eis "domésticos-inimigos", no caso os cativos cuja população crescia ano após an
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eis "domésticos-inimigos", no caso os cativos cuja população crescia ano após ano, mormente pelo tráfico constante.
As preocupações explicitadas pelos teóricos que o seguiram, transcendiam também a mera administração do conflito inerente a polarização senhor-escravo, e desaguavam na exigüidade de brancos frente a fabulosa onda negra, incluindo-se entre estes o grande número de alforriados. Ainda assim, os primeiros indivíduos que abordam explicitamente a questão do negro no Brasil não pregam ainda a solução imigracionista, limitando-se a acentuar os perigos originados da disparidade numérica entre dominados e dominadores, questionando-se sobre o que fazer em uma suposta e posterior emancipação. Tais reflexões, surgidas em uma sociedade que apenas iniciava sua trajetória de colônia para país independente, seriam influenciadas pelo crescente medo suscitado ante as revoltas escravas, notadamente a bem sucedida rebelião de São Domingos, iniciada em finais do século XVIII, a qual culminaria na independência do Haiti em 1804 e na conseqüente subversão das relações entre antigos senhores e escravos, na ilha.
Os textos emancipacionistas de então, longe de expressar uma repulsa ao modelo escravista pelo que continha de injusto, prendiam-se aos temores quanto a segurança pessoal da classe dominante "pela multiplicação indefinida de uma população heterogênea inimiga da classe livre"[2], bem como, abordavam de maneira surpreendentemente crua questões como a do sangramento de divisas ao qual estava exposto o país pela compra no exterior daqueles que "viveriam apenas o curto espaço de oito a dez anos"[3]. Opunha-se, pois, a maioria destes teóricos, ao tráfico negreiro, bem como procuravam "construir" uma nacionalidade através de postulados nos quais "recuperariam" as populações pobres e marginalizadas (índios, negros emancipados e brancos pobres) para, sob severa vigilância e normatização virem estes a se tornar produtivos segundo a ótica e para a classe dominante.
Gradualmente esta posição, no que tange ao aproveitamento predominante do elemento nativo e da população já existente modifica-se, notadamente com a "cientificização" por parte principalmente de intelectuais europeus, da suposta inferioridade racial do negro e do índio. Desnecessário afirmar que os lugares destinados ao progresso na estratificação pretendida, correspondia aos brancos entre os quais figurava com destaque a decantada "raça saxonica" [4].
Cabe naturalmente aqui uma pequena ressalva e o que hoje se nos parece cristalino, posto que nos baseamos em fatos já ocorridos, não terá sido certamente um caminho único e sem variáveis, tampouco linear, mas sujeito a avanços e recuos. Na verdade, o triunfo da corrente emigracionista somente ocorreria a partir da segunda metade do século XIX, sendo evidente, porém, que os fantasmas que provocaram as mudanças tal como ocorreram, já de muitos anos habitavam o imaginário das elites e desta forma podemos considerar a migração suíça para Nova Friburgo, como o ensaio de uma tendência que se firmaria a partir de então.
Para Portugal, aceitar a migração estrangeira para o Brasil nos primeiros anos do século XIX, implicava na abolição das restrições ainda em vigor. Em arrastada decadência e zeloso de seus domínios ultramarinos, o reino português entendia o estabelecimento de estrangeiros em sua porção da América como grave ameaça ao pacto colonial e mesmo a posse efetiva do território. A fuga em 1808 da dinastia Bragança em direção ao Brasil, acompanhada por um séquito de militares, nobres palacianos, burocratas e religiosos, comprometerá toda a cristalizada lógica na qual repousava a política lusitana. Portanto, a necessidade de se ver o Brasil não mais como colônia, mas como virtual metrópole, com cujos problemas haveriam de conviver seus expatriados dirigentes por tempo indeterminado, bem como a dependência desta mesma classe aos aliados britânicos tornarão imperativas soluções que a modorra palaciana de Lisboa, tranqüilizadoramente longe, pudera até então postergar. O país desta forma experimentava também parte dos ventos
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Fonte: Telegram
Data: 2026-03-31
From: Tiago Wermelinger
Chat: direto
Tipo de fonte
telegram_live
Tipo de documento
text
Signatura / Referencia
eis_domesticos_inimigos_no_caso_os_ca_1774955412761.txt
Status
imported
Registrado em
2026-03-31 11:43:02
Notas
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Como citar:
Arquivo Wermelinger, Documento #184, eis "domésticos-inimigos", no caso os cativos cuja população crescia ano após an. Acesso em 14/04/2026.
