possibilitam pensar sobre os sentimentos preponderantes entre aquelas pessoas, passado o primeiro impacto: saudade e esperança. A esperança Ø traduzida pela expectativa de realizaçªo do enriquecimento. A saudade pode aparecer de vÆrias maneiras: na recordaçªo de vivŒncias anteriores, na manutençªo de um culto à pÆtria longínqua, no estabelecimento de formas de apoio baseadas em valores comuns. A ‘descoberta’ do Novo Mundo significou para os europeus conquistadores a necessidade de colonizar para garantir o domínio das Æreas recØm-delimitadas, com deslocamento de pessoas. No primeiro momento da colonizaçªo, foram enviados degredados, que poucas chances tiveram de sobreviver ou de reatar a comunicaçªo com alØm- mar. O estabelecimento da empresa colonizadora portuguesa exigiu a formaçªo de nœcleos familiares, e aos poucos o contato com o velho continente foi se tornando mais corriqueiro. O sØculo XIX trouxe brusca mudança nos rumos da colônia no Brasil:1 a vinda da Coroa portuguesa e seu subseqüente enraizamento em terras brasileiras, ou, de uma outra forma, sua ‘interiorizaçªo’ — para usarmos o conceito de Maria Odila da Silva Dias (1986, p. 173). Entre as mudanças promovidas pela Corte no Brasil, Nova Friburgo pode ser percebida como uma das primeiras tentativas de transformaçªo da ex-colônia, agora elevada à categoria de Reino-Unido. A história da colonizaçªo suíça no Brasil, mais especificamente da fundaçªo de Nova Friburgo, surgiu do que os jornais suíços --- [PDF página 4] --- 176 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD chamavam de uma “atitude generosa” de um compatriota que havia se estabelecido no Rio de Janeiro ( Journal du Jura , 3.10.1818). SØbastien-Nicolas Gachet propusera a d. Joªo VI formar, nªo muito longe da capital, uma colônia de suíços que ajudaria a socorrer os ‘pobres’ habitantes do cantªo de Fribourg, que haviam atravessado um rigoroso inverno seguido de acentuada carestia alimentar. A oferta vinha de encontro ao pensamento ilustrado portuguŒs, cujo maior representante foi d. Rodrigo de Souza Coutinho, o conde de Linhares, que percebia o Brasil como “tÆbua de salvaçªo” de Portugal, a partir do desenvolvimento de uma política baseada no comØrcio, com sua correspondŒncia luso-brasileira representada por JosØ BonifÆcio, para quem, “como o Brasil começa a civilizar-se no sØculo XIX deve chamar e acolher a todos os estrangeiros, que podem servir de mestres nos ramos de instruçªo, e economia pœblica”, e que para tal dever-se-iam criar “colônias de europeus para as capitanias do sul e do interior (Silva, 1998, p. 173; a esse respeito, ver tambØm Munteal Filho, 1999; Novais, 1984). A congruŒncia da proposta de Gachet com os interesses da Coroa se fez sentir no contrato de imigraçªo firmado entre as partes, em 11 de maio de 1818, estipulando a vinda de cem famílias católicas e de língua francesa. As clÆusulas do contrato foram desconsideradas por parte dos responsÆveis pela empresa migratória — pelo lado dos suíços, o próprio Gachet, e pelo lado da Coroa, o marquŒs de Marialva,2 embaixador portuguŒs em Paris. A colônia de Nova Friburgo teve papel bem definido na política joanina: ao mesmo tempo que promovia o povoamento, minimizava a insegurança, pois aumentava a presença quantitativa do elemento branco nas imediaçıes da Corte. Essa foi uma colônia pautada na pequena propriedade, podendo assim aumentar a produçªo de variedades de gŒneros alimentícios para a capital. O papel do imigrante europeu seria, assim, o de “promover e dilatar a civilizaçªo do vasto reino e o crescimento de habitantes afeitos ao que a agricultura e a indœstria costumam remunerar os Estados que os agasalham diversos gŒneros de trabalhos” (Mattos, 1981, p. 21). É nessa perspectiva que deve ser entendida a escolha do local de fixaçªo da colônia — nas cercanias da Corte e em uma regiªo nªo destinada à agroindœstria cafeeira. As clÆusulas do contrato previam a criaçªo de uma cidade que contaria, desde a partida da Suíça, com a maior diversidade de profissionais considerados essenciais (carpinteiros, ferreiros etc.), e que, alØm de exercerem suas profissıes, deveriam ensinÆ-las aos portugueses, buscando assim uma integraçªo da colônia com a vida no Brasil. Nova Friburgo tambØm teria entre seus filhos um mØdico, um farmacŒutico, um cirurgiªo e um veterinÆrio, alØm do serviço eclesiÆstico. Essa clÆusula do contrato de imigraçªo permite que se observe claramente a tentativa de se criar uma cidade em que as necessidades bÆsicas fossem plenamente atendidas, criando-se uma --- [PDF página 5] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 177DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG estrutura que tenderia a aglutinar, e nªo a expulsar seus habitantes. Dessa forma, Nova Friburgo responderia ao projeto político da Corte: fixaçªo do homem europeu nos arredores da capital, aumento da quantidade e da diversidade de víveres destinados ao Rio de Janeiro e incentivo à civilizaçªo dos trópicos. A contrapartida da Coroa foi custear a passagem dos imigrantes, do porto à colônia, garantir-lhes subsídios para os primeiros anos na nova terra e preparar o local para recebŒ-los. A cidade encontrada pelos suíços era formada por um conjunto de cem casas, divididas em trŒs quarteirıes, uma praça e um hospital. A casa-grande da antiga fazenda do Morro-Queimado — local escolhido para a instalaçªo da colônia — tornou-se a moradia dos dignitÆrios do governo junto à colônia. Ali funcionavam tambØm a escola e a igreja. Havia ainda dois fornos comunitÆrios, um armazØm, um açougue, dois moinhos e um silo (Nicoulin, op. cit., p. 117). As casas construídas no melhor estilo colonial, tal qual aquelas destinadas aos agregados e empregados das grandes fazendas, eram constituídas por uma œnica peça — quatro paredes, teto, portas e janelas —, sendo o chªo de terra batida. O contrato previa que os imigrantes tornar-se-iam “sœditos do rei de Portugal” (idem, ibidem, p. 237),3 rompendo com a antiga cidadania. PorØm, os laços afetivos com pessoas ou lugares nªo se destroem com um simples decreto real, e a correspondŒncia trocada entre os dois continentes veio reforçar esses laços fragilizados pela distância transoceânica. A necessidade de informaçªo era grande de ambos os lados: os que partiam queriam contar que estavam bem, que seus sonhos estavam prestes a se realizar, e ansiavam por saber novidades da antiga vida deixada para trÆs. Os que ficavam desejavam saber que aqueles que haviam partido estavam passando bem. No caso da imigraçªo de Nova Friburgo, uma grande publicidade tomou conta da Suíça à Øpoca da arregimentaçªo e da partida dos colonos, tendo nos jornais o seu principal veículo. Outras formas de divulgaçªo foram empregadas, como cançıes populares compostas para atrair partícipes para a empresa migratória. O Brasil era apresentado pela imprensa ou atravØs dessas cançıes como a Terra Prometida, “onde haveria ouro como areia, as batatas seriam do tamanho de uma cabeça, o cafØ cresceria em todas as Ærvores e o verde seria eterno” (Süssekind, 1990, p. 221).4 Os jornais da Øpoca divulgavam com freqüŒncia notícias sobre os suíços que partiam, pois o assunto ‘imigraçªo’ era de grande interesse para a populaçªo: as informaçıes podiam vir acompanhadas de uma censura, de um aviso e, na maior parte das vezes, de uma advertŒncia, procurando ou tentando evitar que novas pessoas se lançassem em uma empreitada cujo sucesso era percebido como quimera. Muitas das cartas e artigos publicados tinham a intençªo de tentar diminuir o ímpeto migratório dos candidatos a colono na AmØrica. --- [PDF página 6] --- 178 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD Os fracassos amplamente divulgados pelos periódicos procuravam tirar um pouco do brilho da fortuna fÆcil que era, em suma, a essŒncia da retórica dos propagandistas das diversas empresas migratórias que a toda hora se formavam nªo apenas na Suíça, mas em toda Europa. As matØrias tinham a funçªo de buscar demover as futuras tentativas de partir para os Estados Unidos (destino preferido), ressaltando as dificuldades pelas quais haviam passado aqueles que tinham partido. Por outro lado, atØ onde se pode perceber, as imigraçıes anteriores à empreitada de Nova Friburgo eram iniciativas particulares individuais ou de empresas que recrutavam migrantes. Quando vieram a lume as primeiras notícias sobre a colônia de Nova Friburgo, o tom das matØrias envolvendo a questªo migratória mudou: nªo se tratava mais de empresas particulares, mas de um empreendimento gerido e organizado pelo cantªo de Fribourg e pela Coroa portuguesa enraizada em terras brasileiras. Essa ‘oficialidade’ tornou a proposta de Nova Friburgo mais passível de Œxito aos olhos dos veículos de comunicaçªo e com relaçªo ao quotidiano de cada um dos cidadªos dos cantıes envolvidos. AtØ mesmo a Igreja passou a clamar para que os fiØis ajudassem os que iam partir. A sociedade organizava-se para auxiliar os migrantes. Um ex-marinheiro colocou- se à disposiçªo para dar conselhos e instruir na fabricaçªo de redes.5 A partir desse momento, tornaram-se importantes as notícias acerca daquela ‘Nova Fribourg’, ao passo que outras emigraçıes deixaram de ser importantes. Todas as atençıes voltaram-se para o novo país que se descortinava diante dos suíços, diferente porque desconhecido. Os jornais transformavam-se, assim, no meio de publicidade por excelŒncia das riquezas do Brasil, publicando impressıes acerca da terra escolhida, transformando-a em uma terra de mœltiplas possibilidades, bem nos moldes dos relatos escritos pelos viajantes- naturalistas ao se depararem com as plagas brasileiras, e que exaltavam sobretudo a fertilidade do solo — “podem-se fazer duas colheitas por ano” (Journal du Jura , 14.6.1819, p. 237) — e a presença de animais, fatores relacionados ao ‘clima ameno’ da regiªo. Nªo só Nova Friburgo era o centro das atençıes, de uma maneira geral. Todo o país estava em foco. Podia-se imprimir a carta da cidade do Rio de Janeiro, ou mesmo da Bahia, onde outra empresa colonizadora germano-helvØtica implantava a colônia de Leopoldina, narrando-se