NEM UM CAFEZINHO...
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NEM UM CAFEZINHO...
Afonso Celso (Wermelinger) Calvo Rangel
Enquanto Lourenço, filho de Stephan Wermelinger e neto de Xaver Wermelinger, recolhia as ferramentas da labuta do dia, o sol, avermelhava os confins da fazenda Cachoeira Alta, ocultando seus últimos raios de fogo, atrás de um palmital que rabiscava os limites da bem cuidada propriedade. Ali terminava o mundo, o tudo.
Embora, nascido no Brasil, Lourenço tinha todas as características de filho de imigrante europeu, não negando a ancestralidade suíça. Era um homem alto de traços finos, olhos claros, cabelos sempre penteados, uma barbicha sob o queixo e um vasto bigode a emoldurar seus finos lábios. Branco, branquela como os ancestrais que por aqui chegaram há mais de duzentos anos. Nos passeios e missas na Vila, sempre bem trajado, em seus ternos escuros, sem abandonar o colete a gravata e o chapéu de feltro. Lourenço era um homem vaidoso.
Não seria uma noite tranquila, para quem ansiava rever, após tantos meses, o recém-casado compadre. Não era perto, e a viagem no lombo de cavalo, desbravando morros e chão pedregoso, faria das horas um tempo infinito de suores e perseverança. Mas era preciso, o compadre merecia uma visita. Afinal, amigos dos tempos de juventude não se faziam em uma noite ou em um dia. Eram anos de convívio entre conversas espichadas e bons goles de uma cachaça, alambicada nas cercanias da Vila. Amizade sólida como as rochas que sustentavam a esplendorosa cachoeira, e dera nome à fazenda, num trovoar de cadência assustadora, com águas límpidas e velozes.
Após banhar-se, Lourenço sentou-se à mesa com a inseparável Maria Sangy, mulher austera, de poucos sorrisos, mas de muita beleza, a saborear uma fumegante e perfumada sopa de inhame com nacos de barriga de porco, salpicada de cheiro verde colhidos na horta contígua à porta da cozinha.
Lourenço mantinha um semblante ansioso, com mãos de movimentos inusitados. Maria sabia que a expectativa de uma viagem sempre mexia com os nervos do marido e excitava a criançada. Não que isso fosse um “não querer ir”, ao contrário, era o prazer de reencontrar o amigo que o tornava assim, falar pouco e rolar na cama, com a certeza de que a insônia lhe faria companhia por toda a madrugada.
Brigou com os lençóis, travesseiros, rezou, levantou várias vezes para uma boca de pito com um requentado café, fumou um ou dois cigarros enrolados em palha de milho transparente pelo passar e repassar do seu canivete, buliu com os santos do oratório, abriu a janela e encheu seus pulmões do ar úmido e adocicado da noite, que despenteava o vasto canavial, apartado da sede da fazenda. Com os ouvidos atentos buscava e encontrava o trovoar contínuo, do despencar das águas pelos degraus rochosos da Cachoeira Alta.
Por fim, cansado desse deitar e levantar, atiçou mais lenha ao fogão, que nunca se apagava, ferveu água, moeu, no moedor manual de ferro fundido, uma generosa porção de grãos de café, bebida que alimentava o ânimo, aguçando-lhe o olfato. Toda a cozinha recendia ao precioso coffea arábica. Do quarto, vinha um ressonar angelical da Maria, adormecida em um sono profundo, de nem mesmo sonhar.
Sentado em uma cadeira de balanço, próxima ao fogão, Lourenço bebericava, com ansiedade, doses de um transparente de café. Vez por outra encostava seu cigarrinho ao braseiro avermelhado da lenha, a se consumir pelas chamas. Pitava em longas baforadas, assemelhando-se a uma preguiçosa e insone locomotiva humana, num balançar contínuo da cadeira fora dos trilhos.
Abriu, novamente, a janela e constatou que a noite estava aflita em se despedir. Sem acordar a Maria, foi à estrebaria, premeditando uma jornada longa e penosa. Arreou, com esmero de artesão, os alazões, resignados como obedientes serviçais
Enquanto o sol, ainda com a frieza de um mármore, rompia a linha do palmital, Lourenço terminava a primeira etapa da aguardada viagem. Subiu as escadas, colocou mais lenha no fogão e, de um jeito não tão afável, acordou a Maria de poucos sonhos em noite tão bem dormida: “─ Acorda mulher, chama as crianças, que o sol já saiu do seu esconderijo e a cachoeira brilha como joia que Deus nos presenteou. Maria muxoxou algo inaudível, seguido de um “tô indo”.
