4 - AS NEGOCIAÇÕES
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4 - AS NEGOCIAÇÕES
Se para parte da população suíça, abandonar os cantões natais se afigurava como sobrevivência, destas circunstâncias se prevaleceria um cidadão de Gruyères, de vida vagamente aventuresca, chamado Sebastien-Nicolas Gachet, que – aliado a um francês, Jean-Baptiste Jerome Brémond, ferrenho defensor do antigo regime – pretendia obter vantagens financeiras do momento histórico.
Este cidadão, em maio de 1817, declara junto às autoridades cantonais, estar proposto a se estabelecer como fazendeiro no Brasil, representando também os produtos manufaturados suíços no país. Os planos de Gachet evoluiriam ao perceber o interesse do Cantão de Fribourg em se livrar dos estrangeiros e do excedente populacional, conseguindo ele do Conselho de Polícia o apoio necessário para obter sem grande dificuldade, uma carta de apresentação que na prática o transformaria em um agente diplomático encarregado de negociar junto à corte portuguesa, o estabelecimento de seus compatriotas no Brasil.
Na verdade, se o objetivo explicitado é o de manter um fluxo de colonização permanente para terras brasileiras; em caráter particular e sem que as autoridades de Fribourg o saibam, o "cidadão de Gruyères" [1], chegado ao Rio de Janeiro em 3 de outubro de 1817 no veleiro francês Emilie, deseja propor também ao soberano português a exploração por um grupo de capitalistas, da citada colônia, cuja empresa atuaria concomitantemente como agência de imigração e sociedade colonizadora. A empresa adiantaria aos suíços e moradores da Suíça desejosos de partir, as quantias necessárias, ficando, contudo, como única proprietária das terras concedidas pelo governo português, além do direito de comercialização exclusiva na Europa, de alguns produtos brasileiros mantidos sob monopólio da coroa (diamantes, madeira de lei etc.), podendo mesmo dispor da terça parte do que lhe seria consignado pelo próprio governo.
Recebido pelo soberano ainda em outubro, se mostraria este diplomata assas habilidoso em suas explanações. Ele, que segundo dados do Registro de Estrangeiros, era de estatura baixa, possuindo uma espessa barba negra e acentuada curvatura na região lombar[2], encarrega-se na audiência, de exaltar virtudes do colono suíço sobre os demais não só pelo conhecimento técnico das práticas agrícolas e pecuárias mas igualmente pelo que considera suas características conservadoras, contrastantes com as idéias revolucionárias que havia pouco, grassavam em quase toda a Europa. Demonstrando uma singular percepção quanto ao imaginário das elites lusitanas aqui chegadas nove anos antes, enfatiza o reservatório humano que poderá representar seu país, atendendo certamente às declaradas aspirações brasileiras em direção a uma expansão econômica e demográfica. Tendo em mente uma colonização de fluxo permanente sob a égide da sociedade migratória, chega mesmo este singular diplomata a acenar com o fornecimento anual de 2.000 indivíduos.
A resposta brasileira é positiva. O principal objetivo da viagem de Gachet, porém, será logo descartado pela recusa do governo português em tratar a migração através de uma intermediação privada. No entanto, as autoridades lusitanas, sensíveis aos argumentos de um crescimento demográfico calcado no que se afigurava como um contingente de laboriosos indivíduos, católicos e fiéis a coroa de adoção, bem como oriundos de um país que jamais se poderia contrapor a Portugal em reivindicações futuras, aceitam a proposta, desde que tratada diretamente com os governos cantonais.
A questão recolocada em suas bases originais exigiria naturalmente de Portugal a nomeação de um representante junto a Dieta Helvética, conforme o próprio Gachet assinala ao príncipe João. Frustrado, pois, em seu interesse maior, o ardiloso diplomata reconduz o obscuro sócio ao centro nevrálgico dos acontecimentos, sugerindo o nome de Brémond, na qualidade de fervoroso realista e "antigo secretário de S.M. Luiz XVI", para o consulado português na Suíça. Tal proposta, equivalente na prática a se entregar ao lobo a guarda do rebanho, será efetivada em 2 de maio de 1818,
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Fonte: Telegram
Data: 2026-03-31
From: Tiago Wermelinger
Chat: direto
Tipo de fonte
telegram_live
Tipo de documento
text
Signatura / Referencia
4_as_negociacoes_se_para_parte_da_pop_1774955411556.txt
Status
imported
Registrado em
2026-03-31 11:43:02
Notas
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Como citar:
Arquivo Wermelinger, Documento #181, 4 - AS NEGOCIAÇÕES. Acesso em 14/04/2026.