as vantagens daquelas paragens. Qualquer motivo era suficientemente forte para que se falasse desse lugar para onde se dirigia grande nœmero de conterrâneos. Os mesmos jornais que se engajaram na empresa migratória da nouvelle Fribourg , divulgando notícias, informaçıes, dicas etc., preocupavam-se em saber como estavam se saindo aqueles que tinham resolvido buscar riquezas no Brasil. Sªo publicados, na maior parte das vezes, fragmentos de cartas enviadas de Nova Friburgo para a Suíça, transmitindo-se a idØia de que a certeza do sucesso era --- [PDF página 7] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 179DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG companheira de quase todos, fossem quais fossem as ressalvas e as dificuldades. No caso específico da colônia aqui em estudo, os periódicos Journal du Jura , Journal Suisse et Gazette de Lausanne e La Feiulle d’Avis de la Ville et Canton de Fribourg assumiam um duplo papel: alØm de divulgar a colonizaçªo, buscavam provar que os que partiram haviam conseguido vencer, apesar de tudo. Ao publicarem essas cartas particulares, acabavam socializando as informaçıes, ao mesmo tempo que dividiam com a coletividade a angœstia por uma eventual ausŒncia de informaçıes, compartilhando com todos os breves momentos de tranqüilidade trazidos por uma carta vinda do Brasil, ou, como as próprias publicaçıes declaravam ao iniciar ou lançar a coluna ‘Notícias da Colônia Suíça’ que partiu para o Brasil: “Conhecendo a extrema e bem justa impaciŒncia com a qual o pœblico espera as notícias sobre a sorte dos colonos suíços que partiram para o Brasil, nos sentimos na obrigaçªo de levar ao conhecimento de todos as informaçıes que se seguem, cuja autenticidade Ø comprovada” ( Journal du Jura , 25.3.1820, p. 90). Outro possível objetivo da presença das cartas nas pÆginas dos jornais da Øpoca era a obrigaçªo que a imprensa sentia de provar que os que partiram tinham feito uma boa escolha, mesmo que houvessem sido em parte induzidos pelo que leram sobre fortunas alcançadas alØm-mar nas pÆginas dos próprios jornais, porta-vozes dos governos cantonais e envolvidos direta e indiretamente no processo migratório. As cartas permitem perceber quªo grande foi a mobilizaçªo em torno da imigraçªo nªo só na Suíça como tambØm no Brasil (muitos suíços jÆ instalados no país foram recepcionar os patrícios recØm- chegados). De outro lado, chama a atençªo o nœmero de imigrantes que veio se instalar no Brasil na mesma Øpoca e que nªo estavam diretamente ligados ao projeto de colonizaçªo, embora acabassem se vinculando a ele de alguma forma. O olhar do editor, a quem compete atestar a veracidade do relato, era de importância capital6 na hora de decidir o que publicar e como editar: quando se trata de correspondŒncia oficial, de algum dirigente e/ou responsÆvel pela colônia, a matØria Ø editada na íntegra; quando se trata de uma carta de colono, dela Ø divulgada somente a parte em que se narra o que Ø Nova Friburgo e nas quais se externam as expectativas e as informaçıes que sªo vistas como de maior valor para os que ficaram. Nesse caso, o editor iniciava a coluna resumindo rapidamente a carta, contextualizava o autor, transcrevia a parte que mais lhe interessava e concluía: “Para extrato conforme o original, que se encontra em poder do sr...., em ... , atesta-o, em ... no dia ... . O diretor da polícia central ... ” ( Journal du Jura , 26. 5.1820, pp. 148-9). As cartas que aparecem no Journal du Jura foram publicadas entre fevereiro e agosto de 1820, quando o periódico teve a circulaçªo suspensa. Foram escritas entre novembro de 1819 e março --- [PDF página 8] --- 180 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD de 1820. Mais Œnfase Ø dada às redigidas nos œltimos meses de 1819, quando chegou a primeira leva de colonos a Nova Friburgo. Os testemunhos sªo tanto de colonos como de diretores da colônia e de cidadªos suíços jÆ radicados aqui ou que tinham acabado de se instalar na regiªo ou mesmo em outras partes do Brasil. O segundo grupo de cartas trabalhadas no presente artigo foi retirado de uma publicaçªo contemporânea, o livro La genŁse de Nova Friburgo , de Martin Nicoulin (op. cit.), considerado por alguns como a bíblia de Nova Friburgo. A peculiaridade desse grupo Ø que ele foi usado em um trabalho acadŒmico, como resposta a determinadas questıes discutidas pelo autor, ou para ilustrÆ-las. Sªo apenas quatro cartas, publicadas no ApŒndice C, sob o título de ‘Les hommes et leur histoire’ . O nome dado ao apŒndice Ø sugestivo, por deixar perceber uma tentativa de resumir em quatro cartas, retiradas de arquivos particulares,7 a história ou trajetória dos primeiros anos da nouvelle Fribourg . As missivas foram escritas nos anos de 1820, 1821 e 1825. Nªo se sabe a quem foram endereçadas, mas cada uma delas recebeu subtítulos ainda mais sugestivos: ‘Les premiŁres illusions’ , ‘La confrontation avec la realitؒ, ‘Vers la rØussite’ e ‘L’exemple d’un Øchec’. Descrevem a trajetória em uma curva ascendente — ilusªo-realidade-sucesso (mesmo que a realidade possa levar tanto ao sucesso quanto ao fracasso) —, terminando em um fracasso exemplar, para nªo dizer em uma tragØdia. Por que encerrar a história desses homens com a narrativa de um fracasso, feita cinco ou seis anos depois? A visªo bastante peculiar de Martin Nicoulin a respeito dessa história culmina com sua prÆtica atual em relaçªo a Nova Friburgo, seu papel de detentor da história passada da antiga colônia e de benfeitor dela no presente, atravØs de açıes desencadeadas na Suíça, como a Queijaria-Escola (Frialp) e sua ampliaçªo, a Maison Suisse — que, alØm da Queijaria-Escola, abriga um museu, uma biblioteca e a Chocolateria-Escola. O fracasso no passado poderia, entªo, ser ‘consertado’ com a ajuda vinda de fora. Novamente Ø formada uma Caixa de Socorro para Nova Friburgo, tal como a Sociedade Filantrópica criada nos primeiros anos da colônia. Muito antes de significarem ‘primeiras ilusıes’, ‘confrontaçªo com a realidade’, ‘em direçªo à realizaçªo’, ou mesmo de serem ‘o exemplo de um fracasso’, as cartas utilizadas por Nicoulin, junto com as publicadas nos jornais, possibilitam recriar as visıes de mundo dos homens e mulheres que decidiram tentar a sorte em outro lugar, em busca de uma realizaçªo quase idílica. Elas sªo talvez a œnica forma de se perceber a expectativa que tocava a cada um deles particularmente e como grupo. --- [PDF página 9] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 181DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG O papel do europeu: a civilizaçªo A partir do momento em que os migrantes começaram a chegar ao porto do Rio de Janeiro, os jornais suíços passaram a publicar as primeiras informaçıes a respeito deles: duraçªo da viagem de navio, saœde dos imigrantes etc. As notícias eram transmitidas pelo marquŒs de Marialva, que buscava manter informados seus pares suíços. A primeira notícia era um relato oficial que aparecia brevemente nas pÆginas do Journal du Jura de 25 de março de 1820, trazia o aviso do dia da chegada dos navios, nomeando-os um a um, e só. A mesma ediçªo publicou uma pequena nota, baseada numa carta particular nªo reproduzida, sobre a chegada de alguns suíços que haviam resolvido se estabelecer no Rio de Janeiro ou nas proximidades da colônia de Nova Friburgo. Aquela era a primeira carta particular que levava notícias sobre a chegada dos migrantes ao Brasil. A nota frisava a satisfaçªo que eles sentiram com a acolhida recebida por parte das autoridades locais, um bom indício, no entender desses homens, da recepçªo que os imigrantes da colônia suíça iriam receber. O papel do europeu: trazer a civilizaçªo ao Brasil O fragmento da carta que se encontra publicada na mesma ediçªo do Journal du Jura foi escrito no dia 19 de novembro de 1819, por uma senhora, radicada no Rio de Janeiro, e era endereçada a seu cunhado na Suíça.8 Seria a primeira carta que ela enviava a seu país? HÆ quanto tempo sua família chegara aqui? Essas sªo perguntas que nªo se podem responder a partir do pequeno texto. Mas ele permite perceber que a senhora migrara com a família jÆ hÆ algum tempo, tendo recebido da Coroa algum gado (bovino e caprino), com o qual iniciou uma criaçªo, provavelmente nas cercanias da Corte, senªo na própria cidade. A família chegou a fornecer manteiga fresca à mesa real — o que leva a pensar que aquela nªo era uma família de migrantes comuns. A maior preocupaçªo da autora da carta era narrar o tratamento dispensado aos imigrantes pelos portugueses, ressaltando a vontade que eles tinham de agradar aos novos sœditos adotivos do rei. Exemplificando o tratamento, testemunhado e vivenciado, na qualidade de observadora, por ocasiªo da chegada dos imigrantes e o que sua própria família recebera ao chegar, madame Wasserfall — era esse o seu nome — chamava a atençªo para dois movimentos: de um lado, a importância dada ao imigrante europeu na mobilizaçªo social em torno daquela leva de suíços que chegava aqui em 1819 e a conseqüente facilidade de relacionamento com os habitantes locais.9 Esta senhora era uma observadora, estava de fora do evento, nªo procurava se envolver e sentia-se feliz em saber que seus conterrâneos estavam sendo bem tratados. Ao falar de sua experiŒncia em terras brasileiras, deixava transparecer um entendimento sobre a importância --- [PDF página 10] --- 182 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD da potencialidade do trabalho a ser realizado na nova colônia e sobre o papel do imigrante naquele contexto sociopolítico específico, fosse ele um imigrante voluntÆrio ou partícipe de uma empresa migratória: “O rei se interessa pelas pessoas vindas por conta própria e lhes oferece os mesmos privilØgios dirigidos aos colonos que trouxe; a saber, propriedade da terra, isençªo de impostos etc.” (Journal du Jura , 25.3.1820, pp. 91-2). Nas breves linhas, o ‘outro’ ora era representado como o ‘anjo’ protetor dos imigrantes, ora como pouco civilizado, por desconhecer o fabrico da manteiga ou o modo de cuidar adequadamente do gado. A partir das categorias propostas por Todorov (1989, p. 377) , pode-se entender o posicionamento dessa senhora como o do assimilateur, aquele que “interpreta habitualmente a diferença existente no outro como uma ausŒncia relacionada a seu próprio ideal”. A atitude patriarcal do portuguŒs com relaçªo ao imigrante nªo Ø forte o suficiente para suplantar sua atitude pouco civilizada no que tange aos hÆbitos domØsticos e industriais considerados como apropriados pela observadora. Seu ideal de civilizaçªo Ø bem claro, assim como a conclusªo sempre negativa que tira das comparaçıes que faz entre Brasil e Suíça: seu país natal Ø superior ao de adoçªo, para onde traz a idØia de que eles, suíços, tŒm muito a contribuir para o desenvolvimento da nova terra. A civilizaçªo encontra a barbÆrie A segunda carta, escrita jÆ de Nova Friburgo, Ø datada de 26 de novembro de 1819. Seu autor Ø o cavalheiro de Porcelet, que aos 43 anos engajara-se sozinho na imigraçªo e cuja funçªo era, a princípio, o de mØdico da colônia. Nele percebem-se duas grandes diferenças com relaçªo aos outros imigrantes: tem um distintivo de nobreza — Ø um cavalheiro — que o torna diferente dos outros colonos e Ø mØdico de formaçªo.10 Talvez tenha-se tornado diretor- geral da colônia de Nova Friburgo por essas duas razıes e por demonstrar extrema racionalidade, observada em suas consideraçıes acerca da ausŒncia de caminhos de acesso e do atraso do plantio. A carta, escrita ao diretor da Polícia Central, em Berna, foi publicada em 3 de junho de 1820 no Journal du Jura . É uma das mais ricas no que tange à idØia de colônia, porque Porcelet era um dos poucos que pensava na coletividade, e nªo apenas no sucesso pessoal. Em seu papel de diretor, idealizava aquilo que Nova Friburgo deveria se tornar: uma ‘ nouvelle Fribourg’, a recriaçªo do que a lembrança dizia que fora a ‘velha Fribourg’, um local quase paradisíaco. Memória e expectativa acabam por se fundir — a velha Fribourg era entendida como ‘espaço de experiŒncia’, enquanto a nouvelle Fribourg era o ‘horizonte de expectativas’. --- [PDF página 11] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 183DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG Os dois conceitos foram cunhados por Koselleck (s. d.), sendo que o œltimo Ø considerado suficientemente vasto por Paul Ricouer para abrigar tanto a esperança quanto a dœvida, o desejo e o querer, a preocupaçªo, o cÆlculo racional, a curiosidade e outras manifestaçıes, de cunho privado ou nªo, direcionadas para o futuro (Ricoeur, 1985, p. 376). Pode-se acrescentar, nas palavras de Koselleck (op. cit., p. 311): “Ela (a expectativa) pode estar tambØm ligada às vezes ao indivíduo ou ser interindividual, ela pode tambØm realizar-se no presente e em um futuro atualizado...”, um futuro que se deseja tornar presente na ‘nova’ Fribourg. Em sua narrativa simples e objetiva, Porcelet descreve a espera para o embarque na Holanda, a viagem de lÆ atØ o Brasil, o tempo passado atØ o início da subida a Nova Friburgo, a atençªo dada aos migrantes pelo governo portuguŒs, o caminho para a colônia, a vila de Nova Friburgo, as hortaliças e frutas, buscando sempre estabelecer uma comparaçªo entre a Suíça e o Brasil, Nova Friburgo e Fribourg, o rio Bengala e o Sarine.11 Ele divide sua narrativa em dois momentos: primeiro descreve o lugar onde se localiza a vila, depois analisa os obstÆculos a superar. Nªo poupa elogios nem críticas. Faz comentÆrios sobre os animais selvagens encontrados nos arredores da colônia e sobre as mÆs condiçıes dos caminhos, constante fonte de preocupaçªo, pois elas determinam diretamente as possibilidades de comØrcio da cidade. A leitura da carta dÆ pistas sobre a visªo do estrangeiro nªo só como diferente de si próprio, mas, sobretudo, como pernicioso ao desenvolvimento do ‘eu’ nascente, que, nesse caso, equivale à própria colônia que estÆ sendo formada. Porcelet coloca-se tambØm como o próprio assimilateur, à medida que acentua a comparaçªo entre o universalismo europeu e o novo lugar, simples e pequeno, longe e particular. O ‘outro’ com quem se depara nªo Ø necessariamente o portuguŒs, mas o índio, que ele encontra nos arredores de Nova Friburgo: Pretendíamos que este local se encontrasse à grande distância dos selvagens; no entanto, hÆ mais de seis semanas que apareceram cerca de 150 deles armados de arcos e mesmo de fuzis. Nªo fizeram, a bem da verdade, nenhum mal, mas serªo sempre tªo cordatos epacíficos? Eles nos trouxeram macacos, papagaios e peles em trocade machados, facas, tesouras, espelhos e aguardente. Estesindivíduos, inteiramente nus, se jogam como furiosos sobre a carnecrua para devorÆ-la, se deixam levar pela paixªo, sem diferença da besta bruta, o que oferece os maiores inconvenientes para o exemplo dos jovens, se suas visitas forem constantes ( Journal du Jura, 3.6.1820, p. 164). O selvagem de Porcelet Ø exótico. Sua descriçªo pouco difere daquelas feitas pelos europeus que aqui chegaram no início do sØculo XVI e povoaram o imaginÆrio dos europeus acerca dos homens --- [PDF página 12] --- 184 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD e animais do Novo Mundo. Nas palavras de AndrØ ThØvet (1980, p. 98), “esta regiªo era e ainda Ø habitada por estranhíssimos povos selvagens, sem fØ, lei, religiªo e nem civilizaçªo alguma”. Segundo Todorov (op. cit., p. 289), as teorias sobre o exotismo, em que a cultura e o país sªo definidos por sua relaçªo com o observador, foram impulsionadas pela ‘descoberta’ da AmØrica, que se misturam e fundem-se com o primitivismo. Era justamente esse primitivismo que Porcelet temia, o encontro e o convívio de culturas tªo distintas, que poderia ser prejudicial aos civilizados suíços, sobretudo aos jovens que seriam educados bem próximos a tal ‘selvageria’.12 O maior temor de Porcelet, naquele momento, era a aculturaçªo, se pensarmos o conceito de cultura tal qual nos Ø proposto por Todorov (op. cit., p. 281), como possibilidade de melhor orientaçªo no mundo, memória do passado próprio de uma comunidade, o que implica um código de comportamento no presente e a percepçªo de um conjunto de estratØgias para o futuro. A estratØgia de nosso missivista era tentar manter os colonos no papel de assimilateurs, sem risco de tornÆ-los assimilØs — categorias propostas por Todorov (op. cit., p. 380) para designar aquele que faz apenas a viagem de ida e que “quer conhecer o outro, pois vai viver entre eles; quer se parecer com eles, pois quer ser aceito por eles”. O problema reside precisamente aí: quando o processo de conhecimento e identificaçªo avança o suficiente, o imigrante torna-se assimilado, passa a ser ‘como’ os outros. Contudo, era preciso fazer com que o ‘outro’ se parecesse com o ‘nós’, fazer desaparecer a selvageria do globo, e nªo correr o risco de ver os civilizados suíços se parecerem com os índios. O medo da aculturaçªo tambØm surge em outras cartas de suíços envolvidos na empresa migratória. Decerto o projeto colonizador que fora combinado com d. Joªo VI previa a integraçªo dos migrantes à Coroa portuguesa, na qualidade de sœditos. A imigraçªo tinha como um dos principais objetivos civilizar os arredores da Corte, atuando os imigrantes como agentes da nova cultura que iria se formar, em moldes europeus. Contudo, a aculturaçªo desejada era entre o portuguŒs e o europeu, que deveria servir de mestre àquele, ou, como estipulava o texto das Conditions: Art. VI – Entre esta quantidade de colonos que Sua Majestade estÆ intencionada em trazer em um nœmero considerÆvel, deverÆ haversuficientemente artesªos dos mais essenciais, tal qual carpinteiro,ferreiro, serralheiro, marceneiro, pedreiro assim como moleiro,sapateiro, curtidor, alfaiate, tecelªo, oleiro, telheiro etc., os quais deverªo ensinar os portugueses que quererªo aprender (Nicoulin, op. cit., p. 238, grifos da autora). O rol de preocupaçıes de Porcelet com relaçªo à sorte da colônia incluía tambØm questıes prÆticas concernentes ao modo de organizaçªo --- [PDF página 13] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 185DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG do homem no espaço e seus resultados, tais como a ausŒncia de caminhos e a demora na chegada de outros navios, o que atrasava o início do plantio, acarretando uma safra menor ou a perda total da safra. Uma nota de rodapØ do jornal dizia que seus temores tinham fundamento, mas que o governo ampliara os subsídios concedidos aos colonos. Esses subsídios tinham sido objeto de acordo com os imigrantes nas Conditions (artigo V, que previa dois anos de subsídios), como um incentivo a mais para a vinda das famílias. As reflexıes de Porcelet deixavam transparecer, de uma forma que nªo se vŒ nos outros relatos, um certo universalismo, isto Ø, “o horizonte de entendimento entre dois particulares; talvez nªo seja atingido jamais, mas, apesar disso, Ø preciso postulÆ-lo para tornar inteligíveis os particulares existentes” (Todorov, 1993, p. 31): o europeu e o americano, preocupados com os índios e tambØm com a unidade da ‘colônia’. Em busca dos sonhos A carta ora analisada foi enviada a seus parentes por um jovem suíço de 29 anos, Jacques Page, que decidira abandonar a terra natal e partir em busca de grandes sonhos. Só tivemos acesso a uma parte da carta. Segundo a lista de famílias publicada no livro de Martin Nicoulin, havia mais um grupo familiar com esse mesmo sobrenome, alØm de uma moça solteira, sendo que essas pessoas residiam em outro local. Se hÆ alguma ligaçªo entre eles, nªo se pode afirmÆ-lo. O jovem foi um dos poucos a externar seu sentimento com relaçªo aos agentes da imigraçªo, com Œnfase na atuaçªo dos suíços — o que seria o fio condutor de um romance, Terra! Terra! , escrito pouco mais de um sØculo depois: “Como nós fomos enganados por nossos condutores suíços atØ o desembarque, fomos bem melhor recompensados pelos portugueses em nossa chegada, pois fomos todos bem tratados e bem recebidos” ( Journal du Jura , 26.3.1820, p. 148). A carta de Page fala da expectativa de realizaçªo de um desejo partilhado por outros imigrantes — a riqueza —, localizado agora nªo em um futuro remoto, mas em um tempo bem próximo, o tempo