Do silêncio que enfrentara durante o passear da noite, Lourenço sorria diante da algazarra das crianças, a comemorar o aguardado e prometido passeio à casa do padrinho da irmã mais nova, Irene Wermelinger.
O café e o leite na mesa, acompanhados de fatias de broa de fubá e lascas de queijo de fabricação própria aguardavam os retardatários. Por tamanha ansiedade, Lourenço antecipara tudo, inclusive a degustação das iguarias, sem aguardar a mulher e os filhos, que se vestiam, num ritual festivo. Uma celebração à difícil, aguardada e fantasiosa jornada.
O compadre os recebeu com sorriso largo e abraços demorados. A bela esposa, bem mais jovem que ele, sorria a transbordar luz e simpatia. O dia prometia ser daqueles que gruda na memória e deixa a felicidade fluir como um rio de águas mansas.
Primeiro foram conhecer um raro e bem cuidado pomar de variedades imensuráveis de frutas e o jardim, exorbitante em cores e aromas, distribuído por seus geométricos canteiros.
Já com o sol a derreter os miolos, e a garganta seca, pararam numa nascente, próxima ao córrego embelezado por um sinuoso e insinuante contorno de agrião. Ali, fartaram-se de água prateada bebida folhas de taioba, transformadas em copos. Ao contato com a folha da hortaliça, a água tornava-se prateada e fria, como que saída de um refrigerador.
Saciada a sede, enquanto as crianças corriam pelo gramado à frente da casa, sentaram-se em cadeiras de palhas espalhadas por uma varanda protegida por árvores nativas, a confinar todo o frescor do final da manhã a se encaminhar, sem qualquer brisa, prenunciando uma tarde modorrenta e longa.
A conversa era boa. Cheia de lembranças, causos, risos e, em certos momentos, até lágrimas: umas de alegria e outras de tristeza. Mas assim são os amigos, quando estão reunidos, muitas estórias entremeadas de nostalgia.
O tempo passava, as estórias estendiam-se cada vez mais longas e intensas. Mas Lourenço começava a sentir um certo vazio no estômago. Já quase meio dia, Maria, conhecendo seu velho companheiro, percebeu que ele se remexia na cadeira como quem tem pulgas. Na verdade, Lourenço estava morrendo de fome e não via qualquer sinal de fogo no fogão ou qualquer cheiro peculiar de alguma iguaria a ser oferecida. Num canto, acabrunhada, enquanto os irmãos não se cansavam de brincar, Irene compartilhava, inconscientemente, da fome devastadora que consumia o pai. Às vezes choramingava, uma característica da menina de olhos aprofundados no azul, quando queria comer.
Sem cerimônia, em meio a festiva conversa, Lourenço consultou o seu relógio de bolso e constatou que pelo adiantado da hora, a visita estava por terminar. A barriga roncava e um suor frio, de jejum compulsório, ensopava-lhe a camisa. Pediu licença aos anfitriões, alegando compromissos e o cansaço da criançada. Olhando de esguelha, com o olhar que Maria tão bem conhecia, agradeceu, ao compadre, a hospitalidade.
O casal tentou convencer o Lourenço a ficar mais um pouco, havia muito a mostrar da sua propriedade: o proeminente cafezal sob uma nevasca de flores brancas e a estufa de hortaliças vicejadas em arruados canteiros.
Atenciosa e prevendo o que poderia sair da boca ou do fígado do seu marido, Maria antecipou-se: “─ Fica pra outro dia. Visitar os queridos amigos é sempre uma bela e festiva ocasião. A qualquer dia voltamos”. Abraçaram-se, sem o entusiasmo da chegada. Montaram os alazões e saíram levantando poeira.
Durante o trajeto de volta, Lourenço, abespinhado, a olhar fixo nos olhos de Maria, que já sabia o que sairia da boca do marido, resignadamente dispusera-se a ouvir, de tempos em tempos, após intermitentes chibatadas no alazão, o protesto enfurecido de quem sente fome:
─ NEM UM CAFEZINHO, MARIA. NEM UM CAFEZINHO..
Tipo de fonte
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Tipo de documento
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Signatura / Referencia
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Data do evento
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Notas
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Como citar:
Arquivo Wermelinger, Documento #81, NEM UM CAFEZINHO.... Acesso em 14/04/2026.