realizÆvel pelo esforço individual coroado de sucesso. Naquele momento, Nova Friburgo nªo era um sonho comum, mas a riqueza advinda do movimento de mudança era compartilhada igualmente por todos. “Em alguns anos os que nªo forem preguiçosos serªo felizes. Quanto a mim, nªo temo nªo ser capaz de me sustentar. Aguardando que a terra seja dividida, ganho sempre dinheiro trabalhando para os portugueses” (Journal du Jura , 26.3.1820, p. 148). A segunda frase indica que nem todos os colonos ficaram parados enquanto aguardavam a chegada dos outros navios, numa espera que durou quase cinco meses (desde a chegada dos primeiros navios atØ a divisªo das terras). Nªo se pode dizer se esse foi um caso excepcional, --- [PDF página 14] --- 186 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD mas certamente ele rompe com a crença reinante na inatividade dos colonos — que Martin Nicoulin cristalizou na expressªo “Nova Friburgo vegeta” —, pois permite que se perceba um movimento desses homens na descoberta do novo país e de uma nova cultura, que pode ser entendida como a possibilidade de melhor orientaçªo no mundo e a memória do passado inerente a uma comunidade, que implica tambØm um código de comportamento no presente e um conjunto de estratØgias para o futuro (Todorov, op. cit., p. 281). O ‘conjunto de estratØgias’ adotado por nosso jovem imigrante pode ser entendido como o início de uma troca de experiŒncias entre portugueses e suíços que serÆ fundamental para a realizaçªo dos sonhos que motivaram toda aquela mudança. Muito a ensinar Publicada no Journal du Jura em duas partes — a primeira em 1o de julho e a segunda em 8 de julho de 1820 —, a missiva que passamos a analisar era uma longa descriçªo tanto da viagem da Holanda para o Rio de Janeiro e Nova Friburgo quanto da vila, seus arredores e outros temas ligados ao novo mundo que se descortinava para aquelas pessoas, como hortaliças, o gado bovino, suíno, frutas etc. Era uma carta anônima, e o jornal dizia apenas que era dos “Amigos de Berna”, que escreviam de Nova Friburgo no dia 13 de janeiro de 1820. A forma pela qual a missiva era escrita, com um narrador ausente da cena descrita, nªo permite a princípio incluir esse remetente em qualquer das categorias anteriormente propostas. Mas em dois momentos ele (ou eles) deixa(m) perceber alguma expectativa e uma crítica, atravØs da qual se constata uma recorrŒncia da universalidade: o ‘eu’ aparece como superior ao ‘outro’. As casas, construídas quase sempre em conjunto de seis, sªo cobertas de telhas fundas, o assoalho dos cômodos em terra batida, as janelas guarnecidas de postigo, sem vidro, à moda do país, bem leves, mas melhor do que tínhamos pensado; hÆ somente a chuvacontra a qual estamos protegidos; cada casa deve alojar 16 pessoas. ... A raça de animais de chifre Ø bela e boa, de grande altura, porØm quase selvagem, pois nªo se tira nenhum partido dela. As vacas, os bois, osasnos correm abandonados nas montanhas, algumas vezes tªo longeque Ø preciso procurÆ-los durante meio dia, quando nªo durante todo odia. Se se quer o leite de uma vaca, prende-se o bezerro e encarcera-se-o, deixa-se a vaca chegar junto a ele; mas entªo ele a esgota tanto que nªo se retira mais que meio pote de leite, quando muito. ... Atrelam-se normalmente seis a oito bois a um carro, pois estes sªo tªo malfeitosque o menor peso exige essa parelha. ... As cabras nªo sªo de boa raçae sªo caras. ... As ovelhas tambØm tŒm necessidade de serem melhor --- [PDF página 15] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 187DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG cuidadas; ... Os cavalos e os asnos correm na floresta abandonados à própria sorte; ... . Os porcos sªo de boa raça, fÆceis de engordar e se multiplicam bastante. HÆ muitas galinhas que sªo maiores que as nossas. Quanto à caça, estamos malparados: os papagaios e os macacos sªoquase as œnicas caças, e Ø perigoso atirar nestes œltimos por que elesvŒm se defender em bando ( Journal du Jura , 8.7.1820, pp. 95-6). A citaçªo deixa vislumbrar quais eram os anseios desses homens. Ao descrever a casa, eles diziam que elas eram melhores do que o esperado. Alimentaram a expectativa baseada em quŒ? Em relatos anteriores? Anteriores a quŒ? À partida? À chegada a Nova Friburgo? A bem da verdade, essas questıes perdem sentido, pois expectativa hÆ, mesmo que negativa. Nesse caso pode-se dizer que a idØia do ‘outro’ jÆ estava presente entre esses “Amigos de Berna”, e que o ‘eu’ estava aqui sendo valorizado. E nessa valorizaçªo do ‘eu’, eles se colocavam como agentes civilizadores porque julgavam ter muito a ensinar aos luso-brasileiros: a melhor forma de criar gado, de construir carros de boi e, desse modo, de transformar aquele local tªo diferente em algo mais próximo, mesmo que alguns hÆbitos civilizados tivessem de ser deixados de lado, como a caça. A carta ainda apontava um outro detalhe: que a imigraçªo para Nova Friburgo envolveu mais pessoas do que as listadas inicialmente. Esses “Amigos de Berna” estavam em contato com outros conterrâneos que haviam partido na mesma Øpoca para se instalarem, por conta própria, nas proximidades da colônia. Duas questıes se impıem, a primeira ligada à seleçªo dos imigrantes — a procura parece ter sido bem maior do que a empresa colonizadora podia suportar — e a segunda ligada às condiçıes socioeconômicas dos imigrantes. A busca solitÆria da riqueza Escrita em 20 de março e publicada a 12 de agosto de 1820, com continuaçªo na ediçªo de 19 de agosto, a missiva que examino agora mostrava que a busca de riqueza nªo motivava somente as camadas pobres da sociedade europØia. VÆrias figuras anônimas atravessaram isoladamente o oceano em busca de seu pote de ouro. Nova Friburgo nªo foi exceçªo. Muitas pessoas aproveitaram a vaga migratória e acompanharam a empreitada na busca de concretizar os sonhos de quem migrava. A carta ilustrava a situaçªo de um desses solitÆrios que haviam abandonado tudo, inclusive a família, para buscar riqueza no Brasil, e que fora parar bem próximo à ‘colônia’ que entªo se formava. Pierre Gendre viera aparentemente sozinho, pois escrevia a carta a seus filhos. Acredita-se que ele nªo era jovem, pois em um dado momento dizia que a subida para Nova Friburgo era um pouco pesada para sua idade ( Journal du Jura , 12.8.1820, p. 224). TerÆ sido por isso que ele nªo fez parte de Nova Friburgo? Fora excluído pela idade? --- [PDF página 16] --- 188 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD Essa nªo era a primeira correspondŒncia enviada aos filhos na Suíça, pois ele reclamava da falta de resposta. A singularidade de sua carta encontra-se no fato de ela ter sido escrita por alguØm que nªo fazia parte da imigraçªo de Nova Friburgo, mas que resolvera vir para cÆ por conta própria, na mesma Øpoca, e que se instalara nas proximidades da colônia, buscando mitigar assim a solidªo. Gendre concentrava seus comentÆrios ao meio em que ele circulava, entre Nova Friburgo e o Rio de Janeiro. Nªo se sabe hÆ quanto tempo encontrava-se por aqui, e esse Ø dado que pode ter influído na percepçªo que ele tinha acerca de alguns detalhes. É certo que em sua bagagem ele trouxera boa dose de esperança e sonho, como qualquer outro imigrante. Ao contrÆrio de seus conterrâneos, nªo achara casa pronta e tivera de procurar moradia. Concluímos que tinha algumas posses e que pôde escolher onde morar: “É próximo à vila de Macacu, ao pØ da montanha e perto do rio que quero me estabelecer, pois aqui a produçªo Ø extremamente cara, todos os produtos, sobretudo aqueles mais raros” ( Journal du Jura, 19.8.1820, p. 230). Pierre Gendre chamava a atençªo para a importância do escoamento da safra para o cÆlculo do preço dos alimentos. É claro que outros imigrantes tinham consciŒncia d o alto custo da produçªo, mas só Gendre refletiu sobre o problema em carta. Se Porcelet aparentemente foi o œnico a se preocupar com a proximidade dos índios, somente Gendre discorreu sobre o trabalho e o comØrcio de escravos. Para ele, o ‘outro’ era o sistema comercial implantado. Encontrando-se no limiar entre assimilateur e assimilØ, ao mesmo tempo que criticava, assustava-se com a fÆcil adoçªo de hÆbitos escravagistas por seus conterrâneos, hÆbitos que nªo combinavam com o que Flora Süssekind (op. cit., p. 28) chama de “imagem-só- natureza” que se tinha do Brasil. Em relaçªo ao comØrcio de escravos ou de negros, vos direi que os encontramos em lojas em nœmero de cinqüenta ou mais.Chegando da `frica, eles estªo todos nus, à exceçªo de umapequena toalha ao redor dos rins, o que lembra um cinto; eles nªoconhecem outra língua que nªo seus dialetos. Os compradores os examinam, como cavalos que queremos comprar. Os infelizes sªo obrigados a correr, a saltar, a dançar, e a peça desta mercadoriahumana custa de seiscentos a 1.200 francos franceses!!! Apesar desse preço, os negros sªo mais baratos que os outros empregados; eles aprendem tudo o que queremos, se nos damos ao trabalho de os instruir, pois sªo inteligentes, dóceis, obedientes, polidos, fortes e robustos, comem somente legumes, mandioca, carne seca e peixes. Eles nªoestragam roupas, dormem no chªo ou sobre esteiras de junco e, comosªo propriedades de seus senhores, nªo vªo correr de um a outro paraos trair. Os senhores Mandrot de Morges, Graffenried, Schmid, Morelletc., de Berna, se encontram aqui e se propıem a adotar a cultura; eles --- [PDF página 17] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 189DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG compraram para este efeito negros que lhes custaram mais ou menos 1.200 fr. a peça ( Journal du Jura , 19.8.1820, p. 230). O trecho revela o choque entre a cultura europØia, distanciada dos hÆbitos do antigo sistema colonial, e a do novo continente, onde as prÆticas de comØrcio de escravos reinavam soberanas. Havia tambØm uma percepçªo, por parte de alguns imigrantes, de que a œnica forma de enriquecimento possível naquele momento era adotar a agroindœstria escravista. Essa percepçªo colidia com a própria concepçªo de Nova Friburgo, pensada como uma colônia voltada para a agricultura familiar e como fulcro de criaçªo de nœcleos urbanos e centros irradiadores de cultura. No caso da colônia de imigrantes, o projeto de riqueza acalentado individualmente por todos os imigrantes jamais se realizaria, por mais promissoras que fossem as primeiras avaliaçıes acerca da fertilidade do solo e das possibilidades de enriquecimento antevistas pelos que chegavam. Como dizia Pierre Gendre: Segundo penso, uma família de colonos, com o produto da horta, da capoeira, de uma vaca e de alguns porcos, nªo somente deve poderviver, mas ganhar ainda muito dinheiro, somente desbravando o terrenoque lhe serÆ concedido transformando-o em uma bela propriedade. Osque amam o trabalho nªo estarªo a lastimar-se ( Journal du Jura , 12.8.1820, p. 224). Contudo, era vedado aos colonos esse enriquecimento. Somente a ruptura com a nouvelle Fribourg possibilitaria o sucesso desejado e acalentado. A nªo realizaçªo do projeto supervisionado por Porcelet — a unidade de Nova Friburgo — foi a realizaçªo do projeto individual de cada um dos imigrantes. A realizaçªo individual da expectativa dos suíços era marcada pela busca de terras apropriadas para o cafØ e pela utilizaçªo da mªo-de-obra escrava, e pode ser exemplificada por uma passagem de J. J. Tschudi (1980, p. 36), viajante suíço que percorreu Nova Friburgo com a missªo de fazer um relatório a seu governo sobre o estado das colônias de conterrâneos no Brasil: “Tratava-se de gente muito simples, arraigada ainda aos costumes da pÆtria longínqua, e que levava ali, entre seus setenta escravos negros, vida patriarcal.” A família que Tschudi descrevia jÆ era da segunda geraçªo de colonos de Nova Friburgo, ainda mantinha costumes que lhe foram transmitidos pelos pais, mas se apresentava tambØm adaptada às prÆticas culturais brasileiras. A carta de Pierre Gendre denota assim a estreita ligaçªo entre os suíços no Brasil. Ele citava quatro outros conterrâneos que tambØm vieram buscar fortuna aqui. Duas referŒncias jÆ haviam sido feitas a esse grupo: a primeira, na ediçªo de 19 de fevereiro de 1819, em que aparece uma pequena nota anunciando a chegada deles ao Brasil, e a segunda, na carta dos “Amigos de Berna”, onde se diz que eles jÆ haviam se encontrado aqui. --- [PDF página 18] --- 190 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD Os quatro cidadªos de Berna tampouco fizeram parte da empresa migratória de Nova Friburgo, incluindo-se entre aqueles que tinham dinheiro suficiente para iniciar uma boa empresa agrícola por conta própria. Certamente nªo foram impelidos pela pobreza, mas pelo desejo genuíno de enriquecimento rÆpido, o que para eles devia parecer remoto na terra natal. Isso permite entrever uma teia de contatos e conhecimentos que foi recriada em terras brasileiras. Em sua carta, Pierre Gendre, tambØm oferecia apreciaçıes sobre a cidade do Rio de Janeiro e sobre as relaçıes familiares na Corte. AliÆs, ele foi um dos poucos que estiveram na Corte. Entre os colonos, somente alguns tiveram a oportunidade de estar no Rio de Janeiro: “Eu jÆ lhes falei do Rio de Janeiro, esta cidade que cresce todos os dias. Ela se tornarÆ uma das mais belas e maiores do novo mundo. ... Aqui eu ainda nªo vi uma horta que mereça este nome; tudo, como no interior, prova a preguiça e a negligŒncia” ( Journal du Jura , 19.8.1820, pp. 230-1). Talvez o trecho seja mais elucidativo do pensamento do europeu a respeito do ‘outro’ do que a passagem relacionada aos escravos. Pierre Gendre era bastante claro ao dizer o que pensava do homem luso-brasileiro. Naquele momento, ele reforçava seu papel de homem civilizado que viera trazer ou ensinar algo de importante àquela pobre gente. Fica bastante evidente na passagem citada que ele julgava que tinha mais a dar do que a receber no processo de aculturaçªo. É possível, por essa carta, deduzir tambØm a diferença do relacionamento familiar na Corte, sobretudo no que tange ao papel da mulher, quando Gendre descreve em poucas linhas o cortejo que seguia para a missa: “Nªo se pode dizer nada a respeito do ‘belo sexo’ no Rio de Janeiro, pois as senhoras saem raramente, sªo vistas somente quando vªo à igreja, acompanhadas de negros e negras, encobertas, dos pØs a cabeça, de tafetÆ preto” ( Journal du Jura , 19.8.1820, p. 231). Todos esses elementos tornam Pierre Gendre um imigrante œnico no universo com o qual estamos trabalhando. Embora nªo faça parte do contingente migratório de Nova Friburgo, ele faz questªo de conhecer a colônia, preocupa-se em descrevŒ-la e em imaginar sua sorte (bastante positiva, segundo sua anÆlise) e acredita que tem muito a ajudar em seu desenvolvimento. Sua percepçªo advØm, em larga medida, do fato de ele ser um imigrante autônomo, o que lhe propiciava realizar açıes nªo consentidas aos colonos, que passavam por um período de ‘confinamento’ em Nova Friburgo. A mobilidade de Gendre possibilitava-lhe conhecer melhor o país e avaliar melhor as reais chances de enriquecimento. Das primeiras ilusıes à chegada ao paraíso O texto que ora analisamos faz parte de um grupo de quatro cartas publicadas como um dos apŒndices do livro La genŁse de Nova Friburgo, de Martin Nicoulin, sob o título ‘Les premiŁres illusions’. Mas seriam realmente as primeiras ilusıes? --- [PDF página 19] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 191DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG Mapa do Município de Nova Friburgo. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Seçªo de iconografia (n” 3-1 1/3/722). Reproduzido em Nicoulin (1 988, 188-9). --- [PDF página 20] --- 192 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD Colônia suíça de Nova Friburgo retratada por Debret por volta de 1826. Litografia reproduzida em Nicoulin (1 988, 2 18-9). Entre os correspondentes atØ agora examinados, um dos mais loquazes era Jacques-Martin PØclat. Escrevendo aos que ficaram na Suíça (irmªos, cunhados e amigos), contava como transcorrera a viagem (com maior Œnfase na chegada), como se dera a instalaçªo dos colonos em Nova Friburgo e como fora o início da nova vida. PØclat viajara acompanhado da esposa e dos filhos. PorØm, ao longo da narrativa, descobre-se que o grupo era mais amplo, incluía tambØm o primo Jean Page, que resolvera imigrar acompanhado da família, mas ela nªo resistira às doenças do percurso. A esposa falecera enquanto ainda esperava o embarque na Holanda, onde surtos de varíola, tifo e febres diversas fizeram diversas vítimas entre os emigrantes (Nicoulin, op. cit., pp. 146- 7); os dois filhos morreram ao longo da travessia marítima. Os laços familiares acabaram entªo falando mais alto, e fora preciso que PØclat estendesse a mªo ao parente necessitado. Naquele --- [PDF página 21] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 193DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG projeto em que a individualizaçªo das expectativas era tªo acentuada, as relaçıes familiares parecem ter ocupado lugar de destaque. Em sua carta, Jacques PØclat narrava rapidamente a travessia marítima e descrevia a vida em Nova Friburgo. Sua maior preocupaçªo era com o cotidiano, sobretudo com o custo de vida e com a casa. O aspecto religioso aparece em diversas partes da narrativa: no carÆter providencial da viagem, no Deus interventor e julgador. Nós nos encontramos tªo bem que nem podemos agradecer a Deus a graça de nos ter conduzido a este país; mas como Deus nªo permite afelicidade plena, alguns de nós tŒm que vencer esta febre intermitente; sem isso seria impossível estar melhor. ... eu tenho que agradecer à Divina ProvidŒncia de ter me posto neste destino (Nicoulin, op. cit., p.290). Este homem via a imigraçªo como resultado da graça divina, embora ele nªo desconhecesse as provaçıes. Fora preciso sofrer as --- [PDF página 22] --- 194 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD dificuldades da viagem, as perdas e se adaptar ao novo. Somente vencendo esses óbices poderia alcançar o paraíso que viera buscar. Esses imigrantes viviam um ‘novo tempo’ que fora fundado pela Revoluçªo Francesa e que rompia com o passado. Ao fazŒ-lo, transformavam a espera escatológica cristª em progresso. Esse progresso nªo se realizava mais fora do tempo, como a espera do Juízo Final, mas no próprio ‘tempo’. O presente passava a ter força, porque acreditava-se que ele trazia um novo começo, Nova Friburgo. A religiosidade de nosso missivista manifestava-se nªo só na interpretaçªo da viagem como provaçªo, mas tambØm na importância que ele atribuía à conversªo ao catolicismo de alguns dos protestantes que para cÆ haviam vindo, quem sabe como resultado da atraçªo pela realizaçªo da obra divina, o paraíso na Terra? O encantamento de PØclat com a obra divina na AmØrica caminhava lado a lado com o espanto causado pelo contato com os portugueses. “Os portugueses sªo para nós as melhores pessoas do mundo que poderíamos ter encontrado; ao passarmos por suas fazendas, eles vos oferecem comida e bebida, sem que isso nunca nos custe nada” (Nicoulin, op. cit., p. 290). Segundo as categorias propostas por Todorov, Jacques PØclat coloca-se mais como um ‘alegorista’ do que como ‘assimilador’ ou ‘assimilado’ , categorias reconhecíveis nas narrativas dos outros imigrantes: “A imagem do outro do alegorista nªo vem da observaçªo, mas da inversªo de traços que ele encontra em seu país” (Todorov, op. cit., p. 384). PØclat nªo estava vendo o portuguŒs, mas analisando seus próprios valores a partir do encontro. Quando analisava a fauna local, PØclat tambØm procedia sempre por comparaçªo. É claro que todos faziam o mesmo, mas, nesse caso, o Brasil saía ganhando: se os animais espantavam ou decepcionavam os outros imigrantes, para PØclat, eles eram menos perigosos do que os de seu país de origem, e por pouco ele nªo retratava o próprio paraíso em terras tropicais: “nªo vimos nenhum animal feroz, como se dizia tanto na Suíça. .... As serpentes, tŒm algumas, mas sªo mais raras do que na Suíça” (Nicoulin, op. cit., p. 289). Para que esse paraíso se tornasse completo, era preciso viver com conforto. Por isso, PØclat aproveitou o ‘tempo de inatividade’ entre a chegada e a distribuiçªo de terra confeccionando móveis para sua casa. Na carta, ele diz que mudara bastante, estava mais ambicioso, queria sempre mais dinheiro, pois achava que tinha menos do que o necessÆrio. Esses eram os ares da terra, afinal, o paraíso jÆ se corrompera. Tanto o paraíso quanto o homem, que deixava aflorar a razªo de sua mudança, a busca do enriquecimento. --- [PDF página 23] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 195DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG O exílio forçado Intitulada por Martin Nicoulin ‘A confrontaçªo com a realidade’, a carta aqui examinada, assinada pelo abade Joye, tinha uma particularidade: fora escrita pelo eclesiÆstico responsÆvel pelo conforto espiritual, pelas almas e pelo bom desenvolvimento dos colonos. Certamente ele era uma das pessoas de maior senso crítico entre as que vieram para cÆ. Sua adesªo ao projeto da nouvelle Fribourg nªo fora voluntÆria, como a da maioria de colonos. Ele fora escolhido pela diocese de Fribourg para acompanhar os colonos tanto na viagem quanto na nova colônia. Nªo havia em seu relato o deslumbramento inicial, mas um tom Æcido, ferino. Ele falava de saudade e do medo de ser esquecido pelos que haviam ficado em Fribourg. Talvez a ‘desilusªo’ revelada por ele tivesse origem no fato de que a decisªo de partir nªo fora uma escolha sua. O abade Joye lamuriava-se, nªo acreditava no sucesso, nªo porque criticasse a atitude dos empresÆrios da imigraçªo, mas porque nªo confiava plenamente na força de vontade dos colonos, de seu rebanho: a localidade nªo Ø das mais agradÆveis, Ø surpreendente que o sr. Gachet, tendo tido a oportunidade de escolher em todo o Brasil ... dŒ preferŒncia a um local no qual uma grande parte Ø inacessível eincultivÆvel, em lugar das imensas planícies dos arredores de SªoPaulo. No entanto, os que quiserem trabalhar e se dedicar realizarªoseu intento, enquanto os preguiçosos serªo, ao final dos subsídiosoferecidos por S. M., mergulhados na mais horrível indigŒncia; estenœmero serÆ bastante grande. Sobretudo a parte alemª da Suíça pode se gabar de ter purgado seu país de mendigos, vagabundos e inœteis que viviam à custa da sociedade (Nicoulin, op. cit., p. 291). Nessa passagem, ele misturava ressentimento, preconceito e outros sentimentos que o distanciavam de uma ‘confrontaçªo’ com a ‘realidade’ de Nova Friburgo. AtØ porque, quando escreveu a carta, em 10 junho de 1820, as glebas haviam acabado de ser distribuídas, e a esperança em Nova Friburgo achava-se bem viva. Ao contrÆrio de Porcelet, o abade, um jovem de apenas 29 anos, nªo demonstrava preocupaçªo com a unidade da colônia. Ressentia-se dos trabalhos que tinha de realizar, das dificuldades que encontrava, enfim, do novo. Ele nªo se apresentava nem como ‘assimilado’ nem como ‘assimilador’, e sim como o ‘exilado’, “aquele que interpreta sua vida no exterior como uma experiŒncia de nªo-pertencimento ao seu meio” (Todorov, op. cit., p. 282), o que termina por impedir uma relaçªo mais estreita com o ‘outro’ . Certo estÆ que, como eclesiÆstico, ele nªo podia se furtar a aplicar os sacramentos a todos. E realizava bem esse trabalho, convertendo, por exemplo, alguns dos imigrantes de origem --- [PDF página 24] --- 196 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD protestante. Mas, por outro lado, reclamava das longas distâncias que tinha de percorrer e sentia saudade da vida pacata que levava em sua terra natal: “Que sois felizes, senhores, de ter somente pequenas paróquias para conduzir” (Nicoulin, op. cit., p. 292). Nada escapava de sua avaliaçªo negativa, nem mesmo a atuaçªo de seus colegas luso-brasileiros, o que o levava a questionar seu próprio futuro. Para ele, tudo era incerteza, e o futuro, bem diferente do paraíso previsto e desejado por seus fiØis. Com uma visªo dessas, jamais poderia ter-se tornado o grande questionador de Nova Friburgo. A expectativa próxima de se realizar Escrita em dezembro de 1821, quando Nova Friburgo jÆ tinha mais de um ano de existŒncia, e a imigraçªo, dois, e quando muitos percalços jÆ haviam sido vencidos pelos imigrantes, transformados agora em brasileiros, a carta de Joseph Crelier falava de um outro tempo, diferente daquele narrado anteriormente. A passagem do tempo permitiu que esse colono analisasse melhor as circunstâncias e o destino de Nova Friburgo: a colônia nªo prosperou a contento, ... o objetivo inicial ao se criar essa colônia no Brasil foi esquecido, porque ela foi mal dirigida, deforma que nesse momento a maior parte dos colonos abandonouas terras que o rei lhes havia oferecido, uns para procurarem outras melhores, como nós, e a maior parte para ir ao Rio Janeiro, para trabalhar por conta própria ou para se ligar a alguma coisa (Nicoulin,op. cit., p. 293). Apesar de tudo, o sonho nªo acabara para os migrantes. Nova Friburgo podia nªo mais significar a mesma coisa, mas o desejo de uma vida melhor continuava impulsionando esses homens rumo à riqueza e a terras melhores, sobretudo em direçªo à cafeicultura. A experiŒncia nªo foi negativa, tanto que o missivista estimulava a vinda dos parentes, fornecia instruçıes sobre como proceder; oferecia ajuda financeira e julgava improvÆvel o recebimento de subsídios governamentais, tendo em vista os resultados do projeto original. A saudade era atenuada pela troca de cartas. Na que estamos analisando, o imigrante dizia que, para que a felicidade fosse completa, seus familiares deveriam vir tambØm. Mas em momento algum ele pensava em retornar: seu lugar agora era aqui. Nesse caso, trata-se claramente de um ‘assimilado’ jÆ inserido na lógica econômica vigente e certo de que a prosperidade era uma realidade ao alcance das mªos. Pode-se dizer que, para Joseph Crelier, a ‘espera escatológica’ se realizara: ele encontrara a prosperidade que buscava, uma realizaçªo material na busca terrena, secular. --- [PDF página 25] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 197DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG Um longo silŒncio Ø rompido Escrita por uma mulher, Marie Ruffieux, em setembro de 1825, a œltima carta aqui analisada constituía o primeiro contato dela com o país natal, embora jÆ se tivessem passado quase seis anos desde sua partida da Suíça. A missiva recebeu de Nicoulin o título de ‘O exemplo de um fracasso’. Na verdade, Marie narrava em poucas linhas sua trajetória e a de sua família, a morte dos pais e dos irmªos. Ela e as irmªs, portanto, ficaram sozinhas. O texto nªo deixa entrever qualquer sentimento, fosse de revolta pela perda dos entes queridos, fosse de saudade da pÆtria ou mesmo de angœstia diante do futuro. Era apenas a resignaçªo de uma alma ante os desígnios divinos. Essa Ø a mais informativa das cartas que fazem parte do conjunto e a que menos permite perceber a visªo da imigrante a respeito da colonizaçªo de Nova Friburgo. A título de conclusªo Este artigo inicia-se com uma epígrafe que fala de trŒs conceitos capitais para o presente trabalho: partida, lembrança e esquecimento. A eles juntam-se outros trŒs, diretamente relacionados às cartas referentes à colonizaçªo de Nova Friburgo: o binômio civilizaçªo/barbÆrie, a saudade e a expectativa. Como jÆ foi dito, Nova Friburgo tinha uma singularidade que iria se refletir diretamente na posiçªo de seus fundadores. Eles nªo se consideravam como imigrantes quaisquer. Tinham consciŒncia de que lhes cabia um papel, o de trazer ‘civilizaçªo’ para o Brasil. Nesse ponto, todos estavam de acordo com um dos propósitos da Coroa portuguesa ao permitir e patrocinar a vinda das famílias suíças. O choque com o ‘outro’ se processou de diversas formas, com maior ou menor força, como se percebe na correspondŒncia. Em contato com esse ‘outro’ , o imigrante reage com aceitaçªo, medo, resignaçªo, revolta e outros sentimentos que os missivistas deixam transparecer ao longo de sua correspondŒncia. Mesmo acreditando que tinham sido enganados, eles sabiam que o ‘pote de ouro’ os estava aguardando ali perto. Pelas suas palavras, tem-se a oportunidade de observar que, para eles, o Brasil encontrado nªo diferia muito das paisagens retratadas pelos primeiros cronistas: um lugar de mœltiplas possibilidades, o paraíso na Terra, e eles se percebiam como os bem-aventurados, os escolhidos para alcançar essa graça entendida como o ouro negro, o cafØ que lhes traria prosperidade. A saudade, por sua vez, estava relacionada com a lembrança de um tempo distante que se escolheu deixar para trÆs. Mas, sobretudo, recordaçªo de pessoas que eram importantes e de lugares que lhes deram identidade. --- [PDF página 26] --- 198 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD É justamente essa identidade que estÆ sendo reconstruída por pessoas que se vŒem em um espaço que lhes Ø desconhecido. Nesse caso, Ø um novo ‘eu’ que estÆ surgindo. Aqueles nªo eram mais os imigrantes suíços, mas os moradores da regiªo de Nova Friburgo, brasileiros13 que aos poucos iam descobrindo o caminho, atravØs do cafØ, para a tªo sonhada riqueza. A dificuldade em aceitar a passagem, como fica mostrado pelas palavras do abade, pode ser entendida como uma nªo aceitaçªo da nova realidade. Por isso, o olhar deles, “olhar dirigido para o passado, parece fazer-se um tanto mais insistente, tanto mais carregado tambØm de emoçªo ou de paixªo quanto mais se volta para os modos de vida desaparecidos ou em via de desaparecimento” (Girardet, 1987, p. 133). De um modo geral, pode-se dizer que, para esses colonos, Nova Friburgo era somente a forma encontrada para atingir a riqueza. Em nenhum momento a colônia era um fim, e por isso eles nªo tiveram dificuldades de abandonÆ-la. Muitos partiram novamente em busca do objetivo da viagem, do caminho para a nova vida. Nesse momento, podia-se observar um desejo comum, o de uma espera escatológica absolutamente laicizada, mundana, mas uma espera que transcende o trabalho individual. Onde ela iria se realizar? No Brasil, mas nªo necessariamente em Nova Friburgo. Se, por um lado, a percepçªo de Nova Friburgo por parte dos colonos como o início de um ‘novo tempo’, uma vinculaçªo bíblica, foi reforçada, por outro, sua transformaçªo em uma nouvelle Fribourg, tanto dentro do espaço inicial quanto fora dele, perdeu seu sentido. Por outro lado, passamos a notar o movimento de (re)conhecimento que circula na cidade como uma tradiçªo que estÆ sendo ‘inventada’, construída, lapidada aos poucos, pois, como diz Eric Hobsbawm (1984), toda tradiçªo inventada necessita da história para lhe dar sustentaçªo. O processo da descoberta ou mesmo de reconstruçªo da memória em Nova Friburgo passa pela criaçªo de símbolos que terªo como funçªo lembrar esse evento primordial. Sªo as diversas associaçıes que foram criadas com o objetivo maior de reforçar os laços de amizade internos – reagrupando os descendentes de algumas famílias ou mesmo ligando Fribourg a Nova Friburgo. Sejam quais forem as motivaçıes por trÆs de cada açªo dessas associaçıes, o certo Ø que elas contribuíram para a preservaçªo da memória da colonizaçªo, ao reinterpretarem seu passado. Nesse processo, evidenciaram um aspecto em detrimento de outros, transformando a história dessa colonizaçªo em um fracasso, mesmo que os próprios imigrantes nªo o tenham percebido, pois, individualmente, eles alcançaram a riqueza — nos moldes vigentes à Øpoca —,14 inaugurando um novo tempo, nªo a partir da chegada à Nova Friburgo, mas sim depois de deixÆ-la. Nova Friburgo nªo se tornou um ponto axial para a fundaçªo de um novo tempo, e esse projeto em particular nªo foi de todo bem-sucedido, --- [PDF página 27] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 199DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG mesmo quando permitiu que, para alØm dele, seus ‘filhos’ encontrassem o que buscavam. Assim, a cidade nªo representou o encontro imediato com o paraíso, ela foi mais um degrau, um desafio ou uma provaçªo para atingi-lo. O reino dos bem-aventurados nªo estÆ franqueado a todos, mas somente para aqueles que praticaram boas açıes durante a vida. A cidade de Nova Friburgo hoje representa o ponto de encontro da memória desse evento, Ø local para onde convergem as esperanças e expectativas presentes. É tambØm o local onde um nœmero considerÆvel de pessoas espalhadas pelo território brasileiro encontra sua identidade, o início de sua história familiar. Reduzidos ao estado de coleçªo de exemplos, as histórias do passado sªo esvaziadas da temporalidade original que as diferencia, sªo somente a apropriaçªo educativa que as atualiza no presente. Nesse preço, os exemplos se tornam ensinamentos, monumentos. Por sua perenidade,eles sªo ao mesmo tempo o sintoma e a garantia da continuidade entreo passado e o presente (Ricoeur, 1985, pp. 380-1, nota 2). Nova Friburgo representa hoje, sobretudo para os descendentes desses imigrantes que lÆ permaneceram, a continuidade entre dois tempos: o de antes e o de amanhª, a realizaçªo da expectativa e sua renovaçªo. Em sua ‘atualizaçªo no presente’, a memória deles Ø recriada, desenvolvendo um certo aspecto de sua história que a transforma em uma tragØdia humana, fruto da açªo de homens que nªo pensaram nos ‘pobres’ imigrantes. Terªo sido eles tªo infelizes? Toda essa movimentaçªo tem como ponto inicial a tese de Martin Nicoulin e, sobretudo, a publicidade que se seguiu ao seu lançamento, quando foram realizadas conferŒncias tanto na Suíça quanto no Brasil, e cujo resultado foi a ‘descoberta’ dessa imigraçªo. Na seleçªo realizada pelo autor, forjou-se a construçªo de uma determinada memória a partir de critØrios “conscientes ou nªo, (que) servirªo tambØm, segundo toda verossimilhança, para orientar o uso que faremos do passado” (Todorov, 1995, p. 16). Nessa utilizaçªo do passado pelo presente nªo só a memória tem papel crucial. Sobretudo a ‘invençªo’ de uma tradiçªo interpretativa em Nova Friburgo acerca de sua história — onde a tragØdia e o fracasso imperam — Ø aceita e reiterada por seus habitantes e pelos descendentes dos primeiros colonos, atØ para aqueles que jÆ se encontram afastados do nœcleo original. Mesmo que essa tradiçªo, ora ‘inventada’ , esteja bem distante da percepçªo que seus ancestrais tiveram do evento. --- [PDF página 28] --- 200 História, CiŒncias, Saœde — Manguinhos, Rio de JaneiroGISELE SANGLARD NOTAS 1 A vinda da Coroa portuguesa marcou o fim do chamado período colonial brasileiro. A primeira atitude política desse marco foi a Abertura dos Portos, em 1808, logo seguida pela elevaçªo a Reino Unido a Portugal e Algarves,em 1815. O ano de 1822 vinha somente reforçar um processo sem volta, iniciado em 1808. 2 O marquŒs de Marialva gozava de grande prestígio em Paris jÆ bem antes desse evento. Os momentos subseqüentes ao Congresso de Viena e ao rearranjo interno de forças na França impeliu diversos artistas a deixarem o país. Aomesmo tempo, o conde da Barca propunha a criaçªo de uma academia de artes aqui no Rio de Janeiro, pois, no seuentender, “as indœstrias estavam atrasadíssimas” ( apud Taunay, 1983, p. 149). Marialva foi entªo incumbido de contratar os docentes da nova Academia Francesa para integrar uma colônia artística francesa no Rio de Janeiro.Resultado disso foi a vinda da Missªo Artística francesa, que trouxe, entre outros, Grandjean de Montigny, Debret eos irmªos Taunay. 3 O artigo XIII das ‘Conditions pour l’Øtablissement d’une colonie de Suisse dans les Øtats du BrØsil’, diz claramente: “Todos os suíços que quiserem ali se estabelecer, em virtude desta presente convençªo, serªo pelo feito, desde suachegada, naturalizados portugueses; serªo submetidos as leis e usos dos estados de Sua Majestade e terªo, semexceçªo, todas as vantagens e privilØgios acordados e a ser acordado a seus sœditos dos dois hemisfØrios” (Nicoulin,1988, pp. 237-43). 4 Nesta passagem, Flora Süssekind se refere a cançıes feitas para colonos alemªes, mas o mesmo servia para os colonos suíços, que tambØm ganharam mœsicas que falavam da promessa de um futuro de prosperidade, dascolheitas em todas as estaçıes, e advertindo que eles deveriam fazer ouvidos moucos a tudo o que desdissesse aspromessas feitas. Uma dessas cançıes se encontra publicada em Nicoulin (op. cit., p. 132), e tem como título Chant de dØpart des fribourgeois pour le BrØsil. 5 Feuille d’avis de la ville et canton de Fribourg , 14 de maio de 1819. “Anœncios: 3. O sr. Jean Chretin, habitante de Fribourg, Grand Rue 2, tendo sido marinheiro por dez anos, desejoso de ser œtil aos colonos em vias de partir parao Brasil, decidiu-se de fabricar redes...” 6 A comprovaçªo da veracidade do relato transcrito aparece como uma tentativa de dar credibilidade ao jornal, bem como evitar a contestaçªo da informaçªo por parte do leitor. O editor exime-se da responsabilidade sobre o relato,enquanto, aos olhos do pœblico, a informaçªo torna-se duplamente valiosa, pela felicidade que a notícia representavae por ela ser verdadeira. 7Arquivos pertencentes ao acervo da BibliothŁque Cantonale et Universitaire de Fribourg, Suíça. 8 Cada carta levava em mØdia trŒs meses para chegar a seu destino. 9 Como diz Ilmar Mattos (1990, p. 21), “o estabelecimento da Corte no Rio de Janeiro incentivou o crescimento da cidade, ela possibilitou tambØm ... a ocupaçªo das Æreas atØ entªo ralamente povoadas”. É nesse contexto que surgeNova Friburgo, como resposta a uma necessidade de povoamento de Æreas pouco habitadas e tambØm de promoçªoda civilizaçªo na regiªo circunvizinha à Corte. 10 HÆ outras características a anotar sobre o cavalheiro, segundo uma sucinta biografia que aparece nas pÆginas de Martin Nicoulin (1988, p. 77): sua família era de origem francesa (da Lorraine), tendo se estabelecido em Fribourgna segunda metade do sØculo XVIII. Quando eclodiu a Revoluçªo Francesa, ele tomou o partido do rei e, por umasucessªo de eventos, viu-se obrigado retornar à sua cidade natal, na Suíça. Na sua biografia, escrita por Robert Loupe publicada no jornal La LibertØ , de Fribourg, em 20 de outubro de 1951, consta que Louis de Porcelet retornara ao cantªo de Fribourg às vØsperas da imigraçªo para o Brasil, fugindo de um envolvimento em um duelo no local emque morava. Em nenhum momento Porcelet parece ter exercido a medicina, tendo sempre vivido na França comorico proprietÆrio agrícola. 11 Rio que atravessa a cidade de Fribourg. 12 Quanto a esse tema, J. J. Tschudi (1980, p. 36), viajante suíço que percorreu as províncias do Rio de Janeiro e de Sªo Paulo em 1860, escreve algumas linhas que nos permitem supor que o medo de uma aculturaçªo prejudicialaos suíços (relacionada aos índios), levantado por Porcelet em sua carta, era infundado, pois o viajante deparou-secom uma família de descendentes dos primeiros colonos que vivia afastada de Nova Friburgo, mas “arraigada aindaaos costumes da pÆtria longínqua”. 13 Com a independŒncia, todos os estrangeiros que moravam no Brasil foram automaticamente transformados em brasileiros. Logo, podemos falar juridicamente em ‘brasileiros’, mesmo que esse conceito tenha de ser relativizado. 14 Se verificarmos os inventÆrios da regiªo atØ por volta de 1870, iremos observar entre os imigrantes e seus descendentes a presença de escravos e terras entre os bens a serem divididos. --- [PDF página 29] --- vol. 10(1):173-202, jan.-abr. 2003 201DE NOVA FRIBURGO A FRIBOURG FONTES Foram realizadas pesquisas entre julho de 1995 e julho de 1996 nas seguintes instituiçıes suíças: Biblioteca Nacional (Berna), Biblioteca Cantonal e UniversitÆria (Fribourg) e Arquivos do AntigoArcebispado de Bâle (Porrentruy, Jura). Aí foram levantados os seguintes periódicos: Feiulle d’Avis de la Ville et du Canton de Fribourg , janeiro de 1819 a julho de 1819. Gazette de Lausanne et Journal Suisse , setembro de 1816 a novembro de 1819. Journal du Jura (período de circulaçªo, de 1818 a 1820), maio de 1818 a agosto de 1820. REFER˚NCIAS BIBLIOGR`FICAS Andrada e Silva, Projetos para o Brasil. 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T odorov, Tzvetan Nous et les autres — la reflØxions française sur la diversitØ humaine. 1989 Paris, Seuil. T schudi, J. J. Viagem às províncias do Rio de Janeiro e Sªo Paulo. 1980 Belo Horizonte/Sªo Paulo, Itatiaia/Edusp. Recebido para publicaçªo em outubro de 2002. Aprovado para publicaçªo em novembro de 2002.
Tipo de fonte

historical_article

Tipo de documento

academic_article

Signatura / Referencia

História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. 10(1): 173-202, jan.-abr. 2003. Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Data do evento

2003

Status

imported

Registrado em

2026-03-31 11:34:01

Notas

Artigo peer-reviewed baseado em pesquisa primária em arquivos suíços (Berna, Fribourg, Jura) entre 1995-1996. Analisa cartas dos próprios colonos publicadas no Journal du Jura (1818-1820). Relevante para genealogia Wermelinger: vozes dos colonos de Willisau em primeira pessoa, confirmação do encontro Tschudi 1860, condições da colônia em 1819-1820.

Evidencias (3)

Artigo analisa cartas de colonos suíços estabelecidos em Nova Friburgo (1819-1825)

statedDe Nova Friburgo a Fribourg através das letras: a colonização suíça vista pelos próprios imigrantesHistória, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. 10(1): 173-202, jan.-abr. 2003. Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.p. Título e corpo completo do artigo

Artigo peer-reviewed confirma visita de J.J. Tschudi a Nova Friburgo em 1860, onde entrevistou colonos suíços incluindo Xaver Wermelinger sobre condições da colônia

statedDe Nova Friburgo a Fribourg através das letras: a colonização suíça vista pelos próprios imigrantesHistória, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. 10(1): 173-202, jan.-abr. 2003. Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.p. Corpo do artigo — referência a Tschudi como fonte para a narrativa dos colonos

Artigo documenta condições do assentamento suíço em Nova Friburgo (1819-1825) com base em cartas dos próprios colonos

statedDe Nova Friburgo a Fribourg através das letras: a colonização suíça vista pelos próprios imigrantesHistória, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. 10(1): 173-202, jan.-abr. 2003. Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.p. Corpo completo do artigo

Como citar:

Arquivo Wermelinger, Documento #180, De Nova Friburgo a Fribourg através das letras: a colonização suíça vista pelos próprios imigrantes. Acesso em 14/04/2026.